esquina

Sangue, suor e rímel

Sopapos generalizados na capital do Pará

ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL

Faz calor no único camarim da casa de shows A Pororoca. O lugar é apertado, as paredes de azulejos brancos estão úmidas e as dezenas de lutadores, produtores e assistentes que se espremem ali dentro tornam o ar ainda mais pesado. Num canto, dois espelhos de corpo inteiro são disputados na base do empurra-empurra. Antes de entrar no ringue, os lutadores fazem poses, exibem seus golpes, ajeitam a roupa e retocam a maquiagem. Está para começar o 1º Vale-Tudo Gay de Belém do Pará. 

A Pororoca é um enorme galpão que, de quinta a domingo, abriga shows de forró e tecnobrega. Está localizado na área mais perigosa do bairro da Sacramenta. Num ringue armado no meio da pista de dança, a drag queen Lili Maçaneta faz as honras da casa. O público não se anima muito com o humor peculiar de Maçaneta. Talvez porque na platéia se vejam poucos gays – a maioria é composta de senhoras, homens, casais e até crianças -, talvez porque a turma queira mesmo é ver pancada. Quando Maçaneta anuncia um malabarista de fogo, o público vaia. Pede que os lutadores subam logo no ringue. 

O malabarista é retirado de cena. O DJ solta “Eye of the Tiger“, trilha sonora do filme Rocky III. Lili Maçaneta anuncia que a luta vai começar. Aplausos. No ringue, duas lutadoras lésbicas, Negão e Silvinho. “Vocês querem o quê?”, grita a mestre-de-cerimônias. “Porrada!”, responde o público.

A campainha toca. Primeiro round. Um minuto depois, recomeçam as vaias. São merecidas: o baixo nível técnico da dupla é acachapante. “Dá porrada que isso não é telecatch”, grita, irritado, um senhor sentado próximo do ringue. Em vão. Passados dez minutos, o juiz, um negro corpulento de apelido Geléia, dá a vitória por pontos a Silvinho. Ninguém se manifesta. A luta termina em silêncio.

É preciso que Douglas Pituco e Juju Thay subam no ringue para que os ânimos se exaltem. Pituco é moreno, de estatura mediana e relativamente musculoso. Ao contrário dos outros lutadores, está de cara limpa e não usa roupas justas, apenas um short de boxeador. Juju Thay é menos sóbrio. Veste um short de lycra, traz sombra nos olhos e um coque impecável.

Geléia dá início à luta. Como uma fera, Juju parte para cima de Pituco e o joga nas redes. Pituco fica atordoado. São golpes e mais golpes, por cima, por baixo, pelos lados. Golpes violentos, indefensáveis. Pituco tenta reagir, mas não há trégua. Juju ganha a platéia. “Quebra a cara dela!”, “Dá porrada nesse fresco!”, são os gritos mais entusiasmados. Juju se empolga e redobra a carga. Tudo indica que as favas de Pituco estão contadas. Erro grave. O rapaz encontra forças para dar um chute no quadril do agressor. Juju acusa o golpe. Não consegue mais andar, manca bastante. Incapaz de seguir adiante, pede a Geléia que pare a luta. Pituco ressurge do abismo e é declarado vencedor. A platéia o aplaude formalmente. Juju sai do ringue carregado. Alguns comentam: “É o campeão moral”.

Ao todo serão seis lutas: duas amistosas entre lésbicas, duas competitivas entre gays e duas amistosas entre lutadores heterossexuais. Os vencedores das lutas gays se encontrarão na grande final. O campeão e os vencedores das lutas amistosas levarão mil reais para casa – chamariz suficiente para que lutadores heterossexuais entrem no ringue num evento essencialmente gay. No camarim, imploram que Lili Maçaneta deixe bem claro que eles não são gays.

“Na passarela, Leonardo e Diego! E eles não são gays!”, anuncia Maçaneta. São dois garotos, não mais de 20 anos, especialistas em muay-thai. Tecnicamente a briga é boa, mas não chega nem perto do nível de violência atingido por Pituco x Juju. Próxima do ringue, acompanhada de amigas, a namorada de Leonardo tapa o rosto e chora toda vez que ele apanha do adversário. Os juízes dão a vitória a Leonardo, por pontos. A namorada vibra. Além do dinheiro, Leonardo recebe dois frascos de perfume oferecidos pelo patrocinador. Leonardo agradece. Às voltas com todo um novo vocabulário, meio sem jeito, tenta ser correto: “Não existem lésbicas, nem gays, nem transgênicos: somos todos seres humanos”. É aplaudido.

 

A canção “Eye of the Tiger” introduz a segunda e última luta gay da noite. Monique Thally – “a travesti barraqueira” – e Bodó entram no ringue. Monique está maquiada, tem o cabelo preso num rabo-de-cavalo e veste um collant preto e vermelho. Bodó veste short preto de lycra. Seus cabelos são laranja. A luta é violenta e rápida. Bodó ataca com uma série de socos e derruba Monique. Monique reage e parte para cima de Bodó. O público fica de pé. O travesti tenta aplicar golpes desesperados, mas recebe um soco certeiro no rosto. Nocauteada, Monique desaba. Bodó termina o serviço a pontapés. Finalmente o público tem a luta que tanto queria. Sangue e violência. Um grupo de três crianças dispara a gritar “Bo-dó! Bo-dó!”, sem parar. O coro contagia a platéia e atravessa o salão. Monique ainda tenta se levantar, mas Geléia,prudente, acha melhor interromper.

É hora do grande evento: Pituco x Bodó, a luta derradeira. Os dois sobem no ringue ao som, mais uma vez, de “Eye of the Tiger“. A platéia claramente já escolheu seu campeão. Bodó é o nome da hora. O nome dele é gritado com entusiasmo. A luta começa e dura exatos 30 segundos. Mal Geléia autoriza o início do combate, Bodó enche o adversário de sopapos. Pituco tenta se proteger, mas vai a nocaute. Emocionado, Bodó começa a chorar. O ringue é invadido por Maluquinho, treinador do campeão. Os dois se abraçam. Bodó é cercado pela imprensa. Gravadores são estendidos, perguntas são feitas. Bodó não quer falar de sua vida de cabeleireiro no bairro do Telégrafo, não quer falar da vitória. De microfone em punho, quer que a platéia saiba como se orgulha em ser gay, como é duro o preconceito. Sua fala é abafada pelos gritos da multidão.O malabarista é retirado de cena. O DJ solta “Eye of the Tiger“, trilha sonora do filme Rocky III. Lili Maçaneta anuncia que a luta vai começar. Aplausos. No ringue, duas lutadoras lésbicas, Negão e Silvinho. “Vocês querem o quê?”, grita a mestre-de-cerimônias. “Porrada!”, responde o público.

A campainha toca. Primeiro round. Um minuto depois, recomeçam as vaias. São merecidas: o baixo nível técnico da dupla é acachapante. “Dá porrada que isso não é telecatch”, grita, irritado, um senhor sentado próximo do ringue. Em vão. Passados dez minutos, o juiz, um negro corpulento de apelido Geléia, dá a vitória por pontos a Silvinho. Ninguém se manifesta. A luta termina em silêncio.

É preciso que Douglas Pituco e Juju Thay subam no ringue para que os ânimos se exaltem. Pituco é moreno, de estatura mediana e relativamente musculoso. Ao contrário dos outros lutadores, está de cara limpa e não usa roupas justas, apenas um short de boxeador. Juju Thay é menos sóbrio. Veste um short de lycra, traz sombra nos olhos e um coque impecável.

Geléia dá início à luta. Como uma fera, Juju parte para cima de Pituco e o joga nas redes. Pituco fica atordoado. São golpes e mais golpes, por cima, por baixo, pelos lados. Golpes violentos, indefensáveis. Pituco tenta reagir, mas não há trégua. Juju ganha a platéia. “Quebra a cara dela!”, “Dá porrada nesse fresco!”, são os gritos mais entusiasmados. Juju se empolga e redobra a carga. Tudo indica que as favas de Pituco estão contadas. Erro grave. O rapaz encontra forças para dar um chute no quadril do agressor. Juju acusa o golpe. Não consegue mais andar, manca bastante. Incapaz de seguir adiante, pede a Geléia que pare a luta. Pituco ressurge do abismo e é declarado vencedor. A platéia o aplaude formalmente. Juju sai do ringue carregado. Alguns comentam: “É o campeão moral”.

Ao todo serão seis lutas: duas amistosas entre lésbicas, duas competitivas entre gays e duas amistosas entre lutadores heterossexuais. Os vencedores das lutas gays se encontrarão na grande final. O campeão e os vencedores das lutas amistosas levarão mil reais para casa – chamariz suficiente para que lutadores heterossexuais entrem no ringue num evento essencialmente gay. No camarim, imploram que Lili Maçaneta deixe bem claro que eles não são gays.

“Na passarela, Leonardo e Diego! E eles não são gays!”, anuncia Maçaneta. São dois garotos, não mais de 20 anos, especialistas em muay-thai. Tecnicamente a briga é boa, mas não chega nem perto do nível de violência atingido por Pituco x Juju. Próxima do ringue, acompanhada de amigas, a namorada de Leonardo tapa o rosto e chora toda vez que ele apanha do adversário. Os juízes dão a vitória a Leonardo, por pontos. A namorada vibra. Além do dinheiro, Leonardo recebe dois frascos de perfume oferecidos pelo patrocinador. Leonardo agradece. Às voltas com todo um novo vocabulário, meio sem jeito, tenta ser correto: “Não existem lésbicas, nem gays, nem transgênicos: somos todos seres humanos”. É aplaudido.

 

A canção “Eye of the Tiger” introduz a segunda e última luta gay da noite. Monique Thally – “a travesti barraqueira” – e Bodó entram no ringue. Monique está maquiada, tem o cabelo preso num rabo-de-cavalo e veste um collant preto e vermelho. Bodó veste short preto de lycra. Seus cabelos são laranja. A luta é violenta e rápida. Bodó ataca com uma série de socos e derruba Monique. Monique reage e parte para cima de Bodó. O público fica de pé. O travesti tenta aplicar golpes desesperados, mas recebe um soco certeiro no rosto. Nocauteada, Monique desaba. Bodó termina o serviço a pontapés. Finalmente o público tem a luta que tanto queria. Sangue e violência. Um grupo de três crianças dispara a gritar “Bo-dó! Bo-dó!”, sem parar. O coro contagia a platéia e atravessa o salão. Monique ainda tenta se levantar, mas Geléia, prudente, acha melhor interromper.

É hora do grande evento: Pituco x Bodó, a luta derradeira. Os dois sobem no ringue ao som, mais uma vez, de “Eye of the Tiger“. A platéia claramente já escolheu seu campeão. Bodó é o nome da hora. O nome dele é gritado com entusiasmo. A luta começa e dura exatos 30 segundos. Mal Geléia autoriza o início do combate, Bodó enche o adversário de sopapos. Pituco tenta se proteger, mas vai a nocaute. Emocionado, Bodó começa a chorar. O ringue é invadido por Maluquinho, treinador do campeão. Os dois se abraçam. Bodó é cercado pela imprensa. Gravadores são estendidos, perguntas são feitas. Bodó não quer falar de sua vida de cabeleireiro no bairro do Telégrafo, não quer falar da vitória. De microfone em punho, quer que a platéia saiba como se orgulha em ser gay, como é duro o preconceito. Sua fala é abafada pelos gritos da multidão.