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    A viagem de Woody Allen é harmoniosa; a de Gérard Depardieu, pontuada por conflitos CAIO BORGES_ESTÚDIO ONZE_2011

questões cinematográficas

Sarcasmo e reverência

A mordacidade de Mamute como contraponto ao fascínio de Meia-noite em Paris

Eduardo Escorel | Edição 58, Julho 2011

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Nos dois filmes, o personagem principal faz uma viagem ao passado. Fora isso, mesmo sendo comédias situadas na França, Meia Noite em Paris e Mamute têm pouco em comum. O humor de um encanta, o do outro é agressivo.

Escrito e dirigido por Woody Allen, Meia-noite em Paris narra a volta ao passado de Gil Pender – insatisfeito roteirista de sucesso em Hollywood. Mamute, realizado por Benoît Delépine e Gustave de Kervern, acompanha Serge Pilardosse – empregado recém-demitido de um frigorífico – ao retraçar seus próprios passos nos trinta anos anteriores.

Woody Allen desenvolve uma visão mítica de Paris, enquanto Benoît Delépine e Gustave de Kervern fazem um retrato impiedoso de um segmento da sociedade francesa. O diretor americano idealiza a cidade, a dupla de franceses flagela seus conterrâneos.

 

Tipos físicos opostos, Owen Wilson e o imenso Gérard Depardieu interpretam personagens simplórios com uma missão a cumprir – escrever um romance, no caso do roteirista Gil Pender; conseguir comprovantes de antigos empregos que assegurem sua aposentadoria integral, no do desempregado Serge Pilardosse. Crédulos e desastrados, ambos são seres em extinção, e parecem remanescentes de mamutes soltos numa cristaleira.

A viagem de Meia-noite em Paris é harmoniosa; a de Mamute, pontuada por conflitos. Gil Pender é acolhido de braços abertos ao entrar em contato com celebridades de outras épocas. Serge Pilardosse é humilhado, agredido e roubado ao longo do caminho.

Realizando quarenta filmes nos últimos 45 anos, com a impressionante média de quase um por ano, o septuagenário Woody Allen adquiriu rara naturalidade na maneira de filmar, além de ter se livrado das amarras do realismo. Fazendo incursões regulares pela fantasia desde, pelo menos, Sonhos de um Sedutor, de 1972, dotou seus filmes de linguagem translúcida, deixando de lado qualquer preocupação em problematizar os pressupostos dominantes da narrativa cinematográfica. Fazendo humor ingênuo e atraente, embala e conduz Meia-noite em Paris com maestria, transitando pelo presente, anos 20 e Belle Époque, chegando ao Antigo Regime sem causar estranheza.

 

 

Benoît Delépine e Gustave de Kervern, por sua vez, embora estejam na faixa dos 50 anos, são cineastas novatos, cujas carreiras foram iniciadas na televisão. Mamute é apenas o quarto filme da dupla, que estreou no cinema em 2004. Conhecidos por paródias e sátiras, tomam o sarcasmo por princípio, articulando tons e formas heterogêneos.

Longe de serem autodidatas, Delépine e Kervern almejam, porém, algo semelhante à arte bruta, definida como a das obras feitas por pessoas alheias à tradição e ao sistema artístico – solitários, crianças, pacientes de hospitais psiquiátricos etc. que buscam inspiração na subjetividade, e não na arte clássica ou na moda.

A pista para identificar essa filiação de Mamute, antagônica em tudo à linhagem de Woody Allen, é dada pela sobrinha de Serge Pilardosse, Solange, interpretada pela multiartista Miss Ming, fazendo uma personagem inspirada nela mesma. Tratada como louca, faz esculturas, sendo a do próprio tio descrita por ela como “um gigante por fora, doce por dentro. O coração feito com um elefante, as mãos com coelhos e o pênis com um macaquinho peludo”.

 

Recusando de maneira deliberada qualquer ideal de unidade, Delépine e Kervern reúnem situações bizarras, grotescas e absurdas, filmadas em planos longos, sem decupagem da ação, nas quais predomina o realismo cru, mesmo havendo uma aparição fantasmagórica. Como se as imagens tivessem origens diferentes, fotografia e câmera alternam registros bem definidos com imagens granuladas e oscilantes, sem que exista razão lógica para essa variação.

Sarcásticos em relação a seus personagens, Delépine e Kervern tampouco poupam a linguagem cinematográfica, procurando evidenciar os diferentes meios narrativos a que recorrem. O resultado tem interesse, mas pode ser pouco atraente para quem não aprecia humor negro.

À irreverência dos diretores de Mamute, contrapõe-se a reverência irônica de Woody Allen. Enquanto a dupla francesa é mordaz com seus personagens, o americano tem fascínio pelos ícones das culturas europeia e americana. A lista de escritores e artistas que Gil Pender encontra é longa, vai de Toulouse-Lautrec a um perplexo Luis Buñuel, a quem sugere o argumento do que viria a ser O Anjo Exterminador.

Em filme de base realista como Mamute, causa estranheza o viajante Serge Pilardosse, atrás de modesta aposentadoria, guardar na garagem uma Münch Mammut 1973,  moto alemã ao alcance apenas de quem for capaz de pagar cerca de 190 mil reais por um modelo exclusivo e pouco econômico. Incongruência semelhante às repetidas aparições da paixão da juventude de Pilardosse – vítima fatal de um acidente, interpretada por uma Isabelle Adjani sempre ensanguentada e de olhos esbugalhados.

 

Sem nenhum compromisso com verossimilhança, Meia-noite em Paris não causa incômodo quando o roteirista Gil Pender é levado do presente para o passado em um luxuoso carro dos anos 20 que passa pontualmente quando um sino bate meia-noite. Aceita a premissa de que se trata de fantasia, Meia-noite em Paris só ameaça desandar quando pretende justificar a volta no tempo do seu personagem principal. Terá faltado confiança para levar o mergulho no imaginário às últimas consequências? Anátema do cinema comercial, a ambiguidade é eliminada em favor do didatismo. Ao explicar, através do diálogo, que o passado não está morto e o presente é sempre insatisfatório, Woody Allen trinca o encanto e empobrece Meia-noite em Paris. Abre caminho para o sucesso de público, mas empobrece o filme.

Meia-noite em Paris e Mamute têm também desfechos semelhantes, embora o tom final seja diferente. Gil Pender reencontra a jovem vendedora do antiquário – bela e charmosa – que, ao contrário da noiva, gosta de andar na chuva. Chegando de volta, quem está à espera de Serge Pilardosse é sua mulher mandona, tão pesada quanto ele, surpreendida no ato prosaico de depilar as axilas.

Eduardo Escorel
Eduardo Escorel

Eduardo Escorel é cineasta. Dirigiu os documentários Antonio Candido, anotações finais, Imagens do Estado Novo 1937-45 e 1968 – Um ano na Vida, entre outros filmes

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