despedida

Réquiem para um motel

Roberto Carlos e Sonho de Valsa imperavam no VIP's

Marcos de Azambuja
O Vip’s tinha no Rei o seu trovador. Era o mundo dos lençóis macios, travesseiros soltos e roupas pelo chão
O Vip’s tinha no Rei o seu trovador. Era o mundo dos lençóis macios, travesseiros soltos e roupas pelo chão CREDITO: CAIO BORGES_2019

OVIP’s era simplesmente o melhor motel do mundo. Digo isso sem medo de refutação e apoiado no mais confiável registro: o da minha lembrança de noites muito distantes, quando o Rio de Janeiro era também a melhor cidade que podia existir. Esta crônica é escrita para meus contemporâneos e para quem conhece intimamente o Rio. Mas, como pode vir a ser lida por desafortunados que não nasceram nem viveram na cidade durante aqueles anos dourados, devo lhes oferecer algumas ligeiras coordenadas.

No início da década de 70, a memória ainda era fresca de quando o Rio fora a capital vibrante de uma jovem república – que, no entanto, se permitia governar por um gordo e provisório monarca nos cinco dias mais festivos do ano. Naqueles tempos de poder e glamour, nossas rádios coroavam mais rainhas e princesas do que todas as cortes europeias somadas. Havia no Rio mais misses do que em toda a Califórnia. 

A violência armada era infrequente e o crime estava longe do anonimato desprestigiado das balas perdidas de hoje. Vítimas e assassinos compartilhavam, então, o palco da história. As vítimas, naturalmente, por serem vítimas, e os homicidas porque, naquela época de crimes ditos passionais, conseguiam ser tratados com alguma comiseração, já que vítimas também de terríveis sentimentos, que não sabiam ou podiam controlar. Os grandes delitos não só tinham nome e endereço como povoavam o imaginário da gente: a absolvição da costureira Araci Abelha no crime da machadinha, o assassinato do Sacopã e o brutal homicídio da adolescente Aída Curi em Copacabana. Nelson Rodrigues não viveu no Rio à toa…

Finalmente, havia os enterros, de que os atuais são pálidas lembranças e que reuniam multidões desoladas ou enfurecidas, mas sempre multidões. À beira de túmulos, quase não vemos mais nem os desmaios nem os discursos de antigamente.

A Europa era menos um lugar para onde se ia do que um lugar de onde se vinha. As cicatrizes da Segunda Guerra ainda perduravam, e nos países atrás da Cortina de Ferro a vida era ruim. Tudo pesado e medido, parecia bom ser brasileiro e melhor ainda morar nestas praias.

 

Inaugurado em 1971, o VIP’s – volto a ele – ficava em posição privilegiada no alto da avenida Niemeyer, que margeia o oceano e liga o Leblon a São Conrado. Como se sabe, o mundo civilizado de então acabava logo depois de São Conrado e, para além, só havia imensos descampados e lagunas de onde provinham informações nunca confirmadas da presença de alguma vida inteligente. A Barra da Tijuca e tudo o que ela representa – para o bem e para o mal – ainda estava escondida no futuro.

A Niemeyer era perfeita. Suas curvas permitiam que ali se fizesse o mais arrojado automobilismo. No tempo em que existiam cartões-postais, a avenida era uma das caras do Rio e sua reputação corria o mundo. Logo abaixo dela, por motivos para mim inexplicáveis, havia (ainda há) uma grande caverna de pedra, como se fosse uma catacumba romana. Conhecida na ocasião, como agora, pelo nome de Gruta da Imprensa, nunca aconteceu nada lá dentro. Estará, acredito, esperando algum evento que finalmente justifique sua existência. 

Depois do acerto inicial da construção da Niemeyer, nada mais deveria ter sido feito ali. As intervenções subsequentes revelaram-se todas nefastas, como ficou provado pela malfadada ciclovia que as ondas do mar persistem em derrubar. A ocupação não autorizada das encostas que roçam a avenida levou ao desmatamento, e hoje a Niemeyer está interditada por causa de frequentes deslizamentos. A tênue ocupação irregular dos primeiros anos foi substituída por esses nossos imensos Sowetos à beira-mar. 

O VIP’s ficava mais ou menos na metade da avenida. O trajeto desde Ipanema era longo o suficiente para criar suspense, mas não tão longo a ponto de fazer as moças pensarem melhor e mudarem de intenção. Na época, e suponho que ainda hoje, só elas pensavam quando se viam nessas situações. Um velho Fusca era o transporte perfeito para as circunstâncias por criar uma intimidade ideal entre as partes. 

A arquitetura brasileira tinha no vip’s um florão. A posição do edifício era irretocável. Ficava em frente ao mar e contra a mata, de tal modo que os fregueses não eram vistos nem viam ninguém. O serviço era rápido e também magicamente invisível. Algum impulso romântico levou a direção do motel a cultivar o hábito de colocar pétalas de rosa sobre as camas, alusão talvez a alguma remota e improvável virgindade sacrificada naquele lugar.

Assim como a cidade de Bayreuth está para Wagner e Salzburgo está para Mozart, o VIP’s tinha em Roberto Carlos o seu trovador indispensável. Acho mesmo que não poderia haver um sem o outro. Era o mundo dos lençóis macios, travesseiros soltos e roupas pelo chão. Ali também se cultuava outro clássico brasileiro: o bombom com o nome insinuante de Sonho de Valsa. Que Deus os conserve.

Em junho passado, uma notícia breve e seca informava que o VIP’s, aonde agora só se poderia chegar de asa-delta ou nas asas da memória, tinha fechado as portas não por falta de fiéis, mas por seu acesso ter sido bloqueado devido à interdição da avenida Niemeyer. Era tão bonita a vista de lá e tão sedutora a situação que um dia, seguramente, o motel será reaberto como templo zen. Ou, então, como uma plataforma de onde poetas ainda por nascer olharão as estrelas e as ilhas fronteiras que, à semelhança das namoradas de outrora, ficam na distância certa para parecerem inatingíveis e ao alcance das mãos. 

Marcos de Azambuja

Diplomata, foi secretário-geral do Itamaraty e embaixador do Brasil em Buenos Aires e Paris. É coautor de História da Paz, da Contexto

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