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    ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2007

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Dólares, anéis de brilhante e um vibrador nas areias do Rio

Letícia Rocha | Edição 7, Abril 2007

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São 7 horas da manhã. Jorge Ribeiro Mariano, um senhor de 59 anos, estatura mediana e cabelos grisalhos, chega à praia de Copacabana. O homem observa o mar e segue o rastro verde deixado na areia pelas algas. Depois de minutos de caminhada, escolhe um ponto próximo ao Posto 5, onde pousa sua imensa bolsa de viagem. Ele passeia o olhar pelas ondas, à espera de que o mar lhe mande um prêmio. Em menos de cinco minutos, surgem uns óculos de sol de armação preta. Não são de marca, mas podem ser vendidos por até 5 reais. Nem sempre o mar é assim, generoso. É preciso garimpar – e essa é a especialidade de Mariano.

O garimpeiro trabalha de segunda a segunda, do nascer ao pôr-do-sol. Chuva não é problema. Ao contrário: “A praia fica vazia e posso trabalhar à vontade”, diz. Mariano acorda às 5 horas da manhã e, antes de pegar os dois ônibus que o levam de Ramos, onde mora, até o mar da Zona Sul, toma um café-da-manhã reforçado: duas bananas, dois pães e café com leite. É necessário. Até a hora do almoço, muita energia será gasta. Quando o garimpo está bom, ele faz um lanche rápido no início da tarde e prossegue na caça aos tesouros. Quando está ruim, reúne-se com outros garimpeiros num quiosque para conversar e jogar baralho.

Nos fins de semana o trabalho é árduo. Com a praia lotada, são muitos os objetos perdidos. Tem dia que Mariano garimpa até seis praias diferentes. As preferidas são Copacabana, Ipanema e Barra. Porque têm muitos turistas? “Não”, responde. “Nessas praias a areia é mais fina. A areia pesada dificulta as buscas.”

 

Mariano analisa as condições do mar antes de iniciar o trabalho. “Hoje ele está um pouco mexido. Deve vir ressaca nos próximos dias”, conjetura. Na ressaca, Mariano espera as moedas rolarem com a água, sinal de que o metal pesado está sendo trazido à praia pelas ondas. É hora de passar o ancinho à procura de jóias. Nos outros dias Mariano explora, com um puçá – armação de metal com rede -, as águas próximas da arrebentação. Às vezes mergulha, com o auxílio de máscara e pé-de-pato. “Procuro o trecho da praia em que há mais algas. Elas prendem e juntam os objetos.”

Mariano vive há mais de trinta anos caçando tesouros perdidos pelos banhistas. “É o melhor garimpeiro daqui”, diz o colega de trabalho Rogério Barbosa Chaves, enquanto toca o ombro do mestre “para pegar um pouco da sorte”. Mariano acabara de encontrar outros óculos de sol e uma nota de 10 reais.

Seu primeiro achado, Mariano lembra bem, foi uma pulseira de prata, com cinco letras de ouro incrustadas. Na época, trabalhava num açougue. Foi apresentado à garimpagem por um rapaz que procurava jóias na praia de Ramos. Dois meses depois, abandonou o emprego e tornou-se garimpeiro em tempo integral.

 

A sorte grande ele tirou há onze anos. Era um anel de diamantes, com dezesseis pedras. Vendeu barato para a dona de uma joalheria: 1,6 mil dólares. Em fevereiro deste ano, o acaso o brindou com óculos da marca Oakley, uma peça avaliada em mais de mil reais. Passou adiante por 300, em duas vezes. “Precisava do dinheiro.” E dinheiro mesmo, em espécie, não chega a ser raridade. Notas de até 50 reais, além de bilhetes de euro e dólar, são encontradas freqüentemente pelos garimpeiros do mar. Há dezesseis anos, Mariano encontrou uma nota grande e bonita, com um dragão desenhado no verso. Era iene, moeda japonesa. Trocou por reais num hotel próximo à praia.

Mariano não colhe apenas o que gostaria. Seus ancinhos e puçás recolhem muitas seringas – algumas ainda com agulha e sangue -, calcinhas, camisinhas e até um vibrador. Ele não entende: “Como é que essas coisas vão parar na água?”. Dentaduras também não são poucas. Se têm dentes de ouro ele aproveita. Mas a quem vender um dente de ouro saído do fundo do mar?

Ao longo dos anos, Mariano vem cultivando clientes. Joalheiros, doutores, madames, bombeiros e até “um carinha que trabalha na Rede Globo”. Muitos, Mariano conheceu na praia mesmo. No início, encontrou dificuldade para vender seus achados: “As pessoas pensavam que eram roubados”, conta. Hoje, tem uma agenda de clientes que encomendam artigos. Já aconteceu de ser procurado por pessoas que perderam objetos e queriam recuperá-los. “Uma moça apareceu chorando por causa de um anel. Era um presente da mãe dela, que tinha falecido”, conta. O garimpeiro o recuperou e recebeu uma recompensa.

 

Com a experiência, Mariano também aperfeiçoou as técnicas e instrumentos de trabalho. Criou um novo modelo de ancinho, mais curvado, com menos dentes – assim desliza mais facilmente pela areia – e com uma rede, o que torna mais eficiente a coleta. Nenhum dos quinze garimpeiros regulares que ele conhece tem instrumentos como os seus.

Nos meses ruins, Mariano consegue mil reais com seu trabalho. Nos bons, arrecada mais de 2 mil. Em seu livro dos recordes particular, ele anota feitos como os 4,5 mil reais encontrados em dez dias, os quinze relógios em uma só jornada – em frente ao hotel Othon Palace, em Copacabana – e os 52 óculos em quatro dias. Com seus achados, o farejador de Ramos sustentou a mulher, “que nunca trabalhou fora”, como declara orgulhoso, e os cinco filhos, que já lhe deram onze netos. “Não teria conseguido viver melhor se tivesse continuado no açougue.”

Saldo final de um dia de trabalho nas areias do Rio: 86 reais em notas de 1, 2, 10, 20 e 50 reais; cinco óculos escuros, sendo um de design italiano e quatro sem marca definida; e algumas bermudas.

Letícia Rocha

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