Janela do Palácio do Planalto após a invasão de 8 de janeiro de 2023: “Talvez, em um futuro apocalipse, essas ruínas revelem que esses prédios foram construídos não para impor a vontade da maioria, nem a de Deus, mas para proteger o que é vulnerável da força bruta”, diz Petra Costa CRÉDITO: DIVULGAÇÃO
Se essas ruínas falassem
O documentário Apocalipse nos trópicos, de Petra Costa, entre a catástrofe e a revelação
Eduardo Escorel | Edição 226, Julho 2025
Relevante, audacioso e denso – essa foi minha impressão de Apocalipse nos trópicos, o novo documentário de Petra Costa, a que assisti pela primeira vez no início de junho passado. Faz quase um ano que o filme estreou no Festival de Veneza, fora de competição. Depois disso, foi exibido em diversos festivais no Brasil e no exterior. Chamou a atenção, de imediato, a intensa cobertura da imprensa internacional especializada quando o filme passou em Veneza, enquanto a repercussão no Brasil segue, até o momento, bastante limitada, o que não era de se esperar. Afinal, além de ter qualidades raras em documentários brasileiros recentes, Apocalipse nos trópicos trata de um tema atual e indispensável para compreender um dos principais dilemas do país: a influência decisiva do fundamentalismo evangélico no processo político, e a ameaça daí decorrente ao regime democrático.
Além de escrever, dirigir e produzir Apocalipse nos trópicos, Petra Costa é também a narradora do documentário, o que ela faz, em parte, na primeira pessoa. O texto da narração inclui referências a diversos autores sem identificá-los de imediato – seus nomes aparecem, entretanto, nos créditos finais. Além de passagens da Bíblia, na versão do rei James, são citados, entre outros, a escritora americana Ayana Mathis, a pesquisadora britânica das religiões Karen Armstrong, o documentarista João Moreira Salles,[1] o jornalista Fábio Marton, os apresentadores de podcast Ramtin Arablouei e Rund Abdelfatah, e os filósofos Friedrich Nietzsche e José Ortega y Gasset – autores que sinalizam, por si sós, a magnitude da ambição de Costa.
Reportagens apuradas com tempo largo e escritas com zelo para quem gosta de ler: piauí, dona do próprio nariz
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