esquina

Rumo ao guinness

O dicionarista da Baixada

Bernardo Esteves
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2019

Conta a mitologia grega que, para seduzir Leda, rainha de Esparta, Zeus tomou a forma de um cisne, e da união de ambos nasceram dois filhos. A cena virou motivo recorrente da pintura ocidental desde o Renascimento – na versão de Michelangelo, uma ave se insinua com o rosto aninhado entre os seios da mulher e o corpo enroscado entre suas pernas. Para o professor de português Wagner Azevedo, o mito está por trás da expressão “afogar o ganso”, que designa o ato sexual. A explicação não é unânime, mas Azevedo cravou a origem grega no Dicionário de Animais com Outros Significados, que lançou no ano passado pela Drago Editorial.

Com mais de 2 200 verbetes, o livro compila expressões do dia a dia que envolvem bichos variados: pagar o pato, estar com a macaca, fazer uma vaquinha, soltar os cachorros. Um dos casos preferidos do autor é o do bacurau, ave de hábitos noturnos. “Mas bacurau pode significar também um indivíduo notívago ou o ônibus que passa de madrugada”, contou. Azevedo lançou mão de outro exemplo quando evocou a história de Leda e o cisne: “Zeus era muito galinha”, disse, às risadas.

Wagner Azevedo Pereira é um homem de 44 anos de barba desenhada e cabelo comprido preso num rabo de cavalo. Nasceu e vive em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. Fascinado pelas palavras, pode entrar numa loja e pedir um mantel, em vez de uma toalha de mesa, só para ver a reação dos vendedores. Mas não revelará que a palavra é uma das cerca de mil entradas do seu Dicionário de Catacrese, lançado em dezembro último pela Chiado Books, de Lisboa, e dedicado às metáforas que acabaram absorvidas pela língua na falta de um termo mais específico: peito do pé, maçã do rosto, nó na garganta.

Antes disso o dicionarista havia lançado em 2016 pela Editora Autografia uma compilação de onomatopeias, as palavras e expressões construídas a partir dos sons que evocam – como tique-taque ou bem-te-vi, mas também farfalhar e ronronar. O livro de estreia é um volume robusto de 568 páginas em formato A4. Azevedo não pretende parar por aí. Em 2019 vai publicar mais um dicionário e afirma ter outros quatro prontos. “Com esses oito, já está legal para entrar no Guinness, o Livro dos Recordes”, afirmou.

O dicionarista quer ser reconhecido pelo volume e pelo ineditismo de sua obra. É possível achar em sebos livros dedicados a onomatopeias e catacreses, mas o autor delimita de forma específica o recorde que pleiteia. “A pessoa vai ter que publicar mais que eu, em mais editoras, não pode ser mais velho e nem ter mais títulos que eu”, enumerou. “Já bloqueei um galerão aí.”

Filho de eletricista e dona de casa, o dicionarista mora sozinho num apartamento de dois quartos num conjunto habitacional do Minha Casa, Minha Vida. Espalhados pela sala de estar há um violão, um teclado e um amplificador. Azevedo estudou música por dez anos antes de entrar para a faculdade e chegou a se apresentar em bares e restaurantes. As canções da MPB estimularam seu interesse pela língua portuguesa, e ele foi estudar letras na Uerj, a Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Formado em 2013, ganha a vida dando aulas particulares e fazendo revisão de monografias.

Seu primeiro dicionário reunia verbetes sobre música escritos na década passada e se perdeu numa enchente em 2007. Aquela era a única cópia do manuscrito – preocupado com o ineditismo da obra, Azevedo vivia driblando os amigos que lhe pediam um exemplar do trabalho. “Mas está tudo na minha mente”, afirmou o autor, que pretende refazer o livro.

O estalo que fez dele um dicionarista inveterado veio alguns anos depois, quando passou por suas mãos um trabalho acadêmico sobre onomatopeias que trazia um glossário ao final. “Aí quis fazer o meu”, contou. Azevedo desenvolveu então o método que usa para escrever todos os seus dicionários. Passou a preencher com zelo fichas em folha de rascunho com palavras encontradas nas leituras da faculdade, onde conheceu Machado de Assis, Guimarães Rosa e Lima Barreto. “Fiquei apaixonado e comecei a pesquisar palavras por conta própria.” Feitas nas horas passadas em bibliotecas públicas do Rio de Janeiro, as fichas são a base de dados para os verbetes que trazem sempre a referência ao volume em que ocorre a palavra ou expressão. Gibis, com sua profusão de pows, smacks e vrums, e canções da MPB também viraram fonte de pesquisa. “Rita Lee tem muitas onomatopeias, Ary Barroso, Zeca Baleiro, Chico César”, enumerou.

Com o primeiro volume concluído, Azevedo foi atrás de editoras dispostas a publicá-lo. “Quando a Autografia respondeu que topava, chorei”, contou. O próprio autor custeou a edição dos três dicionários que lançou. Não revelou o valor investido ou as tiragens, mas disse que vendeu rapidamente os noventa exemplares que recebeu do livro de estreia. A obra foi citada no programa de Fátima Bernardes e o dicionarista deu entrevistas para o rádio e a tevê.

Seu próximo livro será o Dicionário de Plantas com Outros Significados, com previsão de lançamento para o segundo semestre. Azevedo explicará expressões como plantar bananeira, enfiar o pé na jaca ou descascar um abacaxi. Será seu quarto título lançado pela quarta editora – dessa vez a Multifoco, que vai dividir com o autor os custos da edição.

Azevedo tem outros quatro dicionários na gaveta, incluindo um volume dedicado à obra de Guimarães Rosa, cuja publicação depende de negociações com o espólio do escritor. “Quero botar isso para fora logo, a gente não sabe o dia de amanhã”, afirmou. O autor voltou a estudar – está no quinto período de direito na Uerj –, mas não pensa em fazer pós-graduação. “Estou com a cabeça nos dicionários”, afirmou. “Mestrado e doutorado eu deixo para depois. A prioridade é o Guinness.”

Bernardo Esteves

Repórter da piauí desde 2010, é autor do livro Domingo é dia de ciência, da Azougue Editorial

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