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    A saga brasileira para entrar nos Estados Unidos: “Alguns clientes estão trocando a festa de debutante das filhas para dar a viagem de presente”, diz a dona de uma agência de turismo CREDITO: MONTAGEM BETO NEJME SOBRE FREEPIK/MACROVECTOR_2021

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Próxima parada: México

A rota dos brasileiros pobres que buscam asilo e dos brasileiros ricos que buscam vacina

João Batista Jr. | Edição 179, Agosto 2021

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De Mexicali

Depois de três horas e dez minutos de voo, o Boeing 737 pousou em Mexicali, uma cidade colada na fronteira com a Califórnia. Da cabine, na hora de autorizar o desembarque, o piloto brincou com os 162 passageiros: “Se preparem para o clima ameno de 40ºC.” Fez uma pequena pausa e completou. “Isso, de noite.” Eram quase 22 horas da sexta-feira, 25 de junho. O avião decolara da Cidade do México, a capital que fica a 2,6 mil km de Mexicali, e trazia a bordo dezoito brasileiros. Na maioria, homens, mulheres e crianças que viajavam de avião pela primeira vez, traziam passaportes novinhos em folha e não entendiam quase nada de espanhol.

Como o aeroporto é pequeno e não tem fingers, os passageiros descem pela escada da aeronave, caminham pela pista em direção a uma porta de acesso, onde dois policiais seguram cães farejadores pela coleira. Os animais cheiram as pessoas e as bagagens de mão em busca de drogas – cocaína, maconha, metanfetamina. É o primeiro sinal a indicar que Mexicali, com cerca de 1 milhão de habitantes, é um dos maiores entrepostos de narcotráfico do mundo.

Depois de passar pelos cães, os passageiros exibem seus passaportes, ou carteiras de identidade no caso dos nativos, para outro policial. A primeira família brasileira – pai, mãe e uma filhinha de uns 5 anos de idade – é barrada. Os passaportes são retidos. Em seguida, eu também sou barrado e meu passaporte é apreendido. O policial me pergunta o motivo da viagem. Explico que sou jornalista e estou ali para fazer uma reportagem sobre o crescente fluxo de brasileiros desembarcando no México para tentar cruzar a fronteira com os Estados Unidos. Ele aponta uma parede, na qual devemos ficar encostados. O passageiro seguinte é outro brasileiro. A mesma coisa: passaporte retido, parede. Depois, vem outro. E mais um. E outro ainda. Em questão de minutos, 28 pessoas estão encostadas à parede: 18 brasileiros, 5 venezuelanos e 5 equatorianos, todos potenciais migrantes irregulares.

Com a presença de tantos brasileiros, o policial me pede para ajudar na tradução. Queria perguntar se alguém havia despachado bagagem. Todos dizem “não”, balançando a cabeça. Lo mismo de siempre, resmunga o policial, já sabendo que os passageiros chegaram ali para tentar atravessar a fronteira com os Estados Unidos. Somos conduzidos, todos em silêncio, alguns de mãos dadas, até a frente da minúscula cabine da Subdelegación Local Aeropuerto Internacional de Mexicali, onde um funcionário copia os passaportes, pergunta o motivo da viagem, pede a reserva de hotel (todos são orientados a ter alguma) e censura quem tenta usar o celular. Uma brasileira, sentada no chão, com uma blusa de moletom amarrada à cintura e uma mochila no colo, enxuga discretamente as lágrimas. Um brasileiro, de camisa polo amarela e calça jeans, rompe o silêncio e anuncia em portunhol que tem uma amiga em Mexicali. Cállate, ordena o funcionário.

Em pouco tempo, todos estão liberados. Uns brasileiros irão para algum hotel das redondezas, para ficar um ou dois dias, tentando dissimular o interesse de atravessar a fronteira. Outros vão direto para o ponto de travessia ali adiante. Alguns ficarão pelo México, perdidos na vida. Outros ainda, sem melhor opção, simplesmente voltarão para o Brasil. Uns poucos vão cruzar a fronteira e, quem sabe, ficarão nos Estados Unidos durante anos, talvez a vida inteira. Um desses brasileiros é o mineiro Matheus Carvalho, com aparência de 35 anos. Está bem-vestido, com calça jeans escura e camisa branca da marca Dudalina, e seus cabelos estão bem alinhados pelo gel. No colo, carrega a filha que ainda não fez 2 anos. Ele e sua mulher levam duas malas de mão. A filhinha segura uma mochila da Peppa Pig. É a bagagem para tentar uma nova vida.

 

Em meados de junho, o empresário Bruno Maggi Pissollo, 38 anos, e sua mulher, a modelo Nara Alves, dez anos mais nova, estavam numa suíte de três andares no hotel Azulik, em Tulum, o balneário mais chique do litoral caribenho do México. Ali, começaram a quarentena de quinze dias, exigência das autoridades sanitárias para que brasileiros possam entrar no território dos Estados Unidos. A ida ao México era o que as agências de viagem batizaram de “turismo da vacina”. Na suíte, com a diária salgadíssima de 6 mil dólares, ou cerca de 30 mil reais, o casal ficou apenas dois dias. Depois, se transferiram para o Moon Palace, um resort à beira das águas tranquilas de Cancún, balneário a duas horas de carro de Tulum. Concluída a quarentena, Pissollo e Alves voaram para Orlando, na Flórida. Do hotel, pediram um Uber para localizar um posto de vacinação que estivesse aplicando o imunizante da Janssen. Acharam a 15 km. Queriam a Janssen pela vantagem de imunizar com dose única.

A ida ao México não se limitou a isso. “Nossa viagem teve múltiplos fatores”, diz Pissollo, que é sobrinho do bilionário Blairo Maggi, conhecido como o Rei da Soja. “O México não tem burocracia para receber brasileiro e aproveitamos para dar uma esticada até os Estados Unidos. Minha mulher queria visitar a irmã gêmea dela, que mora em Atlanta.” Em 2020, o casal pegou Covid-19 e enfrentou uma situação difícil. Um mês depois de testar positivo, Nara Alves engravidou. Aos seis meses de gestação, sofreu um aborto espontâneo. A bebê teve problemas de má-formação, que Alves credita ao coronavírus. “A ideia de ter apressado para tomar vacina é porque queremos engravidar de novo”, conta Pissollo. Ainda do México, o casal fez o cadastro pelo site do governo norte-americano para agendar a imunização. Pissollo acha que o presidente Jair Bolsonaro tem razão ao defender vacina opcional e que todo mundo deveria ter o direito de escolher a marca. Ele condena Bolsonaro por não ter adquirido vacina no ano passado. Acha que, se não fosse isso, seria reeleito ainda no primeiro turno.

A trinta minutos do Azulik, fica uma joia da hotelaria chique da costa mexicana: o Esencia, um hotel à beira-mar que frequenta a lista dos melhores do mundo. Ao contrário do Azulik, o Esencia recebe os ricos discretos, que não querem exibir suas fotos no Instagram. O local é tão reservado que, quando se chega ao km 265 da Carretera Cancún-Tulum, a rodovia litorânea que conecta os balneários da região, não há sinalização indicando a entrada do hotel. O Esencia divulga que seu prédio foi originalmente construído como residência de verão da duquesa italiana Rosa de Ferrari e depois transformado em hotel boutique pelo norte-americano Kevin Wendle, cofundador da Fox Broadcasting. “Noooooooo”, espanta-se Sean Murphy, o gerente-geral do Esencia, quando é perguntado se o estabelecimento adota o esquema de all inclusive. No Esencia, tudo é pago à parte. Huevos a la mexicana? 15 dólares. Jugo de naranja? 5 dólares. Um jantar no Beefbar, fora a bebida alcóolica e a gorjeta? 150 dólares por pessoa, em média.

O Esencia já era uma opção – digamos – popular entre os brasileiros ricos, mas de maio para cá ocorreu uma explosão. “Em alguns dias, o Brasil representa 20% de nossa clientela”, diz Murphy. “E, assim como americanos e europeus, quase todos eles voam para cá de jato privativo.” Durante nossa conversa na quinta-feira, 24 de junho, o gerente-geral informou que duas suítes do hotel estavam ocupadas por brasileiros naquele momento. Dias antes, um banqueiro de São Paulo e sua mulher, cujas identidades Murphy não quis relevar, hospedaram-se na suíte presidencial, com praia e academia privativas. A diária, que varia ao longo do ano, estava cotada em 7 mil dólares. O casal ficou dezesseis noites e, a bordo de um jato privado, voou para os Estados Unidos para se vacinar. (O Esencia não oferece desconto para a suíte presidencial porque há fila de espera.)

No início do turismo da vacina, os brasileiros não postavam suas fotos nas redes sociais com receio da má repercussão. Anitta, a cantora cuja vida é compartilhada trinta horas por dia, não divulgou nenhuma imagem quando tomou a vacina da Pfizer em Miami, em março passado, depois de fazer quarentena em Punta Cana, na República Dominicana. Nem o publicitário e apresentador Roberto Justus, que tem um fraco por holofotes, postou sua foto sendo imunizado em Miami, no início de maio. Justus escolheu receber a dose única da vacina da Janssen porque tinha compromissos no Brasil e não podia ficar três semanas nos Estados Unidos.

Com o atraso da vacinação no Brasil e o acúmulo de milhares de mortos, o turismo da vacina no exterior aos poucos passou a ser menos censurável. O empresário José Carlos Semenzato, dono da holding SMZTO, especializada em investir em franquias que incluem rede de depilação, consultórios odontológicos e quiosques de açaí, não escondeu ter sido imunizado em Miami, cidade onde tem apartamento no condomínio Trump Tower com uma Ferrari na garagem. Semenzato e a mulher Samara fizeram quarentena no luxuoso Four Seasons Resort Punta Mita, na costa mexicana do lado do Pacífico.

 

Os brasileiros pobres que chegam à fronteira do México com os Estados Unidos fazem parte de uma massa que não para de crescer. Em 2013, o fluxo começou porque o governo mexicano deixou de exigir visto de entrada para brasileiros. Desde então, com o desemprego recorde no Brasil, nunca houve tantos tentando entrar nos Estados Unidos a partir das cidades mexicanas localizadas na fronteira. Em março deste ano, 16,8 mil brasileiros chegaram ao México como turistas, mas 3 996 foram detidos pelas autoridades norte-americanas ao cruzar a fronteira. Em abril, 17 mil brasileiros desembarcaram no México, dos quais 8 751 foram pegos pelas patrulhas dos estados do Arizona, Califórnia e Texas. Em maio, foram 27 291, e 7 372 retidos nos Estados Unidos.

Até março deste ano, a cada mês, a Embaixada do Brasil no México recebia apenas um ou dois pedidos de ajuda de cidadãos que tiveram seus passaportes e dinheiro roubados por coiotes, como são chamados os operadores do esquema da travessia clandestina. Hoje, há dez chamados por semana. Até o ano passado, apenas 7% dos brasileiros migrantes usavam a rota que vai de Mexicali para Yuma, a primeira cidade no estado do Arizona, e apenas 13% chegavam ao México sozinhos, sem cônjuge, sem filhos, sem familiares. Naquela época, o grosso dos brasileiros preferia sair de Ciudad Juárez, no estado de Chihuahua, e entrar nos Estados Unidos pela cidade de El Paso, no Texas. Como esse ponto tornou-se perigoso com a sangrenta disputa de território entre os cartéis do narcotráfico, tudo mudou: agora, a rota Mexicali-Yuma concentra cerca de 60% dos migrantes e nada menos que 40% chegam sem qualquer companhia – um indicador de desalento da juventude com as perspectivas de vida no Brasil.

Também é crescente o número de brasileiros barrados ao chegar à Cidade do México, destino final de dois voos diários que partem do Aeroporto de Guarulhos, em São Paulo. Entre os anos de 2018 e 2019, antes do desemprego recorde e da chegada da pandemia, apenas 0,37% dos brasileiros que desembarcaram no México foram retidos na triagem da imigração. De março para cá, o índice saltou seis vezes. Os barrados na chegada – quase sempre porque não conseguem convencer as autoridades de que estão viajando a turismo – são levados para um dormitório dentro do próprio aeroporto, recebem alimentação e passam a noite em beliches. No dia seguinte, embarcam no primeiro voo para o Brasil. A companhia aérea é obrigada a levar de volta. Entre janeiro e abril deste ano, 1 846 brasileiros foram inadmitidos no México.

Quem passa na vistoria do aeroporto da capital mexicana, o mais movimentado da América Latina, recebe um carimbo de entrada no país e, no caso dos migrantes, logo toma o voo para Mexicali, a capital do estado de Baja California. De lá, os brasileiros costumam ir para um distrito próximo chamado Los Algodones. É um lugarejo de apenas 8 mil habitantes. Tem um clima desértico, com temperaturas infernais, que podem passar dos 50ºC. Quase todo mundo ali fala inglês, mas a peculiaridade mais atraente é outra: não há um muro físico em um pequeno trecho entre Los Algodones e Yuma, a primeira cidade no estado do Arizona, que fica a apenas 16 km de distância. O muro de ferro, que o ex-presidente Donald Trump começou a construir para barrar a imigração ilegal, foi interrompido naquele ponto em decorrência da presença do Rio Colorado, que separa o México e os Estados Unidos. De suas águas depende a vida dos membros da tribo Cocopah, que habita a região desde tempos imemoriais.

O trecho sem muro tem apenas 15 metros de extensão, mas é largo o suficiente para permitir a passagem de dezenas, centenas, milhares de brasileiros, que, às vezes de dia, mas quase sempre à noite, tentam entrar nos Estados Unidos. Para ir do Centro de Mexicali até o distrito de Los Algodones, os brasileiros pegam um motorista previamente arranjado pelos coiotes. Mas, para não chamar a atenção, descem do carro a 1 ou 2 km da fronteira propriamente dita e seguem a pé, carregando as malas nas mãos por uma rua que termina no Rio Colorado, por onde é possível ter acesso ao vão do muro.

Num sábado de junho, sob um sol inclemente de 44ºC, um grupo de meia dúzia de coiotes estava a 400 metros da fronteira dos Estados Unidos à espera da chegada dos brasileiros do dia. Eles fumavam, falavam no celular, protegidos pela sombra de uma árvore. Eram quase todos mexicanos – alguns são turcos. Em tese, os coiotes já foram devidamente pagos para ajudar os brasileiros, no âmbito de um acerto feito ainda no Brasil. Uma família composta por um casal e um filho paga entre 18 e 22 mil dólares, o que oscila entre 90 e 110 mil reais. Uma pessoa sozinha desembolsa até 12 mil dólares, ou 60 mil reais.

O preço inclui – teoricamente – o serviço completo, do Brasil até a ajuda na travessia final da fronteira. Mas, como acontece nas organizações criminosas, os acordos são frágeis. Muitos coiotes extorquem ou roubam os migrantes, que se encontram expostos, num país estranho e sem passagem de volta. É comum que cobrem uns 100 dólares extras, mas outras vezes revistam carteiras e bolsas para levar o que encontram. Com frequência, a situação foge de controle. A embaixada brasileira no México informa que, toda semana, há casos de desaparecimentos ou assassinatos. “Os brasileiros precisam ser devidamente informados e alertados sobre os riscos de uma travessia ilegal nas mãos de coiotes, cujo único interesse é cobrar valores altíssimos para traficar pessoas, sem nenhum compromisso em preservar a vida do migrante”, diz o embaixador brasileiro na Cidade do México, Mauricio Carvalho Lyrio, que está de malas prontas para assumir o posto diplomático na Austrália. “Para eles, a coiotagem é o tráfico de uma mercadoria, não de seres humanos, e por isso são frequentes os sequestros, mortes e desaparecimentos.”

Naquele sábado, a situação correu sem contratempos. “Silêncio, silêncio”, disse um dos três coiotes encarregados de atravessar cinco brasileiros – um casal e uma mãe com duas filhas pequenas. Eram 13 horas, o calor estava abrasivo e só se ouviam os passos sobre a areia e as pedras, mas todos obedeceram à ordem do silêncio para não chamar a atenção dos patrulheiros do outro lado da fronteira. O grupo dirigiu-se ao trecho sem muro. A essa altura, a vegetação alta e os declives me impediam de vê-los. Cerca de quarenta minutos depois, os três coiotes reapareceram no ponto onde eu estava. Os brasileiros, carregando malas e mochilas, haviam entrado em território norte-americano. Nunca mais tive notícias deles.

Los Algodones é um vilarejo, mas tem uma movimentada vida econômica devido à presença fervilhante de cidadãos norte-americanos em busca de tratamento dentário. No mundo pré-pandemia cerca de 10 mil atravessavam a fronteira diariamente para fazer um tratamento de canal, uma obturação, um implante, ou para colocar as branquíssimas facetas de porcelana. Os turistas dentários desembarcam no aeroporto de Yuma, no Arizona, alugam um carro e vão ao dentista em Los Algodones. Se o tratamento demora mais de um dia, costumam voltar e se hospedar em hotéis do lado norte-americano.

“Um implante aqui sai por apenas 1 mil dólares”, contabiliza o dentista Abelardo Norzagaray, dono de uma clínica de dois andares que fica a menos de trinta passos da fronteira. “Nos Estados Unidos, o mesmo implante custa dez vezes mais.” Nas clínicas dentárias de Los Algodones, todas as placas são em inglês. O turismo dentário garante dinheiro e segurança. “Aqui todo mundo anda na rua tranquilamente e não há venda de drogas ao ar livre. A nossa economia depende de estrangeiros que vêm tratar seus dentes e gastar em farmácias, então é fundamental que nenhum americano seja assaltado para o dinheiro circular e não termos problemas diplomáticos”, diz Morayma Medellín, a simpática delegada de 36 anos, que coordena uma equipe de quarenta policiais. Mora, como é conhecida, não anda armada.

 

Com a chegada da pandemia, Cancún ficou fechada durante três meses. Quando reabriu, adotou medidas severas de segurança. A rede hoteleira da região – 30 mil suítes, outras 5 mil em construção – só podia ocupar 10% de sua capacidade, os salários dos funcionários foram cortados pela metade, e os brasileiros, parte expressiva da clientela, sumiram. Em setembro, começaram a voltar timidamente, aproveitando que o México foi um dos poucos países que mantiveram suas fronteiras abertas a cidadãos brasileiros. Mas em maio passado, mês que se encerrou no Brasil com mais de 460 mil mortos e apenas 10,48% da população imunizada com as duas doses, o turismo da vacina explodiu.

Hoje, Cancún voltou à vida praticamente normal. Nas baladas, é grande a presença de jovens norte-americanos, já vacinados, aglomerando com copo e cigarro eletrônico nas mãos e sem máscara. Na boate La Vaquita, uma das principais da região cujo desenho se assemelha ao de um teatro de arena, a pista de dança é aberta e voltada para a rua. Da outra calçada, pode-se ver a juventude se divertindo como antes da pandemia. As ruas centrais estão lotadas, há filas nos restaurantes, as regiões de shoppings e bares ficam repletas de turistas circulando em carros conversíveis, e, nas calçadas, ouve-se com frequência traficantes oferecendo “marijuana”. “Os hóspedes americanos estão relaxados e em paz, chegam para aproveitar esse momento de superação da pandemia”, diz Javier Monje, diretor de vendas da rede riu Hotels & Resort. Em todo o estado de Quintana Roo, cuja população na alta temporada aumenta tanto que passa a regular com a de Salvador, a taxa diária de contaminação em junho não passava de 280 pessoas. (A de Salvador, no mesmo período, era de 570.)

“De maio para cá, tivemos uma grande procura de brasileiros fazendo reservas de quinze dias, sinal de que seguiriam depois para se vacinar”, diz Javier Monje. Os primeiros brasileiros a chegar foram casais em torno dos 50 anos, muitos deles em jatos particulares ou fretados. Do final de abril em diante, a Flapper, especializada em locação de jatos em São Paulo, fretou dezoito voos para brasileiros indo fazer quarentena no Caribe, sobretudo México, Bahamas e Ilhas Turcas e Caicos. Depois, desembarcaram os de 40 anos e, agora, os visitantes incluem uma massa de jovens e adolescentes – que, ainda ressabiados pela pandemia e sem imunização, não costumam se misturar com os norte-americanos ou mexicanos. “Alguns clientes brasileiros estão trocando a festa de debutante das filhas para dar a viagem de presente”, diz Andrea Schver, dona da agência Venice Turismo, de São Paulo, que monta pacotes específicos para cada cliente. A agente de viagens Lilian Zanon, paranaense de Siqueira Campos que mora em Cancún há três décadas, calcula que já vendeu mil pacotes para brasileiros interessados em fazer quarentena no México para se vacinar nos Estados Unidos.

O turismo da vacina é caro. Além de ficar duas semanas no México, o brasileiro precisa permanecer outras três semanas nos Estados Unidos, pois as vacinas mais comuns por lá são as da Moderna e da Pfizer, que exigem um intervalo de 21 dias entre a primeira e a segunda dose. Ainda assim, o turismo da vacina não é exclusividade dos muito ricos. “Fizemos as contas e raspamos nossas economias para vir para cá”, diz a atriz carioca Isadora Studart, de 31 anos, que também é dona de um canil premium de chihuahuas. Acompanhada do marido, o engenheiro mecânico Leonardo Paim, de 34 anos, ela resolveu fazer a viagem depois da morte do comediante Paulo Gustavo, vítima da Covid-19 aos 42 anos. “A morte dele trouxe um recado forte de urgência”, diz ela. “Se ele, adulto, jovem e com condições para se tratar, acabou morrendo, o que poderia acontecer com todos?”

Studart e Paim têm consciência da situação privilegiada que vivem. “Eu sei disso, claro, mas só tomamos essa medida porque o presidente do Brasil abandonou a população, recusou comprar vacina e promoveu uma política que causou mais de 500 mil mortos”, diz ela. O casal teve Covid-19. Ela, uma vez. Ele, duas. Na segunda, Paim sentiu fraqueza extrema, perdeu 7 kg e ficou três meses sem conseguir surfar. Como trabalha no Brasil para uma empresa norte-americana, resolveu consultar os chefes sobre a viagem e recebeu sinal verde. Em Cancún, o casal ficou num hotel que cobra 70 dólares a diária, depois voou para Los Angeles. Ficaram na casa de amigos e tomaram a vacina da Pfizer.

A atriz Elaine Mickely, mulher do jornalista César Filho, da TV Record, viajou na companhia dos filhos de 17 e 20 anos, depois de um susto. Seu marido contraiu a doença e, passados dez dias, quando parecia se recuperar, começou a sentir falta de ar e passou a usar um cilindro de oxigênio no quarto. “Eu ajoelhava no chão para orar pelo meu marido. Ver quem você ama tossindo e com dificuldade para puxar o ar, só Deus sabe…”, diz ela. Numa noite, ele teve uma crise aguda e foi internado. Ficou uma semana no hospital, mas não precisou ser intubado. Mickely e os filhos ficaram quinze dias no México e três semanas em Miami, onde também tomaram a vacina da Pfizer. “Eu me sinto aliviada com meus filhos protegidos”, diz a mãe.

 

Se são barrados na fronteira antes de entrar nos Estados Unidos, os migrantes irregulares voltam para Los Algodones, esperam a troca da equipe de patrulheiros e tentam de novo. Se a patrulha faz vista grossa – e como há câmeras e sensores de som no trecho da fronteira sem muro, é comum que façam vista grossa –, os brasileiros entram no país. Assim que pisam em território norte-americano, eles se entregam às autoridades e pedem asilo. No governo Trump, os migrantes não se rendiam aos patrulheiros porque eram devolvidos ao México, onde deveriam aguardar a Justiça norte-americana decidir se aceitaria seus argumentos para admiti-los no país. Enquanto isso, as crianças ficavam em abrigos nos Estados Unidos, separadas dos pais – uma brutalidade que chocou o mundo. Sob Trump, 3 913 crianças enfrentaram essa situação.

No governo Joe Biden, os irregulares se entregam às autoridades porque são levados para um centro de imigração nos Estados Unidos e não devolvidos para o México. Perto de Los Algodones, já em território norte-americano, o alojamento recém-inaugurado comporta até quinhentas pessoas. Ali, as autoridades avaliam caso a caso. Se não acreditam na história contada pelo candidato a imigrar, deportam na hora. É o caso de cerca de 20% dos brasileiros. O restante fica aguardando uma audiência na Justiça, que decidirá se os admite no país. Uns pagarão uma fiança de 10 mil dólares por família para deixar o centro de imigração e aguardar a audiência judicial na casa de algum parente ou amigo em situação regular. Outros, sobretudo os que estão acompanhados por crianças, serão liberados mesmo sem fiança. Em qualquer dos casos, são obrigados a assinar um termo se comprometendo a comparecer à audiência na Justiça – o que, em geral, descumprem e somem dentro do país.

As alegações mais frequentes que os brasileiros apresentam para pedir asilo é a crise econômica, perseguição política ou religiosa. As autoridades norte-americanas não costumam aceitar essas alegações. Os raros casos em que concedem asilo são de homossexuais expulsos de casa por intolerância familiar, policiais jurados de morte por alguma facção criminosa ou mulheres que sobreviveram a uma tentativa de feminicídio.

“A crise econômica do Brasil, a demora na vacinação e a falta de perspectiva de melhora no padrão de vida estão nos fundamentos da decisão de deixar o país, mas também tem uma ilusão”, adverte o advogado brasileiro Felipe Alexandre, especializado em direito migratório e fundador da empresa AG Immigration Law Group, sediada na Califórnia. “Os coiotes vendem a falsa ideia de que, com Biden, tudo mudou. Isso não é verdade. Há de fato um tratamento mais humano, mas não existe garantia de que poderão ficar de forma legal”, afirmou, durante nossa segunda conversa por Skype. Alexandre mora nos Estados Unidos desde os 7 anos de idade, quando seu pai, funcionário de uma multinacional, se mudou para o país.

L.N., de 33 anos, brasileira da cidade de Caratinga, em Minas Gerais, teve dificuldades inclusive para entrar no México. Ela, o marido e a filha de 8 anos tentaram três vezes, todas neste ano. Só conseguiram ser aprovados pela polícia migratória ao apelar para um esquema ilegal. Por meio de um coiote, pagaram 6 mil dólares para o responsável por carimbar os passaportes no aeroporto de Cancún, onde desembarcaram vindo de um voo direto do Brasil. “Mandamos por WhatsApp fotos tiradas no embarque em Guarulhos, com as roupas que estávamos usando. E recebemos, também por WhatsApp, fotos dos policiais da migração que faziam parte do esquema”, diz L. N., que penhorou sua casa em Caratinga para pagar os coiotes ainda no Brasil. Ela acabou desistindo de tentar a vida nos Estados Unidos e voltou para casa.

As quadrilhas de coiotes estão bem estabelecidas em Minas Gerais, sobretudo na região de Governador Valadares, a cidade que continua sendo o epicentro nacional dos brasileiros que querem ir para os Estados Unidos. “Em Minas, a coisa é tão disseminada que tem candidato a vereador que até coloca o nome ‘Coyote’ em seu material de campanha”, diz Daniel Vianna Ottoni de Siqueira, chefe da Polícia Federal em Governador Valadares. Nos últimos meses, 150 funcionários deixaram seus empregos nas redes locais de supermercado para tentar a vida nos Estados Unidos. Como garantia de pagamento aos coiotes, boa parte assinou notas promissórias e entregou carros ou terrenos. “Em uma única operação, apreendemos 14 milhões de reais em notas promissórias na casa de um coiote”, diz o delegado.

 

Na manhã da última terça-feira de junho, voltei ao aeroporto de Mexicali para verificar o fluxo de migrantes brasileiros. Antes das dez da manhã, já havia um grupo de 34 pessoas cujos passaportes estavam apreendidos. Entre eles, onze crianças. Todos foram orientados a permanecer encostados à parede próxima à Subdelegación Local. Um dos brasileiros ali era Matheus Carvalho, cuja filhinha carregava uma mochila da Peppa Pig. Ele, a mulher e a filha foram logo liberados. Conversamos enquanto a família deixava o aeroporto e se encaminhava para a fila do táxi. Seu plano era ficar dois ou três dias num modesto hotel em Mexicali aguardando orientação dos coiotes sobre o ponto exato da fronteira em que tentariam atravessar. “Estou esperando eles me falarem”, disse. Quando os policiais perceberam que ele estava falando com um jornalista, abordaram Carvalho e lhe disseram que aquilo não era recomendável. Um dos policiais provocou: “Você não quer ter problema com a polícia do México, certo?” Constrangido, Carvalho interrompeu a conversa, se despediu e partiu com a família sem olhar para trás.

Em Cancún, enquanto tomava um café num restaurante que oferece uma vista estupenda do pôr do sol, Lilian Zanon, dona da AT Travel, agência de viagens que atua no mercado de luxo, comentava sobre os riscos oferecidos pela chegada de tantos brasileiros pobres ao México. Há cinco anos, Zanon exerce as funções de vice-cônsul honorária do Brasil em Cancún e lida com demandas de toda sorte. “Muitos estão sendo prejudicados com essa onda de gente cruzando a fronteira com os Estados Unidos”, reclama. “O meu medo, e de todo mundo que trabalha com turismo, é que o México volte a exigir visto de turismo do Brasil.” Em junho, dois casais que planejavam passar a lua de mel no país foram barrados ao desembarcar no país. “A polícia pensou que iam atravessar a fronteira, quando só queriam viver um dos momentos mais especiais de suas vidas.”