carta de Paris

Sem saída

Nicolas Sarkozy e a França podem sobreviver à crise europeia?

Philip Gourevitch
Caricatura de si mesmo, Nicolas Paul Stéphane Sarközy de Nagy-Bócsa se considera o bastardo bem-sucedido da política francesa. <i> O cara </i> de uma França que encolheu
Caricatura de si mesmo, Nicolas Paul Stéphane Sarközy de Nagy-Bócsa se considera o bastardo bem-sucedido da política francesa. O cara de uma França que encolheu FOTO: BETTINA RHEIMS_H&K

O presidente da França não gosta de vinho. Não gosta de queijos malcheirosos. Não gosta de trufas. Gosta de Coca Diet, balas e charutos Havana enormes. Esse desprezo pelo bom gosto é considerado anormal na França, mas Nicolas Sarkozy não liga. Ele se orgulha de sua franqueza e, se parece inculto e bronco, sua atitude é: e daí? Por exemplo: ele gosta de dinheiro. Por que não? Quem não gosta? Mas na França se espera que as pessoas sejam motivadas por objetivos mais nobres ou mais frívolos. Leiam-se os romances: de Balzac a Proust, passando por Stendhal, Flaubert e Zola, grande parte da literatura francesa é sobre a hipocrisia da sociedade burguesa. Os segredos e mentiras, os desejos distorcidose o ressentimento associados ao dinheiro estão no centro da trama. Ainda hoje, falar de dinheiro – em especial, falar em público, e a favor de querê-lo, ganhá-lo e guardá-lo, como Sarkozy faz – é considerado vulgar, até mesmo sórdido.

“Nos Estados Unidos, o tabu é o sexo. Na França, é o dinheiro”, disse-me o filósofo Pascal Bruckner. “Até mesmo para pessoas de direita, ele é um defeito – um defeito moral.” Sarkozy acha isso ridículo. Durante a campanha presidencial, apresentou-se como décomplexé em relação ao dinheiro, mas como falava tanto do assunto, no fim das contas parecia bem complexé. Valorizou o trabalho e o lucro, e prometeu livrar os franceses daquilo que considerava a letargia patrocinada pelo Estado: a semana de trabalho de 35 horas, a aposentadoria do funcionalismo aos 60 anos de idade e os subsídios e proteções governamentais que diminuíram a produtividade.

É muito melhor, segundo Sarkozy, se esfalfar e ser recompensado, ter e gastar. O aumento do poder aquisitivo foi uma de suas palavras de ordem. Por falar assim, pela arrogância e pelo coloquialismo tosco – e porque admirava George W. Bush –, era chamado de “Sarkô, o Americano”. “Consideram isso um insulto, mas tomo como um elogio”, disse ele a um enviado de Bush, segundo um telegrama diplomático obtido pelo WikiLeaks. Sarkozy se ofereceu como um novo modelo de francês empreendedor, empenhado em forjar um futuro melhor do que o passado idealizado. Para os franceses, isso era estranho mas empolgante, e apostaram nele.

Sarkozy é uma figura tão singular que caricaturálo pode parecer fácil, mas toda caricatura se baseia no exagero, e ele é tão exagerado que deixa pouco espaço para o caricaturista. Os franceses esperam que seus presidentes tenham uma aura de refinamento estético e intelectual que dignifique a nação. Sarkozy não pretende irradiar nada disso. No ano seguinte à sua eleição, em 2007, sua vida doméstica digna de tabloide – um divórcio sensacionalista e um novo casamento ainda mais sensacionalista –, aliada a seu óbvio prazer de frequentar os super-ricos, lhe valeu o apelido de “Président Bling-Bling” (algo como “Presidente ostentação”). Sua popularidade despencou, e não parou mais de afundar.

Faltando poucos meses para o fim do mandato, Sarkozy se prepara para enfrentar a reeleição no papel de azarão, o que implica um esforço que seus assessores chamaram de “represidencialização”. Em outubro passado, ele inaugurou uma exposição de arte moderna que viajará pelo país e será exibida gratuitamente. Era uma ocasião para ser visto junto ao povo, levando a grande arte ao homem comum. Ao contemplar um quadrado monocromático laranja, pintado por Yves Klein, ele manifestou admiração: “Isto custa milhões.” Em seguida, expressou espanto: “Um Klein vale mais que um Léger? Menos que um Matisse?” Suas observações provocaram grunhidos de escárnio e perplexidade na imprensa. Mas ele desconsidera a etiqueta com tal força e frequência que não se pode chamar isso de gafe.

Poucos dias depois, num encontro de líderes do continente, o primeiro-ministro britânico David Cameron disse algo que Sarkozy não gostou, e ouviu do presidente francês: “Você perdeu uma boa oportunidade de ficar calado.” Anos atrás, durante uma audiência com o papa, foi visto checando seu BlackBerry. “Ele profana tudo”, diz Bruckner. Suas bufonarias contribuem para uma desconfiança profunda, a percepção de que não é autêntico e, o que é pior, não é suficientemente francês para o cargo.

Por outro lado, o próprio cargo já não é tão francês quanto costumava ser. A França não é mais um Estado soberano: é um dos 27 países da União Europeia. No papel, a França tem um Executivo forte e os franceses veem seu líder como uma espécie de rei republicano, eleito não só para governar, mas para reinar. A UE não permite isso. O escritor e economista Jacques Attali exagerou quando me disse que “a Presidência está quase sem poder”. Mas não exagerou o sentimento dos franceses – a sensação de vertigem política que acompanhou a integração europeia.

A França já não controla sua moeda. Já não controla suas fronteiras. Tem controle apenas limitado sobre sua defesa. Na imagem de Attali: “Estamos como num desenho animado, em que as pessoas veem alguém que ainda corre, sem saber que o penhasco acabou. Aquele lá é o presidente.” Para Attali, a França de hoje é uma “terra de ninguém”. E o que é pior, ressalta ele, “fizemos isso de propósito, por vontade própria, no processo de construção de um Estado federal europeu”. E agora o sucesso da Europa é muito incerto. “Esse é o malaise da situação francesa”, disse ele, “ter desistido do Estado como base da identidade, sem adquirir as vantagens de uma nova identidade.”

Attali é um velho teórico do Partido Socialista, por isso é surpreendente que Marine Le Pen, a líder da Frente Nacional, o partido de direita radical ultranacionalista, tenha me descrito a situação francesa em termos semelhantes: “Tudo o que fez a grandeza da França – o dinamismo, a inovação, a abertura – foi aniquilado pela União Europeia.” Ela disse que o país está “arruinado”, e arrolou alguns itens favoritos do seu discurso: “A França tem 1,6 trilhão de euros em dívidas, um déficit anual de 140 bilhões, 4 milhões de desempregados. Não exporta mais nada. Não tem voz autônoma entre as nações.” (Ela exagera o problema: a França tem a quinta maior economia do mundo e o quinto maior volume de exportações.)

Embora façam o mesmo diagnóstico – que a França está sendo destruída pela Europa –, Marine Le Pen e Attali chegam a conclusões opostas: ela quer tirar a França da zona do euro antes que seja tarde, e ele acredita que a única maneira de assegurar a sobrevivência do país seja aprofundar a união.

“Falando sério, a França pode ​​ficar mais degradada do que está hoje?”, perguntou Marine Le Pen. Attali acredita que pode. E relembrou o que veio antes da União Europeia – “Primeira Guerra Mundial, nazismo, comunismo, Segunda Guerra Mundial etc.” – para concluir: “A nação isolada é impossível. Temos que ser a Europa.” Marine Le Pen considera prudente abandonar a zona do euro antes que a catástrofe ocorra: “Não exijo nada mais do que o resto das nações do planeta tem: uma moeda, terra, a possibilidade de meu povo fazer suas próprias leis.”

Até a crise da dívida, a hipótese sombria de Marine Le Pen de que uma Europa unida fracassaria era recebida com risos pelo establishment político. O principal conselheiro de Sarkozy para política externa, Jean-David Levitte, me disse: “Estamos condenados ao sucesso porque não podemos abandonar o euro.” Mas o que fazer? Ninguém em Paris soube dizer.

À medida que a crise se aprofundava, Sarkozy reagia com uma retórica cada vez mais vigorosa. Em meados de outubro, disse a parlamentares de seu partido, a União por um Movimento Popular (UMP), de centro-direita: “Nosso destino será decidido nos próximos dez dias.” Mais tarde, em Nice, advertiu: “Aqueles que destroem o euro serão responsáveis pelo ressurgimento do conflito em nosso continente.”

Àquela altura, estava claro que a sobrevivência do euro dependia da Alemanha, a potência econômica da Europa. Mas os alemães estavam cansados ​​de bancar a gastança dos vizinhos. A França estava afundada em dívidas e, ao falar em guerra e paz, Sarkozy compensava sua vulnerabilidade avisando à chanceler Angela Merkel que ela não tinha alternativa. Ao mesmo tempo, preparava o terreno para a campanha da reeleição. Quando chegou ao poder, em maio de 2007, a economia francesa ia bem. Seu slogan de campanha foi “Juntos, tudo se torna possível”. Não admira que os franceses se sintam decepcionados. A maior vitória de Sarkozy foi passar a idade da aposentadoria de 60 para 62 anos. Agora, em tempos de austeridade, quase nada parece possível – o que obviamente não cola como slogan de campanha. Mas se ele puder dizer que salvou a República, evitou a aniquilação econômica e protegeu a França do espectro da guerra, já dá uma boa plataforma.

Porque ele é baixinho e pomposo; porque acha que a França deve liderar a Europa e a Europa, o mundo; porque é abrasivo e agressivo na busca do poder, e autocrático e descarado em seu exercício; porque é exibicionista e oportunista, bem como capaz, astuto e ágil; porque se vê ao mesmo tempo como conservador e reformista, e não é movido por ideologia, mas por instinto e impulso; porque não nasceu nem foi criado para governar, mas é um outsider que invadiu o establishment, convencido de que seu destino era entrar na história para alterar seu rumo; porque dá a impressão de desdenhar as elites esnobes, mas está louco para que elas o aceitem; porque cresce na crise e tende a tropeçar quando não está sob pressão; e porque busca projetar a influência francesa no exterior para aumentar sua estatura em casa, Nicolas Sarkozy é frequentemente tido como um candidato a Napoleão. Não se trata de um elogio. Foi Marx quem decretou que chamar alguém de bonapartista é uma ofensa. Ao analisar Napoleão III, comparando-o a seu tio Napoleão I, ele disse que grandes figuras históricas são protagonistas primeiro de uma tragédia, e depois de uma farsa. Muitos franceses dizem hoje que Sarkozy é ambas, tragédia e farsa.

No início, Nicolas Sarkozy foi o presidente francês mais popular desde a criação da Quinta República. Hoje, é o mais impopular. O que esfriou o entusiasmo dos franceses não foi tanto sua política, mas seu estilo. A antipatia é pessoal. “Ele é odiado”, me disse Saïd Mahrane, repórter político da revista semanal Le Point. “E por que é odiado? Porque despertou uma esperança louca.” O fervor com que é rejeitado só pode ser compreendido como consequência de uma desilusão. “Eu adoro Sarkozy”, disse-me um ex-membro de sua equipe, “mas estou muito, muito, muito decepcionado com seu governo.” Ele prometeu demais e depois não cumpriu seu programa, disse o ex-assessor: “No fundo, ele é um político da velha escola. Um homem de campanhas, de guerra, de tomar o poder.”

Para a grande maioria dos franceses que não tolera o presidente, disse Pascal Bruckner, “tudo o que diz respeito a ele é detestável, até mesmo sua baixa estatura”. O desprezo físico equivale a um tipo de “racismo contra as pessoas pequenas”, disse Bruckner, e acrescentou: “Há também um pouco de antissemitismo, não admitido porque não pode ser declarado, mas na consciência coletiva ele é um estrangeiro, não é daqui.”

Seu nome de batismo é Nicolas Paul Stéphane Sarközy de Nagy-Bócsa. Seu pai, Pál István Ernö Sarközy de Nagy-Bócsa, era um refugiado apátrida, um aristocrata sem título que fugiu com os pais para a Alemanha nazista depois da invasão da Hungriapelo Exército Vermelho, em 1944. Voltou depois para casa e descobriu que a propriedade da família havia sido tomada. Em 1948, fugiu novamente. Foi parar na Áustria, onde foi recrutado pela Legião Estrangeira Francesa. Serviu por cinco anos e estava prestes a ser enviado à Indochina quando um médico de Marselha – um compatriota húngaro – concedeu-lhe a dispensa médica. Sua próxima parada foi Paris. Chegou sem um tostão e, segundo ele, descalço, e dormiu as primeiras noites numa estação de metrô. Passou a trabalhar em publicidade e progrediu. Estabeleceu-se no subúrbio chique de Neuilly-sur-Seine, logo adiante do Bois de Boulogne, e mais tarde comprou uma casa de campo com o dinheiro que disse ter ganho ao jogar bacará contra o ator Yul Brynner, no Cassino de Deauville. Abriu sua própria agência de publicidade e fez campanhas para grandes casas de moda e cosméticos. Continuou apátrida até 1975, quando adquiriu a cidadania francesa.

Aos 82 anos, Pál Sarkozy publicou um livro de memórias, em 2010, no qual se gaba de ser um insaciável viciado em sexo, que decidiu, a partir do momento em que seduziu sua babá, aos 11 anos, levar para a cama todas as mulheres que pudesse, pelo menos até se casar com sua quarta e atual esposa, uma modelo – o que já dura quarenta anos. No entanto, ele se lembra de ter se sentido ultrajado na noite de núpcias de seu primeiro casamento, ao descobrir que a noiva não era virgem. Ela era Andrée Mallah, uma francesa católica, filha de um médico de ascendência greco-judaica. Tiveram três filhos até que o casamento se desfizesse, em 1959, quando Nicolas, o menino do meio, tinha 4 anos.

Sarkozy disse certa vez: “O que fez de mim o que sou é a soma de todas as humilhações que sofri na infância.” Sofreu por ser baixinho, por ter pais divorciados e – mesmo depois de abreviá-lo e tirar o trema – por ter um nome estrangeiro. Foi reprovado no primeiro liceu que frequentou e transferido para uma escola católica. Disse que pouco via seu pai e que na casa de sua mãe nunca havia dinheiro suficiente. “Ele nunca cuidou de nós quando precisamos dele. Tive de trabalhar para pagar meus estudos”, contou – alegações que pai e mãe negaram. Apesar disso, formou-se em direito e administração antes de se matricular na Sciences Po – Institut d’Études Politiques de Paris, cujos ex-alunos compõem a maioria da classe dominante francesa. Sarkozy não é um deles: não passou no exame final de inglês.

“Quando menino, ele disse ao pai que queria ser presidente quando crescesse”, registra o telegrama de 2005 vazado pelo WikiLeaks. “Seu pai húngaro retrucou: ‘Nesse caso, vá para a América, porque com um nome como Sarkozy você nunca vai conseguir isso aqui.’ Provar que ele estava errado, segundo Sarkozy, foi um marco em seus esforços para obter sucesso e mudar a França.”

A tolerância para a humilhação, até mesmo um certo gosto por ela, é pré-requisito para qualquer alto cargo na democracia moderna. O problema surge quando um político fica insensível à humilhação – deixa de temê-la ou se sente imune a ela. A dramaturga francesa Yasmina Reza acompanhou Sarkozy durante o ano em que ele fazia campanha para presidente e registrou suas impressões em um livro. No seu relato, Sarkozy só tem a seu favor o desejo de poder – a energia maníaca, a necessidade compulsiva de se impor à multidão e conquistar seu amor, o impulso voraz para chegar ao que os franceses gostam de chamar de “poder supremo”. O que ele pretende exatamente fazer com esse poder nunca é declarado. Em seu livro de campanha intitulado Testemunho, ele afirma: “Não tenho a pretensão de apresentar alguma teoria nova ou um novo marco intelectual. Quero simplesmente contar a história de uma vida em que a vontade de agir de forma decisiva e obter resultados tem um papel importante.” Aos 22 anos, o jovem militante do partido de direita neogaullista conquistou um assento no conselho municipal de sua cidade natal, Neuilly, onde sua mãe era secretária do prefeito. Cinco anos depois, em 1983, o prefeito morreu e Sarkozy entrou na disputa. Venceu e foi prefeito nos dezenove anos seguintes. Os socialistas estavam no poder e o líder informal da oposição era o prefeito de Paris, Jacques Chirac. Sarkozy buscou nele um mentor e, com o aumento da proximidade entre ambos, Chirac o adotou como filho político. Em sua prática de direito comercial, também cultivou homens poderosos com quem poderia aprender – Silvio Berlusconi foi um de seus clientes – e começou a ganhar dinheiro.

Mesmo assim, continuava a ser um aprendiz, labutando na obscuridade, até se tornar instantaneamente famoso, em 1993, quando um homem com explosivos amarrados no corpo, que se autodenominava “A Bomba Humana”, entrou num jardim de infância de Neuilly, tomou as crianças como reféns e ameaçou explodi-las. Sarkozy correu para o local, atravessou o cordão policial e entrou sozinho na escola. Depois de um tempo, saiu com algumas das crianças e voltou para negociar mais. Fez oito dessas viagens ao longo de 46 horas, até que a polícia, que havia invadido furtivamente o prédio, matou o sequestrador a tiros.

Sarkozy estava casado havia um ano quando se tornou prefeito de Neuilly. Um ano depois, enquanto celebrava o casamento de Jacques Martin – um apresentador de televisão de 51 anos –, se apaixonou pela noiva, Cécilia Ciganer-Albéniz, uma ex-modelo de 26 anos, de origem estrangeira (pai judeu moldavo e mãe espanhola), grávida de nove meses. Enquanto a casava com Martin, o prefeito pensou: “Por que isso? Ela é minha.” Os Sarkozy tiveram dois filhos e os Martin, duas filhas. As famílias passavam as férias juntas. Em 1988, os Martin se divorciaram, e os Sarkozy fizeram o mesmo apenas em 1996. A mulher de Sarkozy não aceitava a separação, mesmo depois que ele e Cécilia passaram a morar juntos.

Enquanto isso, Sarkozy foi nomeado ministro do Orçamento no governo do primeiro-ministro Édouard Balladur. Chirac o apadrinhara. Mas quando Chirac concorreu à Presidência, Sarkozy apoiou Balladur. Ao vencer a disputa, Chirac o chamou de traidor. “Aos olhos da mídia, deixei de ser ‘o Mozart da política’, com toda a promessa de sucesso, para ser um Iago traiçoeiro e falso”, disse o presidente.

Durante décadas, antes que a crise atual tornasse o temor de declínio nacional concreto e doloroso, os franceses sofreram a agonia da insegurança. Intermináveis ​​pesquisas de opinião refletem o sentimento generalizado de declínio. Essa atitude é quase o oposto do espírito expresso pelo pai da Quinta República, Charles de Gaulle, na abertura de suas Memórias de Guerra – um parágrafo que muitos franceses eram capazes de recitar de cor: “Por toda a minha vida, tive uma certa ideia da França. Ela é inspirada tanto pelo sentimento quanto pela razão. Meu lado emotivo imagina a França como a princesa dos contos de fadas ou a madona dos afrescos, nascida para um destino eminente e excepcional. O instinto me diz que a Providência a criou para triunfos absolutos ou infortúnios exemplares. Se, no entanto, acontece de a mediocridade marcar seus fatos e gestos, tenho a sensação de uma absurda anomalia, imputável às falhas dos franceses, e não ao gênio da pátria. Em suma, a meu ver, a França não pode ser a França sem grandeza.”

Esse hino romântico foi o mito de criação da França do pós-guerra. O país tinha acabado de passar por uma derrota e uma desonra colossais – a capitulação à ocupação nazista –, e De Gaulle se refere a isso como “uma absurda anomalia”.

Mas ele liderou as forças de resistência da França Livre, e depois arregimentou o país para se refazer à imagem de sua lenda, como uma nação de resistentes. Seu credo – se não tem grandeza, não é francês – ofereceu uma solução para o passado, tornando-o habitável. Com essa ideia, os franceses conseguiram três décadas de crescimento e prosperidade, que eles chamam de Les Trente Glorieuses. Hoje, a França já não tem uma ideia certa de si mesma, ou pior, nenhuma ideia unificadora, apenas incerteza.

“Os franceses são pessimistas por natureza”, disse-me Marc Weitzmann, um romancista que editava a revista cultural Les Inrockuptibles. “É um sinal de narcisismo. Na verdade, apesar do desemprego crônico, os franceses desfrutam de uma qualidade de vida excepcionalmente alta.” Weitzmann, que tem 50 anos, disse que sua geração tem saudades da época de sua infância, dos últimos anos dos Trente Glorieuses. “Aquela época é mais bem vista agora. Mas pense de onde vinha a riqueza do país. Uma boa parte vinha da globalização de então.” Weitzmann se referia ao ex-império da França na África e no Sudeste Asiático, sobre grande parte do qual a França continuou a exercer enorme poder, com retornos cada vez menores, até os anos 90. “O que nós chamamos de globalização hoje é apenas o fato de que a globalização se voltou contra nós”, afirmou.

Weitzmann me disse que a percepção de que a França já não é importante pesa sobre seus colegas intelectuais: “O narcisismo tem algo a ver com um sentimento de ilegitimidade. Os intelectuais franceses não se sentem bem. Há um sentimento do tipo ‘não somos realmente o que fingimos ser’, e é preciso compensar isso com muito narcisismo e autopromoção.” O governo de Sarkozy também não tem como escapar do fato de que a França agora é um país pequeno. Como me disse cautelosamente seu chefe de gabinete, Xavier Musca, quando visitei o Palácio do Eliseu: “Percebemos agora que a França sozinha não pode desempenhar o que considera ser seu papel histórico.”

O sinal mais forte da perda de esperança talvez seja a ascensão da Frente Nacional. Até Marine Le Pen assumir a sua liderança, no ano passado, a Frente era comandada por seu pai, Jean-Marie Le Pen, que começou na política como um arruaceiro fascista no final da década de 40. Quando concorreu à Presidência, em 1974, obteve menos de 1% dos votos. Mas em 1988, e novamente em 1995, Le Pen sacudiu o sistema ao obter 15% dos votos e chegar em quarto lugar. Foram resultados sensacionais para um partido liderado por alguém que negava convictamente o Holocausto e não contestou de forma convincente relatos de que havia torturado durante a Guerra da Argélia. Le Pen não tinha um programa político claro, exceto expulsar todos os imigrantes, legais e ilegais.

Embora o poder na Quinta República tenha sempre estado nas mãos da centro-direita ou da esquerda socialista, muitos partidos disputam as eleições presidenciais, que são realizadas em dois turnos: o primeiro é uma rodada eliminatória e, uma quinzena mais tarde, se dá o confronto entre os dois candidatos mais votados. Quando Chirac concorreu à reeleição, em 2002, sua popularidade estava em baixa e era investigado por corrupção. O Partido Socialista, prejudicado por disputas internas e incoerências, não estava na sua melhor forma. Embora Chirac tenha vencido o primeiro turno, Le Pen ultrapassou os socialistas e ficou em segundo lugar. No dia da rodada final, eleitores socialistas envergonhados votaram aos milhares em Chirac e lhe proporcionaram uma vitória esmagadora, mas Le Pen teve quase um quinto dos votos. Ele não havia evoluído muito ao longo dos anos: a França é que estava mudando.

Ao assumir o segundo mandato, Chirac convidou Sarkozy para ser ministro do Interior. Não gostava nem confiava nele, nem o havia perdoado pela traição em 1995. Em suas memórias, descreve Sarkozy da mesma maneira que quase todos que não têm razão para temê-lo na política francesa: “Nervoso, impetuoso, alguém que transborda de ambição e não duvida de nada, muito menos de si mesmo.” Apesar de uma relação de trabalho às vezes conflituosa, Chirac reconheceu em Sarkozy “um dos políticos mais talentosos de sua geração”.

Todos supunham que concorreria à Presidência depois de Chirac, e a sua ascensão se deveu, em parte, à percepção de que era o político que melhor poderia deter Le Pen. Sua imagem pública era a de um linha-dura, com uma postura firme de centro-direita sobre imigração, dom para a oratória e uma capacidade infalível de produzir manchetes.

Em 2005, quando os guetos de imigrantes dos subúrbios de Paris foram inflamados por tumultos que logo se espalharam pelo país, Sarkozy organizou a repressão policial, declarando que iria limpar as ruas da racaille com uma Kärcher. Racaille significa “ralé”, mas na gíria do gueto francês tem conotação de depreciação racial. E Kärcher, assim como Wap, é a marca de uma lavadora de alta pressão para limpar edifícios e calçadas – uma máquina capaz de rasgar uma pessoa.

Sarkozy foi acusado de fazer colocações incendiárias, inclusive de propor uma limpeza étnica. Mas ele sabia que suas bravatas mais entusiasmavam do que afastavam o eleitorado francês. Quando falou num comício da UMP sobre seus planos para combater o crime, levantou os olhos do discurso escrito, sorriu e disse: “Quando penso nas críticas que me fizeram por falar racaille…” A multidão o interrompeu com aplausos e risos. Sarkozy retesou seu sorriso e disse, batendo com a mão no peito: “Se vocês soubessem o que realmente penso das pessoas que chamei de racaille, veriam que fui afetuoso.”

Para Sarkozy, a cura estava no trabalho. Todos viam que ele era o político mais trabalhador do país – visitando fábricas e hospitais, se misturando às multidões – e todos viam o quanto ele gostava disso. A atividade o revigorava, e ele disse que, se os franceses trabalhassem mais, o país seria revigorado. Essa era, segundo Sarkozy, a diferença entre ele e os socialistas: enquanto os adversários significavam desemprego e alienação, ele representava o valor positivo do trabalho. “Desnaturamos a República por sobrecarregá-la de igualitarismo, nivelamento social e caridade”, declarou. A França precisava “dar as costas ao misérabilisme”, e acrescentou: “Quero ser o presidente que vai se esforçar para moralizar o capitalismo.”

Ele lançou sua candidatura um ano antes de Barack Obama lançar a sua e, embora suas posições políticas, caráter, história pessoal e estilo não pudessem ser mais diferentes, Sarkozy também se definia como um líder da transformação: um homem de ascendência estrangeira cuja própria candidatura era uma afirmação dos ideais da República. Ao ser indicado pelo seu partido, Sarkozy disse: “Não posso deixar de pensar naqueles que me fizeram sonhar com outro destino, com uma vida maior, com um futuro mais emocionante.” Essas pessoas eram “os heróis da Resistência e da França Livre, os homens com quem dei meus primeiros passos na política. Eles me ensinaram – a mim, um pequeno francês de sangue misto – a amar a França e ter orgulho de ser francês”.

Ao mesmo tempo, Sarkozy censurava o clientelismo e a corrupção do establishment político. Defendia uma “democracia irrepreensível”. Não se importava que a heterodoxia deixasse apreensivos muitos dos veteranos do seu partido. Seu objetivo no primeiro turno era a eliminação da Frente Nacional. Falava constantemente de lei e de ordem, da deportação de imigrantes ilegais, e argumentava que se eles não quisessem abraçar a identidade francesa tanto quanto ele havia feito, não tinham lugar na República: “Não vou aceitar aqueles que desejam viver na França sem respeitar e amar a França.”

No primeiro turno, ele arrasou a Frente Nacional e, para o segundo, apelou à esquerda, invocando os patriarcas do socialismo: “Minha França é a dos trabalhadores que acreditavam na esquerda de Jean Jaurès e de Léon Blum, e que não reconhecem a esquerda imobilista que não respeita mais o trabalho.”

Depois de sua última aparição de campanha, Yasmina Reza encontrou Sarkozy revolvendo uma pilha de jornais que apontavam sua vitória iminente. Ele disse: “Terei um palácio em Paris, um castelo em Rambouillet e um forte em Brégançon. É assim que será.” Regozijo, deslumbramento ou atordoamento? Nos dias anteriores à votação, ele havia anunciado que, se ganhasse, marcaria sua vitória recolhendo-se a um mosteiro. “Vou pensar, descansar, me retirar”, disse a Reza. “Preciso me preparar para ocupar esse lugar. Preciso de calma e serenidade para encontrar a distância necessária.” Em vez disso, Sarkozy deu uma festa na noite da eleição para uma pequena multidão de gente rica e influente no Fouquet’s, uma brasserie chique nos Champs-Élysées. Na manhã seguinte, foi com a família fazer um cruzeiro na costa da ilha de Malta no iate de seu amigo Vincent Bolloré, um investidor agressivo e bilionário.

Fouquet’s e o iate: ainda hoje, quando os franceses discutem sua aversão a Sarkozy, a conversa tende a voltar para a impressão que ele causou nos primeiros dias depois da eleição – a ostentação, o exibicionismo, a vulgaridade de novo-rico. Os partidários de Sarkozy lembram que o casamento dele estava acabando e que seu comportamento imprudente era uma tentativa de salvá-lo. Cécilia já o havia deixado antes: em 2005, ela se apaixonou por Richard Attias, um produtor de eventos, e foi viver com ele por um tempo. “Não me vejo como primeira-dama. Acho muito chato”, disse ela. Ainda assim, Sarkozy a persuadiu a voltar, para ajudá-lo a manter a aparência do casamento durante a campanha. Segundo todos os relatos, queria mesmo ficar com ela. “Ele não dá a mínima para o Fouquet’s e o iate de Bolloré – era tudo para agradar Cécilia”, contou-me um dos assessores mais próximos de Sarkozy naquela época.

Mas um presidente não é um homem qualquer. Quando se trata de administrar o casamento, ele pode oferecer à esposa aventuras fora do repertório romântico convencional. Assim, dois meses depois da eleição, a imprensa noticiou que Cécilia tinha ido à Líbia como representante do marido para se encontrar com o coronel Muammar Kadafi. Era uma tentativa de obter a libertação dos “Seis de Bengasi” – cinco enfermeiras búlgaras e um médico palestino que haviam sido falsamente acusados de injetar sangue infectado por HIV em crianças líbias. Havia anos que diplomatas da União Europeia negociavam com Trípoli e estavam nas vésperas de um acordo quando Cécilia chegou, sem aviso prévio. A UE despachou um enviado a Paris para advertir Sarkozy sobre os perigos da diplomacia amadora, mas ele não se intimidou. Duas semanas depois, quando os Seis de Bengasi foram libertados, ele reivindicou mérito total para a França, e mandou Cécilia num jatinho do governo para levá-los à Bulgária e sair na foto de regresso ao lar.

O exibicionismo de Sarkozy provocou protestos em capitais europeias, mas os diplomatas e empresários franceses não perderam tempo desembarcando em Trípoli a fim de obter bilhões de dólares em negócios – a construção de uma usina de dessalinização nuclear, a venda de mísseis à Líbia, a compra de petróleo e gás para a França – e planejando uma visita oficial de Kadafi a Paris. A oposição socialista reclamou que os negócios equivaliam ao pagamento de resgate e propinas a Kadafi. Montou-se um inquérito parlamentar, cujo efeito mais visível foi o de dar à esquerda um palanque para falar sobre o casamento acidentado de Sarkozy. Como disse Daniel Cohn-Bendit, líder do Partido Verde, “a Europa foi explorada para que o casal Sarkozy pudesse ter uma sessão de terapia familiar”.

Ainda assim, o resgate dos reféns foi aclamado como um triunfo para o assertivo novo presidente. A popularidade de Sarkozy atingiu seu ponto mais alto. Então, Cécilia o deixou. Voltou para Richard Attias, e o Palácio do Eliseu anunciou o divórcio. Sarkozy logo começou a namorar Carla Bruni, uma supermodelo francesa, nascida na Itália, que virou estrela pop, e cujo currículo romântico incluía casos com Eric Clapton, Mick Jagger e Laurent Fabius, ex-primeiro-ministro socialista. Os rumores de que algo estava rolando entre Sarkozy e Bruni começaram no final de novembro de 2007, pouco mais de uma semana depois de serem apresentados em um jantar. O envolvimento do presidente com uma isca de paparazzi foi recebido com consternação por uma França cansada de ver o Eliseu como cenário de novela. Sim, Bruni era de uma elegância impecável, mas era também famosa por dizer que a monogamia a entediava e o “desejo ardente” nunca durava mais que duas ou três semanas.

Em meio a essa intriga romântica, o coronel Kadafi chegou à cidade. Na véspera da visita, debateu-se muito se Sarkozy estava capitulando diante de um terrorista. A secretária de Direitos Humanos, Rama Yade, uma francesa nascida no Senegal, formulou o problema de maneira ampla: “O coronel Kadafi precisa compreender que nosso país não é um capacho no qual um líder, terrorista ou não, pode entrar e limpar seus pés sujos de sangue.” Kadafi montou a sua grande tenda beduína perto do Eliseu. Fez um arremedo de protocolo diplomático, chegando atrasado a audiências oficiais e visitando os santuários da cultura francesa conforme lhe dava na veneta. (Uma viagem a Versalhes para admirar o trono do Rei Sol ofendeu os franceses particularmente.) Zombou do presidente, repetindo que a França não tinha nada a lhe ensinar sobre direitos humanos. E enquanto Sarkozy recebia as famílias das vítimas da explosão de um avião francês por terroristas líbios (um crime pelo qual o cunhado de Kadafi foi condenado em um tribunal francês), o ditador desfilava em um comboio de vinte carros até o Museu do Louvre para passar alguns minutos contemplando a Vênus de Milo.

“Kadafi se divertiu à custa de Sarkozy”, disse-me uma autoridade. “Foi uma humilhação. Pela primeira vez, Sarkozy parecia fraco. E foi a primeira vez que ele perdeu pontos nas pesquisas. Tinha de fazer alguma coisa para apagar aquilo.” O que Sarkozy fez foi providenciar sua primeira aparição pública com Carla Bruni: uma visita à Euro Disney. A minha fonte se espantou: “Isso foi pior do que Kadafi! Ela é uma notória femme fatale – tinha ficado com Mick Jagger, tinha ficado com todos – e, para alguém que já é visto como uma pessoa inculta, a Euro Disney é o pior lugar para se visitar na França.”

Foi nesse ponto, disse ele, que a lembrança da festa no Fouquet’s, do iate de Bolloré, de todo o drama com Cécilia e do drama com Kadafi se juntou na cabeça dos franceses para formar um juízo negativo definitivo sobre Sarkozy. “As pessoas se perguntavam: quem é este que elegemos?”, disse a autoridade. Depois da Euro Disney, houve uma enxurrada de cenas públicas de namoro – Sarkozy e Carla Bruni em Luxor, o presidente com óculos Ray-Ban e a camisa desabotoada no peito, hospedado num resort extravagante, na capa de todas as revistas de fofoca. Em dois meses, eles estavam casados.

Mas o público francês não se comoveu. Poucas semanas depois do casamento, Sarkozy apareceu em uma exposição agrícola, e quando um homem se recusou a apertar sua mão, retrucou: “Casse toi, pauvre con.” A frase ostensivamente antipresidencial, que pode ser traduzida por “Vá à merda, babaca”, foi discutida como mais uma prova da truculência essencial de Sarkozy. “Ele estava muito deprimido naquele período”, contou-me um dos conselheiros do presidente. “Então, cometeu muitos erros de comunicação. Foi há quatro anos, mas ele não se recuperou completamente daquilo. É incrível como a imagem dos erros grudou nele.”

Em um fim de semana de julho de 2010, a polícia de Grenoble, nos Alpes, matou a tiros um homem de ascendência norte-africana, suspeito de roubar um cassino. O assassinato provocou dois dias de tumultos, durante os quais jovens de guetos de imigrantes no subúrbio incendiaram em torno de cinquenta carros. No mesmo fim de semana, em Saint-Aignan, um povoado do centro do país, a polícia matou um trabalhador migrante, membro de uma comunidade cigana, que não parou numa blitz. Também ali houve tumulto e uma delegacia foi incendiada. Sarkozy ordenou que centenas de acampamentos ciganos fossem desmontados e anunciou planos para deportar membros da comunidade, a maioria dos quais havia imigrado legalmente da Romênia e da Bulgária. Foi a Grenoble, onde reiterou o plano de deportar ciganos e declarou uma nova guerra: “A principal causa da violência é a leniência”, disse ele, referindo-se não apenas à aplicação frouxa da lei. “Pais negligentes poderão ser objeto de acusações criminais.” Sarkozy disse que qualquer cidadão francês nascido no exterior que atacasse uma autoridade pública deveria perder a cidadania: “Quem atira num agente que representa as forças da ordem não merece mais ser francês.”

Evidentemente, o vilipêndio das comunidades de imigrantes foi pontuado por cautelas banais: “De nenhuma maneira estou estigmatizando os ciganos”; “Estou falando somente dos estrangeiros em situação irregular”. Mas para muitos – mesmo dentro de seu próprio partido – a declaração do presidente de que a França entraria de novo no negócio de deportação em massa, e de que deveria traçar uma linha entre os nativos e os nascidos no exterior, trazia ecos de Vichy. “Foi uma mancha na nossa bandeira”, disse-me Dominique de Villepin. Na verdade, a França vinha deportando ciganos há anos, alegando vadiagem, e os eleitores aprovavam a medida com entusiasmo. Mas o fato de Sarkozy destacar todo o grupo étnico era de legalidade duvidosa, e o espetáculo que se seguiu de famílias inteiras despachadas em trens para o Leste provocou condenação mundial.

A hostilidade de Marine Le Pen aos estrangeiros levou-a a comparar os pequenos grupos de muçulmanos que rezam nas ruas de Paris com o exército de ocupação de Hitler. Mas ela não ficou bem impressionada com a campanha de Sarkozy contra os ciganos. Quando perguntei o que achara do discurso dele em Grenoble, levou as mãos à boca e fez o gesto de quem toca flauta. “O problema é que Nicolas Sarkozy tem palavras grandiloquentes e mão fraca”, disse. “Ele levou os ciganos para uma fronteira que não existe mais e que eles cruzaram de volta quatro minutos mais tarde, diante dos jornalistas perplexos. É tudo encenação.”

Le Pen se apresenta como uma mulher comum e de bom-senso – mãe de três filhos, divorciada e trabalhadora –, que vê um sistema quebrado e afirma o óbvio: os políticos que vivem desse sistema não podem corrigi-lo. Quase todas as pessoas com quem conversei em Paris disseram que ela deve ser a maior preocupação de Sarkozy no primeiro turno da eleição de maio. Mas como reagir?

Marine Le Pen gosta de dizer que as diferenças entre Sarkozy e os socialistas são insignificantes: ambos estão afastados do povo francês na sua devoção a uma Europa que funciona apenas para as elites internacionais. Ela me disse que, ao contrário, “tem uma visão gaullista da França – seu lugar no mundo, sua independência, à qual estamos muito apegados, sua voz particular, sua soberania nacional”. E acrescentou: “A divisão esquerda-direita não existe na França de hoje.” Em vez disso, ela traça a divisão política entre “globalistas e nacionalistas”, uma distinção que deixa Sarkozy numa posição desconfortável.

Sarkozy estava na Liberty Island, no porto de Nova York, numa manhã de setembro de 2011, de costas para a Estátua da Liberdade. Um grupo de alunos estava abaixo dele, vestido no estilo dos Jovens Pioneiros Soviéticos, com camisas brancas e lenços vermelhos no pescoço, cantando A Marselhesa com vozes agudas e doces: “Avante, filhos da pátria, / o dia de glória chegou. / Contra nós o estandarte ensanguentado da tirania se levanta.”

Durante toda a manhã, uma névoa quente e pesada envolvera o porto. Agora, o nevoeiro estava se dissipando e o dia se iluminava, mas Sarkozy não. De terno escuro, com seus cabelos pretos ondulados penteados para trás, parecia um ator tentando se descontrair nos bastidores. Mas estava no centro do palco e parecia incapaz de relaxar. Embora mantivesse as mãos cruzadas na cintura, os dedos insistiam em se soltar e tinham de ser recapturados. Os escolares cantavam: “Eles vêm até nós, / degolar nossos filhos e nossas mulheres. / Às armas, cidadãos!”

Sarkozy estava na cidade para a Assembleia Geral das Nações Unidas, e havia atravessado o porto para marcar os 125 anos de aniversário da Estátua da Liberdade, um presente da França aos Estados Unidos. À frente de um microfone, ele se recompôs e assumiu o ar de quem tem algo importante a dizer. Falando de improviso, evocou os mortos do 11 de Setembro e disse: “Para o povo francês, eles também são nossos mortos.” Agregou essa ideia à lembrança de que França e Estados Unidos estavam lutando juntos no Afeganistão e na Líbia. Terminou dizendo que os americanos que combateram e morreram na Segunda Guerra e permanecem em cemitérios da França representam um “pacto de sangue” que une os dois países em “uma responsabilidade em particular – mostrar que a liberdade é para todos”.

Fazer discursos desse tipo agrada a Sarkozy. Mais do que qualquer outro presidente francês das últimas décadas, ele procurou se apresentar como um estadista internacional. Mas, entre as dúzias de repórteres que cobriam a cerimônia, poucos parecem ter anotado o que ele disse. Estavam curvados sobre seus BlackBerrys, absortos em notícias de Paris sobre uma onda de ações policiais contra colaboradores do presidente. Tinham sido apanhados num inquérito de corrupção sobre a venda de submarinos para o Paquistão, em meados da década de 90, quando Sarkozy era ministro do Orçamento do governo de Édouard Balladur.

Na noite anterior ao discurso de Sarkozy na ONU, Thierry Gaubert, então seu subchefe de gabinete, fora detido e posto sob investigação. Horas depois, a polícia invadiu a casa de Nicolas Bazire, um diretor do conglomerado LVMH de artigos de luxo. Bazire, que fora chefe de gabinete de Balladur e padrinho de Sarkozy em seu casamento com Carla Bruni, havia sido detido. Na barca a caminho da Liberty Island, correu a notícia de que Bazire também estava sob investigação. E agora os BlackBerrys estampavam a notícia de que Brice Hortefeux, um dos auxiliares mais próximos do presidente – padrinho de um de seus filhos, seu ex-ministro do Interior e provável chefe de sua campanha à reeleição –, também poderia ser interrogado.

A história do submarino paquistanês era bem conhecida. Para garantir o contrato lucrativo, o ministro da Defesa de Balladur havia concordado em pagar uma comissão de mais de 50 milhões de euros a vários intermediários, inclusive chefes militares paquistaneses. (Essas comissões – na verdade subornos – na época eram legais na França.) No momento em que o negócio estava sendo fechado, a equipe de Balladur introduziu mais um intermediário, Ziad Takieddine, um empresário franco-libanês que recebeu uma comissão adicional de dezenas de milhões de dólares. Surgiram suspeitas de que Takieddine abastecera os cofres da campanha de Balladur, mas uma série de investigações não produziu nenhuma prova conclusiva. Por fim, um juiz mandou a polícia revistar a casa de Gaubert, confiscar documentos e interrogá-lo. A polícia também interceptou seus telefonemas e o caso tornou-se público quando transcrições dos grampos vazaram para a imprensa.

Em meados de julho, Nastasia, a filha de Gaubert, de 21 anos, havia ligado para um amigo dizendo que a polícia tinha encontrado registros de uma conta bancária secreta de seu pai nas Bahamas. “Ele abriu a conta em nome da minha mãe”, disse ela. Nastasia contou que seu pai temia que sua mãe, Hélène da Iugoslávia (uma princesa de verdade, da qual estava separado), testemunhasse contra ele. Nastasia parecia ter certeza de que seu pai era culpado. Além da conta nas Bahamas, disse, “ele também tem uma na Suíça e uma em Israel – eles não descobriram essas”. Ela achava que a única maneira de Gaubert evitar a prisão era fugir do país. Segundo Nastasia, seu pai dissera à mãe: “Ninguém vai me ajudar, porque estão todos mergulhados na merda. Hortefeux está na merda. E se Sarkô não chegar ao segundo mandato, também estará na merda e ninguém vai ajudá-lo.”

Depois que Gaubert e Bazire foram detidos e Hortefeux foi formalmente implicado – e os três negaram qualquer irregularidade –, Hélène deu uma entrevista ao Le Monde. Disse que havia conhecido Gaubert em meados da década de 80, em Neuilly, quando Sarkozy era prefeito e seu futuro marido era o braço direito dele. Os dois eram amigos íntimos, parceiros em negócios e na política, e não demorou para que Gaubert se tornasse subchefe de gabinete de Sarkozy. Se não estavam juntos, estavam sempre ao telefone. “Thierry tornou-se indispensável para ele”, disse Hélène. Quando começou a campanha de Balladur, Gaubert dizia a ela: “Vou à Suíça cuidar do dinheiro.” Segundo Hélène, ele sempre voltava com malas cheias de dinheiro, que entregava a Bazire. Gaubert raramente falava com ela sobre dinheiro e finanças – e ela disse que não lhe perguntava nada. Aludindo à sua herança real (seu pai ocupa o 1 643º lugar na linha de sucessão do trono da Inglaterra), ela explicou: “Venho de um meio em que não se fazem perguntas.”

O ano passado foi particularmente propício a escândalos na França e, à medida que cada novo escândalo ofuscava o anterior, não deixando nenhum grande partido ou facção incólumes, ia ficando difícil se surpreender com eles. Houve o caso de Dominique Strauss-Kahn, preso e acusado de estupro depois de manter relações sexuais com a camareira de um hotel em Nova York. Ele perdeu o emprego de diretor-geral do Fundo Monetário Internacional e a possibilidade de enfrentar Sarkozy como candidato socialista, mas a denúncia desmoronou e Strauss-Khan voltou para casa, onde enfrentou outra acusação de agressão sexual. Essa ação também foi retirada porque o delito prescrevera, mas depois se noticiou uma nova investigação, envolvendo uma rede de prostituição franco-belga que teria levado mulheres da Europa para orgias de Strauss-Kahn em Washington.

Houve o caso Bettencourt, com alegações de que a campanha de Sarkozy recebeu contribuições ilegais de Liliane Bettencourt, a velha herdeira da L’Oréal [e que foi declarada incapaz pela Justiça no final de 2011]. Sarkozy diz que é inocente, mas o caso não acaba. O Le Monde publicou uma prova definitiva de que os agentes de segurança do Estado, repetidamente acusados de espionar jornalistas a pedido de Sarkozy, tinham grampeado o telefone de um repórter do jornal que cobria a investigação do caso Bettencourt.

Houve o caso Clearstream, um escândalo de complexidade bizantina, envolvendo a venda de fragatas a Taiwan, com alguns cadáveres no meio (um oficial da Marinha pescado nas águas de um porto da Ásia, um empresário e um espião defenestrados na França), e listas forjadas que pretendiam ligar contas bancárias offshore ilegais a políticos proeminentes, com destaque para Sarkozy.

E, em setembro, Robert Bourgi, experiente assessor para a África do Eliseu, disse que havia supervisionado a entrega periódica de milhões de dólares em dinheiro de vários chefes de Estado africanos – inclusive com cédulas que recheavam tambores – para o caixa de campanha de diversos políticos franceses.

Dizer que os franceses estão acostumados ​​com trambiques do establishment político não significa que sejam incapazes de se revoltar – e o caso de Takieddine, Gaubert e Bazire foi considerado uma imundície incomum. Ficou conhecido como o Caso Karachi porque, em 2002, um homem-bomba explodiu na cidade um ônibus que transportava engenheiros franceses para um estaleiro naval, onde os submarinos estavam sendo construídos. Onze franceses e três paquistaneses foram mortos, e os juízes de Paris que investigam o caso acreditam que membros das Forças Armadas paquistanesas realizaram o atentado em retaliação à decisão de Chirac de interromper as comissões pagas no tempo de Balladur. É implausível que Sarkozy desconhecesse completamente as negociações escusas ligadas aos contratos paquistaneses. Por isso, o escândalo foi visto como uma ameaça à sua Presidência, embora ele tenha rejeitado as insinuações, chamando-as de “conto de fadas” e “grotescas”, e nenhuma prova o vincule diretamente ao caso.

Sarkozy goza de imunidade presidencial, mas em 2010, quando jornalistas que cobriam uma reunião de cúpula da Otan, em Lisboa, lhe pediram para explicar o Karachigate, ele não reagiu como se sentisse imune. O ex-ministro da Defesa Charles Millon, que investigou o caso no governo de Chirac, dera um testemunho em que expressava sua “íntima convicção” de que propinas haviam sido pagas e os repórteres em Lisboa queriam a opinião do presidente. “E você!”, gritou Sarkozy para um deles. “Não tenho nenhuma prova contra você. Mas parece que você é um pedófilo. Quem me disse? Tenho uma convicção íntima. Vi os relatórios da espionagem, mas não vou lhe dizer quais. Mas tenho uma convicção íntima de que você é um pedófilo.” O Guardian noticiou que ele continuou nesse diapasão por dez minutos. Depois foi embora, dizendo: “Até amanhã, amigos pedófilos.”

Quando os eleitores decepcionados de Sarkozy falam que se sentem traídos, o escritor Bernard-Henri Lévy, conhecido como BHL, gosta de dizer: “Eu avisei.” Tal como Sarkozy, ele cresceu em Neuilly, e quando se conheceram, no início da década de 80, ele já era um famoso jornalista do jet set, um ícone playboy intelectual, com cabelos pretos cuidadosamente despenteados e camisas brancas feitas sob medida desabotoadas até quase o umbigo, exibindo parte do torso nu. BHL, seis anos mais velho que Sarkozy, recorda que na época em que virou prefeito ele parecia “um rapaz animado, cheio de promessas, muito charmoso”. Os dois tinham temperamentos opostos – Bernard-Henri Lévy, que herdara uma fortuna imensa, identificava-se com a esquerda, enquanto Sarkozy, o batalhador solitário, estava comprometido com a direita –, mas ficaram amigos. Às vezes, viajavam juntos com suas mulheres para esquiar em Val d’Isère, ou ao palácio de BHL em Marrakech, e descobriram que concordavam em algumas grandes questões. Após o massacre de Srebrenica, os dois expressaram indignação diante da inércia francesa e, em 1994, acreditaram que a intervenção da França em favor do regime genocida dos hutus em Ruanda foi, como disse Bernard-Henri Lévy, “uma cagada”.

Um semestre depois da eleição de Sarkozy, contudo, o escritor publicou um livro em que retratava seu velho amigo como um oportunista crasso, cinicamente indiferente ao exercício da reflexão e brutal em sua capacidade de negar a realidade. Citou “a recepção grotesca e constrangedora do coronel Kadafi em Paris” como um bom exemplo, e descartou Sarkozy como “um presidente que, ao se transformar de estadista duvidoso, ainda que imponente, em personagem pitoresco, de caráter warholiano, talvez interesse apenas a folcloristas ou a colecionadores de excentricidades  políticas”. Henri Guaino, que escreve os discursos de Sarkozy, chamou Bernard-Henry Lèvy de “babaca pretensioso”.

A Paris mundana obviamente sabia que os dois tinham uma história enredada. Mais ou menos uma década antes, Carla Bruni havia namorado Jean-Paul Enthoven, grande amigo de BHL, antes de passar a sair com seu filho, Raphaël Enthoven – que era casado com ninguém menos que a filha de Lévy, Justine. Todos sabiam disso porque Justine, que é romancista, contou a história num mal disfarçado roman à clef intitulado Nada de Grave. “Um pai, um filho – na França isso é muito malvisto”, disse-me uma socialite de Paris. Mas Carla Bruni ficou com Raphaël durante anos e teve um filho com ele. Na opinião da socialite, isso pôs fim ao escândalo. “O amor tudo perdoa”, ela disse. “Você pode ficar com o filho de seu amante se for uma história de amor. Se é Fedra e Hipólito, tudo bem. Se é Racine, O.K. Se é só um drinque, uma Coca, é imperdoável.” Aconteceu o mesmo com Carla Bruni e Sarkozy, acrescentou a socialite: “Uma história de amor, para ser mesmo uma história
de amor, dura quatro ou cinco anos.”

Carla Bruni negou ter tido um caso com Enthoven pai. E desde que ela e Sarkozy se juntaram, os Lévy, pai e filha, têm mantido um rigoroso silêncio público sobre o assunto. BHL e Sarkozy se encontraram várias vezes na mesma sala, mas não se falavam durante os três primeiros anos da Presidência. Por isso, foi uma surpresa quando, no ano passado, Bernard-Henri Lévy surgiu como a força motriz por trás do interesse súbito e intenso de Sarkozy em liderar a intervenção militar internacional na Líbia.

Sarkozy demorou a perceber a importância dos protestos populares contra os regimes opressivos do mundo árabe. A Tunísia, onde se acendeu a centelha, era um ex-protetorado francês, e a França era o principal patrono internacional da ditadura corrupta do presidente Ben Ali. Durante os protestos em Túnis, a ministra do Exterior, Michèle Alliot-Marie, propôs publicamente o envio de tropas de choque francesas para ajudar a esmagar a dissidência. Depois, verificou-se que a família Alliot-Marie tinha negócios com um rico comparsa de Ben Ali, e que ela própria estivera na Tunísia em férias, como convidada do ditador, no meio da revolução. Depois que Ben Ali foi derrubado e revoltas proliferaram pela região, Sarkozy demitiu Alliot-Marie e correu para reposicionar a França como uma defensora dos levantes populares.

Do modo como Bernard-Henri Lévy conta a história, foi nesse ponto que ele entrou em cena. Em fevereiro de 2011, ele fora ao Cairo para participar da emoção da praça Tahrir. Mas chegou tarde, e viu-se assistindo na televisão às forças de Kadafi abatendo a tiros manifestantes nas ruas. Pegou um táxi para a Líbia e chegou à cidade de Bengasi a tempo para a primeira reunião da aliança anti-Kadafi, o Conselho Nacional de Transição. Embora a França tenha laços históricos com países árabes do norte da África, a Líbia não é um deles. Mas BHL, entusiasmado com a atmosfera revolucionária, ligou para Sarkozy de seu telefone celular e sugeriu que recebesse os líderes do Conselho em Paris. Os assessores de Sarkozy sustentam que a França já havia enviado aos rebeldes ajuda humanitária, e até mesmo algum apoio militar, mas não desmentem que a ligação de Bernard-Henri Lévy estimulou o presidente a agir. O escritor, que logo surgiu como o principal defensor do engajamento militar em favor dos rebeldes, disse que estava tão surpreso quanto encantado com a velocidade com que o impulsivo Sarkozy tomou decisões momentosas.

As autoridades francesas descrevem seu envolvimento na guerra com os mesmos termos elevados de BHL: uma prova de seu compromisso com a intervenção humanitária em favor de povos ameaçados por seus governantes. Mas as pessoas que conhecem Sarkozy descrevem seus interesses em termos mais pessoais: ele vibrou com a guerra, gostou da ação, gostou de tomar decisões e gostou de ficar mais importante – de imediato, no palco diplomático, e também do ponto de vista histórico. Como me disse um de seus conselheiros, ele não entraria nos livros de história por ter aumentado a idade da aposentadoria. A guerra envolvia muitos interesses para a França – o acesso aos campos de petróleo da Líbia não era o menor deles –, mas pessoas na órbita de Sarkozy sugeriram que era uma oportunidade para ele se “represidencializar”.

O eleitorado francês, no entanto, apoiou o engajamento na Líbia com frieza. “Ninguém aqui liga a mínima para a Líbia”, disse-me um repórter político do Le Monde. E derrubar Kadafi não ajudou Sarkozy nas pesquisas. (Bernard-Henri Lévy, que publicou uma crônica de sua aventura na Líbia, gosta de dizer que está ansioso para votar contra Sarkozy na próxima eleição.)

Em 20 de outubro, um caça francês bombardeou o comboio de Kadafi e o ditador foi capturado e trucidado pelos rebeldes. Sarkozy não reivindicou nenhum mérito pelo escalpo. Um dia antes, Carla Bruni dera à luz uma filha, fazendo de Sarkozy o primeiro chefe de Estado em exercício a procriar desde Napoleão III. Agora, era o primeiro chefe de Estado francês desde Napoleão I a ganhar uma guerra, mas não disse isso. Estava no meio de uma luta muito maior: as negociações de uma solução para a crise do euro.

“O que temos é um país e um continente deprimidos, completamente deprimidos”, disse-me Matthieu Pigasse. Socialista de longa data, Pigasse é presidente do banco de investimento Lazard France e, ao mesmo tempo, um barão da imprensa, dono de Les Inrockuptibles e de um terço do Le Monde. Ao falar de depressão, referia-se às condições socioeconômicas que afligem a maior parte da Europa: cinco anos sem crescimento econômico, agravado pela ausência de aumento da produtividade, do consumo, dos salários, dos investimentos e do poder de compra. Com o declínio econômico veio a tensão social “e uma coisa muito nova para mim”, disse Pigasse, “a instabilidade política”.

“Veja a Europa de hoje”, propôs ele. “A Bélgica ficou sem governo dezenove meses. E lá fica a sede da União Europeia. É estarrecedor. Reino Unido? Em Londres, há uma coalizão. Quanto tempo vai durar? Irlanda? Mesma pergunta. Portugal durante meses não teve governo.” A lista continuou com os países em desordem: Itália, Espanha, Grécia. “Acho que estamos numa encruzilhada, e todo mundo sabe disso, mas ninguém quer enfrentar a realidade”, disse Pigasse. Ele acredita que o único caminho a seguir é “aprofundar a Europa, o mais rápido possível. Fundir as políticas orçamentárias, fundir as políticas econômicas. A única maneira de evitarmos a falência completa é mutualizar a dívida”.

Em grande medida, essa é também a posição de Sarkozy. Mas não a de Angela Merkel. Desde seu primeiro dia no cargo, Sarkozy cultivou uma estreita, embora problemática, parceria com a chanceler alemã na condição de coadministradores da política econômica europeia: Merkozy, é como os jornais os chamam. Mas a crise pôs em evidência a tensão entre interesses nacionais e a causa comum europeia. No ano passado, a imprensa financeira europeia afligiu-se com a possibilidade de um divórcio dos Merkozy. Afinal, o peso do crédito da França é assombroso e seus bancos estão sobrecarregados com a dívida podre de economias do euro em perigo, enquanto a Alemanha está preocupada com a manutenção de sua solvência, conquistada a duras penas.

Angela Merkel tem de levar em conta seus eleitores, e os alemães estão num estado de espírito punitivo. Durante meses, ela se recusou a concordar com qualquer tentativa de salvamento que custasse demais para a Alemanha, ignorando os custos muito mais elevados da derrocada do euro. Em um dado momento, ela se perguntou em voz alta por que a Alemanha deveria permanecer na união monetária. Foi então que Sarkozy começou a falar da crise como uma questão de guerra e paz, e disse que a Europa tinha dez dias para fracassar ou vencer. Nove dias depois, em 27 de outubro, uma sessão de negociação em Bruxelas, que durou toda a noite, chegou finalmente a um acordo para salvar a Grécia. Mas o acordo foi apenas mais um remendo, e poucas semanas depois, quando até mesmo o mercado de títulos da Alemanha se dobrou, discutia-se o fim da zona do euro como mais provável do que nunca.

Sarkozy, no entanto, voltou de Bruxelas com ar triunfante e deu uma entrevista no horário nobre cuidadosamente encenada, a primeira em oito meses. Seu desempenho naquela noite obteve índices excepcionalmente altos nas pesquisas de opinião pública. O longo silêncio (ele disse que estava tomando decisões e ocupado demais para ter tempo de falar com a imprensa) era exatamente o que precisava para se “represidencializar”.

Aceitar a Grécia no euro fora “um erro”, disse Sarkozy – erro que obviamente não fora cometido no seu mandato. E gastou pelo menos a metade do tempo atacando os socialistas, procurando contrastar a gestão da crise por um estadista com a loucura das políticas econômicas dos adversários: retorno à aposentadoria aos 60 anos, defesa da semana de trabalho de 35 horas, promessa de contratar dezenas de milhares de novos funcionários públicos. Duas semanas antes, François Hollande havia vencido a primária presidencial socialista e Sarkozy já buscava colocá-lo na defensiva. O Monde observou que ele quis, mais uma vez, se posicionar como um candidato marginal, que “não é do sistema”.

A política é, sobretudo, o trabalho pouco glamoroso da costura de acordos, mas os políticos franceses estão dispostos a falar na língua da crise, de ultimatos e escolhas binárias. A trilha sonora é sempre A Marselhesa. E, no entanto, agora que a mais grave crise das últimas décadas paira sobre eles, uma cautela temerosa tomou conta do debate. Um fracasso da liderança pode condenar o continente a uma geração de sofrimentos terríveis – e tudo o que Sarkozy parece capaz de fazer é azucrinar Angela Merkel e proferir discursos.

Em dezembro, ele falou de forma veemente, prometendo trabalhar com a Alemanha para estabelecer uma nova ordem europeia a fim de salvaguardar o euro. Fez louvores à globalização, afirmando que a soberania deve ser compartilhada, e também ao nacionalismo, dizendo que a política europeia de fronteiras abertas precisa ser revista para proteger o estilo de vida duramente conquistado pela França. “A Europa não é mais uma escolha”, disse ele. “É uma necessidade. Mas a crise revelou suas fraquezas e contradições. Se a Europa não mudar rapidamente, a história será escrita sem ela.” Não há, no entanto, nenhuma maneira rápida de reorganizar e Europa: as 27 nações da UE precisam concordar com as reformas.

Alain Minc, homem de grande influência política e conselheiro não oficial de Sarkozy, tinha previsto que a imagem do presidente começaria a melhorar quando um candidato socialista entrasse na disputa. “Durante quatro anos, foi como se estivéssemos em um teatro com um único ator no palco”, disse-me ele. Todas as pesquisas favorecem François Hollande por uma margem sólida. Mas o Partido Socialista, que foi em larga medida abandonado pelos eleitores da classe trabalhadora, carece de uma liderança unificada. E o seu programa oferece pouco mais do que uma defesa do velho Estado de bem-estar social, resistente a reformas. Nessas circunstâncias, segundo Minc, mesmo que Sarkozy não conseguisse ganhar por seus próprios méritos, os socialistas ainda conseguiriam perder.

François Hollande formou-se nas três Grandes Écoles – de negócios, política e administração – e se tornou membro do Parlamento, prefeito de província e, durante uma década, dirigente do PS. Ele é conhecido como um homem simpático, com grande senso de humor, mas nunca fez campanha para um cargo nacional, e não planejava concorrer até Strauss-Kahn cair fora. É famoso por ter dito que não gosta dos ricos – aqueles que, em sua definição, ganham mais de 4 mil euros por mês – e foi apelidado de “Sr. Normal”, porque promete uma “Presidência normal” depois da viagem alucinante de Sarkozy.

Em reação, a UMP lançou um novo slogan: “A França de Hollande é a Grécia de hoje.” Um repórter da Le Point perguntou ao porta-voz do Partido Socialista, Benoît Hamon, se a crise beneficia o presidente. Hamon disparou: “Sarkozy diz que, diante da crise, somente uma política é possível, apenas um presidente é possível, aquele que protege, mas tudo isso é truque de mágica. Sarkozy encarna a tapeação como método de governo. Ele é o presidente que engana em tudo. Já François Hollande é um homem honesto nas suas convicções, no seu compromisso, no seu modo de agir.”

Embora os eleitores achem Hollande muito mais fácil de ser digerido, as pesquisas mostram que a experiência de Sarkozy conta: bem mais do que o candidato socialista, ele é visto como um estadista capaz de lidar com a crise mundial. Alain Minc disse-me que, ao saber que Hollande estava tentando se vender como o candidato da “Presidência normal”, Sarkozy percebeu imediatamente o erro de seu oponente e disse com desdém: “Esse cara pensa que se trata de um trabalho normal.”

Em sua longa carreira política, Dominique de Villepin também gastou uma energia considerável ofendendo Sarkozy: costumava se referir a ele como o “anão” e, com mais lirismo, disse: “O sarkozismo é o casamento, sobre uma mesa de dissecação, de uma máquina de costura com um guarda-chuva. Sarkozismo é surrealismo. É fascinante essa sua capacidade de dizer tudo e o seu contrário.” Mas Villepin não descarta Sarkozy. Segundo ele, o bebê que teve com Carla Bruni, junto com a desgraça de Strauss-Kahn, “faz Sarkozy parecer um pouco mais normal. Isso pode estabilizar tudo, se ele for capaz de mudar, de se adaptar. E isso significa se recolher, conseguir a introspecção que lhe faz falta. Obter densidade, mais densidade pessoal. E ser mais misterioso”.

Sarkozy misterioso? Isso não vai salvar a França, e muito menos a Europa. E, além disso, ele sempre alegou que sua força estava em não ter mistério. Pouco depois de ter mudado para o Palácio do Eliseu, Sarkozy conversou com o jornalista Franz-Olivier Giesbert sobre seus adversários políticos: “Você quer saber a diferença entre mim e toda essa gente? É muito simples. Desde o berço, eles foram mimados e afagados, e lhes disseram sempre: ‘Você é o melhor, o mais bonito, o mais inteligente.’ E estudaram em escolas chiques. Veja como eles amam a si mesmos. Eu sou um tipo diferente. Eu sou o bastardo. Mas aí é que está, o bastardo é o presidente da República.”

Tradução: Pedro Maia Soares

Philip Gourevitch

Philip Gourevitch, jornalista americano, é autor de Gostaríamos de Informá-lo de que Amanhã Seremos Mortos com Nossas Famílias, da Companhia das Letras.

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