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Se a Rússia atacar

Um manual de sobrevivência para suecos

Claudia Wallin
O manual diz que, em caso de perigo, sirenes emitirão sinal conhecido como “Frederico Rouco”
O manual diz que, em caso de perigo, sirenes emitirão sinal conhecido como “Frederico Rouco” CRÉDITO_FOTOMONTAGEM SOBRE FOTOGRAMA DO FILME O SÉTIMO SELO (1957), DE INGMAR BERGMAN

Como se entregasse um vil boleto, o carteiro soltou o torpedo por baixo da minha porta em Estocolmo: um guia com o brasão do governo sueco e o apavorante título Om Krisen eller Kriget Kommer (Em Caso de Crise ou Guerra). Folheei rapidamente o manual e constatei que não, não era fake news. Era um alerta à população para se preparar contra atentados terroristas, ataques cibernéticos, catástrofes naturais e até confrontos militares. Logo na abertura, a publicação estampava uma das frases mais perturbadoras que li em meus quinze anos de vivência neste tranquilo reino de 10 milhões de habitantes: “Embora a Suécia seja mais segura do que muitas outras nações, existem ameaças contra nossa segurança e independência.” O folheto, porém, evitava mencionar perigos específicos.

Impossível não pensar em como o alerta foi recebido pelos cerca de 200 mil imigrantes que se instalaram no país ao longo dos últimos três anos, fugindo justamente de guerras e crises humanitárias. Editado em treze idiomas para facilitar a compreensão pelos refugiados, o informativo chegou a 4,8 milhões de domicílios no final de maio. Numa nação que não pega em armas há 200 anos, a notícia caiu como a mãe de todas as bombas. “Nossos antepassados estão se revirando em seus túmulos”, comentou um leitor no jornal Dagens Nyheter.

Os suecos já haviam se deparado com guias semelhantes em três ocasiões: a primeira, em 1943, durante a Segunda Guerra Mundial; as outras, no auge da Guerra Fria, em 1952 e 1961. O folheto continuou a ser editado até o esfacelamento do bloco comunista, no início da década de 1990, embora não circulasse mais em escala nacional. A partir daí, a paz duradoura acabou provocando mudanças nos bunkers de Estocolmo. Há poucas semanas, por exemplo, políticos se balançavam na pista de dança do Skyddsrummet, abrigo antiaéreo que passou a funcionar como espaço de festas. Também no Centro da capital sueca, o refúgio subterrâneo de Katarinaberget, com capacidade para 20 mil pessoas, foi convertido em estacionamento. Agora, o novo manual prenuncia que os bunkers podem voltar a ter um uso menos prosaico. “Informe-se sobre a localização dos abrigos antibombas nas áreas onde você reside e trabalha”, orienta o guia.

 

As vinte páginas ilustradas do folheto recomendam que a população guarde cobertores, sacos de dormir, velas e fósforos para a eventualidade de uma pane nas instalações elétricas do país, desencadeada ou não por um ataque. “Se o fornecimento de energia for interrompido numa época fria, a casa perderá o aquecimento rapidamente”, explica a publicação. “Para se esquentar, reúna a família num cômodo, pendure cobertores nas janelas, cubra o chão com tapetes e se refugie embaixo da mesa.”

O informativo também aconselha que os suecos mantenham sempre à mão rádios de pilha, dinheiro e carregadores de celular acopláveis a baterias de carros. Sugere, ainda, que armazenem alimentos não perecíveis e água, lembrando que cada adulto necessita de pelo menos três litros por dia. “Se a descarga do banheiro não funcionar”, prossegue, “você pode colocar sacos de plástico dentro dos vasos sanitários.”

Na seção “Em caso de ataque terrorista”, o manual avisa: “Não telefone para uma pessoa que possa se encontrar na área de risco. É possível que o som do celular denuncie a presença de alguém que esteja tentando se esconder.”

Em situações de ameaça extrema, as sirenes de alerta civil irão disparar o sinal conhecido como “Hesa Fredrik” – ou “Frederico Rouco”. O jornalista Fredrik Rydqvist o batizou assim em 1931, por achar que soava como sua própria voz roufenha. “Se você escutar o sinal, busque imediatamente refúgio e ouça as orientações da rádio pública”, adverte o folheto.

Outro trecho chama a atenção para a disseminação de fake news em contextos de guerra. “Se a Suécia for atacada, nunca nos renderemos. Qualquer notícia sobre o fim da resistência será falsa.”

 

Alguns acusaram o governo de gerar um pânico desnecessário ao relançar o guia. “Melhor ser alarmista do que ingênuo”, rebateu a jornalista Frida Wallnor no diário Dagens Industri. Segundo o ministro da Defesa, Peter Hultqvist, o término da Guerra Fria fez com que a Suécia nutrisse a crença numa estabilidade permanente. Isso levou à diminuição considerável da capacidade de o país se proteger. “Em razão do novo panorama de segurança global, resolvemos interromper essa política”, escreveu Hultqvist no jornal Svenska Dagbladet.

Desde 2014, quando a Rússia invadiu a Ucrânia e anexou a península da Crimeia, tanto os suecos como os europeus do Leste vêm reforçando suas tropas. Ainda que o reino de Carlos XVI Gustavo não tenha fronteira terrestre com a república de Vladimir Putin, ambos estão próximos e se ligam pelo mar Báltico.

No começo de 2017, em função das mudanças de vento, a Suécia reintroduziu o serviço militar obrigatório para homens e mulheres, que havia abolido em 2010. Poucos meses depois, simulou um ataque contra a estratégica ilha de Gotland. Mais de 20 mil soldados e civis participaram da operação, que contou com o apoio dos Estados Unidos, França, Noruega, Finlândia, Lituânia, Estônia e Dinamarca. Foi o maior exercício do gênero nos últimos 24 anos.

Também em 2017, um ataque terrorista matou cinco pessoas em Estocolmo e deixou catorze gravemente feridas. À época, o uzbeque Rakhmat Akilov lançou o caminhão que dirigia contra um grupo de pedestres numa rua do Centro.

“Mas ninguém deve ter medo”, insistiu Dan Eliasson, diretor da Agência de Contingência Civil, órgão do Ministério da Defesa responsável pelo manual. “É preciso ver o folheto apenas como uma expressão dos cuidados de nossa sociedade por seus habitantes.”

Vencida a perplexidade inicial, os reservados suecos absorveram sem dramas o chamado a se preparar para o pior. Produziram-se até alguns memes sobre o assunto. Um deles exibia um guia com o título Om Ölen Blir Varm i Solen (Se a Cerveja Esquentar no Sol) e a imagem de cidadãos em estado de choque. Outro veio da brasileira Fernanda Sarmatz Åkersson, tradutora literária que vive há dezoito anos na Suécia. Ela fotografou Em Caso de Crise ou Guerra ao lado de uma providencial garrafa de cachaça.

Claudia Wallin

Claudia Wallin, jornalista brasileira radicada na Suécia, é mestre em estudos sobre a Rússia e o Leste Europeu pela Universidade de Birmingham.

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