esquina

Sem nome e com documento

O pichador de Barcelona é brasileiro

Ana Krepp
ANDRÉS SANDOVAL_2018

Numa sacola de supermercado ele levava três latas de tinta spray e um canetão, “para quando quiser pichar sem alastrar”. Só de bater o olho num muro já sabia qual usar. “O negócio é não perder tempo”, afirmou, conferindo se não havia mais ninguém na rua. Em menos de quinze segundos concluiu a pichação de 10 metros. Saiu caminhando. “Tá limpeza, é só não ficar moscando por perto”, disse, ditando as regras da noite.

Com letra cursiva levemente inclinada, sua pichação passou a figurar na lista das atrações mais fotografadas – e compartilhadas – de Barcelona, junto com a Sagrada Família e o Parque Güell, obras do arquiteto modernista Antoni Gaudí. Desde janeiro, sinpapeles (assim mesmo, tudo junto; em português seria “semdocumentos”) vem pipocando a uma velocidade impressionante nas ruas da cidade – é difícil encontrar um quarteirão imaculado no Centro.

Os jornais catalães ignoram a identidade do autor, mas apostam que ele é mais um latino-americano dentre os 20 mil imigrantes que vivem sem documentação na cidade. E acertam em parte: o pichador é natural de Brasília e está com a papelada em dia, mas prefere se manter no anonimato. “É raro quando todo mundo lá em casa está com os papéis em ordem”, contou, lembrando o périplo da família que deixou o Brasil em 2004 em busca de estabilidade financeira e segurança para educar os três filhos. Ele estava com 12 anos.

Hoje, na Espanha, é quase impossível encontrar trabalho sem possuir documento, mas catorze anos atrás seus pais, imigrantes ilegais, amealharam dinheiro suficiente para sustentar a família e ainda fazer um pé-de-meia para comprar um bar. O rapaz “botou um pouco de cor” no teto e nas paredes com desenhos autorais, além de ajudar o pai a construir o mobiliário. Hoje a família toda trabalha no estabelecimento num bairro descolado de Barcelona.



Em 2014 o rapaz perdeu o direito de renovar residência no país. Depois de três anos na clandestinidade e muita burocracia, aceitou a proposta de casamento de uma ex-namorada e regularizou sua situação no final do ano passado. Foi então que começou a esboçar os primeiros pichos. Embora procurem associá-lo a movimentos pró-imigração, o brasiliense garante que só responde por si: “Expresso minha realidade; se as pessoas se identificam, maravilha, mas não posso falar por um movimento.”

Suas inscrições chegam a causar tamanha empatia que ele mesmo se sur-preende. “Olha isso”, disse, tirando o celular do bolso e mostrando a foto de três pessoas que tatuaram sinpapeles no corpo, exatamente como ele escreve nos muros. As fotos foram enviadas pelo Instagram, onde ele mantém um perfil dedicado a suas obras e aos “heróis sem nome” – muitos deles, paquistaneses – que salvam a noite vendendo cerveja gelada na rua a 1 euro.

Com quase 3 200 seguidores no Instagram, ele recebe diariamente em torno de quinze mensagens privadas, várias delas de garotas que querem conhecê-lo, embora jamais tenham visto uma foto sua ou de suas tatuagens. Quando o encontro finalmente acontece, “o que mais falam é ‘Nossa, pensava que você fosse mais alto’”. Ele mede 1,62 metro.

 

A rede social também serve de termômetro para calcular o impacto de suas obras. Foi muito criticado quando pichou uma catedral “mais antiga que o Brasil” ou um carro particular; e aplaudido quando deixou sua marca na fachada do Museu de Arte Contemporânea de Barcelona, reduto de ciclistas e skatistas latinos. Na manhã seguinte lhe avisaram que uma equipe de limpeza estava removendo a dezena de inscrições que ele havia deixado sobre uma enorme estrutura negra. Correu para lá a fim de acompanhar a operação e registrar tudo no Instagram, enquanto interagia com os funcionários: “Não apaga não, tá tão bonito.”

Um ponto alto da breve carreira se deu em agosto, quando a Kodak postou nas redes sociais a foto de uma de suas pichações. “Imagina o significado disso pra mim, que estudei fotografia”, afirmou, empolgado. Em Barcelona, não há grafiteiro que desconheça sua marca registrada. Há, entre eles, os que não têm nenhuma simpatia por imigrantes e não veem a menor graça na repentina fama do sinpapeles.

“Em julho passado eu estava grafitando de boa, sozinho como sempre, e uns moleques começaram a arranjar briga do nada. Eu, que sou meio esquentadinho, não deixei quieto. Levei uma latada e só senti o sangue escorrendo”, contou, mostrando os seis pontos que tomou na lateral da cabeça. Somados aos que já tinha, hoje são trinta, motivo suficiente para preocupar os pais. “Eles falam para eu ter cuidado, claro, mas desde que saí de casa não podem fazer muito mais, já sou grandinho, né?”, disse o pichador, que divide um apartamento com amigos.

Da rua já decidiu que não sai. No máximo vai para as ruas de outras cidades, como fez durante a Copa do Mundo. Tirou duas semanas de férias do bar e foi a São Petersburgo assinar os muros nas imediações do estádio (não assistiu a nenhuma partida). No fim de setembro esteve em Madri, onde pichou com uma máscara durante o Festival Afroconsciencia. Viajou a convite da organização do evento, que se comprometeu a não revelar sua identidade.

O próximo passo é estampar camisetas com sua marca registrada numa máquina de silkscreen e vendê-las online. A ideia surgiu dos seguidores do Instagram, ávidos por consumir produtos do ídolo, e acabou casando com a necessidade- de criar uma reserva – apelidada de “fundo multa” ou “fundo advogado” – para se livrar de complicações jurídicas que ele teme enfrentar cedo ou tarde.

Eram duas da manhã, começava a cair a chuva que anuncia o fim do verão. Encostado numa parede para se proteger, o brasileiro observava um senhor parado diante de uma inscrição feita por ele. Curioso por saber a opinião do transeunte, o rapaz perguntou o que ele achava do sinpapeles. O senhor disse que admirava a capacidade- do pichador de fazer tanta gente refletir com uma mensagem tão simples: “Não há quem leia isso e não pare para pensar a respeito”, afirmou. “Não é o Banksy, mas é um grande artista.”

Ana Krepp

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