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Rosa feérica

Em Holambra, a flor holandesa recebeu várias sugestões de nome: Melindrosa, Mesclada, Rosa Gay e Marta Suplicy

Miriam Young
Houve quem considerasse o resultado de um gosto um tanto duvidoso, e até meio cafona
Houve quem considerasse o resultado de um gosto um tanto duvidoso, e até meio cafona FLORIS LEEUWENBERG_TCS_1981

Uma rosa não é uma rosa não é uma rosa não é uma rosa qualquer. Em Holambra, no interior de São Paulo, os visitantes da 26ª Expoflora indagavam: é de verdade? É uma homenagem à causa gay? É comestível? Eles foram os primeiros a ver ao vivo, em setembro, a rosa que tem uma pétala de cada cor.

Na maior feira de flores e plantas da América Latina, 300 mil pessoas passearam entre samambaias, observaram tamanhos diferentes de xaxins, aproximaram os narizes de gérberas, begônias e orquídeas, e fotografaram tudo o que estivesse fincado em um vaso de terra. Todos os dias, ao final da tarde, presenciaram uma chuva de pétalas, providenciada pelo mal-me-quer de 18 mil rosas. Também se deleitaram com shows de danças folclóricas e provaram comida típica da Holanda, o maior produtor mundial das flores. Entre os estandes que reproduziam cogumelos em tamanho gigante, e jardins povoados por coelhos de madeira, o da rosa multicolorida foi o mais visitado.

A flor feérica é produto de uma técnica inovadora de tingimento, que possibilitou, pela primeira vez, a produção em massa de espécimes de várias: uma única rosa tem pétalas amarelas, azuis, laranja, lilases, verdes, rosas e vermelhas. Houve quem considerasse o resultado de gosto um tanto duvidoso, a até meio cafona. Difícil combinar o arranjo colorido com o sofá da sala ou a cor da cortina. No entanto, as 9 000 amostras trazidas ao Brasil pelo holandês Michel de Graaff, ao preço de 15 reais cada, foram avidamente tiradas das prateleiras. Na última semana da exposição, só 2 000 delas ainda estavam à venda.

 

A Rosa Alegre, tradução literal do nome em inglês, veio ao mundo em novembro, fruto do trabalho obsessivo de seu produtor, o também holandês Peter van de Werken, um floricultor de crisântemos da cidade de Rijnsburg, no sul dos Países Baixos. Formado em jardinagem, mas com um interesse particular em ciências, Werken se viu numa encruzilhada quando o lucro da venda de seus buquês atingiu a metade do valor da época em que seu pai comercializava os mesmos crisântemos. Era preciso inovar.

Foi quando ele inventou a primeira máquina de tingimento de crisântemos totalmente automatizada. As flores recebiam doses de anilina na água, o que fazia com que sua corola apresentasse uma mescla de cores, em efeito degradê. A produção ainda era restrita, mas o sucesso foi imediato. Houve no caminho, contudo, uma surpresa: um sócio de Werken roubou-lhe o projeto e se tornou seu maior concorrente.

O holandês voltou à prancheta e ao laboratório. Decidiu enfrentar o desafio de criar flores multicoloridas em escala comercial. Teve a idéia de testar o processo em rosas. O resultado foi surpreendente. Ao contrário dos crisântemos, que exibiam o miolo com cores misturadas, cada pétala de rosa apareceu com uma cor diferente. As possibilidades de criação se mostraram infinitas. A Rosa Alegre dura o mesmo tempo, conserva a mesma textura e tem o mesmo aroma da rosa original.

Em 2002, o homem que trouxe a Rosa Feliz para o Brasil, Michel de Graaff, de 35 anos, deixou a Holanda e instalou-se no Ceará, para cultivar rosas por diletantismo. Há dois anos, transferiu-se para Holambra, onde montou um empreendimento de produção e venda de flores decorativas. Em novembro, assim que passou a ser comercializada, Graaff viu a Rosa Alegre em uma feira, a Aalsmeer Market, no interior da Holanda. “Fiquei atônito”, contou. “Se aquilo era possível, tudo era possível.” Imediatamente, fez a encomenda para a Expoflora.

De sua casa, na Holanda, Werken, o inventor da Rosa Feliz, não revela os segredos mais recônditos da sua descoberta. A péssima experiência com o sócio ensinou-lhe o surrado jargão de que o segredo é a alma do negócio. Ele disse que ainda não decifrou em detalhes o fenômeno, mas contou que a base do processo é a mesma da técnica tradicional: mergulhar as flores numa tintura e depois na água.

Para conseguir a separação das cores, ele concebeu uma solução que contém diversos pigmentos. As flores conseguem isolar as tonalidades porque cada uma delas possui uma estrutura molecular diferente. O segredo também parece depender de um princípio básico da natureza, o de que as plantas separam naturalmente os compostos químicos absorvidos do solo, para usá-los como nutrientes. Alguma coisa ocorre – e é isso que Werken esconde -, fazendo com que cada pétala ganhe uma cor própria. Depois de embebidas em tal mistura, as rosas são mergulhadas em outras soluções químicas, que ajudam a estabilizar as cores. Mais do que isso, Werken não conta. Nada diz sobre uma nova máquina inventada por ele, que parece estar escondida atrás de uma barreira complexa de caixas empilhadas em seu escritório.

 

É muito mais difícil criar flores a partir de uma seleção controlada de cores do que com uma mescla infinita aleatória, mas Werken conseguiu alguns exemplos. Um deles é o de uma combinação verde e amarela, que seria um excelente complemento para as lapelas do presidente Lula e da primeira-dama, Marisa, no próximo 7 de setembro.

No próximo mês, a experiência com cores controladas será colocada à prova. O banco holandês Rabobank, cuja logomarca é em tons de laranja e azul, fez uma encomenda milionária de rosas nas duas tonalidades para seu estande numa das principais feiras comerciais do mundo, em Amsterdã.

Os cuidados com a Rosa Alegre são os mesmos reservados às flores comuns: trocar a água do vaso a cada três dias e cortar o pé do caule num ângulo de 45 graus, para atingir maior superfície de contato com a água. É recomendável, também, arrancar todas as folhas antes de mergulhar o caule na água. As folhas, informam os floristas, são grandes focos de bactérias.

“A Rosa Alegre ainda engatinha”, diz Werken. O sucesso de sua experiência tem apenas dezoito meses. Se um dia será possível cultivá-las em casa, ele ainda não sabe. Mas já se debruça sobre o projeto de criar um composto químico para o solo, a fim de viabilizar a idéia.

A organização da Expoflora inventou um concurso para que os brasileiros escolhessem um apelido para a Rosa Alegre. Quem entrava na feira ganhava um papelzinho para votar. Foram contabilizados 15 mil votos. Entre os nomes sugeridos, estavam Tropicália, Rosa do Amor, Melindrosa, Mesclada, Rosa Gay, Rosabela, Chuva de Tinta e Rosa Multicolorida. Os mais citados foram Aquarela e Arco-Íris. Houve um voto, de um visitante do Mato Grosso, para batizar a flor de Marta Suplicy. O pessoal da Expoflora não entendeu nada.

Miriam Young

Miriam Young é jornalista e trabalha na agência The Cover Story, na Holanda.

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