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Que m€$&@ é essa?

Matemática no YouTube

Jenny Barchfield
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2019

Inês Guimarães afasta as cortinas da sala para aproveitar a luz tênue do inverno europeu. Posiciona-se diante de uma câmera Canon EOS 750D montada sobre um tripé e foca em sua própria imagem. Dá início a uma espécie de ginástica facial, alternando um sorriso e uma careta, uma cara de fúria e um olhar carinhoso. Então começa a falar: “Olá, pessoal”, diz, sorrindo de novo e abrindo os braços como se fosse abraçar o público. “Hoje vamos falar sobre professores.”

“Olá, pessoal”, diz de novo, com outro sorriso e mais um gesto expansivo. “Hoje vamos falar sobre professores.” Satisfeita, olha para o iPod e passa à frase seguinte, repetindo-a inúmeras vezes, variando a entonação e a expressão.

Estudante do último ano de matemática na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, Guimarães é a MathGurl, youtuber de 20 anos com quase 70 mil inscritos num canal que aborda de forma bem-humorada uma disciplina em geral tida como difícil e chata.

Nos mais de cem vídeos, ela define conceitos básicos (“Logaritmo: que m€$&@ é essa”), especula sobre problemas em aberto (“A hipótese de Riemann”) e decifra desafios matemáticos (“O paradoxo da melancia”). O denominador comum é o carisma e o humor irreverente, autodepreciativo e desinibido – Guimarães se fantasia de unicórnio para explicar números impossíveis e não hesita em fazer piada sobre arrotos ou pelos pubianos.

“Tento fazer algo dinâmico porque já há tantas pessoas a achar a matemática aborrecida, que eu não queria contribuir para esse estigma”, disse, falando em sua habitual cadência rápida e com seu sotaque do norte, que, com erres enrolados, lembram os do interior de São Paulo. “Quis fazer uma matemática voltada para as pessoas para ensinar-lhes algumas das coisas que aprendi, algumas curiosidades, e assim, se calhar, motivá-las para a matéria.”

Guimarães nasceu em 1998 em Guimarães – o que sempre lhe vale algum comentário jocoso –, uma cidade histórica a 55 quilômetros do Porto. Filha de pai neurologista e mãe professora, estudou na mesma escola no ensino fundamental e médio; era boa aluna, sem ter se destacado em nenhuma área em particular.

“Não era um gênio, nada disso. Era normal, mas me interessava um bocado por tudo”, disse na casa de seus pais, numa zona afastada do Centro de Guimarães, onde passa os fins de semana e grava os vídeos. “Quando era pequena, tinha uma obsessão por baleias azuis e queria aprender tudo sobre elas, depois me interessei pelos reis de Portugal etc. Fazia muitas perguntas e me interessava por tudo.”

Foi a partir do 7o ano, quando teve aula com um temido professor de sua escola, que nasceu a primeira faísca de interesse pela disciplina. Aos poucos a faísca ficou mais viva, alimentada pelas Olimpíadas de Matemática, um concurso internacional para estudantes. “No início não tinha jeito nenhum para aquilo. Nas Olimpíadas é preciso pensar fora da caixa, porque o raciocínio lógico é mais importante que o saber mecânico, e na verdade meu raciocínio lógico nunca foi muito bom”, admitiu. Quando mais nova, ela se sentia intimidada pela inteligência do pai e do irmão mais velho e cultivava o conhecimento factual. “Sempre tive um pouco de preguiça mental”, alegou. “Era mais fácil trabalhar muito do que pensar muito.”

Para reforçar o treino para as Olimpíadas, em 2015 Guimarães começou a postar no Facebook pequenos vídeos sobre os conceitos que aprendia. Os primeiros eram bastante rudimentares: gravados com uma webcam, tinham o som abafado e quadros fora de foco. À medida que a jovem ganhava desenvoltura, as técnicas de edição foram se aprimorando. Ela então decidiu migrar para uma plataforma maior, o YouTube. Ainda faz tudo sozinha: desenvolve os roteiros, opera a câmera e edita. Trabalha cerca de doze horas para finalizar um vídeo de quatro a oito minutos.

Durante o primeiro ano, o número de inscritos não passava de mil, mas depois de cair “nas boas graças do algoritmo”, com o vídeo “A sequência de Fibonacci”, o canal cresceu de forma exponencial – inclusive entre o público brasileiro, que hoje representa mais de 70% de seus seguidores.

Uma esmagadora maioria dos inscritos são homens – 90% –, o que a tem exposto a um problema comum entre as youtubers: comentários machistas e sexualmente explícitos. Mesmo entre aqueles que não são descaradamente ofensivos, há uma proporção assustadora focada não no conteúdo dos vídeos, mas na aparência da apresentadora, uma gaja esbelta de cabelos castanhos abaixo do ombro.

Embora haja mais mulheres do que homens na sua turma da faculdade, Guimarães reconhece que a matemática ainda é um mundo predominantemente masculino – e espera que o canal contribua para normalizar a presença feminina no campo. “Na escola, as raparigas eram sempre mais tímidas e talvez tivessem vergonha de um mau resultado, ou fossem mais suscetíveis a esse tipo de inseguranças”, conjecturou.

Seu súbito sucesso lhe trouxe uma enxurrada de pedidos de entrevistas de jornais, revistas e canais de tevê; convites para dar palestras, inclusive em dois eventos TEDx em Portugal; e até contratos de livro. (Os dois que escreveu, um infantil e outro destinado a jovens, Desafios Matemáticos que Te Vão Enlouquecer, já estão nas livrarias d’além-mar.)

A poucos meses de se formar, Guimarães não sabe o que vai fazer depois, nem se vai continuar a encarnar a MathGurl. “Na maior parte das vezes que desço um vídeo sinto imensa culpa porque penso: ‘Eh, pá, isto deu muito trabalho, eu poderia ter dedicado esse tempo a estudar a sério e contribuir melhor para a minha formação’”, explicou. “Às vezes até me ocorre deixar o canal. Mas depois penso: ‘Há muita gente que na matemática teórica é muito melhor que eu, mas há pouca gente a fazer isso que faço.’”

Apesar de estar entre os youtubers portugueses com mais seguidores, conta que passa vergonha quando aparece em eventos com outros jovens com canais mais convencionais, de moda, esporte ou videogames. “Eles atraem legiões de fãs, enquanto ninguém sabe quem eu sou”, afirmou. “Sou uma desconhecida ilustre.”

Jenny Barchfield

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