esquina

Revolucionários de chuteira

Um time de futebol na luta de classes

Fellipe Bernardino
ILUSTRAÇÃO: Andrés Sandoval_2019

A decisão do Rayo Proletário Futebol Clube de competir no Torneio Marighella de futsal nada ficou a dever aos primeiros conselhos dos sovietes. Os jogadores fizeram uma votação, e a maioria decidiu participar do torneio de um dia apenas e que teria como premiação uma taça com as feições do líder guerrilheiro Carlos Marighella. A competição, exclusivamente para times de esquerda, foi organizada pelo Unidade Popular, que em 10 de dezembro último se tornou o mais novo partido brasileiro. Seriam seis jogos de dezesseis minutos, divididos em dois tempos, para cada time: quatro classificatórios e dois de mata-mata.

Apesar da histórica rivalidade entre comunistas e anarquistas, o Rayo Proletário uniu no campo essas duas ideologias. “Neste momento, não adianta nada mostrar para os anarquistas que Marx destruiu os argumentos do Bakunin na Primeira Internacional”, disse o goleiro Paulo Capa, formado em história e um dos representantes da ala comunista da escalação de cinco jogadores. Ataques recíprocos entre Karl Marx e o anarquista Mikhail Bakunin na primeira Associação Internacional dos Trabalhadores, mais conhecida como Internacional, que durou de 1864 a 1872, são a origem das brigas entre os dois projetos de sociedade. “É besteira ficar discutindo picuinhas quando temos problemas mais sérios no país”, completou Capa.

Da vertente comunista também fazem parte o advogado Douglas Queirós, que joga como fixo, e o vendedor Lucas Santos, que é um dos alas. No futsal, os alas ficam nas laterais, armando as jogadas, e os fixos lembram as funções dos zagueiros. Ex-jogador da categoria sub-15 da Portuguesa, Queirós se afastou do futebol quando entrou para a faculdade, mas se reencontrou com as chuteiras no Rayo Proletário. Ele contou que tem os dois primeiros tomos de O Capital, de Marx, digitalizados em seu computador. “Mas avisa que a versão é de domínio público, senão a editora vem me procurar.”

O único jogador da vertente anarquista é o ala Luigi, estudante de 14 anos, filho do professor de história (e também anarquista) Lucas Fernandes, que ajudou a criar o time junto com Capa e outros estudantes do Centro Universitário das Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU). As primeiras partidas ocorreram na época das eleições de 2018, e o tempo fechado na política brasileira contribuiu para o crescimento do clube, que hoje tem 28 membros.

Eles treinam toda semana na Vila Prudente, Zona Leste de São Paulo, e jogam sempre contra times progressistas. O nome é uma homenagem ao Rayo Vallecano de Madrid, clube do bairro madrilenho de Vallecas, criado em 1924 por futebolistas que depois se opuseram à ditadura do general Francisco Franco, instalada em 1936. “A ideia do nosso clube é divulgar a ideologia por meio do futebol, que é um instrumento fortíssimo”, disse Capa. O Rayo Proletário se opõe ao capitalismo, ao fascismo, à elitização do futebol e a todas as formas de discriminação.

 

Passava das dez da noite quando os jogadores terminaram o treino e foram para o Bar dos Amigos do João, também na Vila Prudente. Locomotivas da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos iam em direção a cidades vizinhas, arrastando ruidosamente os vagões. Oito amigos do Rayo Proletário dividiam, em pé, garrafas de cerveja.

O publicitário Marco Castro, goleiro reserva do time, se interessou pela conversa de Douglas Queirós ao perceber que ele falava do Palmeiras, clube de ambos. “Há um processo de elitização que vem desde 2014, quando inauguraram o estádio palmeirense”, disse Castro. No Allianz Parque, estádio da agremiação, há agora cadeiras marcadas e camarotes, além de refeições de alto padrão. “Outros amigos meus também perderam a empolgação de ir aos jogos com essa elitização da torcida”, completou Castro.

Ele também criticou a elitização das referências culturais da esquerda. “O operário e o caminhoneiro não vão se politizar escutando Caetano Veloso”, disse, e defendeu o futebol como instrumento de mobilização das classes populares. “É uma paixão nacional.”

Lucas Santos se interessou pelo comunismo ao conhecer o Rayo Proletário. “Antes do Rayo, eu já tinha certa identificação com a esquerda, mas nunca foi nada muito assumido como é agora”, afirmou. Ele trabalha com vendas de serviços de tecnologia para estabelecimentos comerciais de São Paulo e faz um curso de análises de sistemas à noite. “É uma loucura trabalhar rodando de uma loja para outra o dia inteiro, quase todos os dias”, disse Santos, que sai do trabalho diretamente para a faculdade, mas sempre encontra tempo para os treinos.

O advogado Jefferson Lima vestiu a camisa do Rayo Proletário depois de se desentender com colegas que passaram a defender o presidente Jair Bolsonaro. A gota d’água foram notícias falsas, difundidas em um grupo no WhatsApp, sobre Ágatha Félix, menina de 8 anos que foi morta durante uma ação da PM no Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro. Antes disso, um dos integrantes de sua antiga turma de futebol tinha compartilhado uma imagem de Adolf Hitler como entregador de gás. “Há coisas que são inaceitáveis. Tudo tem limite”, disse Lima.

 

Fazia 34ºC na cidade de Santo André, na Grande São Paulo, no dia do Torneio Marighella, no último domingo de outubro. Seis times se enfrentaram ao longo do dia.

Ao lado da quadra de esportes, Lucas Santos vestiu o uniforme do Rayo Proletário – vermelho e preto, representando o comunismo e o anarquismo –, calçou as chuteiras, entrou em posição e abriu o placar contra o Foice e Martelo, time de imigrantes (e comunistas) latino-americanos. “A bola veio pra mim, eu dei um corte para o lado e fiz o gol de cobertura no goleiro. A minha moral nessa hora foi lá para cima”, disse.

Apesar do placar de 3 a 1 contra o Foice e Martelo no primeiro tempo, o Rayo Proletário perdeu a primeira partida, que ficou em 4 a 3 para o adversário.

A revanche veio na final, quando os dois times se reencontraram. “A gente já sabia como os caras jogavam”, afirmou o goleiro Paulo Capa. Mesmo assim, a partida foi equilibrada. Terminou em 2 a 2 – e a decisão foi nos pênaltis.

Capa defendeu todas as bolas lançadas pelo Foice e Martelo, e um gol de Luigi decidiu a luta final. Foi o chute anarquista que deu a vitória do Torneio Marighella ao Rayo Proletário Futebol Clube.

Fellipe Bernardino

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