esquina

Prova de amor

Não é fácil carregar a mulher nas costas

Flávia Mantovani
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL

Escolher uma boa mulher é fundamental – e Taisto Miettinen sabe disso. O advogado finlandês de 47 anos encontrou a sua pela internet, em 2007. “Estava construindo minha casa e não tinha tempo de procurar uma mulher nas ruas”, explica. Os requisitos? Ser divertida, ter mais de 17 anos e, principalmente, pesar 49 quilos.

Kristiina Haapanen, uma professora de 28 anos, cabelo preto e olhos azuis, reunia todas essas qualidades. Taisto logo viu que ela era ótima pessoa e fechou o acordo. Mas nunca houve juras de fidelidade, sexo ou convivência conjugal. O trato consistia simplesmente num encontro todos os verões para participar de um torneio que ele disputa desde 1997 e que, com Kristiina, acaba de vencer pela quarta vez: o Campeonato Mundial de Carregamento de Esposas.

Trata-se justamente disso: homens que correm com mulheres nas costas. Mas, ao contrário do que o nome sugere, não se exige que os parceiros sejam casados. Está nas regras: “A mulher pode ser a sua, a do vizinho ou outra que você tenha encontrado em um lugar distante.” Como todos sabem, a Finlândia é um país liberal.

Realizado neste ano nos dias 6 e 7 de julho, o torneio é disputado em Sonkajärvi, uma cidade com pouco mais de 4 500 habitantes situada 500 quilômetros ao norte de Helsinque. O lugarejo é constituído basicamente de uma escola, uma igreja, uma biblioteca, um supermercado e algumas casas de madeira, distribuídas em um pequeno trecho de estrada rodeado por bosques e lagos. Mas os organizadores conseguiram atrair a atenção internacional para o peculiar campeonato e até exportá-lo para dez países, incluindo Alemanha, Estados Unidos e Austrália. No ano que vem, Japão e China devem entrar para o seleto grupo.

Costuma-se dizer que o eukonkanto (nome do esporte em finlandês) foi inspirado na lenda sobre um ladrão que sequestrava mulheres e fugia carregando-as nas costas, mas um dos organizadores, Veikko Tervonen, tem uma versão mais prosaica: “A associação local de empreendedores organizava uma feira e todo ano propunha uma atividade nova. Um dia, alguém sugeriu: ‘Por que não corremos carregando a própria mulher?’”, conta. Para ele, é “o melhor programa que um casal pode fazer fora do quarto”.

Não é de se estranhar que o torneio tenha surgido na Finlândia, onde também acontecem campeonatos de arremesso de celular, air guitar e futebol no barro. Este último, inclusive, já foi frequentado pelo atlético Taisto Miettinen, que tem no currículo dezenas de outros torneios mais convencionais (esqui, remo, mergulho, maratonas) e a participação em programas de tevê que medem as habilidades de sobrevivência. Ele só não aguentou o campeonato de sauna, em que os concorrentes ficam expostos a uma temperatura de 110 graus até sofrer queimaduras. “Saí quando ficou quente demais. Eu gosto de fazer coisas novas, mas prezo pela minha saúde. Preciso dizer: algumas pessoas são loucas.”

E olha que Taisto não está para brincadeira. Em 2009, participou do campeonato de carregamento de mulheres um mês após ser operado para retirar um tumor maligno. Correu com pontos no corpo, protegidos por fitas adesivas que reduziam a dor. Na ocasião foi campeão pela primeira vez, quebrando a hegemonia dos estonianos, que haviam conquistado os últimos onze títulos.

Mesmo com o fim da supremacia, os estonianos deixaram como marca o seu estilo. Nele, a mulher é colocada de cabeça para baixo, com o corpo ao longo das costas do parceiro, as pernas em volta do pescoço e o olhar no traseiro dele. O estonian style tem duas vantagens: deixa os braços masculinos livres e ajuda a manter o equilíbrio.

Porque é fácil cair nos 253,5 metros do circuito de areia, grama e cascalho, com dois obstáculos e um laguinho do qual muitos fortões penam para sair. Não são poucas as mulheres derrubadas no percurso, mas ao menos é permitido levantá-las e continuar. Taisto e Kristiina completaram a prova em 1 minuto, 1 segundo e 22 centésimos.

Competiram contra 33 duplas, compatriotas ou de países como Austrália, Rússia e a temível Estônia. Em geral, eram homens fortes e mulheres magras, com pouco mais que os 49 quilos exigidos como mínimo. As mais leves tinham que carregar um saco de areia para completar o peso, caso de uma russa de 43 quilos. No extremo oposto estava Julia Galvin, uma irlandesa de 120 quilos que chegou em penúltimo lugar, mas garantiu ao parceiro o título de homem mais forte da competição.

O wife carrying é parte diversão, parte esporte duro. Cada um pode escolher qual atitude adotar”, diz o site do evento. À primeira metade, pertencem as duplas que correm fantasiadas: Asterix com Obelix, Chapeuzinho Vermelho com o Lobo Mau e Darth Vader com a Princesa Leia foram alguns personagens que apareceram neste ano. O prêmio de melhor traje, porém, ficou com um casal de smurfs finlandeses, que reforçaram sua torcida vestindo a caráter os seis filhos, com idades entre 3 e 12 anos.

Já o grupo que leva o torneio a sério podia ser identificado no aquecimento que antecedeu a largada. Eram atletas como Taisto, que treinam durante semanas e correm com roupas esportivas de alta performance.

Largando de dois em dois, os casais corriam sob os gritos do público. Havia 6 500 espectadores neste ano, muitos deles moradores das redondezas. Nem sempre eram fãs do esporte. “Viemos porque não tínhamos nada melhor para fazer”, confessou um casal que mora a 30 quilômetros dali. A carência de distrações no local deveria ser caso de preocupação nacional.

A festa depois da prova foi até as duas da manhã, com o céu ainda claro, como ocorre nessa época do ano. Os competidores mais assíduos já se tornaram amigos e bebiam juntos. “Somos uma grande família”, diz Taisto. Com sorte, alguns deles poderiam aproveitar, no dia seguinte, uma nesga do prêmio recebido pelos campeões: o peso de Kristiina em cerveja.

Flávia Mantovani

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