esquina

Relações bilaterais

Um cantinho congolês no coração do Rio Grande do Sul

Clarissa Barreto
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2010

O vernáculo diria que o calor daquela manhã era senegalês. No caso, porém, não faltaria um espertinho para observar que, mais propriamente, era congolesa a temperatura na cidade gaúcha de Santa Cruz do Sul, pois foi sob um sol doloroso que o sr. Marne Slongo, de 73 anos, composto e solene, entrou no que dali a pouco se tornaria oficialmente o primeiro consulado da República Democrática do Congo no Brasil. Com notável discrição diplomática, ele suspirou de alívio ao sentir que o ar-condicionado mantinha o ambiente em civilizados 20 graus centígrados.

Escoltado por Louis Mumbala Bom, ministro-conselheiro da República Democrática do Congo em Brasília, e Pedro Kibala, secretário da embaixada, o cônsul honorário receberia a imprensa local não só para inaugurar a sala da missão, mas também, se possível, para explicar por que ou para que o primeiro consulado da RDC, ex-Zaire, capital Kinshasa, seria instalado numa das cidades mais europeias do Oiapoque ao Chuí. (Não confundir a RDC com a República do Congo, capital Brazzaville, que implantou uma representação diplomática em Fortaleza, mais perto do continente africano.)

Santa Cruz do Sul – conhecida pela produção de tabaco e pelo desvairado consumo de cerveja na sua Oktoberfest, a segunda maior do Brasil – é um mar de loiros. Grande parte dos cerca de 100 mil habitantes do município descende de alemães. Schmidts e Schneiders pululam na lista telefônica, assim como nas escolas, praças, lavouras de fumo e fábricas de cigarro. (O sr. Slongo, a exemplo de seus conterrâneos, tem olhos azuis e cabelos cor de trigo.) Há boatos, é bem verdade, de que mora na cidade um cidadão congolês, mas decerto não foi por causa dele que a diplomacia congo-brasileira se arrojou ao interior do Rio Grande do Sul. A criatura, se é que existe – “Parece que sim”, admitiu o cônsul, “mas não o conhecemos”, – nem foi convidada.

Investido no cargo, o sr. Slongo poderá emitir vistos e passaportes, formalizar casamentos e liberar navios da RDC. A escassez local de congoleses – e de portos – faz supor que ele se dedicará a tarefas mais de base, tais como fortalecer o comércio entre os dois países e promover o intercâmbio cultural. Não será uma missão simples, caso o parâmetro sejam aqueles jovens santa-cruzenses que, sentados no meio-fio em frente ao prédio, pareciam especialmente desinteressados dos mistérios da cultura congolesa. Fumavam, alheios à cerimônia que se desenrolaria em breve. Em benefício do congraçamento bilateral, portanto, a primeira providência do cônsul talvez devesse ser explicar-lhes onde mesmo fica a RDC. “Na África do Sul?”, palpitou um dos rapazes. Seu companheiro acrescentou: “Não entendo por que aqui em Santa Cruz… Ainda se fosse no Nordeste…” Mais bem informada estava a moça que trabalha na portaria do prédio que abriga a missão. Sabia que o Congo fica no centro da África e que lá se fala francês. “Alguma coisinha a gente conhece”, disse.

 

E foi em francês que Marne Slongo recepcionou o ministro-conselheiro do Congo. “Rouge carpet!”, exclamou, indicando o tapete vermelho esticado do corredor à sua própria mesa de trabalho. Embora um assessor garanta que o sr. Slongo é fluente na língua de Flaubert, aquelas foram as únicas duas palavras em francês que pronunciou durante a inauguração da sala. Acertou 50% delas, errando apenas a ordem em que deveriam ser ditas. Na ocasião, os convidados foram apresentados à bandeira do Brasil e à do Congo, bem como às fotos sorridentes dos respectivos presidentes, Lula e Joseph Kabila.

Foi num evento social no Rio, há dois anos, que teve início o namoro do santa-cruzense com o Congo. Apresentado a Louis Mumbala Bom, Marne Slongo entabulou uma conversa auspiciosa. “Se tu quiseres investir lá”, revelou o empresário, “eles te dão tudo: terra, incentivo, isentam de imposto, tudo. Todo mundo sabe que sou um empreendedor do tabaco. Claro que tenho interesse lá. Falta toda a infraestrutura e eles podem pagar. São ricos em ouro, diamante e madeira”, diz. Ele já visitou o país duas vezes e prepara uma terceira viagem.

Como a entrevista coletiva estava um pouco atrasada, o sr. Slongo aproveitou para mostrar as dependências do consulado à sua mulher, dona Inês: “Olha como ficou a cozinha!” Equipada com geladeira e fogão, recebeu a aprovação de dona Inês, mas talvez seja de pouca serventia, pois Marne Slongo quase não para em Santa Cruz do Sul. Há doze anos, passa vinte dias por mês em Copacabana. No Rio, deixou um cargo executivo na Souza Cruz e, após algumas investidas no setor de tabaco, abriu sua própria fábrica de cigarros, a Cia. Sulamericana de Tabacos, em Duque de Caxias.

Inaugurada a sede, o grupinho se deslocou até o segundo andar de um restaurante, onde os diplomatas receberiam autoridades locais e convidados, tropa grande demais para a exígua metragem das instalações consulares. Dando prova de que não é homem de procrastinar, Marne Slongo iniciou ali mesmo o trabalho de divulgação das coisas congolesas. Seu primeiro e eficiente passo foi postar-se junto a um mapa da África, para ajudar os convivas mais perplexos a localizar melhor a RDC. “Os nossos irmãos congoleses precisam e merecem o nosso apoio”, disse ele, sendo imediatamente secundado pelo ministro-conselheiro Mumbala Bom: “Essa é a hora de ajudar os amigos. E quando o Congo conseguir pegar outros amigos, não acho que as vantagens de amanhã sejam iguais às de hoje.” A frase parece ter soado bem aos brasileiros, acostumados ao convívio abundante de amigos, mas não se descarta a possibilidade de a tradução feita na hora pelo secretário da embaixada ter se perdido nos meandros da língua portuguesa.

Discursos feitos, abriu-se o bufê, enquanto a TV do restaurante passava a exibir Nova África: República Democrática do Congo, documentário com imagens fortes sobre os efeitos de anos de guerra civil e exploração econômica. Apesar do selo de garantia do governo federal – a série Nova África é uma iniciativa da TV Brasil –, os presentes, em vez de se informar, concentraram-se no risoto de camarão, prova de que o trabalho do cônsul Slongo é não só necessário, mas urgente.

Clarissa Barreto

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