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Recordo hata hoi

O diplomata goiano que criou um novo idioma

Ana Saggese
ILUSTRAÇÃO: Andrés Sandoval

Um macacão que lembra o de um apicultor foi o traje escolhido por William Agel de Mello para enfrentar a pandemia do novo coronavírus. Por medo de contágio, o dicionarista, escritor e diplomata goiano de 83 anos vasculhou seus guardados e resgatou a vestimenta usada por ele quando serviu em cinco países do continente africano. “Com essa indumentária, fiquei incólume na Tanzânia, em Zâmbia, na Nigéria, no Zaire e na República dos Camarões. Nunca peguei malária, nem dengue, nem ebola”, ele contou por telefone, de sua casa em Goiânia. “Ora, se as autoridades brasileiras exigissem do povo que usasse essa roupa, a taxa de mortalidade cairia para zero.”

Não fosse a quarentena, o dicionarista estaria na Espanha para participar de duas conferências de filologia, uma nas Astúrias, outra na Universidade de Zaragoza. Aficionado por idiomas, Mello é autor do maior conjunto lexicográfico de línguas neolatinas. Publicou 28 dicionários bilíngues, contrastando o português a idiomas como o sardo, o galego, o provençal e o romeno. Esse trabalho está reunido em duas publicações volumosas, o Dicionário Geral das Línguas Românicas e o Dicionário das Línguas Românicas na Península Ibérica.

Mello estudou direito, mas preferiu seguir carreira diplomática. Quando entrou no Itamaraty, em 1964, já conhecia cinco idiomas: espanhol, latim, inglês, francês e italiano. Cinco anos antes, havia feito seu primeiro dicionário, o de latim-português, e não parou mais. Como alguns léxicos ainda não existiam em nenhuma língua, precisou ir até onde o idioma era falado a fim de estudá-lo, consultando inclusive os habitantes locais, como fez na Sardenha, ilha no Mediterrâneo, para compor os dicionários sardo-português e português-sardo.

De todos os léxicos, o mais trabalhoso foi o romeno-português. “Pois o romeno sofreu muita influência dos idiomas eslavos”, explicou. Mello fala bem nove línguas neolatinas e também se aplicou no alemão e no árabe, idioma de seus ascendentes libaneses. “Fiz um considerável progresso nessas duas, mas nunca cheguei no ponto desejado.” Durante a pandemia, colocou os idiomas de lado e preferiu se dedicar à leitura de obras sobre a Segunda Guerra Mundial. “Chegou a hora de parar. Atingi meus objetivos”, disse, fazendo as contas de tudo que publicou: “Seis mil páginas reunidas em 58 livros.”



 

O conhecimento dos idiomas levou Mello a criar uma nova língua, o panlatino, com o “objetivo de desbabelizar o mundo”, nas palavras do diplomata. A ideia lhe surgiu de um insight que teve aos 13 anos. “Recordo hata hoi. Va tenir l’inspiración en una note d’insomnia”, ele disse, em panlatino, e traduziu: “Lembro até hoje. Tive a inspiração numa noite de insônia.”

Décadas depois, começou a elaborar o panlatino, “matematicamente, por computador”, pois não queria inventar um idioma artificial, como o esperanto, que, segundo ele, “escolheu as palavras ao bel-prazer, sem um critério”.

Para criar a superlíngua, Mello fez um levantamento entre milhares de palavras de línguas e dialetos neolatinos, buscando o que tinham em comum. Assim, por exemplo, a partir do radical “hom”, compartilhado por vários desses idiomas, chegou à síntese panlatina homo para designar “homem”. Não é difícil memorizar estas três palavras panlatinas bastante úteis nesse momento de crise sanitária: pandemía, cuarantena e vaccina.

O novo idioma interessou a estudiosos brasileiros e europeus, mas por enquanto está circunscrito ao ambiente acadêmico. “É um assunto muito especializado”, afirmou Mello, para quem o futuro pertence a três idiomas: o inglês, o mandarim e o espanhol.

 

à parte o trabalho de linguista, Mello se dedicou à ficção e à tradução. Publicou dois romances – Epopeia dos Sertões e O Último Dia do Homem – e dois livros de contos – Geórgicas: Estórias da Terra e Metamorfose. Traduziu toda a obra poética de Federico García Lorca, tarefa que o ocupou por cinco anos e resultou num livro de 776 páginas, publicado em 2012 pela Martins Fontes.

No serviço diplomático, Mello trabalhou ao lado de dois dos principais escritores brasileiros do século XX: João Guimarães Rosa e João Cabral de Melo Neto. Do primeiro, foi subordinado no Serviço de Demarcação de Fronteiras de 1964 a 1967 e, mais do que isso, um amigo dileto. Rosa adorava inventar apelidos para William Agel de Mello, chamando-o de Williãozão, Williamzinho, Catalão ou Iô Wi – o mesmo nome que, em homenagem ao amigo, o escritor deu ao personagem principal do conto Retrato de Cavalo, de Tutameia.

“Acompanhei a criação de Tutameia do início ao fim, da primeira à última página”, disse o linguista. A fim de conferir o ritmo das narrativas e captar as dissonâncias da escrita, Rosa pedia que ele lesse em voz alta os contos do livro. Depois da leitura, o escritor às vezes jogava fora algumas laudas. Mello corria à lixeira e salvava os rascunhos da destruição. Todos esses papéis agora se encontram na reserva técnica da Diretoria de Museus (Dimus), da Secretaria de Estado de Cultura e Turismo de Minas Gerais, em Belo Horizonte. São uma preciosa fonte de pesquisa para quem estuda o processo criativo de Rosa.

O linguista mudou-se para Barcelona em 1967, para trabalhar sob as ordens do cônsul-geral João Cabral de Melo Neto, com quem compartilhava a paixão pela Espanha e por García Lorca. Mas não perdeu o contato com Rosa, que lhe confiou a tarefa de acompanhar a tradução e publicação dos livros dele para o espanhol e resolver eventuais problemas com a editora Seix Barral. “Fico te esperando, Williãozinho. Se você não botar isso a limpo, renego-te, perespúrio-te, desfraso-te, inintelijo-me contigo, trescuro-te, desbosso-te, transblasfemo-te! Olha, hem?”, avisou o escritor mineiro numa das cartas (a Ateliê Editorial publicou a correspondência em 2003).

Foi João Cabral quem deu a Mello a notícia da morte do amigo Guimarães Rosa, ocorrida em 16 de novembro de 1967, poucos meses depois da publicação de Tutameia.

Ana Saggese

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