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    ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2014

esquina

Samba com pretzel

O último judeu da Praça Onze

Rose Esquenazi | Edição 89, Fevereiro 2014

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O senhor magro, de olhos azul-celeste, manda abrir a porta de casa quando ouve a visitante procurar pelo Pinduca. O apelido, inspirado no menino traquinas dos quadrinhos lançados nos anos 30, lhe foi dado na infância pelo irmão mais velho. E não sem motivo. “Eu tenho história para tudo”, avisa Maurício Bemkes – o Pinduca –, mais antigo morador de uma vila de 58 casas próxima ao Sambódromo, na Praça Onze, no Centro do Rio de Janeiro.

O lugar, hoje meio decadente, guarda resquícios do casario derrubado há setenta anos para a abertura da avenida Presidente Vargas. Aos 78 anos, Bemkes, nascido e criado na casa térrea em que vive, é o último representante de uma época em que quase toda a população da Vila Dr. Alberto Sequeira era de imigrantes judeus do Leste Europeu. “Aqui só tinha gente iídiche”, conta ele. Não faltavam o shochet – o açougueiro que matava as galinhas de maneira ritual –, a parteira e a mulher que lavava os mortos.

Quando criança, Pinduca chegou a pular o Carnaval num estrado que era armado onde hoje está a estátua de Zumbi dos Palmares. Ali ficava a Praça Onze de Junho propriamente dita – um espaço retangular gramado com um chafariz no centro, cercado de sobrados comerciais, e que foi todo abaixo, junto com a primeira sinagoga do Rio, para a construção da avenida. Brincavam juntos os filhos de imigrantes judeus e os de ex-escravos que se instalaram na região e a consagraram como o berço do samba carioca.

 

 

Conhecido como “o último judeu da Praça Onze”, Maurício Bemkes se mantém um grande contador de casos apesar de um AVC que há nove anos lhe tirou os movimentos da perna e do braço esquerdos. Na tarde de 23 de fevereiro, ele será homenageado pelo Rancho Carnavalesco Praça Onze, capitaneado pelo maestro e saxofonista Ricardo Goldfeld Szpilman e integrado por outros músicos – Leonardo Fuks, Daniel Bitter, Daniela Spielmann e Daniel Grosman – cujos antepassados moraram na vila.

O repertório incluirá canções judaicas como Um Violinista no Telhado e A Yiddishe Mame, mas executadas em ritmo de samba, marcha, afoxé e maracatu. Num ensaio que o rancho fez em janeiro, Pinduca ficou emocionado ao ser apresentado ao saxofonista e pintor Daniel Grosman. “Você é filho do Samuelzinho? Pode ver, ele fez essa dentadura para mim há mais de cinquenta anos e ainda está boa”, disse, descobrindo naquele momento que o dentista já havia morrido.

Durante o ensaio, Armênio Pereira da Silva, morador antigo e incentivador do tombamento da vila, contou que o que mais gostava no convívio com os judeus eram os bolinhos de carne, de receita russa. “Minha mãe, que era portuguesa, não entendia por que eu preferia aquele prato aos bolinhos de bacalhau.” Falou-se dos moradores ilustres do lugar, incluindo a família de Senor Abravanel, o Silvio Santos, e a rezadeira Tia Carmem, que costumava receber visitas da prima Tia Ciata – em cuja casa, ali perto, foi composto Pelo Telefone, o primeiro samba gravado.

 

 

A história de Maurício Bemkes embaralha as tradições que se encontraram na Praça Onze nas primeiras décadas do século XX. Seu pai, o russo Peres Bemkes, era soldado e desertou do Exército do czar. Veio direto para o Brasil, deixando a mulher com dois filhos numa cidade perto de Moscou. “Diziam que meu pai jamais mandaria passagens para ela. Mas ele mandou. E ainda pediu que trouxesse aquela panela para fazer chá, o samovar”, conta Bemkes. No início dos anos 30, o casal alugou a casa na vila. “Meu pai trabalhava com antiguidades e ouro. Era ótimo comprador e péssimo vendedor, não sabia fazer negócios.”

O menino gostava de mergulhar na antiga praia da Virtude, na Praça XV, que deixou de ser virtuosa com a poluição da Baía de Guanabara. Certa vez, no Carnaval, ele pegou uma calcinha da irmã e colou tirinhas de papel para fazer uma fantasia de havaiano. Ao mergulhar, saíram todas as fitas. Quando se viu em traje feminino, começou a chorar. De vergonha, mas não só. Pinduca não tinha dinheiro para o bonde. Embarcou clandestino e só desceu quando avistou o irmão, que saíra de casa para procurá-lo.

Bemkes estudou apenas três anos, na escola Talmud Torah, na Tijuca. Quis ser jogador de futebol, mas o sonho não se realizou. Também não gostou de estofar móveis. Trabalhou durante dezesseis anos na Marinha Mercante, e foi demitido. O jeito foi se empregar no jogo do bicho, como apontador. Não se pode dizer que tirou a sorte grande, mas o dinheiro bastou-lhe para comprar a casa da vila.

 

Pinduca se casou com Celi, já falecida. Ele fica com os olhos marejados ao falar da mãe dos três filhos. Mulata que conheceu em um baile, Celi aceitava a tradição judaica de Bemkes, mas era evangélica. Hoje, moram com ele a filha Cheiva, de 44 anos, homônima da avó russa, e a neta Júlia, de 3.

As memórias gustativas enchem a boca de Pinduca. Ele se lembra dos varenikes, pastéis cozidos recheados de cebola e batata, feitos pela mãe, e dos beigueles, folhados recheados, que comprava na rua Benedito Hipólito. No bar Salada Paulista, procurava o melhor sanduíche do bairro, com presunto, mortadela, alface, tomate, palmito e cebola. “Ah, também tinha pretzels de cebola e torta de queijo na loja da dona Syma.”

No Bar Capitólio, Bemkes jogava sinuca, mas muitas vezes era intimado a sair da boemia para participar do minyan, grupo de dez homens reunidos para as orações. Todo ano, Pinduca vai até a Sinagoga Kehilat Yaacov, em Copacabana, onde ganha vinho, matzá (pão ázimo, sem fermento), dois frangos e um cheque de 350 reais para festejar as principais datas judaicas.

Ele agradece a ajuda, mas não é religioso. Gosta mesmo é do Carnaval. Além do desfile do rancho de Szpilman, Pinduca se prepara para a tradicional reunião momesca de antigos moradores da Praça Onze, que acontecerá em 2 de março. Já encomendou a uma vizinha os salgados que levará para o encontro, no térreo do edifício “Balança Mas Não Cai”, na mesma Presidente Vargas onde jaz parte do seu passado.

Rose Esquenazi

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