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    Crédito: Andrés Sandoval_2021

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Profissão sósia

A vida de quem se especializou em imitar jogadores do Flamengo

Luigi Mazza | Edição 179, Agosto 2021

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De uns tempos para cá, Flávio Barbosa, tal qual uma celebridade, passou a se disfarçar quando sai na rua. Um boné, segundo ele, é suficiente para que ninguém o reconheça. “Senão as pessoas não deixam você ter uma vida particular com sua esposa, com sua família”, explica. Dono de uma pequena barbearia chamada Salão dos Playboys, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, Barbosa não é exatamente famoso, mas parece muito com alguém que é: Bruno Henrique, um dos principais craques do elenco multimilionário do Flamengo. A semelhança não é acidental. Com o cabelo cuidadosamente espetado e platinado – ele mesmo aplica a escova progressiva e as luzes –, além de um cavanhaque ralo, o barbeiro se especializou em parecer com o centroavante.

Barbosa, de 33 anos, faz parte de um elenco paralelo do Flamengo, composto apenas de sósias. Descobriu sua vocação em 2019, quando surgiu o imitador de Gabigol – que, por ser um pouco mais pesado que o jogador, ganhou o apelido de Gabigordo. Vestido com o uniforme completo do Flamengo, no meio da torcida, Jeferson Sales, o falso Gabigol, ficou famoso ao aparecer em transmissões de jogos na tevê, fazendo a pose que virou marca registrada do artilheiro: os braços abertos, flexionados, muques à mostra.

“Quando isso começou a viralizar, um amigo me falou: ‘Pô, tu parece com o Bruno Henrique, por que não entra nesse time aí’?”, conta Barbosa. Relutante num primeiro momento – na época, ele pesava quase 110 kg, contrastando com o físico magrelo do atacante –, Barbosa acabou cedendo à vida de dublê. Desde então, compromissado com a imitação, emagreceu 20 kg. “Já viajei por vários estados com o time de sósias, fui a jogos do Flamengo… Acho que ninguém imagina que um dia vai trabalhar com isso.”

 

Na primeira leva, surgiram imitadores de Diego Ribas, Filipe Luís e Lucas Paquetá, além de Jorge Jesus, o português que era técnico do Flamengo. Hoje, há ao menos uma dezena de sósias. Antes da pandemia, eles sempre eram vistos juntos no entorno do Maracanã, tirando fotos com torcedores nos dias de jogos. Conseguiam fazer algum dinheiro comparecendo a festas e eventos, para os quais eram convidados em troca de um cachê modesto – segundo Barbosa, em torno de 500 reais por sósia. “Era tipo uma presença VIP”, ele explica. “Mas o trabalho de sósia é um extra. Apareceu, eu vou. Mas não fico só nisso.” Sua principal fonte de renda continua sendo a barbearia.

Devido ao isolamento social, os eventos se tornaram mais raros. Mas, em dezembro do ano passado, os sósias foram chamados para jogar uma pelada em Simonésia, cidade mineira de 20 mil habitantes, a 460 km do Rio de Janeiro. Os anfitriões – torcedores do Flamengo que moram na cidade – pagaram combustível, hospedagem e alimentação para os imitadores de Gabigol, Bruno Henrique, Willian Arão, Vitinho, Diego Ribas, Filipe Luís, Pedro e Alex Muralha (embora tenha deixado o clube em 2018, atazanado pela torcida, o goleiro Muralha ainda circula no universo dos sósias). O elenco passou quatro dias entre os simonesienses. “Teve carreata com a réplica da Taça Libertadores, teve tudo. E ainda saímos invictos”, conta Rodrigo Marquês, engenheiro elétrico de 35 anos que personifica o volante Willian Arão. “A cidade parou.”

 

Na pandemia, como não há jogos com torcida nem festas com cachê, os sósias têm se encontrado principalmente para gravar vídeos de humor, que são publicados nas redes sociais. As gravações costumam retratar situações esdrúxulas – às vezes eles filmam numa academia, fingindo que estão num treino coletivo; outras vezes aparecem no saguão de um aeroporto, com mochilas nas costas, como se estivessem chegando de viagem.

Em fevereiro, numa gravação no Aeroporto Santos Dumont, no Rio, foram confundidos com os jogadores de verdade, que estavam aterrissando no mesmo local. Ao avistar o ônibus oficial do Flamengo, um dos sósias, por pura gaiatice, fez sinal. O motorista abriu a porta do veículo, todos os imitadores subiram no ônibus e começaram imediatamente a gravar vídeos para suas redes sociais. “Gabigol senta aqui. Esse aqui é o ônibus que transporta os brabo!”, celebrou Marquês, sósia de Willian Arão. “Olha onde a tropa tá!”, se gabou o sósia de Gerson. A cena durou cerca de um minuto. Logo foi interrompida por um dos policiais militares que escoltavam o ônibus e percebeu o engano. A bronca também foi registrada em vídeo, enquanto a turma descia do carro. “Bora, porra. Essa porra é séria, tá de sacanagem?”, gritou o PM.

Mesmo quando estão entre si, os sósias não se chamam por seus nomes verdadeiros. “Eu nem lembro mais o nome da maioria deles”, confessa Marquês, que, para os colegas, é apenas Arão. Ainda assim, considera seus companheiros de profissão mais que amigos. “Nós ultrapassamos o limite da amizade e nos tornamos uma família”, diz o engenheiro.

Dono de uma empresa de refrigeração e de uma loja de materiais de construção, que administra com a mulher, Marquês é um sósia recente. Entrou para o time durante a pandemia, a convite do sósia de Gabigol, que se deparou com uma foto dele no Instagram e o achou idêntico ao volante do Flamengo. Com o cabelo cacheado preso num arco e uma pequena barbicha, Marquês é um dos imitadores mais verossímeis da equipe. Tanto que acabou desbancando o sósia anterior de Arão. “Com o passar do tempo ele foi ficando desmotivado, porque as pessoas queriam tirar mais foto comigo do que com ele”, relembra o engenheiro.

Marquês vê sua atividade de sósia, que não lhe rende muito dinheiro, como “uma loucura”. “Na verdade, foi uma loucura que eu fiz. Deixei de edificar um lado da minha vida, que é o meu trabalho nas empresas, para edificar esse outro lado, que é muito incerto”, diz ele, que faz questão de ressaltar que é diácono da Assembleia de Deus. Apesar da fama – e dos mais de 10 mil seguidores que tem no Instagram –, Marquês não nutre ilusões com relação à vida de sósia. “Eu sei que isso aqui é passageiro. Na hora que acabar essa fase, as pessoas vão passar por mim na rua e dizer ‘Caramba, esse cara parece o Willian Arão’. E vai ficar por isso mesmo.”