esquina

Quanto costa?

A farra imobilliária de Natal

Rodrigo Levino
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2007

Não são poucas as pessoas que têm inveja de Marcelo de Oliveira e Gilvanísia Medeiros. Ela tem um celular tão dourado quanto a cor do seu cabelo, comprado (o celular, não o cabelo) na quarta das viagens que fez à Europa, só neste ano. Foram viagens para atrair mais negócios “e, claro, para me divertir e gastar, que ninguém é de ferro. Só gosto do que é bom e trabalho honestamente para isso. Um instante: Helloooo, honeeeey!” O honey do outro lado da linha provavelmente é italiano. Gilvanísia cuida dos italianos. Já Oliveira se especializou em escandinavos e portugueses. Os dois são corretores imobiliários em Natal. Na verdade, corretores não, já que operam fora do enquadramento legal da profissão. Não aparecem nos cadastros do CRECI-RN, o Conselho Regional de Corretores de Imóveis do Rio Grande do Norte, que tem hoje 2600 afiliados. Ambos preferem se apresentar como “corretores de negócios”. Os 2600 afiliados morrem de ciúme.

Natal é pródiga em invasões. Por lá viviam, na santa paz, os índios potiguaras. A primeira leva invasora foi a dos portugueses, que puseram os índios para correr. Em seguida vieram os franceses, que puseram para correr os lusitanos, os quais acabariam voltando, apenas para serem corridos novamente pelos holandeses, que por lá passaram 21 anos de muita serenidade. Quando tudo finalmente parecia resolvido, e Natal se acostumava a uma vida sem forasteiros, chegaram os americanos. Construíram ali a maior base militar fora dos Estados Unidos durante a II Guerra Mundial. Houve festa, milk-shake, chiclete e muita farra. A cidade prosperou, mas a bonança durou pouco. Natal mergulhou na cava depressão de quem se vê subitamente solitário.

Esse era o estado geral das coisas até o início do século XXI. Há uns cinco anos, o mundo redescobriu Natal. Voltaram os portugueses, e vieram também os italianos, os espanhóis e os noruegueses (estes últimos, segundo consta, para lavar dinheiro). Não mais a bordo de caravelas, mas em vôos fretados. De acordo com a Infraero, de janeiro a junho deste ano, 117 531 estrangeiros desembarcaram na cidade (Natal tem 700 mil habitantes). Dispostos a gastar – e com o euro valorizado -, eles são recebidos com pompa e circunstância por comerciantes, taxistas, guias turísticos, garotas de programa e corretores de imóveis, legais e ilegais. Ambulantes vendem água de coco em norueguês e potiguares publicam, nos jornais locais, anúncios de locação de imóvel só em língua de gringo.

 

Tal influxo de europeus fez o preço dos imóveis explodir. Esta sim é uma bolha imobiliária. Qualquer terreno, de uma casa a uma granja, desde que perto do mar, desperta a concupiscência de estrangeiros à cata de sol. No início do ano, um senhor espanhol se interessou por uma casa perto da Ponta Negra, a principal praia da cidade. O dono não tinha a intenção de vendê-la e, para se livrar do chato, pediu um valor que considerava absurdo: não se desfazia do imóvel por menos de 100 mil. O espanhol, relutante, contra-atacou com uma oferta de 85 mil. O dono arregalou os olhos e percebeu que havia subestimado o valor do seu lar. Conversa vai, conversa vem, fecharam em 90 mil. A caminho de assinar o contrato, o proprietário ponderava, feliz como uma criança: “Em circunstâncias normais, minha casa, com terreno de 100 metros quadrados, não alcançaria nem 30 mil reais. Nunca”. Tinha feito o negócio da sua vida. Mais exatamente, de duas vidas: ele não tinha se dado conta de que o espanhol não estava negociando em moeda brasileira. Saiu da corretora com 90 mil euros no bolso. (Mais precisamente, na maleta.) Cash: 320 mil reais. Tanto ele como o corretor preferem manter o anonimato, para evitar olho gordo.

 

Os espanhóis têm feito a alegria de muitos nativos. Um executivo de Natal vendeu a um deles seu terreno de 400 metros quadrados, sem energia elétrica e sem água encanada. Recebeu, no ato, 215 mil reais. Dez anos antes, a área tinha sido comprada por um décimo do valor. O executivo – mais um que morre de medo de olho gordo – não se lembra de nenhum outro negócio com retorno financeiro tão grande.

Eduardo Guilherme, há 27 anos no ramo, diz que metade dos seus negócios já são realizados entre natalenses e estrangeiros. Em média, são 45 imóveis por mês que acabam na mão de europeus. É nesse filão que garimpam Marcelo de Oliveira e Gilvanísia Medeiros.

“Com o que esses gringos despejam de dinheiro aqui todo ano, dá pra fazer um bom pé-de-meia. Rico a gente não fica”, diz Oliveira, “porque gente honesta não fica rica nesse país. Mas dá para se arrumar na vida.” De fato, ele se arrumou. Orgulhoso, exibe o novo carro zero quilômetro, o notebook de última geração e suas pulseiras de ouro, concorrentes do celular dourado-estupefaciente de Gilvanísia. Boa hora aquela em que decidiu largar os mil e poucos reais que ganhava como sargento da Aeronáutica. Entrou no negócio por acaso. Em 2002, vendeu a casa de praia da família para um italiano. Enxergou ali um caminho. Embora seu português não seja propriamente o recomendado pela Academia Brasileira de Letras, ele não está preocupado em aprimorar seus conhecimentos da língua pátria. Mais útil é aprender italiano. Foi o que fez, num curso no Senac. “Não completei por falta de tempo, mas já sei o básico. Va bene, Che facciamo? e coisa e tal. Além do mais, quem é que não entende a linguagem do dinheiro?”, pergunta sorrindo.

O telefone toca. Com sotaque nordestino carregado, Marcelo de Oliveira não se constrange em maltratar as línguas estrangeiras. “Réé-lôu! Vá beni, vá beni. Má che coisa, hein?

Rodrigo Levino

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