esquina

Procuram-se badulaques

O Brasil chega à era moderna da caça ao tesouro.

Kelly Cristina
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL

Escondido atrás de uma árvore num parque da Granja Julieta, em São Paulo, Carlos Moura olha em volta. Ninguém o espreita. Um sorriso sapeca atravessa o seu bigodão grisalho: “Achei”, avisa num sussurro exaltado, e sai do bosque levando um tupperware nas mãos. Sentado na grama, abre o pote de plástico e tira dali uma latinha, dentro da qual descobre um chaveiro em formato de fada e um pedaço de papel. Meio fazendo de conta que é Indiana Jones perante o Santo Graal, Moura se mostra bem contente. Pega a fadinha, põe outro chaveiro no lugar, assina seu nome no papel e volta lá no bosque para devolver o tupperware ao esconderijo. Lançando olhares furtivos de espião na Guerra Fria, afasta-se dali na ponta dos pés, com o gosto da missão cumprida.

Moura é o mais ativo praticante brasileiro de geocaching, uma caça ao tesouro orientada por GPS que conta com 4 milhões de adeptos no mundo e uma centena de gatos pingados no Brasil. Ele soube da brincadeira no ano passado, no Slashdot, um site de “notícias para nerds”. Entusiasta de tecnologias, dono de uma empresa que envia mensagens SMS em lote, aderiu no ato. Aos 51 anos, com o filho praticamente criado, achou que seria uma boa forma de gastar os domingos. Bastava ter um aparelho de GPS ou aplicativo para celular com essa função (o que ele obviamente já tinha), procurar no site oficial as coordenadas do tesouro mais próximo – (“Cache morango silvestre”: busca simples, nível de dificuldade baixo, objeto pequeno e novo, localizado em terreno acidentado. Coordenadas de GPS: 8° 8’21.32”S) – e ir à luta. Logo viciou. Se não precisasse trabalhar, sairia todo dia para caçar cache – é o nome que eles dão (vem do francês cacher, “esconder”).

Os tesouros nunca passam de besteirinhas, como geocoins (moedas) ou travel bugs (plaquinhas de metal rastreáveis com número de série, anexadas a um objeto qualquer: um chaveiro, um brinquedinho etc). A regra é sempre deixar no lugar um item semelhante ou de mesmo valor ao tesouro encontrado, caso se queira levá-lo para casa. Às vezes, no entanto, dentro do pote não há nada além de uma singela folha de papel. Nesse caso, resta ao caçador anotar seu nome ali, deixar os agradecimentos de praxe a quem o escondeu e partir para outra caça de mãos abanando.

Certo, o prêmio nunca é lá essas coisas. Já o prazer da busca, ah… Eles dizem que compensa. Moura começou por revirar a própria cidade, onde não deixou pedra sobre pedra. Depois peregrinou pelo interior paulista e em seguida, num périplo interestadual, foi bater no Rio de Janeiro, em Santa Catarina, no Distrito Federal, em Minas e em Goiás, onde um bendito cache o fez enfiar a mão literalmente num vespeiro. Sua meta era colecionar no mínimo 200 caches no Brasil, antes de explorar o estrangeiro.

Desde que o geocaching.com foi criado, no ano 2000, pelo americano Jeremy Irish – outro tecnólatra com tempo livre de sobra –, os caches espalhados pelo mundo pularam de 75 para 1,4 milhão. Há tesouros em todos os continentes, em quase todos os países. No Afeganistão há 165. Um militar americano que no site usa o cognome Chaplain White escondeu seu tesouro afegão com uma observação muito apropriada: “Tenha cuidado, este cache está em zona de combate.”

 

À parte a diversidade de posicionamento geográfico, há uma grande variação no grau de dificuldade das buscas. Já estão eleitas as duas maiores encrencas que um geocacher pode enfrentar. Escondidas por Richard Garriott, milionário americano – excêntrico, como não? – que foi um dos primeiros turistas espaciais, uma delas se encontra, vejam só, justamente no espaço, na Estação Espacial Internacional, ligada à Nasa. O outro tesouro ele mandou depositar no fundo do Atlântico, a 2 300 metros de profundidade, ali embaixo do arquipélago dos Açores.

Até dois meses atrás, Moura só tinha olhos para caches verde-amarelos. Foi somente em outubro, cumprida a meta pessoal, que ele se permitiu viajar aos Estados Unidos, a pátria do e líder inconteste da caça no planeta. Ali, lavou a égua. Uns poucos dias em Nova York renderam-lhe 23 caches. Não experimentou nada tão transformador quanto dar de cara com um cadáver nos subterrâneos do metrô – foi o que aconteceu com dois nerds geocachers num episódio de Law & Order –, mas valeu mesmo.

Com o chaveiro de fadinha, Moura chegou ao seu tricentésimo achado, o que o põe no topo do ranking brasileiro. Na outra mão, empenha-se ao máximo para aumentar a oferta de caches no país. Espalhou sozinho quarenta deles, alguns com mapas complexos e um elaborado sistema de pistas. Por compromisso assumido no geocaching.com, todo caçador se torna eternamente responsável pelos caches que esconde. Tem obrigação de zelar por eles, ver se continuam no lugar certo, se não foram roubados ou adulterados por muggles (apelido dos não-geocachers inspirado nos não-mágicos da série Harry Potter), se o papel de dentro permanece em condições de uso etc.

Moura fala com Deus e todo mundo sobre a brincadeira, pediu que o site oficial fosse traduzido para o português (o que por enquanto só foi feito parcialmente, e para o português lusitano) e ajudou a formatar um fórum nacional para discussão do . Também criou campanhas para estimular mais gente a brincar de esconder e achar bobagens. A Brasil 500, muito bem-sucedida, teve o número do título ultrapassado em junho. Agora está na praça a Brasil 700, meta a ser atingida ainda em 2010. Em meados de novembro, contavam-se 635 caches em território nacional.

Ainda assim, nem o Brasil nem o seu mais ávido caçador chegam aos pés dos números internacionais. A Alemanha, outro líder planetário, esconde sozinha mais de 160 mil tesouros. “Alamogul”, um americano aposentado que se intitula “geocacher profissional”, é provavelmente o bambambã da categoria pessoa física, com alegados 46 mil caches na carteira.

“Não sei nem dizer se isso é possível”, desconfia Moura, “teriam de ser muitos por dia… Se bem que em alguns países você pode realmente sair a toda hora que sempre vai achar.” Levemente ressentido, ele completa: “Aqui não dá.” Por enquanto não, é verdade, mas, se depender dele, também na caça ao tesouro o Brasil é o país do futuro.

Kelly Cristina

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