chegada

A revolta dos garçons

O proletariado toma o poder num restaurante do Porto

Adriana Negreiros
A tomada dos meios de produção: até o presidente apareceu
A tomada dos meios de produção: até o presidente apareceu ILUSTRAÇÃO: CAIO BORGES_2020

A Cervejaria Galiza – um dos restaurantes mais tradicionais do Porto, no Norte de Portugal – amargava a pior crise de sua existência. Inaugurada em julho de 1972, estava prestes a fechar as portas no início de novembro do ano passado, esmagada por uma dívida gigantesca. Hoje, cinco meses depois, não continua apenas funcionando: está tendo considerável sucesso. Foi salva por um inusitado choque de gestão que, em vez de se guiar pela cartilha neoliberal, se baseou no ideário marxista.

A tomada dos meios de produção se deu numa segunda-feira. Naquele 11 de novembro, António Ferreira – garçom do estabelecimento há mais de três décadas – descansava em casa quando o telefone tocou. Eram quase dez da noite. Um colega de trabalho contou, nervoso, o que estava acontecendo. Ao desligar, o garçom cumpriu tarefas próprias do agitprop. Ligou para a polícia e para as emissoras locais de televisão. Afinal, precisava de segurança e publicidade. Ligou também para os camaradas do sindicato que representa os trabalhadores do setor. Que o desculpassem se os arrancava da cama, mas a revolução estava chamando.

Por sorte, Ferreira, um tipo magro e grisalho de 57 anos, mora perto da Galiza. Caso demorasse a chegar, não conseguiria evitar o pior: o desmanche da cervejaria. Mesas, cadeiras, garrafas de vinho, caixas com documentos, tudo já estava embalado e pronto para ser levado por um caminhão. A própria dona do estabelecimento, Delfina Amaral, comandava a operação. Ela assumira o negócio havia 26 anos, após a morte do marido, António Moreira Vieira, que fundou a casa.

Famosa pelas cervejas de ótima qualidade e pela boa gastronomia portuguesa – destaque para a francesinha, sanduíche típico do Porto que leva molho picante, carne, linguiça e presunto –, a Galiza sempre teve movimento. A cozinha nunca perdeu a mão, mas o mesmo não se pode dizer da área administrativa. Com o tempo, as dívidas trabalhistas e fiscais cresceram até se tornarem impagáveis. No fim de 2019, rondavam os 2 milhões de euros, ou 10,4 milhões de reais, sem contar débitos com fornecedores. Era um rombo grande demais para uma casa que faturava 1,2 milhão de euros por ano.

Os 31 funcionários desconfiavam que, cedo ou tarde, seriam demitidos. No sábado, antevéspera daquela segunda-feira movimentada, eles tinham feito greve contra o atraso dos salários de outubro e do décimo terceiro de 2018, que os portugueses chamam de “subsídio de Natal”. O levante azedou ainda mais a relação entre a proprietária de 87 anos e os empregados.

Receosos de que a idosa esvaziasse a cervejaria ainda na segunda e decretasse o término das atividades, os trabalhadores criaram a guarda revolucionária, cuja missão era vigiar o restaurante. Combinaram que, a cada hora, alguém passaria em frente à casa e encostaria o rosto na porta de vidro para checar se havia algum movimento estranho lá dentro. Numa das rondas, um garçom viu que o fogão fora retirado da cozinha e colocado junto à entrada do restaurante. Certo de que o temido golpe patronal estava em curso, telefonou para António Ferreira e recebeu o sinal verde: a luta deveria começar já. Os demais funcionários foram convocados a ir até a cervejaria e defender seus empregos. Dezenove atenderam ao chamado.

No instante em que Delfina Amaral e os homens da mudança tentaram sair do estabelecimento, depararam com a barricada de garçons e cozinheiros que haviam acabado de invadir a Galiza, como bolcheviques tomando o Palácio de Inverno. Os sublevados avisaram: não arredariam o pé dali. Tampouco permitiriam que se retirasse um único talher. A polícia e o sindicato chegaram, e os empregados denunciaram o plano da entidade patronal, como se referiam à dona. Violando o Código do Trabalho português, ela pretendia encerrar o negócio sem cumprir as formalidades legais.

A treta avançou pela madrugada. Já que a administração se revelara um fiasco, os revoltosos sugeriram assumir a cervejaria até que se encontrasse um comprador. Em seguida, criaram um soviete composto por um cozinheiro e dois garçons – entre eles, António Ferreira, que, além de líder sindical, é membro do Partido Comunista Português. Foi no sindicato e no PCP, inclusive, que aprendeu os rudimentos do marxismo, com o qual não comunga inteiramente. “Precisamos adaptar a teoria para os dias de hoje”, pondera.

A entidade patronal rendeu-se ao ultimato. O primeiro dinheiro obtido pela nova gestão iria para o bolso dos trabalhadores, de modo a pagar os salários e benefícios atrasados. O restante bancaria a manutenção do restaurante. Quanto às dívidas antigas, aquilo não era da conta do proletariado.

 

Feito o acordo, os funcionários iniciaram uma corrida contra o tempo para abrir o restaurante na terça-feira, 12 de novembro – o primeiro dia da ocupação. Devolveram o fogão à cozinha, arrumaram mesas, desencaixotaram bebidas, conferiram os estoques e abriram as portas.

Depois de ver o noticiário sobre a rebelião, inúmeras pessoas rumaram para a cervejaria. Houve uma aglomeração inédita. Clientes formavam longas filas na calçada e suportavam estoicamente o frio do outono à espera de uma mesa. Dentro do salão, eram só paciência com a demora no atendimento e a falta de itens anunciados no cardápio.

O fenômeno se prolongou por semanas. À freguesia anônima, juntaram-se celebridades e políticos. No sexto dia da ocupação, a coordenadora nacional do partido Bloco de Esquerda, Catarina Martins, compareceu à casa e postou uma foto no Twitter. Centrista, Rui Moreira – presidente da Câmara Municipal, cargo equivalente ao de prefeito – levou deputados e vereadores para jantar no restaurante. Esquerdista, Jerónimo de Sousa, secretário-geral do PCP, também deu as caras. Os tempos de domínio da entidade patronal iriam para a lata de lixo da história.

Na tarde de 6 de dezembro, um Mercedes-Benz Classe E estacionou diante da Galiza. Era um horário de pouco movimento. Do carro, saiu o centrista Marcelo Rebelo de Sousa, nada menos que o presidente de Portugal. Apareceu para “prestar solidariedade” aos insurgentes e perguntar se podia ajudar em algo. “Não depende do presidente da República, como é evidente. Mas se trata de uma casa antiga. Vamos ver se é possível que ultrapasse os cinquenta anos”, disse numa entrevista para a tevê. As câmeras não registraram o momento em que Rebelo de Sousa tomou um “fino”, como os locais chamam o chope servido em copos do tipo tulipa.

Nas duas primeiras semanas de gestão proletária, a cervejaria triplicou o faturamento. Usualmente frequentada por um pessoal na faixa dos 40 anos, passou a atrair jovens de 20 e poucos, uma moçada que, até então, torcia o nariz para os bancos cromados, rodapés altos de madeira escura e garçons trajados à moda antiga. O velho dera à luz o novo. No decorrer de um mês, o pagamento dos funcionários foi normalizado.

Em março, a entidade patronal reconheceu sua incapacidade de pagar as dívidas e decidiu pedir a abertura do processo de recuperação judicial. Um oficial de Justiça deverá calcular o rombo junto aos credores e convocar o leilão da firma, como manda a lei. A quantia resultante da venda será usada para liquidar os débitos. Até agora, Delfina Amaral vem se recusando a dar declarações públicas sobre o assunto.

Os trabalhadores estão confiantes de que o futuro patrão manterá seus empregos. Afinal, até agora, fizeram tudo certo. Sem coaching, mentoring ou business plan, eles não estouraram o budget, valorizaram o branding, acertaram o target e viraram um case no job market. Até topam a mais-valia, desde que recebam em dia.

Adriana Negreiros

Jornalista freelancer, foi editora das revistas Playboy e Claudia. É autora de Maria Bonita: Sexo, Violência e Mulheres no Cangaço

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