esquina

Sanfoneiro de verdade

Aos 9 anos, um prodígio do instrumento em Pernambuco

Fabio Victor
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2020

No centro do palco de um auditório lotado, o menino se acomoda na cadeira. É tão miúdo que as pontas dos pés mal tocam o chão – por vezes, as perninhas balançam no vazio. Quando começa a tocar Brasileirinho, dedilhando freneticamente os teclados e os 120 baixos de sua sanfona, a plateia vai ao delírio. Emenda o clássico de Waldir Azevedo à Milonga para as Missões, de Gilberto Monteiro, e o entusiasmo do público aumenta. A essa altura, já está claro que os dois outros finalistas da nona edição do Festival de Sanfoneiros de Feira de Santana na categoria de até 14 anos teriam poucas chances. Wendell Ayel de Souza Freitas, de 7 anos, ainda banguela dos dentes da frente, terminou vencedor e levou para casa, em 22 de maio do ano passado, um troféu e 4 350 reais.

Desde o sucesso no festival, organizado pela Universidade Estadual de Feira de Santana, na Bahia, vídeos do sanfoneiro mirim se espalharam pelas redes sociais, alcançando milhões de visualizações. Hoje, com 9 anos recém-completos, Wendell do Acordeon, nome artístico do prodígio de Itapetim, cidade no sertão pernambucano, diz que tirou de letra a novidade de tocar diante de tanta gente. “Foi fácil, eu já estava treinado. Pai me preparou foi para fazer aquilo mesmo…”, diz, numa conversa por videochamada.

Os pais de Wendell são de famílias de pequenos agricultores. A mãe, Alane Carine de Souza Melo, formou-se psicopedagoga e trabalha na Prefeitura de Itapetim, onde recebe um salário mínimo (1 045 reais) por mês. O pai, Leandro de Souza Freitas, já fez de tudo na vida: foi pedreiro, carpinteiro, recenseador do IBGE, balconista, frentista, criador de galinhas. Também é músico, toca baixo e guitarra na banda de forró do cantor Seu Marquinhos. “Tem que procurar uma maneira de sobreviver dignamente, e nunca consegui sobreviver da música. Antes da pandemia estava começando a conseguir.” Freitas não toca sanfona, mas orienta o filho autodidata desde que ele tinha 3 anos. “Procuro videoaulas na internet, pego as notas e passo para ele.” Wendell resume sua evolução: “Quando eu era menor, tinha música que eu levava um ano para aprender. Agora aprendo em dois dias, às vezes em um dia.”

Primeiro o pai presenteou-lhe com um violãozinho. O pirralho arranhou o instrumento, mas se identificou mesmo foi com uma sanfoninha de brinquedo que o avô materno lhe deu em seguida. “Quando ele viu a sanfona, abandonou o violão”, conta Freitas. Um ano depois, o brinquedo já não dava conta do talento do menino. O pai vendeu uma motoca elétrica de Wendell, inteirou 400 reais e comprou uma sanfona de verdade, de 32 baixos. “Quando ele fez 6 anos, essa também ficou limitada, ele estava travado”, recorda-se.



Apareceu então na cidade uma sanfona profissional de 120 baixos, oriunda dos Estados Unidos, com escala reduzida, perfeita para o garoto. A família fez o que pôde para adquiri-la: vendeu por 600 reais um bezerro que Wendell ganhara do avô e completou com um teclado de Freitas. É nessa sanfona que o garoto toca até hoje.

 

O segundo acontecimento da carreira artística de Wendell foi a participação, em outubro do ano passado, no programa Sanfonas do Brasil, na TV Ceará. O apresentador (e sanfoneiro) Rodolf Forte não poupou elogios, definindo o garoto como “um gênio” e “um ser iluminado”.

Aluno do quarto ano do ensino fundamental em uma escola municipal de Itapetim, Wendell tem matemática e artes como suas matérias preferidas. E quando não está na escola ou tocando sanfona? “Vou para o sítio do meu avô limpar mato, tirar ração para os bichos.” O pai fica algo constrangido, diz que não estimula o garoto a fazer tais tarefas, mas que ele adora a roça. Wendell confirma. “Rapaz, quando eu crescer, eu vou ser sanfoneiro e acho que vou trabalhar também na roça. Eu tenho vontade de ser agricultor.”

Nos vídeos, Wendell está sempre de bermuda e sandálias havaianas, ao ar livre, em paisagens rurais – no sítio onde vive com os pais ou em meio aos roçados do avô. Toca um xote diante de uma plantação de feijão, um forró diante de uma pequena lagoa.

Embora sua consagração no festival baiano tenha vindo com a execução de um choro e uma milonga, é o forró que domina o repertório de Wendell, representante de uma linhagem de sanfoneiros nordestinos cuja divindade é Luiz Gonzaga e seu discípulo maior, Dominguinhos. Indagado sobre qual sanfoneiro admira, Wendell não hesita: “Dominguinhos.” E daqui a pouco vai tocar como ele? “Não… Dominguinhos é o maior sanfoneiro do mundo. Como é que eu vou tocar que nem ele?”

 

Por obra e desgraça da pandemia do novo coronavírus, o último São João, em junho, foi acanhado e triste para os nordestinos, que realizam na época sua maior festa popular. Não houvesse o vírus, Wendell decerto faria shows em festas e poderia concorrer pela segunda vez no Festival de Sanfoneiros em Feira de Santana – não mais entre as crianças, porque o regulamento não permite, mas entre os adultos. Chegou a se inscrever, mas o evento acabou cancelado por causa da pandemia.

Foi durante esse São João chocho que o Brasil deparou com outro sanfoneiro, sem o talento de Wendell. Em 25 de junho, Jair Bolsonaro convidou o presidente da Embratur, Gilson Machado Neto, para participar de uma live que, em tese, seria sua primeira homenagem às vítimas da Covid-19. Empunhando uma sanfona, Machado Neto assassinou a Ave Maria de Gounod, ao lado de Bolsonaro e do ministro da Economia, Paulo Guedes. Nem Wendell nem seu pai haviam visto a apresentação. Freitas preferiu não comentar sobre o vídeo. “Melhor não causar polêmica”, disse.

Sem as festas de São João nem o repeteco do festival, surgiu ao menos um consolo. Estava programada para 9 de agosto, Dia dos Pais, a primeira live de Wendell do Acordeon, no canal da tv Pajeú no YouTube, acompanhado dos cantores Galego do Pajeú e Papelão, e de uma banda da qual Leandro Freitas estava escalado para ser o baixista. “Eu não poderia ter presente melhor nesse dia”, derrete-se o pai.

Fabio Victor

Foi repórter da piauí. Na Folha de S.Paulo, onde trabalhou por vinte anos, foi repórter especial e correspondente em Londres

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