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    ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2008

esquina

Profissão: Chapa

Uma manhã com os homens-bússola

| Edição 19, Abril 2008

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São três e meia de uma madrugada de março. Edilson Lourenço da Silva está sozinho na ilha e risca um fósforo para acender uma fogueirinha a poucos metros da beira do rio. Estrelas no céu, estalidos de grilos e o eventual latido de um cachorro sugerem que o cenário é o de uma bucólica pescaria. Não é. Na ilha que separa a pista local e a expressa na Marginal Pinheiros, em São Paulo, pouco antes da ponte Eusébio Matoso, uma plaquinha de madeira pregada a uma árvore indica a ocupação do homem que faz vigília ali: CHAPA. Segundo a Classificação Brasileira de Ocupações elaborada pelo Ministério do Trabalho, chapa é um carregador de mercadorias de caminhão.

Edilson tem 47 anos. É de longe o mais jovem e forte dos chapas que dividem o ponto. Se chega antes dos outros, é para ser o primeiro da fila no atendimento aos clientes. Jurandir, Justino, Jaime e Valdir vão chegando depois, mas antes das seis já estão todos a postos. E não só eles. Ao longo das marginais paulistanas, assim como na desembocadura de todas as grandes estradas do país, centenas ou provavelmente milhares de chapas atendem à demanda de caminhoneiros e motoristas desorientados.

A profissão é um misto de guia turístico e estivador, e a prevalência de uma ou outra função varia conforme a necessidade do cliente. Existem fundamentalmente dois tipos de serviço: “só levar” e “levar e descarregar”. Evidentemente, a segunda variante é mais bem remunerada.

Está amanhecendo quando o primeiro caminhão encosta no recuo da marginal. Edilson corre até a cabine. O motorista é gorducho, careca e de olhos claros: “Vou pro Grajaú, conhece?” O diálogo é seco:

– É só levar?

– É.

– Quanto?

– Trintão.

Edilson meneia a cabeça, já nem olha para o motorista. Gira o rosto em direção ao grupo de colegas e grita:
“Valdir!” O outro responde prontamente e se aproxima da boléia. O motorista mostra o endereço da entrega numa nota fiscal. O chapa pede 50 reais, mas o motorista é inflexível. Valdir acaba topando, vai buscar a sacola e toma assento no caminhão. Para Edilson, o serviço “não compensava”.

 

A complexidade dos fatores que entram em jogo na hora de avaliar se uma entrega “compensa” é quase indecifrável para um não-chapa. Por exemplo: se for para descarregar as mercadorias com o auxílio de uma equipe local, é melhor pensar duas vezes. A empreitada seguramente levará muito tempo: trabalha-se sem pressa até acabar o expediente, rotina que não existe para os chapas, que labutam rápido porque querem ir logo embora e pegar o próximo serviço. A quantidade e a qualidade das mercadorias é outro quesito importante. É bem mais fácil quando se trata de um só produto, como madeira. Se o caminhão carrega artigos variados, é preciso, antes de descarregar, separar cada um deles; logo, o trabalho tende a render menos. E se no ponto de entrega tiver escada? Esse é um aspecto crucial: se a resposta for sim, o serviço será exaustivo. Tais sutilezas ninguém adivinha. Sai ganhando o chapa experiente, que tenha passado por muitos pontos de descarga.

Valdir tem problema nas costas e não pode carregar peso. Acaba sendo menos exigente e por isso aceitou se mandar para o Grajaú por “trintão”. Por volta das 9 horas, outro caminhão encosta. Edilson se aproxima da cabine. Dessa vez são produtos de limpeza para levar até o bairro do Jabaquara. “Quantas entregas?”, pergunta. “Jogo rápido”, responde o motorista, “uma entrega só.” Mas Edilson desconfia, pergunta-lhe se ele vai ajudar a “bater as caixas”, isto é, a pegar as caixas no fundo do caminhão e trazê-las para a frente, onde podem ser descarregadas por alguém no chão. O chofer se esquiva: “Estou cansado, dirigi a noite toda.” Contrariado, Edilson pede 120 reais e um segundo chapa. O outro regateia, quer pagar 80 e acaba por oferecer 100, insistindo com o argumento de que “é jogo rápido, 600 caixinhas”. Edilson dá as costas e vai para a sombra. As despedidas são sumárias.

O sol está alto e os chapas se reúnem debaixo da árvore que sustenta a plaquinha publicitária. Sob um calor de mais de 30 graus, entregam-se ao tédio da espera. Jaime folheia uma revista que oferece “o melhor de São Paulo”. Jurandir cochila com o rosto apoiado nas palmas da mão. Justino, conhecido como Martinho da Vila, enrola um lenço de papel na ponta de um graveto e sem pruridos cavouca o ouvido.

Às dez em ponto, Valdir volta do Grajaú. Senta-se sem dizer uma palavra, tira um pente de plástico do bolso e cuidadosamente recompõe o cabelo. Chapas andam sempre com uma muda de roupa a tiracolo, em geral numa sacola. Para serviços de descarga, vestem a roupa de trabalho. No fim do dia, trocam pela muda limpa, para poder tomar a condução apresentáveis. Edilson é particularmente alinhado: camiseta preta para dentro da calça jeans, sapato tinindo de cera, bigode aparado rente ao lábio superior, cabelo com gel. Orgulhoso, gaba-se de já ter levado gente chique ao consulado dos Estados Unidos para uma entrevista. Estavam atrasados e, não fosse por ele, teriam de remarcar o encontro, o que poderia levar meses. “Já levei até defunto, um rapaz que morreu e era de São Luís do Maranhão. Fui no carro da funerária, indicando o caminho do Aeroporto de Congonhas.” Os chapas são os precursores do GPS.

Eles cultivam sua freguesia e, uma ou duas vezes por semana, recebem ligações de clientes para agendar um serviço. No resto do tempo, não há remédio senão a paciência. Meio ciclotímicos, oscilam entre momentos de total passividade e acessos de entusiasmo em que assoviam e acenam freneticamente para os caminhoneiros que passam.

Pouco depois das 11 horas, um transportador com placa de Maringá se aproxima e dá sinal de farol para o grupo. O serviço era “só levar”, mas seriam duas entregas: uma em Sapopemba, outra perto da Avenida do Estado. Valdir, velho chapa do motorista, é o primeiro a ser chamado, mas não conhece os endereços. Desconsolado, o motorista insiste: quando se aproximassem, pediriam informação, haveriam de achar. De nada adiantou: Valdir se recusa a aceitar serviço se não conhece o endereço. É a vez de Edilson, que pede 70 reais. “Cinqüenta”, ouve em resposta. Barganham por uns minutos, mas, sem chegar a um acordo, o chapa passa a vez para o próximo da fila. Jurandir pega a sacolinha e embarca.

Ao meio-dia, Edilson decide ir embora. Nessa segunda-feira “deu pedra”, gíria do métier para descrever o dia em que não aparece trabalho. O risco faz parte da profissão. “É assim mesmo”, ele diz, “é uma pescaria. Tem dia que você gasta uma lata de minhoca e não adianta: não pega nada.”