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Querido Gugu

O que ditam os usuários de um serviço público de redação de cartas

Fábio Fujita
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL

“Cicinho, estou morta de saudades de vocês”, disse de modo atabalhoado Maria José Gomes, sem fitar os olhos da moça à sua frente. “Estou desesperada aqui em São Paulo, vivendo praticamente largada na rua com os meninos”, prosseguiu, descontrolada. “Não sei mais o que fazer.” A senhora, na faixa dos 50 anos, estava numa repartição pública paulistana. Ditava a uma jovem a carta que pretendia enviar ao irmão, residente em Juazeiro do Norte, no Ceará.

Em vez de transcrever de modo automático o que Maria José dizia, a voluntária que a atendeu preferiu ouvir toda a história para organizar as ideias e escrever uma carta mais clara e objetiva. Maria José chegara a São Paulo oito anos antes, trazendo com ela cinco filhos e o projeto de uma vida melhor. A esperança desmoronou de vez há três anos, quando o marido a abandonou. Desde então, não consegue sustentar os filhos. Mora de favor na casa de uma conhecida e espera que o irmão possa ajudá-la na intenção de retornar ao Ceará.

Para localizar Cicinho, Maria José Gomes decidiu recorrer ao Escreve Cartas, um dos serviços oferecidos em cinco postos do Poupatempo, programa do governo paulista que busca agilizar a solução de pequenos problemas burocráticos. A semelhança com o ofício da personagem vivida por Fernanda Montenegro em Central do Brasil não é fortuita. Inspirado no filme de Walter Salles, o projeto reúne voluntários dispostos a redigir cartas de analfabetos e pessoas carentes. O serviço é gratuito – envelope e selo inclusive.

Quando terminou a carta ditada por Maria José, a voluntária perguntou se ela era alfabetizada. “Só sei escrever meu nome”, respondeu. Na hora de informar o endereço do destinatário, um problema: ela só sabia a rua e o bairro do irmão. No site dos Correios, porém, não existia o bairro mencionado por Maria José, Bumerão. Até constava que houvesse em Juazeiro do Norte uma rua com o nome informado pela remetente, mas em outro bairro. Sem muita convicção, a voluntária resolveu utilizar o CEP dessa rua, apostando que a carta fosse chegar ao endereço certo.

“Tem gente que é completamente desorientada, sem noção de nada”, disse Clarisse Mendonça Aun, de 86 anos. Voluntária desde o início do projeto, criado em 2001, ela é hoje uma de suas coordenadoras. “Às vezes a gente pergunta o endereço e a pessoa responde: ‘Pode dizer ao carteiro que é só seguir até a padaria do seu Fulano.’ E acha que a carta vai chegar”, contou Clarisse.

Em tempos de e-mail e SMS, as missivas para programas de auditório na televisão são o gênero mais solicitado pelos usuários do Escreve Cartas. Por comandar atrações que oferecem reformas de casa, viagens e outros prêmios, Gugu Liberato, Celso Portiolli e Luciano Huck disputam a preferência dos remetentes.

Naquela tarde, Sônia Regina Nunes atendeu uma senhora querendo ajuda para preencher um cupom promocional de uma loja. Ela afirmou que sabia escrever, mas era insegura com formulários. “Uma vez perdi uma tevê de 50 polegadas, que era o meu sonho. Não me deram o prêmio porque preenchi errado.”

Sônia recebeu também um rapaz que precisava de ajuda para redigir seu currículo – o Escreve Cartas costuma ser procurado com essa finalidade pelos jovens que buscam entrar no mercado de trabalho. O rapaz em questão não tinha RG. Disse que fora roubado. Tampouco sabia de cabeça o número do documento ou mesmo de seu telefone. Não foi mais conclusivo quanto à experiência anterior: contou que em seu último trabalho atuou como repositor de produtos, mas não tinha ideia do período de permanência – lembrava-se só do ano: 2011. Saiu dali com um currículo esquelético.

Os funcionários do Escreve Cartas aprendem a lidar com os dramas que testemunham. Sônia Regina Nunes passava por problemas de depressão antes de se tornar um dos 88 redatores no posto do Poupatempo em Santo Amaro. Reavaliou seus infortúnios depois que se tornou voluntária, há quatro meses. “Aqui descobrimos que os nossos problemas são muito pequenos diante das histórias que a gente ouve.”

Clarisse Aun traz viva a lembrança da senhora que costumava escrever ao filho encarcerado. Numa das cartas, teve que contar que o irmão dele, que tinha diabete, havia morrido. Houve ainda uma mulher que escreveu ao então presidente Lula, propondo-lhe a venda de uma fazenda em Minas. Anexou um mapa para facilitar a localização do terreno. Seria um local ideal para o presidente pescar trutas, escalar jabuticabeiras ou degustar um bom queijo branco ao lado de dona Marisa Letícia.

Não é incomum que o remetente recorra ao serviço sem saber ao certo o que escrever. Foi o caso de um rapaz tímido que queria mandar uma carta para “uma amiga”. Clarisse Aun esperava alguma orientação, mas o jovem, nervoso, nada dizia. Suas mãos suavam. “Vi que ele pensava em alguma coisa, mas não tinha coragem de falar”, contou a voluntária, que não demorou a perceber que a destinatária não era apenas uma amiga. O rapaz enfim admitiu e, vencendo a timidez, aos poucos começou a povoar sua carta com saudades e corações. Mas não conseguia achar um desfecho. Diante do cliente novamente travado, Clarisse resolveu dar uma forcinha. Sugeriu Roberto Carlos: “Eu tenho tanto pra lhe falar / Mas com palavras não sei dizer / Como é grande o meu amor por você.” O rapaz sorriu. Era aquilo.

Fábio Fujita

Fábio Fujita é jornalista baseado em São Paulo.

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