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À prova de opinião

Uma amizade de oitenta anos resiste às divergências políticas

Ana Clara Costa
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2021

Lindolpho e Roberto se conheceram em 1943, quando cursavam o segundo ano ginasial no Colégio Mello e Souza, em Copacabana. Roberto, de 11 anos, era natural do Rio de Janeiro. O mineiro Lindolpho, de 13 anos, se mudara de Poços de Caldas para a casa da irmã em Ipanema havia dois anos, a fim de tratar de um problema nos olhos. Em comum, os amigos tinham o interesse pela matemática e o gosto por aventuras. “Éramos bons alunos, mas não ficávamos mergulhados nos livros”, contou Roberto. “A gente queria passear, ir a lugares diferentes, conversar.”

No final da década de 1940, os dois alcançaram as primeiras colocações no vestibular para o curso de engenharia da Escola Politécnica da Universidade do Brasil, hoje Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Poucos meses depois do início das aulas, chegaram à conclusão de que a atividade de construir pontes seria muito enfadonha para quem era fascinado por cálculos.

Além da matemática, Roberto tinha outra paixão: a música. Frequentava o Conservatório Brasileiro de Música e era aluno da professora Hilde Sinnek, uma cantora austríaca famosa no Rio por ter atuado em óperas de Wagner na Alemanha. Quando estava no terceiro ano de engenharia, ele decidiu se tornar cantor profissional. Era encantado pela própria voz, que atingia agudos de tenor, embora tivesse baixos mais sustentáveis, característicos de um barítono.

Ao pedir a autorização do pai para trocar a engenharia pela música, ouviu como resposta que poderia seguir a carreira de cantor, desde que concluísse o curso superior. Como a música lhe tomava tempo, Roberto quase não ia à faculdade. Mas Lindolpho o ajudava: revia as matérias com ele, explicava os pontos mais complexos e, quando possível, passava cola. O amigo também o socorreu na preparação para as provas finais da faculdade, no final de 1954. No início do ano seguinte, Roberto se casou com Eliana Schreiner, baiana de família gaúcha que ele também conhecera no Mello e Souza. Lindolpho foi seu padrinho.

O casal partiu para uma longa lua de mel na Europa. Em Paris, se encontrou com Jorge Amado, que Roberto conhecera em eventos do Partido Comunista Brasileiro (PCB), o qual frequentava desde os tempos de colégio. A convite dele, os recém-casados embarcaram para uma viagem à Finlândia, Polônia, Ucrânia e União Soviética. Ao chegarem a Varsóvia, em setembro de 1955, Roberto foi convidado a exibir seus dotes de cantor num festival promovido pelo Partido Comunista local. A apresentação foi um sucesso, mas a noite quase acabou em divórcio. O barítono brasileiro acabou cercado por um bando de jovens entusiasmadas com seu talento – e Eliana, antevendo cenas semelhantes no futuro, logo acenou com a hipótese de separação. Roberto se reconhecia músico, adorava cantar, mas, apaixonado pela esposa, resolveu encerrar ali a sua carreira artística.

De volta ao Rio de Janeiro e sem nenhuma intenção de construir pontes e prédios, ele prestou concurso em 1956 para o BNDE, hoje BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social). Lindolpho seguiu carreira acadêmica como professor de matemática e foi um dos primeiros diretores do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa), fundado em 1952, onde permaneceu por mais de vinte anos.

 

Perto de completarem oito décadas de amizade, Lindolpho de Carvalho Dias, de 91 anos, e Roberto Saturnino Braga, de 89 anos, divergem quando o tema é política, mas nunca brigaram por isso. As diferenças ideológicas remontam ao passado das famílias de um e outro. Lindolpho Pio da Silva Dias, o pai do amigo mineiro, era proprietário de terras e simpatizante da UDN (União Democrática Nacional) em Poços de Caldas. Francisco Saturnino Braga, o pai de Roberto, vinha de uma família tradicional de Campos dos Goytacazes (RJ), era engenheiro renomado e elegeu-se deputado pelo antigo PSD (Partido Social Democrático), rival da UDN.

Roberto Saturnino Braga e Lindolpho de Carvalho Dias. – Foto: André Valentim

 

O matemático Lindolpho, que nunca se filiou a nenhum partido, é um homem de direita. Apoiou o golpe de 1964 e acha o governo de João Goulart o pior da história do país. Roberto fez carreira na política em legendas da esquerda, desde que se elegeu deputado federal em 1962, pelo PSB (Partido Socialista Brasileiro). Escapou da primeira lista de cassados pela ditadura, mas em 1966 teve sua recandidatura vetada pelo regime militar. Com a redemocratização, aproximou-se de Leonel Brizola e filiou-se ao PDT, pelo qual se elegeu prefeito do Rio de Janeiro em 1985. Na época, tomou a decisão polêmica de decretar a falência da cidade – ato que marcou para sempre sua trajetória política. Foi eleito senador três vezes, a última delas, em 1998, para um mandato que ele cumpriu metade pelo PSB e metade pelo PT.

Apesar de ter ideias políticas antagônicas às do amigo, Roberto já recebeu votos de Lindolpho. “Ele era um bom representante, independentemente do partido. Não era um fanático de esquerda. É um sujeito equilibrado”, afirmou o matemático, em sua sala na Fundação Getulio Vargas (FGV), da qual é membro do Conselho Diretor e onde dá expediente todo dia, mesmo com a pandemia, que ele não acha tão grave assim. “A gripe espanhola matou mais gente. A peste negra, então, nem se fala: um terço da Europa morreu. Navios vagavam porque toda a tripulação estava morta.”

Lindolpho disse não gostar de Lula, ex-aliado político de Roberto. “É um sujeito muito demagogo, muito sem-vergonha e muito aproveitador. Ele não é burro, saiu do zero, é inteligente. Mas utiliza a inteligência com malícia. Não gosto disso.” Fernando Henrique Cardoso, para ele, é de “outro nível”: “Um homem culto, acadêmico, com simpatia pela esquerda, o que é comum nos acadêmicos, mas com sentimento democrata.” Lindolpho acha Jair Bolsonaro “menos democrata”, mas não acredita que o presidente seja capaz de “dar um golpe”.

 

Na tarde de 9 de abril passado, os dois amigos se encontraram no apartamento de Roberto, no Leblon. Eles se falam sempre por telefone, mas não se viam pessoalmente fazia algum tempo. “Talvez uns quatro meses”, Roberto calculou. Lindolpho vestia um terno ao chegar, mas, antevendo que o amigo estaria usando algo mais casual, trouxera dentro de uma sacola plástica uma camisa xadrez azul de mangas curtas, para o caso de serem fotografados juntos. Com 1,80 metro de altura e um pouco curvado pelo peso dos anos, Roberto, nas três vezes que se levantou do sofá, contou com a ajuda do amigo, que é mais magro, mais baixo (1,60 metro) e movimenta-se sem dificuldade.

Sempre que se encontram, eles preferem falar do passado e de temas amenos. De assuntos políticos, nenhum pio. “Quase não falamos de política. Tem tanta coisa mais interessante”, disse Roberto. Porém, quando a piauí perguntou a eles o que achavam de Bolsonaro, Lindolpho não se omitiu e, sorrindo, repetiu os elogios que fizera na FGV. Para ele, o presidente é um “falastrão”, mas tem “boa intenção” e conduz a pandemia “como pode”, já que o Brasil é um país “muito complexo”.

Roberto, que publicamente se refere a Bolsonaro como “incompetente” e “tosco”, perto do amigo evitou elevar a fervura. “Sou de um partido de oposição a Bolsonaro, tenho uma posição pública de oposição, votei no PT. Mas essa coisa da política vai e vem. Já passamos por períodos assim”, disse. E emendou, dirigindo-se a Lindolpho: “Você viu que o príncipe Philip morreu? Com 99 anos!”

Ana Clara Costa

Repórter da piauí. Foi editora de política na Veja, editora do Globo em Brasília e editora-chefe na Época

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