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    Eike Batista antes e depois: a empresa faliu, mas a manutenção continua FOTO: AG NEWS // FOTO MENOR: DIVULGAÇÃO

chegada

Rumo ao topo

O brasileiro de 27 bilhões de dólares aparece com uma peruca italiana de 50 mil reais

Paula Scarpin | Edição 50, Novembro 2010

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Com seu novo louro bege repicado, a primeira-dama Marisa Letícia era quem deveria brilhar. Mas quando o empresário Eike Batista apareceu numa festa beneficente organizada pelo cabeleireiro Wanderley Nunes, no mês passado, ninguém teve topete para encará-lo. E não só porque ele é o homem mais rico do Brasil. Até outro dia, esparsos e longos fios tingidos de acaju começavam a cobrir-lhe a cabeça um palmo inteiro acima das sobrancelhas. E eis que ele adentrou a solenidade tirando da fronte uma espessa franja castanho-escura.

O cerrado chumaço parecia falar por si só, ter vida própria. Destacava-se em cor e textura do que parecia ser o tapete capilar original. Densa e escura por cima, a cobertura de tufos parecia sufocar um punhadinho esquálido de fios grisalhos e finos que teimavam em brotar do couro cabeludo.

Semanas depois, Eike Batista foi fotografado por paparazzi correndo na Lagoa, no Rio. Mais uma vez, a frondosa ramagem impressionaria até Sansão. Mas havia um detalhe: embalada pela velocidade do corredor, a neocabeleira foi flagrada balançando ao sabor do vento. Até parecia cabelo.

Em setembro, numa entrevista ao programa Roda Viva, o empresário falou pela primeira vez do assunto peludo. Depois de ele discorrer sobre petróleo, mineração, ações e investimentos, finalmente lhe foi perguntado sobre o audaz penteado. “Quer pôr a mão?”, ele disse, curvando-se a 90 graus na cadeira e oferecendo a capilossada à apresentadora Marília Gabriela. Diante da negativa, propagandeou: “É Tricosalus. Um tratamento capilar extraordinário. Recomendo a todos.” Ah, bom!

Patenteado há mais de quarenta anos pela Cesare Ragazzi Company, empresa com sede em Bolonha, na Itália, a Tricosalus é uma técnica de combate à calvície. Mas o mistério perdurou: a empresa garante que não se trata “nem de implante, nem de peruca, nem de aplique”.

Na Itália, o garoto-propaganda do negócio é o próprio Cesare Ragazzi, um tipo de 69 anos, bronzeado cor de tijolo, bigode sarneyziano e melenas abastadas, se bem que tingidas de um marrom duvidoso. Nos anos 80, o comercial da empresa se tornou um ícone da televisão italiana, seguramente uma das mais cafonas da Europa: Ragazzi pulava no Mediterrâneo, nadava, beijava uma loira submersa e, ao sair da água, friccionava freneticamente uma toalha na cabeça para mostrar como um ex-careca poderia levar uma vida normal se recorresse ao Tricosalus.

Com o slogan “Cabelo para quem tem cabeça”, a companhia de Ragazzi anuncia ter 900 mil clientes em 34 filiais pelo planeta afora. “Nossa técnica é exclusiva e secreta”, desconversou Ana Maria Ventura, sócia da franquia brasileira da marca junto com o marido, o italiano Alessandro Corona. Mas ela acabou contando algo sobre a coisa: “Usamos cabelo natural, de doadores. A aplicação é feita fio a fio, respeitando o posicionamento relativo ao redemoinho da cabeça e a variação de cores.”

 

Além de 27 bilhões de dólares, Eike Batista tem no portfólio três implantes de cabelo. Nos meses seguintes à inoculação, o topo da testa coberto de folículos lembrava o de uma boneca de brinquedo. Os meses passavam e os fios pareciam cair um a um, até o retorno à prévia situação desértica. Fazia um novo implante e o ciclo se repetia. Aí o empresário leu uma reportagem sobre Ragazzi e o Tricosalus

No ano passado, marcou consulta no instituto. Como os donos da franquia viajavam a negócios, foi recebido por um clínico italiano recém-chegado ao Brasil. Nem a recepcionista, e muito menos o médico, sabiam quem era o novo cliente. Passaram-se vinte minutos e Eike Batista não se conteve: “Você não sabe quem eu sou?”, perguntou ao médico. Ao ouvir a negativa, informou-o: “Sou o oitavo homem mais rico do mundo.” Na visita seguinte, os proprietários o esperavam em pé, na porta.

Durante oito meses, submeteu o couro cabeludo, a digamos assim, uma adubagem. Se o paciente tiver uma calvície recente, a probabilidade de os bulbos capilares serem recuperados é alta. Nesses casos, recomenda-se o tratamento com produtos específicos para o fortalecimento e engrossamento dos fios. Quando os fios se tiverem ido em tempos imemoriais, caso de Batista, a recomendação é a técnica secreta de Ragazzi, a Capelli Naturali a Contato. A clínica não informa do que se trata. É preciso que um calvo de truz marque uma consulta para saber como funciona.

A explicação que um amigo careca recebeu foi a seguinte. Primeiro, se colhe uma amostra de cabelo do paciente, que é mandada pelo correio para os laboratórios Ragazzi, em Lugano, na Suíça. No mesmo pacote, vai junto um estudo detalhado em 3D do formato da cabeça, da área crítica de desmatamento e da direção de nascimento dos fios do paciente.

Em Locarno, os cabelos de doadores anônimos (da mesma textura e coloração do calvo brasileiro) são delicadamente costurados sobre uma película muito fina. Essa película adere à pele da moleira com um grude desenvolvido pela empresa. Em resumo: uma peruca – uma peruca colada ao couro cabeludo. Foi dito ao amigo calvo que é possível molhar, pentear, puxar, escovar e até fazer um rabo de cavalo sem o risco de a prótese se soltar.

Ele ouviu duas recomendações essenciais. Para manter a qualidade dos fios, e evitar o entupimento de poros da pele sob a prótese, é necessário que o paciente utilize 24 produtos da linha Tricosalus, entre cremes, xampus, condicionadores, pastas e pomadas. Também é capital o retorno mensal à clínica para fazer a manutenção. Por 375 reais por vez, a prótese é retirada, lavada e a cabeça asseada.

 

Eike Batista ficou tão satisfeito com o resultado que autorizou a clínica a expor fotos suas antes e depois do procedimento, como exemplo de sucesso do tratamento. No álbum de fotos mostrado aos clientes, há três imagens dele. Na primeira, antes do tratamento, vê-se a baixa qualidade do implante anterior. Na segunda, o empresário posa com uma redinha onde é dimensionado o tamanho da calvície e, na última, ele aparece rindo, com o novo cabelo. De acordo com a clínica, a peruquinha dura até oito anos se for bem conservada.

Variando conforme a área a ser restaurada, o procedimento custa entre 30 mil e 70 mil reais. No caso de Eike Batista, cobrou-se 50 mil por ter sido feito de uma só vez, numa sessão que durou três horas. “Geralmente, os pacientes preferem a recuperação gradual, para dar a impressão de que os cabelos voltaram a crescer naturalmente, mas o Eike não se importa com o que os outros pensam”, explicou o italiano Alessandro Corona, marido de Ana Maria e também sócio da franquia.

Para o cirurgião plástico paulista Ricardo Lemos, da Associação Brasileira de Cirurgia da Restauração Capilar, o método de Ragazzi é “uma enganação”. E explicou por que: “Eles fazem essa malandragem, dizem que é uma técnica revolucionária e não divulgam o método. Mas você chega lá e é uma peruca colada na cabeça”, comentou.

Lemos é adepto do método tradicional de transplante, aquele que transfere os fios do alto da nuca para o cocuruto. Com uma agulha, os bulbos são plantados na região calva e germinam espontaneamente. O cabelo volta a crescer de forma natural por tempo indeterminado. “E como o cabelo transplantado é do próprio paciente, a técnica não tem rejeição, ao contrário de outros transplantes”, explica. É o método mais usado na base aliada: tanto o deputado Paulo Maluf, como o ex-ministro José Dirceu, passaram por ele mais de uma vez.

Talvez Eike Batista não saiba, mas em outubro um tribunal de Bolonha aceitou o pedido de falência da Cesare Ragazzi Company. Os mais de 100 funcionários pediram licença extraordinária de um ano, na tentativa de salvar seus empregos enquanto a empresa busca um comprador para sair do buraco. Talvez o cliente mais rico da Company tenha interesse no negócio.