esquina

Seleção natural

Quanto custa um filho de Columbia?

Chico Felitti
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2015

Em oito mesas alinhadas no Lerner Hall, prédio de convivência dos alunos da Universidade Columbia, encontram-se oportunidades de estágio: a polícia de Nova York oferece 20 dólares por hora para alunos de qualquer curso; startups juram que os 15 dólares que pagam por hora vão dobrar assim que o aplicativo desenvolvido por elas deslanchar.

Mas Patrick K., um aluno que aos 23 anos termina o 4º ano de engenharia, passa batido pelas ofertas e vai até o final do salão, onde pega um exemplar do jornal do campus. É na seção de anúncios que está a alternativa de trabalho que ele considera “a mais lucrativa e menos penosa”: vender esperma.

“Eu já colaborei com duas empresas. Uma me pagou 800 dólares, há dois anos, e outra, 1 200, em 2014”, diz o loiro de 1,83 metro, que penteia os cabelos para trás com gel. Nascido em Iowa, é fluente em espanhol e francês, engatinha no árabe, foi campeão estadual de natação e afirma ser um dos melhores de sua turma. “Para mim foi fácil. Recebo e-mails até hoje, inclusive de outros laboratórios”, diz ele, que pediu para não ter o nome todo divulgado, temendo que no futuro as empresas pudessem rejeitá-lo por falar com a imprensa.

 

Garanhões como Patrick valem ouro no mercado gamético. Uma edição de abril do jornal universitário anunciava cinco laboratórios à procura de alunos de Columbia que quisessem ganhar de mil a 1 500 dólares em troca de suas células reprodutivas – bastariam de três a cinco visitas, no período de algumas semanas. O texto de um deles, o Repro Lab, era claro: “Procuramos por graduandos, mestrandos e doutorandos da Ivy League. De preferência caucasianos.” Como se sabe, a Ivy League é a irmandade informal de escolas como Harvard, Princeton, Columbia e Yale.

A mais recente parceira comercial de Patrick fica no Lower East Side, no subsolo de uma clínica de estética feminina, cuja porta ostenta uma placa: “O banco de esperma é embaixo.” Uma atendente pede a carteirinha estudantil, que xeroca e devolve junto com um questionário de quatro páginas, com perguntas sobre altura, peso, constituição física, etnia, cor de olho e de cabelo, histórico de câncer na família. Preenchido o formulário, o candidato sobe à sala de coleta, com uma poltrona de couro protegida por papel, dezenas de revistas de mulher pelada e um exemplar, da década de 80, com nus masculinos.

O postulante tem trinta minutos para entregar o potinho. O conteúdo será submetido a testes de HIV e sífilis, entre outros. Homens de ascendência judaica ainda passam por testes para doença de Canavan, que degenera o cérebro, e disautonomia familiar, desordem do sistema nervoso cujo principal sintoma é a incapacidade de sentir dor. O resultado chega uma semana depois. Se o sujeito for aprovado, deve comparecer mais quatro ou cinco vezes antes de receber o cheque, além de passar por uma entrevista com psicólogo. “Menos de 1% dos candidatos é aceito”, crava o site do Repro Lab, que se recusou a falar com piauí.

Buscar reprodutores em faculdades de elite é uma tradição. Já em 1994, o periódico The Harvard Crimson fez uma série de reportagens sobre o tema. Na época, o laboratório California Cryobank abrira uma unidade a cinco minutos de caminhada de Harvard e do MIT. Dan Aibel, que foi editorialista do jornal, escreveu uma coluna sobre o assunto: “É uma mistura de darwinismo com lei do livre mercado que é muito cara aos Estados Unidos. Por que fazer bebês ‘piores’ se você pode pagar e ter os genes de um estudante das escolas mais conhecidas do mundo?” Hoje trabalhando em um banco de investimentos, Aibel apurou na ocasião que a maioria dos candidatos com menos de 1,80 metro era reprovada. “Muitos funcionários de bancos me disseram que não há procura por baixinhos. É a mão invisível que faz o trabalho, mais do que a mão do aluno.”

Especialistas no mercado de concepção dizem que “o senso comum acredita que estudar numa dessas universidades é um atestado de inteligência. É como uma etiqueta Prada numa roupa. Ela pode até ser feia, mas tem algo ali que a legitima. E, no caso da fertilização, a legitimação ocorre tanto no aspecto físico quanto no intelectual”, diz Randi Epstein, jornalista científica com um livro sobre o assunto.

 

O Repro Lab oferece acesso gratuito a um perfil curto em que se descrevem atributos físicos e psicológicos do doador; para um perfil mais alentado, com hobbies e uma mensagem para o eventual rebento, é preciso pagar 15 dólares.

O processo todo presta especial atenção a um traço do vendedor: etnia. Em seu site, o Repro Lab afirma que todas as suas amostras são classificadas por um “código racial”, que consiste em guardar as células reprodutivas de candidatos em pipetas com tampas de cores distintas. Branca para caucasianos, marrom para negros, amarela para asiáticos e laranja para hispânicos.

A adoção da prática começou a ser anunciada a partir de 2012, depois que um casal de lésbicas foi à Justiça porque a filha nasceu com a pele escura – elas haviam comprado sêmen de um homem branco, como elas. Jennifer Cramblett, uma das mães, decidiu processar o laboratório Midwest, de Chicago. Alegou que “vivia numa comunidade com maioria branca, e a criança poderia sofrer por causa desse erro”. O pedido de indenização de 50 mil dólares ainda tramita na Justiça.

Enquanto isso, o preço dos gametas premium passa por uma inflação. O laboratório One Special Donor comunicou que pagaria 10 mil dólares por uma única amostra. “Mas as regras deles são bem severas”, disse Patrick K., que no fim de abril preencheu a planilha de dezenove páginas com perguntas como: “Seu primeiro fio grisalho já apareceu? Onde e com que idade?” Ou: “No último ano, quantas vezes você faltou à escola ou ao trabalho porque estava doente?”

O candidato teme ser desclassificado: faltou à aula por uma semana, devido a uma dor de garganta. “Mas se eu conseguir passar, vai ser como entrar em Columbia de novo, só que dessa vez ganhando, sem precisar desembolsar 40 mil dólares por semestre.”

Chico Felitti

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