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esquina

Rock contra Bolsonaro

Ex-sargento ganha as redes sociais com canção de protesto

Consuelo Dieguez | Edição 179, Agosto 2021

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Em abril deste ano, o músico Lací Marinho lançou o single Nação Perdida nas plataformas musicais. A canção começa com uma suave batida de violão e dá uma guinada para o rock, assim que a voz forte de Marinho, acompanhada pelos acordes agudos de uma guitarra, reverbera:

Este é o país que inventamos e o país que nós criamos./Tá todo mundo roubando o Brasil,/a mãe gentil vá à puta que o pariu./Essas são palavras de um cara vagabundo./Trabalha numa cúpula/onde as decisões afetam nosso mundo./Por isso foi-se o tempo/em que eu acreditava em dragões./Paisanos fardados, em um país sem nação,/em conversas-fiadas, CPIs concluídas,/castelos de areia, corruptos na cadeia./Minha realidade acabou./Colocaram o patriotismo no bolso/ao tomarem o poder./Perfeitos idiotas,/colarinhos brancos no bem-bom.

No final, após o solo de um trecho do Hino da Independência, o refrão suplica: “Deus salve esta nação.”

A música ganhou as redes e, nestes tempos de tensão política, chegou a ser chamada de “Hino Fora Bolsonaro”. Foi a volta por cima de Marinho e quase uma desforra contra tudo que ele passou nos últimos treze anos, quando ficou sem compor, sem cantar e sem fazer shows. Durante o afastamento, o músico se ocupou basicamente de duas coisas: tratar da epilepsia do lóbulo temporal e brigar com o Exército, do qual fez parte de 1997 até 2012, quando foi mandado para a reserva.

Embora ainda continue na luta contra a doença e contra o Exército, Marinho espera gravar até o final deste ano mais três canções de sua autoria. Nação Perdida não é sua composição preferida, mas ele conta que a música foi um dos motivos de sua reabilitação. Não para o mundo, mas para si mesmo. “Eu estava com esse grito preso na garganta. Muita revolta com tudo o que estamos vivendo. E poder me expressar por meio da música me fez bem, me ajudou a lidar melhor com a doença”, disse ele, numa conversa online.

 

A música, a doença e a corporação militar estão interligadas na vida de Marinho, 49 anos, nascido em Natal, no Rio Grande do Norte. Ele entrou para o Exército como sargento e sempre teve ótima avaliação por parte dos comandantes. Só havia um problema. Marinho é gay, condição que escondeu de seus superiores durante um bom tempo. No final dos anos 1990, ele se mudou para Brasília e engatou um namoro com o também sargento Fernando Alcântara de Figueiredo. O relacionamento foi mantido em sigilo (a piauí contou a história do casal na edição nº 66, de março de 2012).

Na mesma época, Marinho começou a fazer shows nas horas de folga na caserna. Sua especialidade eram os covers de Renato Russo e Cássia Eller. Os shows começaram a atrair a atenção dos brasilienses e, no início dos anos 2000, o músico sargento já fazia sucesso na capital federal. Na imprensa, passou a ser chamado de sargento Cássia Eller, por causa da semelhança da sua voz com a da cantora.

Marinho compôs Nação Perdida em 2002, mas acabou não gravando a canção. “É terrível perceber que ela é atemporal. Ou seja, de lá para cá, a situação do Brasil só piorou. Essa música nunca esteve tão atual”, disse.

Nação Perdida ficou engavetada porque, em 2003, a epilepsia do lóbulo temporal começou a se manifestar, provocando crises de depressão, ansiedade, tonturas e desmaios que deixavam Marinho prostrado. Em 2008, ele estava praticamente incapacitado para continuar no Exército. A corporação aproveitou para prendê-lo e tentar expulsá-lo, alegando deserção, dadas as constantes faltas do militar, justificadas por laudos emitidos por médicos civis.

A perseguição coincidiu com o fato de Figueiredo ter alertado o coronel do Exército, Roberto Henrique Guedes Farias, então diretor do Hospital Geral de Brasília, comandado pelas Forças Armadas, de sobrepreço nas compras de próteses hospitalares. O caso foi posteriormente denunciado à Justiça, o que acabou atraindo a ira de alguns militares do quadro do hospital contra Figueiredo. O parceiro do músico, que vive com ele até hoje, se desligou do Exército e agora trabalha como advogado.

Marinho chegou a ser preso por deserção. A perseguição do Exército foi tão violenta que o Ministério Público Federal entrou com uma ação, pois o músico afirmou que fora vítima de tortura e maus-tratos, principalmente durante o período em que ficou preso. Hoje, o caso dos dois sargentos está na Corte Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA), aguardando julgamento.

Em 2012, o Exército finalmente mandou Marinho para a reserva, mas não concedeu a ele o benefício dado a militares afastados por problemas de saúde: soldo integral ao aposentar e promoção a um posto acima do que tinha até então. Marinho entrou com nova ação contra a decisão, que ainda não foi julgada. “Avalio que essa má vontade acontece porque sou gay e porque denunciamos os desvios no hospital”, disse ele. “O Exército nunca nos engoliu.”

 

No ano passado, Marinho melhorou um pouco de saúde e acatou uma sugestão do guitarrista Henrique Sezoste, seu parceiro nos shows, para que gravassem algumas canções. Depois, levou as gravações para o produtor musical Ricardo Ponte, ganhador de um Grammy Latino, que logo se interessou por Nação Perdida, achando-a muito atual. A música ganhou novo arranjo e virou um rock balada, com percussão de Lucas Donato.

A próxima canção a ser gravada será Virgínia, também composta no começo dos anos 2000. A letra é melancólica. Fala de uma jovem desiludida com o país, a destruição do meio ambiente, a violência e a falta de solidariedade. “Nada mudou de lá para cá. Na verdade, só piorou, e muito. Nada se compara ao que estamos vivendo hoje”, afirmou Marinho.

Ele não esconde sua mágoa com o Exército. Sobretudo com os generais e coronéis que fizeram pressão para que fosse preso e afastado. Também lamenta que os envolvidos com o desvio de verbas no hospital nunca tenham sido punidos. “A imprensa cansou de noticiar que a Justiça Militar nunca pune seus oficiais graduados. Como não são punidos, a impressão é que generais e coronéis não se envolvem com corrupção. Isso é uma ilusão.”

Debochado, Marinho diz que muitos generais sequer sabem conduzir a tropa. “Quem faz isso são os sargentos. Garanto que, se no lugar do general Eduardo Pazuello, quem estivesse à frente do Ministério da Saúde fosse um sargento, essa crise das vacinas e do combate à pandemia não teria acontecido”, provocou. “Nem precisava ser um sargento da infantaria. Podia ser até um sargento corneteiro, da banda de música. Os sargentos músicos certamente fariam muito melhor ao Brasil do que os coronéis e o general que se aboletaram no ministério.”