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Ser anarquista em Jarinu

Por que o punk não pode jogar bola?

André Conti
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL

 

Localizado num sítio a cerca de 100 quilômetros de São Paulo, entre os municípios de Jarinu e Campo Limpo Paulista, o Centro de Formação Cidade Campo do MST não é local de fácil acesso, mesmo para quem mora na capital. Primeiro, pega-se um trem no Terminal Barra Funda até a estação Francisco Morato. Depois, mais um trem até Campo Limpo Paulista, outra viagem longa. Por fim, é esperar por um ônibus que circula apenas três vezes ao dia, mas é o único a passar em frente ao sítio.

Foi para lá que, entre os dias 22 e 24 de janeiro, marcharam cerca de 300 militantes de movimentos autônomos da América Latina. Foram participar do 9º Encontro Latino-Americano de Organizações Populares Autônomas, o Elaopa. Por conta de chuvas e queda de barreira, a estrada estava fechada para caminhões e coletivos, o que adicionou outros 2 quilômetros a pé ao trajeto.

O primeiro Elaopa realizou-se no Brasil em 2003, como alternativa ao Fórum Social Mundial, mais frequentado por medalhões da esquerda avuncular e convidados internacionais. A tribo reunida em Cidade Campo nutre solene desprezo pelo formato do Fórum, que aloca menos espaço e tempo para debates e costuma terminar em sambinha. Em anos anteriores o Elaopa passou pela Bolívia, Argentina, Uruguai e Chile, sempre tocado por um coletivo de diversas linhas políticas, num esquema de autogestão. O encontro não tem participação de partidos nem de ONGs. Conta, essencialmente, com a ajuda de organizações (como o MST, que cedeu o sítio) e dos próprios acampados, que este ano pagaram 25 reais por oito refeições, espaço para barracas, um alojamento para crianças e idosos. Além da infraestrutura para os debates.

A lista dos movimentos autônomos presentes forma um caleidoscópio de causas: luta por moradia, terra, transporte, direitos animais, humanos e sindicais, defesa da cultura, feminismo, ecologia. A ideia central está em articular esses grupos nacionalmente e através da América Latina, formando redes de solidariedade e, claro, mais grupos e coletivos. Como essas organizações tendem a se voltar para causas específicas – contra a remoção de determinada favela, a favor do passe livre e assim por diante –, o encontro consegue produzir resultados concretos, já que a escala das ações é menos grandiloquente do que a praticada pela esquerda tradicional.

Exceções sempre há. Entre o material de leitura circulante, um impresso proclamava que a função social de uma biblioteca não é “ser apenas um depósito de livros, mas sim promover a possibilidade de apropriação e produção de conhecimento coletivo, através da compreensão do mundo e do pensamento crítico para uma transformação radical da sociedade, através da ação direta de caráter coletivo e social”. A biblioteca busca, enfim, a própria “emancipação da Humanidade”.

Em compensação, o acampamento teve baixíssima incidência de violões e do chamado “raulseixismo”, nas palavras de um dos participantes, e presença quase nula de terrorismo poético e maracatu. Como o tempo era curto, também havia um esforço em tornar os encontros menos burocráticos. Quando algum companheiro se perdia na argumentação, um dos organizadores o encorajava a encerrar a fala, e quase sempre a coisa andava.

Os acampados eram na maior parte jovens de vinte e poucos anos e, embora as falas fossem desiguais, pontuadas por algumas doses de ingenuidade e proselitismo, o que se via ali não era um engajamento festivo, talvez por já se tratar do nono encontro. Mesmo sob um calor de lascar, os militantes estavam lá para participar das comissões e dos grupos de trabalho. Em um sítio cedido pelo Cidade Campo, onde se plantam uvas e outros alimentos, a sede foi usada para a realização das plenárias.

Não havia muitos leitores de e tatuagens de Che Guevara no acampamento. Os desenhos variavam mais entre Banksy e o “A” do anarquismo, do que entre a foice e martelo e o velho Trotsky (ainda que houvesse um Ho Chi Minh). A ideologia também é difusa e, muito embora predominem os anarquistas, há coletivos socialistas, um marxista heterodoxo, veganos radicais e, pelo que corria à boca miúda, três maçons progressistas. As comissões mais numerosas são as do Rio de Janeiro, São Paulo e Rio Grande do Sul, mas há uruguaios, chilenos, haitianos e um costa-riquenho.

 

O movimento autônomo sempre existiu como alternativa à esquerda tradicional. A configuração atual começou a ganhar forças durante a luta contra a Área de Livre Comércio das Américas, a Alca, entre 1999 e 2002, e integrou grupos que liam mais Naomi Klein, Hakim Bey e Noam Chomsky do que Marx e Lênin, e que faziam duras críticas aos governos Lula, Chávez e Morales.

O tema do encontro deste ano era a Iniciativa para a Integração da Infraestrutura Regional Sul-Americana, IIRSA, o que, para alguns grupos presentes, significa remoções, despejos, mudanças na economia das suas regiões. Divididos em comissões – comunitária, cultura e comunicação, educação, estudantil, gênero, raça e etnia etc. –, eles compartilham experiências e propõem ações práticas e coletivas a serem implementadas após o encontro.

Essas experiências são variadas. Há representantes do Autônomos F. C., um time de futebol anarquista com atuação política, grupos em defesa de comunidades indígenas, luta antimanicomial. Há também grupos de trabalho, que discutem temas que vão dos “indicadores de golpes de Estado na América Latina” ao “impacto dos megaeventos (Copa, Olimpíadas)”. Novamente, afora alguns excessos retóricos – falou-se em “desumana humanidade” e “sulear” em vez de “nortear” –, e alguns momentos em que os militantes entregavam a idade – “O governo joga um subjetivo muito tenso para a galera do Ceará” –, os debates pareciam carregar o acúmulo de discussões dos encontros anteriores.

Pela noite, após a exibição de um filme, um vinho do MST e música ao vivo. No dia 22 foi o grupo Anarcofunk, “antipalco” e “antimúsica”, que puxou clássicos como Quero Ver Cu Balançar e um funk da Internacional. Domingo pela manhã, alguns já se reuniam para exercícios matinais, enquanto o pessoal do Autônomos F. C. começava a articular o futebol do meio-dia e meia.

Nessa hora, a reportagem de piauí, firme signatária da cartilha do PiG, Partido da Imprensa Golpista, articulava sua volta à capital. Uma militante mais atenta notou a fuga e postou no Twitter: “Dois quilômetros a pé, dois ônibus, dois trens, um metrô e estaremos de volta do Elaopa. Enquanto isso, a IMPRENSA BURGUESA volta de táxi!”

André Conti

André Conti é editor na Companhia das Letras.

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