chegada

Sardinhas versus tubarões

O movimento dos jovens italianos contra o populismo de extrema direita

Lucas Ferraz

Em frente à única livraria de Tor Bella Monaca, bairro periférico de Roma, o queniano Stephen Ogongo mantinha o largo sorriso que o caracteriza enquanto montava uma tenda branca e aguardava a vinda de outros militantes. Juntos, iriam se encontrar com moradores locais e travar uma conversa que se estenderia por duas horas. Parte dos ativistas chegou numa Kombi verde, alugada especialmente para a ocasião. Os faróis dianteiros do automóvel exibiam improváveis cílios postiços, tão compridos quanto engraçados. Presa nas janelas, uma rede de pesca sacolejava à medida que a perua avançava. Peixinhos de papelão, muito simples, se espalhavam pela lataria. Eram o símbolo dos Sardinhas – movimento que, embora surgido há apenas dois meses e meio, tem virado a política italiana de ponta-cabeça.

Naquele sábado de janeiro, os militantes faziam uma incursão por cinco bairros romanos, alguns de classe média, outros mais pobres. O périplo começou às dez da manhã nos arredores do Vaticano e só terminou no fim da tarde. Batizado de “Sardinha Amplifica Sardinha”, o tour almejava ouvir os anseios da população para incorporá-los à pauta do movimento. “Talvez os Sardinhas nem existam… A verdade é que nenhum de nós sabe direito onde isso tudo vai dar”, conjecturou Ogongo quando lhe pedi para definir o grupo. Com 45 anos, ele reside na Itália desde 1995. Emigrou do Quênia para estudar jornalismo, fez doutorado em comunicação, se tornou professor na área e dirige uma associação que defende imigrantes. Também ajudou a promover a maior manifestação do coletivo até agora, que levou cerca de 100 mil pessoas à tradicional Praça San Giovanni, de Roma, em 14 de dezembro.

O ato que lançou o movimento ocorreu exatamente um mês antes. Em 14 de novembro, o senador Matteo Salvini – populista que comanda a Liga, partido de ultradireita – protagonizou um comício numa arena esportiva de Bolonha, capital da Região Emilia-Romagna. O evento inaugurava a campanha da Liga para as eleições locais de janeiro de 2020. Aproximadamente 6 mil correligionários marcaram presença. Na mesma noite, pelo menos o dobro de pessoas se reuniu numa praça da cidade e vociferou contra o senador extremista. Quatro jovens amigos – um engenheiro, um guia turístico, um ambientalista e uma fisioterapeuta – convocaram o protesto via Facebook. Com irreverência, pediram aos revoltosos que se empenhassem em lotar a praça, ainda que tivessem de ficar apertados como sardinhas. Daí o nome do movimento. “Caros populistas, a festa acabou”, decretou o quarteto num manifesto divulgado uma semana após o ato.

Político mais popular da Itália, o tubarão Salvini já ocupou os cargos de vice-premiê e ministro do Interior, mas hoje está na oposição. O Partido Democrático, de centro-esquerda, governa o país em parceria com o 5 Estrelas, que se proclama um “movimento pós-ideológico”. Conhecido pela incontinência verbal, o senador de 46 anos persegue imigrantes, rejeita “os burocratas da União Europeia”, aplaude líderes truculentos como o norte-americano Donald Trump, o húngaro Viktor Orbán e o brasileiro Jair Bolsonaro, flerta com os neofascistas e costuma beijar rosários católicos durante aparições públicas.

 

Depois do contra-comício de Bolonha, outros críticos de Salvini se valeram das redes sociais para organizar novos atos em diversas partes da Itália: Veneza, Nápoles, Pádua, Módena, Florença, Turim… Foram 132 só no primeiro mês e, atualmente, já passam de 150. Os Sardinhas encontram-se agora em todas as vinte regiões do país. Não bastasse, ultrapassaram as fronteiras italianas e realizaram ações em dezenas de cidades estrangeiras, como Berlim, Paris, Londres, Madri e São Francisco. O movimento se sustenta principalmente por meio de doações. O dinheiro custeia tanto a impressão de panfletos quanto o aluguel da estrutura necessária para as manifestações e da Kombi usada em Roma.

Se de início os Sardinhas centravam fogo quase que exclusivamente no senador e na Liga, hoje também levantam a bandeira do humanismo, pregam o respeito às instituições e recomendam o emprego de um linguajar educado pelos políticos, sem expressões chulas nem ofensas pessoais contra os adversários. Em paralelo, denunciam o racismo e a propagação de informações falsas pela internet, além de reprovar o abstencionismo eleitoral. Nos protestos, sempre entoam o hino antifascista Bella Ciao.

Salvini tratou de minimizar os atos e, com o sarcasmo costumeiro, disse preferir os gatinhos às sardinhas. Os felinos, afinal, “têm sete vidas e comem os peixinhos”. Ele ressaltou ainda a peculiaridade de um movimento que ataca a oposição e não o governo.

“O italiano é um povo do contra. Sempre vai se posicionar contra alguma coisa”, observou o historiador Giordano Bruno Guerri, um dos principais estudiosos do período fascista, que estava em Roma quando se deu a grande manifestação de dezembro. “À semelhança de outros coletivos que despontaram na Itália, os Sardinhas nasceram de um impulso e se alastraram rapidamente. A tendência é que desapareçam logo, como os demais.” Em 2002, por exemplo, o país se viu sacudido pelos discursos pró-democracia e pró-legalidade do Girotondi. O movimento se opunha aos desmandos do então primeiro-ministro Silvio Berlusconi e agregava intelectuais e artistas, a exemplo do cineasta Nanni Moretti. Sumiu em pouco mais de um ano.

Na avaliação de alguns analistas políticos, os Sardinhas já cumpriram um papel fundamental, mesmo que se revelem meteóricos. Eles colocaram em xeque a alegação de que Salvini é o único capaz de reunir multidões na Itália de hoje. Também auxiliaram Stefano Bonaccini, do Partido Democrático, a derrotar a candidata do senador, Lucia Borgonzoni, nas eleições para a presidência da Emilia-Romagna, ocorridas em 26 de janeiro. A região permanece, assim, sob o controle da esquerda, como acontece desde a década de 1940.

Sem um comando central e formado majoritariamente por jovens, os Sardinhas se identificam bastante com a esquerda. Não à toa, o Partido Democrático – que está em crise de identidade e mal consegue encher uma praça – convidou os principais líderes das manifestações para ingressarem na legenda. Todos recusaram. Um deles, Mattia Santori – o ambientalista que ajudou a convocar o primeiro protesto em Bolonha e virou celebridade –, acha que o coletivo precisa continuar como “um movimento de opinião” e seguir influenciando a política a partir das ruas. Stephen Ogongo concorda. “Muitos falam que os Sardinhas são de esquerda, e vários integrantes se apresentam assim. Eu me recuso a pensar dessa maneira”, afirmou o queniano, que promete abandonar o barco caso o grupo se transforme num partido. A razão é simples: ao abraçar explicitamente a esquerda, o movimento excluirá pelo menos metade do eleitorado italiano.

Em março, o coletivo promoverá um encontro nacional para lançar um site e discutir novas estratégias. Cogita, entre outras ideias, propor punições aos políticos que disseminarem notícias falsas ou mensagens de ódio. Representantes dos Sardinhas também devem se reunir com o atual premiê, Giuseppe Conte, que demonstrou interesse em ouvir os jovens.

Já definido pela imprensa italiana como “narcobairro” ou “Bronx romano”, Tor Bella Monaca em nada lembra a Cidade Eterna dos cartões postais. É uma área repleta de cortiços, que cresceu desordenadamente a partir da década de 1930 e abriga imigrantes de diferentes origens. No final do ano passado, um tiroteio causado provavelmente por uma rixa entre traficantes deixou um deles ferido. À mesma época, um sem-teto morreu de hipotermia numa rua do bairro.

Cerca de vinte moradores compareceram à conversa com Ogongo e os demais Sardinhas. Uma parcela do público aceitou o convite para escrever sugestões em papéis com formato de peixe. Depois as colocou nas redes de pescaria dispostas sob a tenda branca que o queniano havia montado. “Não viemos aqui para trazer respostas. Queremos escutar vocês sobre questões que poderão ser incorporadas à nossa agenda”, explicou um dos militantes. Alguns dos presentes lhe pediram para discursar. Ele não topou. Limitou-se a ler em voz alta um amontoado de palavras de ordem: contra o neofascismo e a retórica extremista, pelo fortalecimento das instituições e respeito à Constituição etc.

Às tantas, um morador – acompanhado do filho pequeno – ergueu a mão e alfinetou: se os Sardinhas desejam realmente mudar a sociedade e a política, deveriam começar pelo básico e não estacionar a Kombi na parada do ônibus nem jogar guimba de cigarro no chão. “Observar as regras é fundamental, não?”, ironizou. Constrangidos, os ativistas agradeceram à plateia e rumaram para o último bairro do tour romano. Stephen Ogongo seguiu o comboio sem tirar do rosto o sorriso habitual.

Lucas Ferraz

Jornalista brasileiro baseado em Roma, foi correspondente em Buenos Aires e repórter em Nova York, Brasília e São Paulo

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