esquina

Sardinha forever

O torcedor símbolo da Portuguesa.

Fernando Cassaro
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL

Em noite de temperatura agradável, a equipe da Portuguesa perdia em casa um jogo fácil contra o Brasiliense quando, aos 32 minutos do primeiro tempo, apagaram-se os refletores do estádio do Canindé. Com a partida interrompida, o lustrador de móveis aposentado Leonardo Garcia, de 73 anos, foi para trás do banco de reservas da Lusa. Ali, por exatos sete minutos, ofendeu a mãe de cada jogador, duvidou da orientação sexual de alguns, pediu mais raça e concluiu com a seguinte exortação: “Se vocês perderem esse jogo, nem me apareçam no treino amanhã. Eu vou quebrar a cara de cada um.”

A Portuguesa virou o jogo e venceu por 3 a 1. “Você não viu? Só começaram a jogar bola depois que imprensei eles na parede.” Leonardo Garcia, majoritariamente conhecido como Sardinha, não tem dúvida de que cumpriu seu dever.

Com uma surrada calça bege afivelada na altura do umbigo e uma indefectível camisa azul-bebê, ele é presença certa nos jogos do time desde a década de 50. No Canindé, destaca-se pelo seu método pouco ortodoxo de acompanhar as partidas: passa o jogo inteiro na beira do alambrado, correndo de um lado para outro em marcação cerrada sobre o bandeirinha que vigia o ataque da Portuguesa (Sardinha muda de lado no segundo tempo). Enquanto isso, palavrões de toda estirpe vão saltando de sua garganta e se transformando numa discreta babinha branca no canto do lábio.

Não importa o placar, não importa se as marcações estão certas ou erradas: Sardinha não muda o seu balé. “Se eu chego no Canindé e olho para ele, não consigo saber se o time está vencendo ou perdendo por 4 a 0”, diz o maestro João Carlos Martins, de 70 anos, grande intérprete de Bach e ilustre torcedor da Portuguesa. “Ele é um símbolo nosso. Pudera todo time contar com torcedores como ele!”



 

O romance de Sardinha com a Associação Portuguesa de Desportos teve início em 1951, quando ele tinha 14 anos. O garoto se apaixonou numa fase áurea da equipe. A Lusa conquistou dois torneios Rio-São Paulo (em 52 e 55) e por três vezes (51, 53 e 54) recebeu a Fita Azul, condecoração oferecida pela CBD, a Confederação Brasileira de Desportos, antecessora da atual CBF, aos clubes que representavam bem o Brasil em partidas no exterior. “Era Muca; Nena e Noronha; Djalma Santos, Brandãozinho e Ceci; Julinho, Renato, Nininho, Pinga e Simão” – recitada por Sardinha, a escalação da época soa como um mantra.

Leonardo Garcia mora com uma irmã no bairro do Sacomã, na Zona Sul de São Paulo, depois de se frustrar com dois casamentos, em parte por causa do regime de dedicação absoluta à Portuguesa. Não tem filhos. Quando não está no Canindé, gosta de jogar truco e dominó com os amigos: “Mas nada a dinheiro. Já vi muita gente se endividar feio assim.” Receoso da violência de torcidas adversárias e por medo de ser sequestrado (vá lá saber…), não usa mais a camisa rubro-verde do clube, não dá o endereço a ninguém e, quando é descoberto por algum torcedor lusitano em suas caminhadas na Praia Grande, no litoral paulista, finge que não é com ele.

Não se lembra de quando começaram a chamá-lo de Sardinha, mas, pelo que lhe consta, o apelido pertencia a outro torcedor que adotava um modus operandi semelhante ao seu. Com a morte do primeiro Sardinha, o apelido foi herdado por seu Leonardo, que não gosta muito da alcunha. Ainda assim, está pretendendo registrá-la e concorrer à Câmara de Vereadores de São Paulo em 2012. “Vou fazer como o Tiririca. Quero lutar pelos direitos da Portuguesa.”

Direitos que, segundo ele, raramente foram respeitados ao longo de 90 anos de história do clube. Com o texto e a raiva na ponta da língua, ele nomeia os dois maiores vilões da história lusitana no Brasil: os árbitros Armando Marques e Javier Castrilli. Calhordas imensos, ímpios titânicos. O primeiro teria deixado de marcar um pênalti em Cabinho na decisão do Campeonato Paulista de 1973, falha que levou a decisão para a cobrança de pênaltis – seguindo-se, então, o famoso erro de contagem que obrigou a Lusa a dividir o título com o Santos. Já o argentino Castrilli marcou nas semifinais do Campeonato Paulista de 1998 um pênalti inexistente para a equipe do Corinthians. Cobrança convertida, eis que a Portuguesa estava fora da decisão do torneio. Sardinha não tem dúvida: “Ninguém quer ver a Portuguesa campeã. Eles fazem de tudo para impedir.”

O escritor Jorge Caldeira, de 54 anos, também costuma bater ponto no Canindé. Lá pelos idos de 90, ele começou a notar a desenvoltura daquele senhor que se esfalfava no alambrado. “O DNA desse tipo de torcedor desapareceu. Ele é uma figura em extinção”, afirma. Seu livro Ronaldo: Glória e Drama no Futebol Globalizado é dedicado ao bravo Sardinha.

A vida de dedicação à Portuguesa inspira outras manifestações de respeito e admiração. Alguns torcedores pedem um busto de Sardinha na porta do Canindé. Outros, mais exagerados, querem que ele assuma a presidência do clube, ideia que não agrada ao próprio. Uma comunidade do Orkut, com 696 membros, faz homenagens e denúncias de toda sorte, no melhor estilo Sardinha de ser. Também já se cogitou confeccionar um bandeirão em sua honra.

Sardinha foi condecorado com uma medalha pelo clube, pela grande ajuda que deu na construção das arquibancadas do Canindé. Não só contribuiu com 500 cruzeiros, mas pôs a mão na massa para transformar as instalações de madeira em 21 mil assentos de concreto. A obra foi dada por concluída em 1981, com a entrega dos refletores. “A maioria dos portugueses fica em casa ouvindo jogo pelo radinho. Se fossem 21 mil Sardinhas, seria outra coisa.” Ele é filho de espanhóis, mas seu fervoroso casamento de 59 anos com a Lusa lhe dá o direito de falar umas verdades sobre os patrícios.

Fernando Cassaro

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