esquina

Rebanho dividido

As eleições e os pastores evangélicos

Paula Scarpin
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2014

“Nas eleições passadas, quando o Collor foi eleito, o Fernando Henrique, o Lula, alguém deixou de votar porque não tinha candidato crente?”, provocou o pastor Alex Ramalho. Os trinta fiéis que se espalhavam pela Igreja Batista – Ministério da Fé ouviam com atenção. Todos os domingos, no bairro de Vicente de Carvalho, na Zona Norte do Rio de Janeiro, antes dos cultos, o pastor reúne as pessoas nas quais identifica um perfil de liderança. Engenheiro formado pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Ramalho diz se sentir responsável por exercitar a “maturidade de reflexão” de seu rebanho.

Ao contrário do que se poderia imaginar, o fator religião, ainda mais presente na pauta da campanha deste ano, não facilitou a decisão dos eleitores evangélicos. Na disputa presidencial, não só Marina Silva e o pastor Everaldo, declaradamente evangélicos, foram fotografados em cultos: Dilma Rousseff e Aécio Neves também se tornaram habitués dos templos. Na corrida pelo governo do estado do Rio, a situação foi ainda mais confusa. O ex-governador Anthony Garotinho, do PR, é professor da escola dominical da Igreja Presbiteriana e teve o apoio do tele-evangelista R. R. Soares, da Igreja Internacional da Graça de Deus. A igreja de Soares é uma dissidência da Universal do Reino de Deus, criada por seu cunhado, o bispo Edir Macedo – que por sua vez apoiou a candidatura do sobrinho Marcelo Crivella, do PRB. Já o católico Lindbergh Farias, do PT, cortejou o pastor Silas Malafaia, da Assembleia de Deus.

Percebendo certa perplexidade, Ramalho continuou: “O candidato é evangélico? Show! Porque em princípio ele já vela pelos nossos valores”, disse, sob o olhar aprobatório da plateia, para em seguida emendar: “Acontece que muitos candidatos evangélicos só discutem o óbvio – ameaças como a legalização da maconha, do homossexualismo, da prostituição e do aborto. Eu não elejo um político para discutir só isso! Ele está lá pelo empresário, por uma reforma tributária, para ampliar importação e exportação, gerar emprego. Amém?”

Recusando-se a declarar seu voto, o pastor enfatizou que a escolha deveria se pautar pelas propostas. E sugeriu uma metodologia “para não dar tiro cego”: os fiéis primeiro identificariam os candidatos evangélicos, e então espiariam seu programa. Caso não encontrassem nenhum com propostas interessantes, que não hesitassem em buscar entre os ímpios.

Atendendo ao pedido de uma líder que tomava nota de suas palavras, o pastor fez uma rápida análise dos candidatos. Entre os presidenciáveis, de cara descartou os nanicos. Aécio Neves foi sintetizado como “o candidato da direita”: “Ele vai focar nas questões macro, em nível de portos, inflação. Não vai fazer um impacto social, mas não deixa de ser um cara interessante.” Ramalho sugeriu que os fiéis se baseassem no partido: “Você se identifica com o estilo de governo do Fernando Henrique, do Alckmin de São Paulo? Vota nele!”

Seguindo a mesma lógica, disse que Dilma Rousseff dispensava qualquer análise. Ou seja, os eleitores que estivessem satisfeitos com os doze anos de governo do PT deveriam dar seu voto a ela. O pastor manifestou certo incômodo com a falta de clareza da candidata no âmbito religioso: “Ela atira para tudo o que é lado, macumba, igreja.” Nesse quesito, Marina Silva ganhava pontos. “E ela tem propostas interessantes. Mas nunca governou, é uma caixinha de surpresas.”

Ao ver que a conversa tomava outro rumo sem que Ramalho fizesse referência ao pastor Everaldo, um fiel o interpelou. “Ele é um ótimo exemplo daquilo que eu estava falando sobre a obsessão pelos valores evangélicos”, disse o pastor. “Não conheço as propostas, mas também não me informei. Porque ele tem o quê? Três por cento?” O pregador não se deteve sobre a sucessão estadual, apenas mencionou, com desdém, “o candidato do bispo Macedo”.

 

Antes de se lançar a governador do Rio, Marcelo Crivella havia rejeitado convites para compor chapa com Garotinho e Lindbergh Farias. Com Lindbergh, chegou a um pacto de não agressão; com Garotinho, o caldo entornou. Depois de acusar o ex-governador de fomentar a violência nas favelas com Unidades de Polícia Pacificadora, o ex-senador e ex-ministro da Pesca levou o troco de Garotinho: “Crivella, numa linguagem bíblica, está atirando naquele que sempre lhe estendeu a mão e se comportando como um fariseu de olho apenas nos seus interesses materiais.”

A Igreja Universal do Reino de Deus do Flamengo fica 20 quilômetros ao sul do templo do pastor Ramalho. No 2º andar de um sobrado vizinho ao Tribunal Regional Eleitoral, o salão de quase 300 lugares parecia pequeno duas semanas antes do primeiro turno. Não faltava trabalho para os obreiros – fiéis de destaque, com funções dentro e fora dos cultos. De camisa branca e lenço azul-marinho, eles pareciam comissários de bordo – ofereciam óleos de unção, distribuíam envelopes para o dízimo e também operavam máquinas de cartão de crédito.

Uma retardatária abordou uma obreira: “Ainda tem a cartilha? Perdi a minha.” A mulher sugeriu que a fiel anotasse os nomes ou tentasse memorizá-los. “O Crivella é 10; o senador eu não lembro o nome, mas é 100. Para federal, é o pastor Roberto Sales, 1010, e estadual, o bispo Carlos Macedo, 10100. Tudo facinho de lembrar”, disse. À pergunta sobre o candidato a presidente, respondeu: “Para presidente, está liberado. A gente aqui vai votar na Dilma, parece que essa Marina quer liberar o casamento gay.”

Em 2010, quando candidata pelo Partido Verde, Marina Silva já havia se manifestado contra o casamento de pessoas do mesmo sexo, em observância a preceitos de sua igreja, a Assembleia de Deus. Para surpresa da comunidade LGBT, a primeira versão de seu programa neste ano trazia propostas mais avançadas do que as de candidatos não crentes, como Dilma e Aécio. Em menos de 24 horas, porém, o comitê da presidenciável retificou o programa, alegando “falha processual na editoração”. Muitos apontaram outra possível causa para o retrocesso: as críticas de Silas Malafaia no Twitter. “O programa de governo do partido de Marina é pior que o PT e o PSDB, no que tange aos direitos dos gays”, escreveu o pastor para seus quase 800 mil seguidores. Em seguida, a ameaça: “Aguardo até segunda uma posição de Marina. Se isso não acontecer, na terça será a mais dura fala que já dei até hoje sobre um presidenciável.” Depois da retificação, Malafaia passou a fazer campanha para a candidata na internet – mas não foi o bastante para recuperar a imagem dela junto à obreira da Igreja Universal do Flamengo.

 

Na mesma manhã de domingo, o pastor Orlando Almeida pediu aos obreiros que levassem ao púlpito pilhas da última edição da Folha Universal, e explicou: “Recebi uma iluminação do Espírito Santo dizendo que alguém aqui hoje vai fazer uma doação de 3 mil reais para colaborar para o nosso jornal, que é uma das nossas ferramentas na disseminação da palavra do Senhor. Quem vai doar 3 mil reais?” Ao perceber que nenhum fiel se pronunciava, ele baixou o valor: “E 2 mil reais, gente? Quem vai doar?” Novamente, silêncio.

Almeida explicou que não precisava ser em espécie – podiam pagar com cartão –, mas mesmo assim não obteve nenhuma adesão. Como num leilão às avessas, foi diminuindo o valor da doação. Ao chegar a 800 reais, apelou: “Eu recebi esse recado do Espírito Santo, gente! O Espírito Santo é louco? É burro?” Foi só quando estava em 200 reais que uma senhora humilde se dirigiu ao altar com a carteira na mão. O pastor comemorou: “Eu sabia, o Espírito Santo não é maluco, gente!”

Ao final do culto de mais de três horas, Almeida concordou em falar sobre as eleições. Logo de saída, disse que não tocava no assunto nas pregações, e negou que distribuísse cola com o número dos candidatos, pelo menos na sua unidade. “Imagina, com o TRE aqui do lado!”, brincou. A orientação do bispo Macedo é só conversar em particular, e não falar em bispo Crivella, mas candidato Marcelo Crivella. Acrescentou que os fiéis sabem que o Partido Republicano Brasileiro é o partido da Igreja Universal, e conhecem de cor o nome de seus candidatos. “Para presidente, nem estamos nos importando muito”, disse.

O PRB, entretanto, faz parte da coligação de Dilma, e a Universal vem apoiando o PT em nível nacional desde o segundo turno das eleições presidenciais de 2002. Para a professora Maria das Dores Campos Machado, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, a aproximação do PT fez a igreja passar das páginas policiais dos jornais – por denúncias de charlatanismo e lavagem de dinheiro – para as políticas. Ainda que as igrejas evangélicas tenham participado da política desde a primeira metade do século passado, a professora afirma que foi a Universal que impulsionou a politização massiva da comunidade. Crivella, que chegou a ministro, seria o símbolo maior de sucesso dessa empreitada – “Ainda que ele sofra preconceito da elite católica branca”, disse Maria das Dores. “Ele não tem o physique du rôle do pentecostal, mas o vínculo com a Universal causa rejeição.”

A professora sustenta ainda que, apesar de os políticos evangélicos apresentarem pontos de convergência doutrinária, além do projeto comum de conter a secularização da sociedade, não existe uma “bancada evangélica” organizada. “A frente parlamentar evangélica só existe em alguns momentos específicos para pressionar o Executivo, mas é um grupo muito plural, com uma dificuldade imensa de construir consenso”, disse.

 

Quem continua pela orla rumo à Barra da Tijuca chega à praia do Pepê – conhecida pelas ondas propícias ao surfe. A pouco mais de 20 quilômetros da Universal do Flamengo fica um templo da Bola de Neve Church. A igreja, dissidência da Renascer, ganhou fama por sua estética jovem e a frequência de celebridades, como a atriz Danielle Winits e Rodolfo Abrantes, ex-vocalista dos Raimundos. O templo do Pepê capricha na decoração surfista: além da prancha que funciona como púlpito, característica comum a todas as unidades da igreja, exibe uma foto de paisagem com mar, árvores e parapentes, compondo o cenário do altar – que faz as vezes de palco para uma banda.

Numa quarta-feira de setembro, o pastor Felipe Martines deu início ao culto com uma oração de boas-vindas, e em seguida assumiu a bateria da banda. Com muito entusiasmo, os fiéis cantaram cinco canções gospel, acompanhados de uma dançarina que saltitava ao estilo das bailarinas do Faustão. Ao fim da descontraída pregação, o pastor deu alguns avisos, como a novidade do açaí na cantina.

Enquanto arrumava os instrumentos musicais, Martines fez alguns comentários sobre as eleições. Supervisor da Bola de Neve Church no estado do Rio, disse ter autorizado dois fiéis – cujos nomes não revelou –, candidatos a deputado estadual e federal, a tomarem a palavra para divulgar suas propostas. Mas, ressaltou, vetou o uso do nome da igreja na campanha. “Prefiro não revelar em quem eu voto”, disse. “O importante é tirar o PT, que tem medidas pouco cristãs, como a legalização do casamento gay. E também posso te dizer uma coisa: aqui provavelmente ninguém vai de Garotinho, evangélico não é bobo.”

Paula Scarpin

Paula Scarpin é repórter da revista desde 2007 e diretora da rádio piauí

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