esquina

Sem tigres nem dragões

O tatuador da classe AA

Guilherme Pavarin
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL

Com ar sereno e de pernas cruzadas, Victor Montaghini tomava nota das aflições que a morena de 25 anos lhe relatava: “Me enchi do mundo corporativo. No banco em que trabalhava, eu levava uma vida de aparências. Agora quero experimentar o novo.” Alta e com piercings no nariz, a jovem parecia tão ansiosa quanto exausta naquela tarde de primavera. Chegara de Amsterdã havia poucas horas, apenas para encontrar Montaghini na Zona Sul paulistana.

Sentado num sofá, entre dois enormes quadros de moldura dourada, o artista balançava a cabeça de leve enquanto ouvia a fala acelerada da cliente. “Explique melhor o que você está pensando. Que tipo de desenho procura?”, indagou, com o bloco de anotações sobre o colo. Remexendo-se desajeitadamente numa poltrona, Jéssica Borges não conseguia responder: “Alguma coisa que remeta à mãe natureza, talvez. Não, não é bem isso…”

Sem pressa, Montaghini deixava a moça divagar. Às vezes, a interrompia gentilmente e lhe fazia mais perguntas. Ele sabia que, cedo ou tarde, a cliente acharia o fio da meada. “No fundo”, concluiu a jovem, após um monólogo de vinte minutos, “quero uma ilustração que expresse minha nova fase.” Um momento menos ganancioso, de rotinas bem simples, definiu.

O artista, satisfeito, pediu licença e se levantou, acomodando-se numa mesa com pincéis e computadores. “Aquela foi a primeira etapa: a da conversa”, explicou. “Nem sempre os clientes sabem o que desejam. Então eu ajudo a descobrir.” Para tanto, afirmou usar técnicas oriundas da psicologia e da psicanálise. “Sou filho de analistas freudianos, mas prefiro recorrer principalmente aos conceitos de Jung, que lidou melhor com o imaginário, as fantasias.”

Montaghini é um dos tatuadores mais requisitados e menos convencionais de São Paulo. Criterioso, nega-se a reproduzir lugares-comuns na pele alheia: dragões, tigres, sóis, motivos tribais e outras imagens disponíveis em catálogos. Tampouco aceita copiar ilustrações trazidas pela clientela. Ele faz questão de criar todos os desenhos que tatua, sempre tomando por base “o gestual, os traumas, os bloqueios, os gostos e as ambições” de quem o contrata. Seus trabalhos, bastante ecléticos, ora lembram pinturas barrocas ou psicodélicas, ora aludem à mitologia grega ou à iconografia tradicional japonesa. Não raro, ao elaborar no papel a figura que se converterá em tatuagem, o artista lança mão de materiais incomuns, como borra de café e óleo.

As tattoos custam entre 3 mil e 40 mil reais. O preço salgado não desanima os interessados. Atualmente, a espera para uma sessão com Montaghini ultrapassa os dois anos (o tatuador atende apenas uma pessoa por dia, de segunda a sexta-feira). “Meu público, claro, é a elite, a classe AA – aquele que, historicamente, sempre gastou dinheiro com arte.”

 

Localizado no bairro de Indianópolis, o estúdio de Montaghini mais parece um ateliê. Cavaletes, tintas, solventes, sprays e baldes de massa acrílica dividem o piso térreo com uma máquina de escrever, arcadas de crocodilo, crânios humanos, livros de arte e uma placa de madeira talhada em que se lê: VICTOR – O MAGNÍFICO. É lá que o tatuador entrevista os clientes e idealiza seus desenhos. A tatuagem em si é aplicada no 1º andar. Já o 2º e último piso abriga a casa do artista. No subsolo, funciona a galeria onde ele expõe seus quadros – muitos deles vendidos por milhares de reais.

“Adoro o traçado do Victor”, elogiou Jéssica Borges enquanto aguardava Montaghini terminar a ilustração de 4 mil reais que lhe adornaria o braço esquerdo. Ela esperou dois anos e meio para adentrar o disputado estúdio e nem se recordava mais de que solicitara um horário quando recebeu a confirmação. Sem pensar muito, comprou uma passagem e veio de avião da Holanda, onde mora com o marido. “Ter uma tattoo do Victor é um investimento. Você carrega uma grife no corpo, entende?”

Naquela tarde, o artista usava uma camisa cor de vinho semiaberta, botas de cowboy e um pesado colar. Uma malha negra sobreposta à calça jeans subia até a metade de suas coxas, como um meião. A barba farta contrastava com a cabeça inteiramente raspada, que exibia tatuagens de formato geométrico. “Uma porção de gente me critica pelo fato de meus trabalhos custarem caro”, lamentou. “Nem me conhecem e falam mal…”

O tatuador de 36 anos – que nasceu numa família de classe média, em Santo André, no ABC paulista – sempre gostou de música, literatura e pintura. Na adolescência, aprendeu piano, arriscou-se como escritor e esboçou os primeiros quadros. Após cursar a faculdade de artes plásticas, resolveu viver de tatuagem. Trabalhou em estúdios na Espanha e na Argentina até encontrar um estilo próprio. Suas criações rapidamente chamaram a atenção e hoje fazem sucesso no Instagram. Foi ali que Borges as descobriu. “Me apaixonei no mesmo instante”, lembrou, entusiasmada, à medida que zanzava pelo estúdio. “Cadê o meu desenho, gente?”

Depois de duas horas às voltas com a ilustração, Montaghini deixou a mesa e reencontrou a jovem, que não conseguia disfarçar a impaciência. Orgulhoso, mostrou a imagem recém-concluída e nada discreta: uma mulher que, rodeada por tulipas, tirava os sapatos. Sem aguardar a reação da cliente, explicou: “Conversamos sobre natureza, desapego e liberdade, certo? Por isso, me veio a ideia de uma moça tirando o sapato num jardim – uma atitude singela e prazerosa. Botei as tulipas porque são flores tipicamente holandesas.” Ele também acrescentou à figura os três x que compõem a bandeira de Amsterdã e simbolizam a cidade. “Uau, ficou lindo!”, vibrou a cliente.

A dupla então subiu para o 1º andar. Mal o motor das agulhas zuniu, Borges – que já possuía algumas tatuagens pequenas – fez uma careta. Temia sentir dor? “Não, estou preocupada com meu pai. O que ele vai achar disso tudo?”, confessou, aos risos, enquanto a máquina começava a lhe tingir a pele de amarelo e vermelho.

Guilherme Pavarin

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