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Propina: modo de usar

A cueca boxer é a aposta do verão

Roberto Kaz
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2009

Em dezembro, o Brasil assistiu a mais um espetáculo de cupidez, corrupção e engenho. Como não podia deixar de ser, o palco escolhido foi o bom e velho Distrito Federal, o Canecão dos escândalos nacionais. A essa altura, é provável que o leitor desgostoso não suporte ler nem mais um parágrafo sobre os desmandos do governador José Roberto Arruda e seu séquito de empresários e deputados distritais. Estará com toda a razão. Não é disso que se trata aqui.

Digno de nota – aliás, literalmente – é outra coisa. Tome-se o presidente da Câmara Legislativa, Leonardo Prudente, do DEM. Cenas exibidas em todas as televisões do país mostram-no enfiando, com sofreguidão, maços espessos de cédulas para dentro da roupa. Fiel ao sobrenome, Prudente admitiu que, sim, era propina, e teve a gentileza de explicar: “Eu recebi o dinheiro e coloquei o mesmo nas minhas vestimentas, em função da minha segurança. Eu não uso pasta.”

É claro feito a luz: de uns tempos para cá, a indumentária vem se transformando numa das ferramentas mais importantes do corrupto bem-sucedido. A estabilidade fiscal trazida pelo Plano Real tornou a pasta definitivamente démodé. Na época do Cruzeiro, Cruzeiro Novo ou Cruzado, propina boa era propina volumosa, que exigia mala preta. Com o fim da inflação, 10 mil reais – a unidade mínima do corrupto contemporâneo – passaram a caber num único bolso. Mas bolsos ficam relativamente expostos aos ladrões, e daí segue-se uma das grandes novidades do prêt-à-porter contemporâneo: roupas íntimas como depósito de valor. A moda não é partidária. Começou com José Adalberto Vieira da Silva – assessor parlamentar do PT –, flagrado em 2005 com 100 mil dólares na cueca. Chega agora às partes íntimas dos Democratas, não sem antes fazer escala nos glúteos e coxas do empresário Alcyr Collaço, dono do jornal Tribuna do Brasil, que conseguiu a façanha de amarfanhar 60 mil reais para dentro das calças – três maços pela frente, três maços por trás.

Com quantos, maços, então, se faz uma cueca? Impunha-se a investigação. Para fazer as vezes de maços com 100 notas de 100 reais, escolheu-se papel com gramatura igual à da cédula oficial, e, com tesoura em punho, procedeu-se ao corte. Com austeridade duvidosa, considerou-se 100 mil reais como o piso máximo do corrompido nacional, o qual, para efeito de identificação, será tratado daqui para frente por outorgado.

Foram testados três tipos de cueca: slip, boxer e samba-canção, cada qual com suas virtudes e defeitos. A cueca string ou a tanga eternizada por Fernando Gabeira não foram adotadas, por não serem da preferência do brasileiro médio. Surpreendentemente, verificou-se que a diferença entre tamanhos P, M e G – todos devidamente testados – pouco contribui para as conveniências do armazenamento. Deve ser levada em conta, entretanto, quando o assunto é segurança.

Segundo levantamento realizado em 2008 pelo Ibope, a cueca mais vendida no Brasil é da marca Zorba – era, portanto, lógico dar-lhe preferência. Para que não houvesse problema com o elástico, que lasseia com o tempo, optou-se em utilizar modelos saídos da embalagem, comprados por cerca de 50 reais no site cuecasonline.com.br. Para as meias, empregou-se dois modelos – de algodão, escuras e finas, para combinar com o paletó; e de futebol, subindo até os joelhos, para ampliar a área de guarda.

 

A cueca samba-canção teve de ser logo descartada, por ineficaz. Como se sabe, o modelo dispõe de um único elástico. Para ficar no lugar, o dinheiro é laçado pelo centro, e assim permanece, sem nenhuma estabilidade, bamboleando para lá e para cá, a metade superior das notas acima da linha de cintura. O outorgado fica exposto a dois riscos graves: o de ser assaltado, e o de se ver com cédulas que lhe brotam calça afora, o que, além de inconveniente, não é elegante. Glória Kalil não aprovaria.

As cuecas slip, em formato de sunga, são substancialmente mais eficientes. Podem guardar até dois maços na vertical, na região das nádegas, e outros dois na horizontal, sobre as coxas. O dinheiro fica muito bem acondicionado entre os elásticos da cintura e das pernas. Paga-se 10 reais pela peça; leva-se 40 mil.

A melhor opção, no entanto, é a boxer, que nada mais é do que uma samba-canção apertada. Além de carregar os mesmos dois maços nas nádegas, ainda é possível – como fez o diligente empresário Alcyr Collaço – entocar outros quatro na parte da frente, dois em cada perna, todos na vertical. Embora cause desconforto, recomenda-se o uso de tamanho P, para que as notas fiquem bem juntas ao corpo, evitando que deslizem pelas pernas durante o trajeto do gabinete ao carro. Por 15 reais gastos na boxer, leva-se 60 mil reais. É a melhor relação custo-benefício.

Para a parte de baixo, recomenda-se vivamente o uso de meiões. Vale o mesmo critério adotado para as cuecas: o mais importante é que o dinheiro fique inteiramente abrigado dentro da peça de roupa. Se a meia atinge apenas a altura das canelas, corre-se o risco de o maço cair durante a caminhada. O meião consegue armazenar dois bolos de dinheiro por perna, o primeiro na parte interna, o outro na panturrilha. Há que se ter cuidado para não machucar os tornozelos. Paga-se 12 reais no par; leva-se 40 mil.

O cidadão que for a Brasília vestindo o conjunto boxer-meião poderá voltar 100 mil reais mais rico. Desde que não seja filmado.

Roberto Kaz

Roberto Kaz

Repórter da piauí, é autor do Livro dos Bichos, pela Companhia das Letras

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