esquina

Segue o baile

A volta do DJ mais badalado do funk

Tiago Coelho
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2020

Quem foi ao Baile da Gaiola no verão passado teve a oportunidade de conhecer a festa funk de favela mais popular do Rio de Janeiro nos últimos anos. Quem não foi, não vai mais. O evento que chamou tanta atenção dos cadernos de cultura – e também das páginas policiais – acabou.

O baile ganhou esse nome por que, em seus primórdios, havia um estabelecimento chamado Bar da Gaiola no local onde era realizado, na Rua Aimoré, na Penha, próxima à favela da Vila Cruzeiro. Fazia tanto sucesso que a única maneira de chegar ao miolo da festa era travando um corpo a corpo com a multidão, majoritariamente jovem e predominantemente negra, agitada pelo ritmo estrondoso que reverberava de um paredão de caixas de som. O ritmo era o 150 bpm (batidas por minuto), criado por DJs do Rio de Janeiro e que se propagou por todo o país – uma aceleração do clássico batidão carioca de 130 bpm.

Um dos principais promotores dessa nova batida é Renan Santos da Silva, o produtor musical mais disputado entre os MCs de funk do país. Conhecido como Rennan da Penha (pois cresceu no Complexo da Penha), o DJ de 25 anos era o anfitrião do Baile da Gaiola. Negro, magro e sorridente, ele comandava a festa como um showman.

“Quem gosta de baile de favela dá um gritinhooo!”, berrou ao microfone para a multidão na noite de 26 de janeiro do ano passado. Naquele dia, a festa foi temática: a primeira parada LGBT promovida pelo Baile da Gaiola, com apresentações de artistas da cena queer do funk, como a Mulher Pepita, uma MC (mestre de cerimônias) transexual. “Vai começaaaar a putaria! Vamos acelerar essa porra”, continuou o DJ.

A plateia delirava – os garotos vestidos com roupas esportivas de marcas famosas; as moças de shortinhos, tomara que caia ou bodies coloridos. Eles, com os cabelos milimetricamente cortados na navalha; elas, com as sobrancelhas caprichosamente desenhadas com hena. Meninos e meninas, gays ou não, todos dançavam sincronicamente a coreografia, alguns sarrando suados em outros.

A madrugada avançou, o sol apareceu. Por volta das nove da manhã, a festa parecia não ter hora para terminar.

 

Aquele foi um dos últimos bailes de Rennan da Penha. Ele era acusado de ser olheiro do tráfico – a pessoa que avisa da aproximação da polícia. Em 24 de abril, entregou-se. Foi absolvido em primeira instância, mas condenado em segunda a seis anos e oito meses de reclusão. Sua prisão levou ao fim do Baile da Gaiola e foi o início de um debate público a respeito da criminalização das festas e dos artistas do funk. Movimentos sociais de favela argumentaram que a condenação do DJ era uma tentativa de silenciar a expressão cultural nascida nos guetos cariocas.

Rennan da Penha já estava há quase sete meses no Complexo Penitenciário de Gericinó, em Bangu, quando, em 7 de novembro, o Supremo Tribunal Federal derrubou por seis votos a cinco a prisão após condenação em segunda instância. Nas redes sociais, enquanto a esquerda pedia a soltura do ex-presidente Lula, os jovens de favela exigiam #LiberdadeparaRennandaPenha.

Beneficiado pela decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), o DJ foi solto em 23 de novembro do ano passado. Em sua primeira entrevista para a tevê (ao programa Conversa com Bial), Rennan da Penha defendeu-se: “Postei [nas redes sociais] para a comunidade que o Caveirão estava entrando na favela e falaram que eu estava avisando o tráfico e me colocaram como olheiro. Eu não sabia que uma publicação para avisar os moradores da comunidade ia ser vista como algo de associação ao tráfico.”

De volta à atividade artística, o DJ assinou contrato com a gravadora Sony Music, retomou a participação num programa da rádio FM O Dia, apareceu numa novela da Globo e foi procurado pela cantora Anitta para uma parceria musical. Também anunciou o lançamento de um DVD, cuja gravação ocorreu durante um show numa das maiores casas de espetáculos do Rio de Janeiro, o Espaço Hall, com capacidade para mais de 6 mil pessoas.

 

O ingresso mais barato para o show – que aconteceu em 14 de janeiro deste ano – custava 60 reais (para quem comprou nos primeiros dias). Era o preço de um lugar na pista, o escolhido pela auxiliar de enfermagem Karina Pereira, ex-frequentadora da festa da Penha, que chegou ao Espaço Hall vestida com meia arrastão, shortinho vermelho, blusa preta e tênis. “Quem me levou ao Baile da Gaiola a primeira vez foi um amigo gay”, ela contou. “Achei o clima muito legal e ia sempre que tinha algum dinheiro sobrando. A abordagem dos caras era mais tranquila. Ninguém chegava ‘sarrando’.”

Para ela, o show no Espaço Hall é o “auge” do DJ Rennan da Penha. “Me sinto orgulhosa do meu artista, mas olha esse clima de ostentação”, disse, indicando com a cabeça um grupo de quatro jovens louras que desciam de um Siena prata, calçando tênis da marca Vans e segurando garrafas de Heineken na mão. “Não é um clima de funk raiz. Fico um pouco desconfortável, mas estou feliz mesmo assim.” As garotas louras entraram na fila dos que compraram lugar nos camarotes, cujos preços variavam entre 160 e 180 reais.

“Rennan da Penha é o bicho, mano”, disse Guilherme Nascimento, de 21 anos, um rapaz corpulento do bairro do Jacaré, onde trabalha na vidraçaria da sua família. Ele virava em pequenos goles uma mistura de vodca e energético. “O clima que tinha lá na Gaiola não vai se repetir aqui, mas o Rennan é um puta DJ, e está todo mundo aqui só por causa dele.”

O show começou com depoimentos de pessoas negras, que falaram do orgulho que têm de viver na favela. Em seguida, os refletores viraram para o centro do palco e, depois de uma pirotecnia de luzes e fumaça, Rennan da Penha surgiu, vestido inteiramente de preto e usando um cordão e um crucifixo de ouro. “Mais uma vez a comunidade venceu, porra!”, gritou. “Quem aqui é de comunidade?” A maior parte das pessoas na plateia levantou a mão. “Deixa eu falar aqui com meu povo”, ele disse, aproximando-se da beirada do palco. “A sociedade quis me botar como bandido. Então avisa para a sociedade que o bandido hoje está gerando mais de mil empregos.” Em seguida, subiu no tablado onde ficava sua pick-up e dali comandou a festa.

Era outro verão, era em outro mundo, mas o baile prosseguia.

Tiago Coelho

Repórter da piauí e roteirista

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