esquina

Quem espera alcança

Visões e orações antes das núpcias

Daniel Lisboa
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2015

Já era hora de servir o almoço nos fundos da igreja Rocha Eterna, em Bertioga, litoral de São Paulo, e a expectativa dos comensais não era apenas saciar a fome. Pelo menos na mesa onde estavam Gabriel e Adlaine Santos. Ali todos queriam ouvir, alguns uma vez mais, a história de uma longa e penosa espera que havia chegado ao fim. “É linda, vocês precisam conhecer”, anunciou um dos presentes. O repasto acontecia no intervalo de um dos eventos do Eu Escolhi Esperar, e o casal prestes a falar era considerado um exemplo daquilo que prega o movimento: sexo, só depois do casamento. Ainda que, para isso, seja necessário aguardar um bocado de tempo.

“Eu esperei tanto pela mulher da minha vida que cheguei a ter visões”, revelou Gabriel. “Foi durante uma cerimônia de casamento. De repente, me vi embaixo d’água. Lá no fundo havia uma porta, eu tentava chegar até ela, mas não conseguia alcançá-la”, contou o rapaz, que dos 17 aos 28 anos se absteve de ter relações sexuais. Ele, que já não era mais virgem, no auge da juventude tornou-se evangélico e decidiu abrir mão de conjunções carnais enquanto não achasse a companheira certa.Gabriel e Adlaine são bonitos, ambos têm cabelos castanho-escuros, estatura mediana e sorrisos muito parecidos, em que se destacam os dentes brancos e aparentemente perfeitos. Estavam entre as centenas de participantes do encontro realizado naquele final de junho. No Facebook, o Eu Escolhi Esperar, criado em 2011 pelo pastor Nelson Junior, tem 2,7 milhões de seguidores. Atrai fiéis de várias denominações evangélicas. Toda semana organiza algum evento em uma cidade diferente. O EEE já pregou suas ideias em todos os estados brasileiros e até no exterior, e ficou conhecido depois que o zagueiro David Luiz se tornou seu garoto-propaganda – embora tenha esclarecido, mais tarde, que já não era virgem.

Em Bertioga, o público era composto sobretudo por jovens. Alguns pareciam nem ter chegado à adolescência. Franzinos, carregavam grossas edições da Bíblia. Uma banda de rock animava os participantes e sugeria coreografias. Para além dos imperativos religiosos, o principal argumento evocado ali era que, ao passar por vários relacionamentos e não se resguardar para o cônjuge, o sujeito corria o risco de acumular feridas sentimentais e psicológicas. “Na verdade, eu não escolhi esperar. Eu escolhi não sofrer”, disse o pastor Nelson Junior, já ao final da apresentação.

 

A mesa em que todos aguardavam ansiosos pelo relato de Gabriel e Adlaine ficava num local reservado aos organizadores do evento. No caso deles, a decisão de manter a castidade veio antes que conhecessem o EEE, mas tomar contato com o movimento reforçou a crença de que haviam feito a escolha certa.



“Eu estava triste com a demora e resolvi conversar com Ele”, disse Gabriel, revelando que certa noite interpelou Deus. “Perguntei-Lhe por que Ele falava tanto sobre a vida dos outros, dizia que era meu amigo, mas não dizia nada sobre aquela situação.” A resposta, pelo menos, não tardou.

“Naquela madrugada, fui acordado por uma voz que, eu sabia, não era nem de uma pessoa, nem do demônio. Pensei então que só podia ser de um anjo. E eu estava certo, ele me disse que o nome dele era Anael e que estava ali para me falar sobre a minha esposa.” Vieram outros sinais. “Depois do anjo, meu pastor também veio me dizer que havia tido uma visão e aquilo que eu estava pedindo estava para chegar.”

Gabriel morava em Santos, também no litoral paulista. Mal sabia ele que, a pouco mais de 100 quilômetros dali, na cidade de Caçapava, outra pessoa havia escolhido esperar. Adlaine, então com 21 anos, também se guardava por razões religiosas. Ela já havia até escrito uma carta para Deus detalhando as qualidades que gostaria de encontrar num futuro marido. “Minha mãe achava que ficando dentro de casa eu não ia conhecer ninguém. Mas eu dizia que, se fosse o homem certo, Deus iria trazê-lo até a porta da minha casa.” E foi mais ou menos isso o que aconteceu.

 

Depois da visão, do anjo e das revelações, num sábado à noite Gabriel decidiu entrar no Facebook. Notou que uma garota havia “curtido” uma de suas fotos. Ele não a conhecia, apenas a tinha entre os amigos porque ela estudara em uma escola para missionários que despertara o interesse de Gabriel. Decidiu chamar a menina para falar pelo chat, e o que veio a seguir deixou Adlaine pasma.

“Começamos a conversar, e fui ficando chocada com o que lia. Tudo o que ele falava estava na carta que eu tinha escrito para Deus sobre o meu marido ideal”, explicou Adlaine. As coincidências foram tantas que, numa decisão ousada, ela permitiu que Gabriel subisse a serra para conhecê-la. A desconfiança geral de seus pais e irmãos sobre o garoto que resolvia bater à porta da família logo veio abaixo. “Minha mãe foi para a cozinha chorar assim que o viu. Eu perguntei o que tinha acontecido, e ela disse que já tinha sonhado com ele, que ele era o homem para mim.”

A fim de que a família se convencesse da intervenção da providência divina, Adlaine se deu o trabalho de imprimir sua conversa com Gabriel pelo Facebook e compará-la com a carta que havia escrito.

“Estava tudo lá. Além das qualidades físicas, eu queria um homem da faixa de idade dele, que gostasse de engenharia, também fosse missionário, quisesse ter um filho chamado Miguel e um golden retriever. Ele disse tudo isso na conversa sem saber da minha carta”, revelou a jovem, para espanto geral dos circunstantes.

Nove dias depois da visita de Gabriel, o casal começou a namorar. Em treze dias o casamento estava agendado. Mas não seria para já: precisavam de tempo para juntar dinheiro, pagar a festa, o salão, o bolo, o vestido. Sete meses e três semanas depois, Gabriel alcançou a porta.

Daniel Lisboa

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