anais da história

Sexo depois da guerra

A sujeição das mulheres e a emancipação feminina no Japão e na Europa em ruínas

Ian Buruma
As “garotas <i>panpan</i>“, prostitutas autônomas do Japão, eram apontadas como símbolo da degradação nacional, mas provocavam fascínio. Sua situação era muito melhor do que a da maioria dos cidadãos sem-teto, famintos e empobrecidos
As “garotas panpan“, prostitutas autônomas do Japão, eram apontadas como símbolo da degradação nacional, mas provocavam fascínio. Sua situação era muito melhor do que a da maioria dos cidadãos sem-teto, famintos e empobrecidos FOTO: DANCER ON A ROOFTOP_YICHIGEKI THEATRE, YURAKUCHO, 1947_TADAHIKO HAYASHI_CORTESIA DO STUDIO EQUIS

Ser alemão ou japonês em 1945 era, sem dúvida, uma experiência bem diferente da de ser francês, holandês ou chinês, sem mencionar a de ser judeu. Tal percepção também se aplicava ao encontro das tropas estrangeiras com os derrotados. Para estes, os amis (gíria em alemão para “ianques”) ou ameko (o mesmo, em japonês) – assim como os canadenses, australianos, britânicos e soviéticos – não haviam chegado como libertadores, mas como conquistadores. Em certa medida, eram conquistadores até mesmo para muitos italianos, sobretudo no sul da Itália, onde as invasões aliadas pioraram ainda mais a vida, que já não era fácil. Cidades foram bombardeadas até o esfacelamento, as condições econômicas eram medonhas. Em muitos casos, a prostituição era uma necessidade.

Em Berlim, eram conhecidas como Ruinenmäuschen [ratos das ruínas] as garotas e mulheres que perambulavam pelos escombros da cidade tentando se oferecer a um soldado por um pouco de dinheiro, comida ou cigarros. Algumas meninas, nem bem entradas na adolescência, praticavam seu comércio em bordéis improvisados nas ruínas, controlados pelo mercado negro. Meninos tinham seu próprio Trümmerbordellen [bordéis nas ruínas], onde se vendiam a soldados americanos, e um deles, conhecido como Tante [tia] Anna, tornou-se personagem notório no submundo de Frankfurt.

A necessidade de sobreviver também dissolvia distinções de classes. Norman Lewis era um jovem oficial do Exército britânico estacionado em Nápoles. Em seu magnífico relato Naples ’44, ele descreve a visita a seu quartel-general de um grande aristocrata italiano, dono de um palazzo em algum lugar do sul. O nobre foi com a irmã:

Os dois são extremamente semelhantes: magros, com uma pele palidíssima e uma expressão nobre, fria, beirando a severidade. O propósito da visita era perguntar se poderíamos conseguir que a irmã entrasse para um bordel do Exército. Explicamos que no Exército britânico não existia tal instituição. “Que pena”, disse o príncipe. Ambos falavam um excelente inglês, que haviam aprendido com uma governanta inglesa. “Bem, Luisa, suponho que, se não é possível, então não é possível.” Eles nos agradeceram com uma tranquila polidez e partiram.

 

No Japão, a prostituição foi institucionalizada desde o início da ocupação. Eles tinham suas razões. As autoridades japonesas estavam aterrorizadas: temiam que os soldados aliados fizessem a seus cidadãos o que as tropas japonesas haviam feito aos chineses e a outros asiáticos. Quando Nanquim foi saqueada, em 1937, e Manila razoavelmente destruída numa batalha travada até a última trincheira, em 1945, dezenas de milhares de mulheres foram estupradas, mutiladas e com frequência assassinadas – se já não tivessem morrido com os suplícios que lhes foram infligidos.

Essas foram duas situações particularmente ruins. Houve muitas outras. Na China, os estupros perpetrados por soldados do Japão Imperial ocorreram numa escala tão massiva que se tornaram um problema de ordem militar, suscitando uma resistência mais ferrenha dos chineses. Para lidar com essa dificuldade, às vezes mulheres eram convocadas – mas na maioria dos casos eram raptadas, em especial na Coreia e em outros países sob controle japonês – para servir nos bordéis do Exército japonês como “mulheres de conforto”, ou seja, escravas sexuais.

O governo e a propaganda militar haviam amedrontado os cidadãos com prognósticos constantes de que, em caso de derrota, as japonesas seriam violentadas, torturadas e assassinadas por soldados estrangeiros. Para impedir tal destino horrível e desonroso, os japoneses eram instruídos a combater até a morte, ou então se matar. Mulheres e crianças nas ilhas do Pacífico e em Okinawa foram doutrinadas a explodir seus corpos com granadas de mão, ou saltar de penhascos. Muitas o fizeram.

E assim, em 18 de agosto, três dias depois da rendição do Japão, o ministro do Interior ordenou a oficiais da polícia local que criassem “instalações de conforto” para os conquistadores aliados. Recrutaram-se mulheres dispostas a, por dever patriótico, “sacrificar seus corpos” na Associação de Recreação e Diversão (RAA, na sigla em inglês). O ex-primeiro-ministro, príncipe Fuminaro Konoe, que sobraçava a imensa responsabilidade de ter começado a guerra do Pacífico, pediu ao comissário nacional de polícia que “por favor” defendesse “as jovens do Japão”. Talvez essa medida aplacasse os invasores estrangeiros, e assim as japonesas respeitáveis poderiam sair de seus esconderijos e andar pelas ruas sem serem molestadas.

 

Deve ter sido um negócio sórdido. Instalações para “recreação e diversão” foram providenciadas com tamanha pressa que não havia camas para acomodar os soldados e as mulheres sacrificiais. Ocorriam relações sexuais em qualquer lugar, na maioria das vezes no chão, em vestíbulos e corredores dos bordéis improvisados. Só depois de alguns meses os japoneses implantaram acomodações mais efetivas. Em Funabashi, nos arredores de Tóquio, foi construído o International Palace, ou IP, um enorme bordel em formato de hangar. O IP oferecia sexo numa espécie de linha de montagem, conhecida como willow run, nome de uma fábrica de bombardeiros erguida pela Ford perto de Detroit. Os homens deixavam seus sapatos na entrada do extenso prédio, e na saída, na outra extremidade, os pegavam de volta, engraxados e reluzentes.

Alojamentos militares, como o Nomura Hotel, em Tóquio, ficavam apinhados de mulheres que, identificadas como recepcionistas ou encarregadas da limpeza, lá pernoitavam com frequência. Algumas levavam suas famílias para abrigá-las contra o frio do inverno. Um grande salão de baile no Centro de Tóquio tinha um letreiro em japonês que dizia: “Moças patriotas! Ajudem a reconstruir o Japão servindo como parceiras de dança!” Preservativos eram vendidos nas PXs – lojas especiais, destinadas aos membros das forças de ocupação, para o comércio de comida, roupas e outros suprimentos.

Ao contrário do que ocorreu na Alemanha, no Japão não havia, de início, uma proibição estrita à “confraternização com pessoal nativo”. O general Douglas MacArthur, comandante supremo das Forças Aliadas (SCAP, na sigla em inglês), reconhecia a inutilidade de tal regra. Ele havia dito a um de seus assessores: “Eles continuam tentando me convencer a dar um basta em toda essa ‘Madame Butterflyzação’ em curso. Não vou fazer isso. Não emitiria uma ordem de não confraternização nem por todo o chá da China.”

No começo da ocupação, havia no país cerca de 600 mil soldados dos Estados Unidos, além dos australianos, britânicos e um punhado de outras nacionalidades. Portanto, a confraternização ocorria em larga escala. Em carta de outubro de 1945, William Theodore de Bary – oficial da Marinha dos Estados Unidos que depois se tornou um reconhecido estudioso da China e do Japão – descreveu o que acontecia em Sasebo, uma grande base naval na ilha de Kyushu:

A confraternização em si vem sendo um problema. Com efeito, a polícia do Exército precisou proibir aglomerações na grande ponte junto a nossos quartéis, tamanho o congestionamento de fuzileiros excitados falando e usando a linguagem dos sinais para se comunicar com japonesas sorridentes e amistosas. Tem sido assim desde o início.

E tudo isso a despeito da propaganda extraordinariamente racista que circulava nos Estados Unidos. Veja-se, por exemplo, o trecho de um artigo sobre a ocupação do Japão publicado na revista Saturday Evening Post: “A mulher japonesa mediana, de peito liso, nariz em forma de botão, pés chatos, é tão atraente para a maioria dos americanos quanto um ídolo de pedra com mil anos de idade. Na verdade, menos. Dos ídolos eles gostam de tirar fotos.”

O autor do artigo, para sermos generosos, estava no mínimo desavisado. A maioria dos oficiais mais graduados do SCAP já tinha amantes japonesas em 1945. Como as mulheres ocidentais eram escassas, isso era previsível. As coisas só começaram a mudar quando desembarcou uma nova leva de militares, homens menos tolerantes que mal haviam tido experiência direta de combate. Mesmo tendo sido suspensas as restrições na Alemanha, eles decidiram impor ao Japão uma disciplina mais rígida, declarando “interdita” grande parte dos lugares públicos, como restaurantes locais, estâncias termais, cinemas ou hotéis do Exército.

Resultado: a confraternização continuou a existir, porém mais discretamente, e cada vez mais com prostitutas autônomas, que nada faziam para diminuir a incidência de DST. Nos parques e nas ruas arrasadas por bombas, as prostitutas tinham seu próprio território, as ditas “ilhas”. Algumas cobravam a miséria de 1 dólar, que era aproximadamente o preço de meio maço de cigarros no mercado negro. O negócio prosperou, sobretudo a partir de 1946, quando a administração aliada decidiu, na contramão da advertência dos japoneses, abolir a prostituição organizada.

 

Os japoneses são muito precisos em suas classificações. As meretrizes autônomas, conhecidas como “garotas panpan”, eram subdivididas entre as que se especializavam em soldados brancos estrangeiros, em soldados negros estrangeiros e só em japoneses, embora algumas das mais empreendedoras se recusassem a fazer distinções tão estritas. Algumas prostitutas, as chamadas onrii (algo como “somente um”), limitavam seu vínculo a um único cliente. As mais promíscuas que o habitual eram as batafurais [borboletas]. Certas áreas do Centro de Tóquio, como o Hibiya Park, em frente ao Q.G. do general MacArthur, ou a estação próxima de Yurakuchu, eram territórios da jurisdição das panpan.

As panpan, com seus lábios carregados de batom e seus sapatos de salto alto, constituíam objeto do escárnio dos japoneses – símbolo da degradação nacional –, mas também provocavam certo fascínio, com um toque de inveja. Em termos materiais, encontravam-se em situação muito melhor do que a maioria dos cidadãos sem-teto, famintos e empobrecidos do país.

Essas garotas trabalhadoras, além de serem as primeiras e mais ávidas consumidoras de mercadorias americanas, estavam – mais do que a maioria de seus compatriotas – familiarizadas com a cultura popular dos vitoriosos. Com seu jargão peculiar, mescla de gíria japonesa com o deturpado linguajar em inglês dos soldados, elas estavam mais próximas de dominar a língua da ocupação do que a maioria dos japoneses jamais iria conseguir.

Em certo sentido, as panpan se filiam a uma tradição anticonvencional japonesa que combina vida no submundo e glamour. As prostitutas da Tóquio pré-moderna, então ainda chamada Edo, estavam em total sintonia com as roupas da moda, e foram notabilizadas em xilogravuras e no teatro Kabuki. Nos primeiros anos da ocupação aliada, a cultura associada às panpan era em grande medida menos refinada. A derrota militar e o fim da censura e da educação militarista do tempo de guerra fizeram reviver uma cultura do sexo comercial que, embora com raízes no passado, trazia boa dose de influência americana.

Proliferavam revistas obscenas com títulos como LovelyVenusSex Bizarre Pin-Up. Abriram-se casas de striptease nos antigos distritos de entretenimento, em geral espeluncas construídas em torno de crateras de bombas. Em ordinários salões de baile, cafetões, contrabandistas e jovens arruaceiros vestidos com camisas havaianas dançavam o mambo com suas namoradas. Bandas de suingue japonesas e cantores de jazz renasciam, depois de anos de proibição de costumes estrangeiros. Havia uma febre de boogie-woogie.

Muitas mulheres voltaram-se para a prostituição por necessidade. Mas nem todas. Pesquisas da época demonstram que um grande número de moças havia se tornado panpan “por curiosidade”. E isso, mais do que o pagamento por sexo, foi o que rendeu às panpan particular opróbrio. “Sacrificar” o corpo para sustentar uma família rural, ou por dever patriótico, era aceitável, talvez até mesmo louvável; fazê-lo por curiosidade, ou por dinheiro, cigarros ou meias de seda, era uma desgraça. A prostituição organizada tinha uma tradição antiga e era tolerada. Mas as panpan foram condenadas por sua livre-iniciativa, que as tornava perigosamente independentes.

 

Apesar do exibicionismo barato e do desespero que em grande parte envolviam a cultura do sexo comercial em 1945, ela era, como as danças do mambo e do boogie-woogie, uma espécie de libertação – alguns aceitavam de bom grado, outros abominavam. Os cerca de 90 mil bebês nascidos em 1946 de mulheres solteiras certamente não resultam, todos, de relações puramente comerciais.

Depois de tanta propaganda negativa sobre os bárbaros estupradores e assassinos, muitas mulheres japonesas ficaram extremamente aliviadas quando de fato conheceram os não tão temíveis americanos. Eis o que disse uma mulher que escrevia numa revista de respeitabilidade absoluta, a Fujin Gaho: “Eu os considero corteses, amistosos, tranquilos e perfeitamente agradáveis. Que contraste agudo e doloroso com os arrogantes, medíocres e malcriados soldados japoneses que viviam nos quartéis perto de minha casa.”

Isso não quer dizer que os soldados aliados não tenham tido um comportamento abusivo, sobretudo no início da ocupação. Segundo uma estimativa, na segunda metade de 1945 eram estupradas quarenta mulheres por dia, o que provavelmente está subestimado, já que, por pudor, inúmeras ocorrências não teriam sido denunciadas. Tais números jamais seriam publicados na censurada imprensa da ocupação, é evidente. Mas a maioria dos japoneses reconheceria que os americanos eram bem mais disciplinados do que eles imaginavam e temiam, sobretudo se comparados a outras tropas no estrangeiro.

Estranhamente, a mudança nos hábitos sexuais correspondia ao esforço de propaganda dos americanos para “reeducar” os japoneses. Dizia-se a estes que, para a implantação da democracia, as mulheres deveriam ser tratadas com mais igualdade. As garotas panpan talvez não correspondessem ao que os educadores tinham em mente, mas seus compatriotas foram estimulados a demonstrar a afeição física mais abertamente, como os americanos. E foi assim que, em 1946, para o bem dos japoneses e depois de muito incentivo americano, exibiu-se o primeiro beijo no cinema – o filme se chamava Hatachi no Seishun e se tornou muito popular entre o público jovem.

Claro que há uma distância enorme entre se oferecer a soldados por dinheiro no Hibiya Park e o primeiro beijo cinematográfico, mas a avidez do público por entretenimento erótico e música popular de conotação sexual sugere que a lacuna entre povos libertados e derrotados não era de fato tão grande quanto se poderia imaginar. Para os japoneses, também, uma nova noção de liberdade desembarcava ao som de In the Mood, da banda de Glenn Miller.

O mesmo ocorria nas zonas de ocupação ocidentais da Alemanha. Nas áreas dominadas pelos soviéticos, as coisas eram bem diferentes, pelo menos no que diz respeito ao sexo. Se o termo “confraternização” veio a definir as relações com as tropas estrangeiras no Ocidente, para o Exército Vermelho o estupro era uma das maldições que acompanhavam a derrota de um povo. Claro que havia estupros também nas zonas ocidentais, sobretudo – mas não apenas – sob a ocupação francesa. Em Stuttgart, por exemplo, estima-se que cerca de 3 mil mulheres tenham sido violentadas por tropas francesas, compostas em grande parte de argelinos. Na zona de ocupação americana, de longe a maior, ao longo do ano de 1945 o número de estupros perpetrados pelos conquistadores não passou de 1 500.

 

Há muitos motivos que explicam por que o estupro era menos comum sob a ocupação ocidental do que na zona soviética. As tropas aliadas, com a possível exceção das francesas, não eram tão movidas pela vingança quanto as soviéticas, tampouco seus superiores as encorajavam a fazer o que quisessem com as mulheres alemãs. (Como é sabido, o próprio Stálin declarou que os soldados que haviam cruzado milhares de quilômetros em meio a sangue e fogo tinham direito de “se divertir um pouco com as mulheres”.) Além disso, a disposição das alemãs para “confraternizar” com soldados aliados era tal que o estupro tornava-se um expediente raro. Um gracejo popular entre os soldados no verão de 1945 era que as mulheres alemãs eram as mais promíscuas “para cá do Taiti”.

Sem dúvida um exagero, fomentado não só pelos agradecidos soldados, mas por alemães que se sentiam ultrajados por atos que consideravam um insulto a mais a seu já destroçado orgulho nacional. Muitos soldados diziam que as mulheres alemãs, chamadas ora de frauleins, de furlines [máximo em sensualidade] ou de fratkernazis, estavam ainda mais desejosas de ter relações sexuais com eles do que as francesas.

Uma análise bastante superficial desse fenômeno, mas talvez não totalmente imprecisa, foi feita por um soldado logo depois de ter retornado aos Estados Unidos: “Mesmo correndo o risco de cometer uma indiscrição”, ele escreve, “é preciso admitir que tudo o que os soldados americanos queriam na Europa era ‘se dar bem’”, o que incluía “uma oportunidade para confraternizar tanto quanto possível”. Ele continua: “Foi na Alemanha, naturalmente, que os soldados se deram melhor. Na França o negócio foi diferente. O soldado não encontrou por lá a mesma receptividade que havia na Alemanha. Ele não pôde ter na França a diversão apregoada por seu pai e pelos libertadores em 1944.”

E na Alemanha havia, evidentemente, bem mais mulheres do que homens – uma proporção de dezesseis para dez –, e os homens remanescentes eram em geral velhos, inválidos e desprezíveis. Como diz o jovem alemão em Alemanha Ano Zero, a excelente película de Rossellini filmada nas ruas de Berlim: “Antes éramos homens, nacional-socialistas, agora somos apenas nazistas.”

Em suas memórias literárias da França libertada, Benoîte Groult não resistiu a comparar a “beleza dos americanos” à dos “franceses, que me parecem retorcidos, escuros e subnutridos”. Obviamente, a desmoralização dos homens alemães e japoneses era pior. A reação de uma garçonete alemã entrevistada por Carl Zuckmayer – dramaturgo e roteirista de cinema [O Anjo Azul], que em 1946 retornara a seu país natal como adido cultural americano – era bem típica. Ela não queria saber dos alemães, que, de acordo com ela: “São moles demais, não são mais homens. No passado eles eram muito exibidos.”

Para mim, o relato mais memorável da humilhação masculina é de Akiyuki Nosaka, romancista que em 1945 não passava de um adolescente perambulando pelo mercado negro de Osaka. Seu notável romance Amerika Hijiki, de 1967, toca em temas como masculinidade e raça. O protagonista é um japonês da sua idade.

Na escola, durante a guerra, disseram-lhe que os homens ocidentais eram mais altos do que os japoneses, porém mais fracos, sobretudo em torno dos quadris, devido ao hábito de sentar-se em cadeiras e não em tatames. Poderiam ser fisicamente derrotados por qualquer japonesinho robusto com coxas musculosas. Aos alunos, enaltecia-se a figura do atarracado general Yamashita, com seu pescoço de touro. “O Tigre da Malásia” aceitara a rendição de Cingapura apresentada pelo general britânico Percival, cujas pernas absurdamente longas e espigadas em nada eram beneficiadas pelas calças curtas cáqui.

Mas então o adolescente japonês conhece a realidade de perto, a visão inesquecível de um soldado americano, “seus braços como troncos, sua cintura como um pilão, a masculinidade de suas nádegas envoltas na reluzente calça da farda. Ah, não era de admirar que o Japão tivesse perdido a guerra”.

Evidentemente, nem todos os soldados aliados eram tão grandes e musculosos, e muitos japoneses estavam longe de ser franzinos. Mas a percepção, a primeira impressão de um adolescente faminto, perduraria como a lembrança melancólica de uma guerra que fora apresentada aos japoneses como uma disputa racial entre nobres guerreiros asiáticos e a arrogante raça branca. Isso fez com que o confronto entre vitoriosos e derrotados fosse mais chocante no Japão do que na Alemanha no pós-guerra.

 

Na Alemanha, as autoridades ocidentais (mas não as soviéticas) inicialmente fizeram tudo o que puderam para implementar uma política de não confraternização. “Garotas bonitas podem sabotar uma vitória aliada”, anunciava a Rede das Forças Americanas. “Soldados sensatos não confraternizam” [Soldiers wise don’t fraternize], advertia Stars and Stripes, o jornal militar, ou “Não brinquem de Sansão e Dalila – ela é capaz de cortar seu cabelo na altura do pescoço”. A suspensão do embargo, dizia o Times de Londres, provavelmente iria “afligir um grande número de esposas em casa”.

Mas nada disso bastava para dissuadir os homens que lá estavam. A expressão “madame Exército” [1] era popular na época entre os aliados ocidentais. O termo se referia às muitas alemãs que eram amantes de oficiais americanos – por algum motivo, mais do que de oficiais ingleses, que aparentemente preferiam a bebida. Isso, por sua vez, causava ciúme nos escalões mais baixos, um sentimento expresso em piadas amargas do tipo: “A política é conceder aos medalhões a primeira investida sobre todas as mulheres bonitas.”

Tanto o general George Patton como o general MacArthur não viam vantagem nenhuma nessa interdição. Será que os bem alimentados soldados americanos deveriam mesmo se recusar a dar guloseimas para crianças famintas? Seriam todos os alemães verdadeiramente nazistas? (É preciso dizer que Patton era muito mais indulgente com os alemães, mesmo que fossem de fato nazistas, do que com os aliados comunistas, ou até com os judeus.)

Até o New York Times, nem sempre na vanguarda da opinião pública, foi crítico em suas reportagens sobre as zonas ocupadas. O correspondente local relatou em junho que ainda “estava por conhecer um soldado, viesse de Londres, do vale do Mississippi ou dos campos de trigo de Alberta, que quisesse a continuidade da interdição”. O mesmo repórter informava o absurdo das medidas tomadas para tornar a restrição mais rigorosa. Um destacamento da contrainteligência fora enviado a um vilarejo na zona de ocupação americana, incumbido de observar um guarda de segurança que monitorava um policial militar que estivera “flertando com uma garota alemã”.

Em 8 de junho, o general Eisenhower suspendeu o veto ao contato com crianças, e a partir de então o cumprimento mais comum que os GIs ou os Tommies [2] dirigiam a uma jovem atraente passou a ser “Bom dia, criança!”. Em agosto, soldados aliados já podiam falar com adultos, e até mesmo, se estivessem num lugar seguro ao ar livre, ficar de mãos dadas com mulheres adultas. Em 1o de outubro, o Conselho de Controle Aliado, o corpo governante das quatro forças militares de ocupação, acabou por suspender inteiramente a interdição.

Um dos acontecimentos que levaram a isso foi a chegada de tropas britânicas e americanas a Berlim, onde os soviéticos confraternizavam bem livremente. Essa discrepância de liberalidade se tornou intolerável para as tropas ocidentais; portanto, em certo sentido, a licença para confraternizar com alemães foi uma das primeiras consequências da rivalidade entre as grandes potências. Mas o cancelamento da interdição veio com uma cláusula: ainda era proibido casar com alemãs, ou levá-las aos alojamentos do Exército. Com o tempo, isso também virou letra morta, e dezenas de milhares de alemãs partiram com seus novos maridos para a prometida boa-vida dos Estados Unidos.

 

A Alemanha tinha a sua versão das panpan – as mais degradadas e desesperadas, como disse anteriormente, eram as Ruinenmäuschen, [ratos das ruínas]. No entanto, como acontecia em todos os países sob ocupação militar, as fronteiras entre romance, desejo e prostituição nem sempre eram bem delimitadas. Mesmo na zona soviética de Berlim, onde poucas mulheres, incluindo as muito jovens e as muito velhas, haviam conseguido evitar o achaque sexual, e onde a ocorrência do estupro se manteve comum durante meses depois de terminada a guerra, as relações sexuais com tropas estrangeiras nem sempre eram abordadas abertamente.

O melhor e mais pungente relato da questão se encontra em Uma Mulher em Berlim, diário de uma jornalista de 30 e poucos anos que, sob a proteção de um oficial soviético, conseguiu escapar dos repetidos estupros. O gentil tenente Anatole tornou-se seu amante regular. Depois de tudo, ela escreveu: “Ele procura mais calor humano e feminino do que a mera satisfação sexual. E isso eu me disponho a lhe oferecer, até com prazer…”

Nas zonas de ocupação ocidentais, as mulheres que aceitavam bens materiais de seus namorados americanos – e a maioria o fazia – eram logo classificadas como prostitutas, reputação que não teriam adquirido tão facilmente se os presentes viessem de homens alemães. Para muitas, ter acesso a mercadorias do PX era uma questão de sobrevivência. Nos meses de inverno, até mesmo a calefação de um clube noturno era um bem-vindo refúgio dos quartos gélidos, compartilhados com inúmeros estranhos, em prédios bombardeados.

Mas Lucky Strikes, chocolates e meias de seda, junto à música suingada e à descontração dos americanos, representavam para as mulheres, e para vários homens jovens, uma cultura ainda mais desejável por ter sido proibida no opressivo Terceiro Reich. As pessoas estavam ávidas pelas novidades do Novo Mundo, mesmo que irrelevantes, porque o Velho Mundo havia caído em desgraça, não apenas no plano material, mas cultural, intelectual e espiritual. Isso valia para os países libertados, como a França e a Holanda, e ainda mais para a Alemanha e o Japão, onde a americanização da cultura no pós-guerra, a começar pela “confraternização”, iria mais longe do que em qualquer outro lugar.

Uma mulher, pelo menos, viu tudo isso como realmente era: um sonho, destinado a terminar em decepção – mas não sem antes deixar seus rastros. Depois de recusar pela última vez o pedido de casamento de Kurt, seu amante americano, Benoîte Groult decidiu abandonar seu jogo de “caça aos americanos”. Nesse momento, ela escreveu:

A velha Europa está completamente só. Sinto-me como a Europa, muito velha e desesperada. Esta noite acabei de me despedir de toda a América. E de vocês também, Steve, Don, Tex, Wolf, Ian, que entraram em minha vida com um sorriso tão alentador. Estou fechando minha porta… Já não me divirto mais saindo com todos vocês do outro lado do mundo: vocês vieram de muito longe, e vão voltar para lá. Vocês me libertaram. Agora cabe a mim recriar minha própria liberdade.

 

Kafū Nagai, romancista japonês conhecido sobretudo pelas nostálgicas ficções do lado sórdido de sua Tóquio amada, escreveu a seguinte entrada em seu diário, no dia 9 de outubro, quase dois meses após a derrota japonesa:

Comi à noite no Hotel Sanno. Observei sete ou oito jovens americanos que deviam ser oficiais. Não pareciam desprovidos de refinamento. Depois da ceia, eu os vi sentados no bar, praticando seu japonês com a jovem que os servia. Comparado ao comportamento dos soldados japoneses, o deles era extraordinariamente humilde.

Um mês antes, Nagai anotara em seu diário que, segundo os jornais americanos, soldados prevaricavam desavergonhadamente com mulheres japonesas. Bem, disse ele, “se for verdade, esse é o troco pelo que os japoneses fizeram na China ocupada”.

Nagai era excêntrico e altamente sofisticado, um francófilo que pouco ligava para opiniões convencionais. Na verdade, sua reação era bem rara. A maneira mais usual de encarar a confraternização de americanos com as mulheres japonesas, mesmo entre escritores e intelectuais do mais alto gabarito, era de uma censura muito maior.

Jun Takami, escritor relativamente liberal, mais moço que Nagai, e que se sentia envergonhado por sempre ter apoiado, embora de modo ambivalente, o nacionalismo militante do regime dos tempos de guerra, rememorou em seu diário algo que presenciara na principal estação ferroviária de Tóquio numa noite de outubro. Espalhafatosos soldados americanos flertavam com duas atendentes da estação, tentando convencê-las a se sentar com eles. As moças riam, aparentemente nem um pouco incomodadas. Nas palavras de Takami: “Parecia que um assédio como aquele fosse incrivelmente prazeroso. Surgiu outra atendente da estação. Tudo nela sugeria que também queria ser provocada. Que cena vergonhosa!”

Devia ser um espetáculo corriqueiro, tanto o assédio quanto a reação a ele. Mas a que vergonha Takami estava de fato se referindo? Teria achado vergonhoso o flerte em si ou o fato de as garotas estarem flertando com estrangeiros? Ou era sua própria vergonha, a vergonha de um macho japonês?

A crítica a esse tipo de confraternização também se expressava de modo mais violento. Garotas empregadas no Exército dos Estados Unidos em Hokkaido reclamavam que eram regularmente espancadas por homens japoneses em virtude de seus vínculos com tropas estrangeiras. O Exército precisava escoltá-las no caminho de volta para casa, em caminhões protegidos por homens armados.

A inveja foi sem dúvida um fator importante desse ressentimento masculino. E havia em circulação grande dose de inveja: homens derrotados sentem inveja dos vitoriosos; soldados americanos, de soldados soviéticos (quando a proibição americana ainda estava em vigor); soldados rasos, de oficiais; e assim por diante.

Em Amerika Hijiki, Akiyuki Nosaka descreve até onde esse sentimento pode levar. O adolescente da história torna-se adulto e constitui família. De férias no Havaí, sua mulher fica amiga de um casal americano de meia-idade. Eles resolvem visitar o Japão, um país que evoca doces memórias ao sr. Higgins, outrora integrante do exército de ocupação.

Obrigado pela mulher a ser um bom anfitrião, o marido japonês leva o sr. Higgins a um espetáculo de sexo explícito em Tóquio. Um ator másculo, conhecido como o “Número Um” do Japão, promete mostrar à plateia a força da virilidade japonesa. Mas, oh, naquela noite a potência do Número Um falha, e mais uma vez o marido japonês, sentindo vergonha alheia, lembra-se da primeira vez que viu um GI nas ruínas de Osaka, os braços que pareciam troncos, as nádegas rijas envoltas em gabardine brilhosa.

O sr. Higgins é branco. A propaganda de guerra japonesa não aludia aos negros, a não ser como mais um exemplo do racismo americano, desacreditando ainda mais o inimigo. Mas a ocupação por tropas multiétnicas introduziu um elemento mais perturbador do que mera rivalidade sexual.

Uma carta de uma mulher japonesa interceptada pela censura militar dos Estados Unidos menciona que haveria “20 mil mulheres em Yokohama que mantiveram relações íntimas com soldados aliados. Também se chamou a atenção do gabinete da prefeitura para o fato de que 13 mil bebês mestiços estavam para nascer em Kansai. Já era suficiente para deixar alguém arrepiado ouvir que havia em Yokohama 3 mil mulheres japonesas com filhos negros”. A causa real da indignação não estaria num comportamento imoral em si nem na prostituição, mas na tisnadura da pureza racial.

 

Sentimentos similares ocorreram na Alemanha, sobretudo em fins de 1945, depois de, uma vez suspenso o veto à confraternização, muitos jovens alemães terem sido libertados dos campos de prisioneiros de guerra. Assim como no Japão, os jovens veteranos do Exército eram especialmente sensíveis a essa história de “confraternizar”. Eis o que dizia um panfleto que circulou em Nuremberg, denunciando as Negerweibern [mulheres negras]: “Maquiadas e emperiquitadas, esmalte vermelho nas unhas, um furo nas meias e um agressivo e poderoso Chesterfield no beiço, pavoneando por aí com seus cavalheiros negros.” Outro termo para designar as adeptas da confraternização era Chokoladeweibern [mulheres do chocolate], uma referência tanto à cobiça material quanto à vergonhosa inclinação pelos cavalheiros de cor.

Certamente não foi uma coincidência que tantos filmes japoneses e alemães sobre o período da ocupação mostrassem soldados americanos negros violentando mulheres nativas, como se a etnia deles agravasse a humilhação dos derrotados. Um panfleto alemão advertia as mulheres: “Atenção: nós vamos raspar seu cabelo, a lista negra está pronta, só aguardando ventos melhores.” Na verdade, algumas receberam esse tratamento ainda em 1945. Houve um caso, em Bayreuth, em que atearam fogo a uma mulher. Em Würzburg, três homens foram presos por organizar um grupo terrorista chamado “Panteras Negras”, que ameaçava raspar o cabelo de “todas as garotas alemãs” que andassem “com soldados de cor”. Um ex-nazista de 20 anos escreveu sobre as mulheres que confraternizavam: “Não restou nenhuma honra ao povo alemão? Pode-se perder uma guerra, pode-se ser humilhado, mas não é necessário conspurcar a própria honra!”

Mais uma vez – Jun Takami já empregara a palavra “vergonha” – a referência à honra é reveladora. A honra das mulheres (sem falar do direito de decidir com quem querem ter relações) não está em questão. A preocupação aqui é com a honra dos homens. São eles que se sentem humilhados. É verdade que isso ocorreu em todas as sociedades de tradição patriarcal. As condições do pós-guerra abalaram a velha ordem. As mulheres não estavam mais sob controle masculino. Talvez tenha sido esse seu maior pecado.

Uma possível interpretação vincularia tal ressentimento diretamente a concepções políticas reacionárias que os aliados desejavam erradicar – se não necessariamente em seus próprios países, pelo menos nas nações que haviam acabado de derrotar. Julian Sebastian Bach, tenente do Exército americano que mais tarde trabalhou como editor na revista Life, escreveu um relato sobre a ocupação da Alemanha:

A medida do quanto os homens alemães aceitam a “confraternização” é o termômetro que registra o quanto aceitam a derrota, refreiam seu orgulho nacional e aguardam cheios de expectativa um modo de vida mais razoável. Obviamente, a visão de uma mulher alemã com um conquistador americano incomoda mais a um alemão de mentalidade atrasada do que a um outro que esteja disposto a cooperar conosco.

 

Jun Takami expressou opinião muito semelhante em seu diário, poucos dias depois de sua primeira reação ao comportamento vergonhoso das risonhas atendentes da estação. Mais uma vez o cenário é uma estação ferroviária. Ele observa uma mulher japonesa debruçada na janela do trem, dizendo baibai a seu amigo – um soldado americano –, aparentemente impassível aos olhares repletos de ódio de seus compatriotas. Takami vê nessa situação um páthos especial. Aos olhos dos circunstantes, ele incluído, a garota, como ele a apresenta, “chegava a parecer uma mulher numa ‘instalação de conforto’”. Mas a jovem, que de forma nenhuma era uma meretriz, não estava nem aí. Na verdade, mostrava-se “orgulhosa de se comportar de maneira tão chocante com um soldado americano”.

Takami presume que tal cena vai se tornar comum no Japão. E mais: “Seria realmente uma coisa boa. O melhor de tudo seria um dilúvio de coisas assim. Seria um bom treinamento para os japoneses. Porque depois, com o tempo, vão surgir relações sociais mais naturais, até mesmo mais belas.”

O que em Takami me parece uma reação humana e mesmo sensível, em Julian Bach – o tenente americano das forças de ocupação – mostra-se um sentimento ingênuo e voltado a seu próprio interesse. Pois o ciúme e o ressentimento que os homens, e também as mulheres, sentiam em relação aos “confraternizadores” entre sua própria gente não provinham apenas de fascistas “de mentalidade atrasada”. Sem dúvida, eram os derrotados que sentiam a humilhação de modo mais agudo. Mas o sentimento era comum também entre os libertados, mesmo entre aqueles que haviam saudado os jovens soldados aliados com flores quando aportaram como santos vitoriosos.

Uma popular canção holandesa do período que se seguiu à guerra chamava-se Menina, Se Cuide:

Bravos rapazes, orgulhosos guerreiros
Aqui chegaram de longe
Trouxeram-nos liberdade
E assim podem ter alguma diversão

Mas muitas “garotas holandesas”
Logo jogaram fora sua honra
Por um maço de cigarros
E uma barra de chocolate…

Muitas que aclamavam os bárbaros
Já pagaram por isso
Garota, você traiu a dignidade de
seu país
Tanto que…

Nenhum rapaz holandês olhará para
você novamente
Já que você o ignorou…

Está tudo aí: honra nacional, moral frouxa, ganância material, rapazes locais rejeitados. O mais revelador é equiparar as garotas que se relacionaram com os alemães com as que o fizeram com os libertadores da Grã-Bretanha ou da América do Norte. A implicação é clara. O foco era a imoralidade feminina. Foi por isso que algumas garotas que confraternizaram com canadenses tiveram os cabelos raspados por turbas enraivecidas, exatamente como as Moffenhoeren [putas dos alemães].

 

Vários fatores acirraram o pânico moral desencadeado pela ocupação estrangeira, tanto nos países libertados como entre os derrotados. As mal orientadas políticas de ocupação pouco fizeram para atenuar o ressentimento dos homens locais. As tropas aliadas requisitaram cinemas, cafés, salões de baile e piscinas para uso próprio. Eram locais vetados à população nativa, mas não a garotas que tivessem conseguido “fisgar” um soldado aliado.

É natural que isso provocasse ressentimento. Na cidade de Utrecht, um grupo de jovens holandeses agarrou algumas garotas que haviam sido vistas com soldados canadenses e tentou raspar-lhes a cabeça. Os canadenses as protegeram. Empunharam-se facas, atiraram-se pedras, sacaram-se armas de fogo. Nessa ocasião ninguém foi morto, embora muita gente tenha saído ferida.

A proibição que os aliados impuseram à prostituição organizada também contribuiu para a alta taxa de doenças venéreas. Uma expressão popular entre os americanos na Alemanha, quando enfim se declarou terminada a guerra, foi: “Depois de V-E vem VD.” [3]

Na zona de ocupação americana na Alemanha, dizia-se que a taxa de DST tinha se elevado em 235% entre o Dia da Vitória e o final de 1945 – ou seja, de 75 soldados em cada mil por ano, para 250 por ano. E isso apesar da distribuição, entre os GIs – em estações de trem e clubes da Cruz Vermelha –, de “pacotes-V”, contendo camisinhas e pílulas de permanganato de potássio. Na Holanda, a incidência de DST já havia aumentado consideravelmente durante a ocupação alemã, e recrudesceu ainda mais depois da guerra. A imprensa publicava histórias assustadoras sobre mais de 10 mil mulheres que supostamente tinham se infectado com doenças sem nem se darem conta disso. Houve temores semelhantes na França.

No sul da Itália, o pânico moral, colocando o perigo de DST par a par com a humilhação nacional, encontrou uma peculiar representação histriônica no livro A Pele, de Curzio Malaparte. Malaparte era um mitômano, o que ele nunca negou, e sentia mais do que uma leve simpatia pelos fascistas; tinha, porém, talento para expressar o sentimento popular, ainda que de forma exagerada para obter um impacto maior.

A invasão aliada é comparada em seu livro a uma praga, que deixa “os membros aparentemente intactos”, mas “a alma infeccionada e apodrecida”. Durante a ocupação alemã, explica Malaparte, “só prostitutas” mantinham relações com as forças de ocupação. Mas agora, com americanos e britânicos, “como resultado dessa praga abominável, que corrompeu primeiro o senso feminino de honra e de dignidade”, a vergonha infectou todos os lares italianos. Por quê? Porque esse foi “o poder pernicioso da ideia contagiosa de que a prostituição autoimposta tornou-se um ato louvável, quase uma prova de patriotismo, e todos, homens e mulheres, longe de se ruborizarem com tal pensamento, parecem se glorificar na própria e universal degradação”.

Trata-se provavelmente de um exagero. Mas muita gente além do autor deve ter se sentido assim. Dormir com um soldado estrangeiro era se prostituir. Se fosse um ato voluntário, tanto pior.

Na França, exibiu-se aos GIs o documentário Garotas de Família Também Têm DST. Uma das humilhações a que eram submetidas as mulheres nas cidades ocupadas, tanto em Amsterdã como em Tóquio, era a seleção constante e aleatória para testes de DST. Sem dúvida, a escassez de instalações hospitalares no caos do pós-guerra, as más condições higiênicas e a relativa inexperiência de muitos jovens somavam-se aos problemas médicos. Mas Malaparte, com sua afetação hiperbólica, pôs o dedo na ferida: as mulheres, por várias razões, estavam agindo como queriam.

 

Nem todos desaprovavam. Algumas pessoas de mentalidade progressista, como o reformador sexual e ginecologista holandês Wim Storm, viam vantagens na confraternização: era uma ruptura rumo à emancipação feminina, um salutar ponto final para as ultrapassadas noções de privilégio masculino e submissão das mulheres aos maridos. Mulheres em busca de felicidade nos “braços vestidos de cáqui” dos canadenses, “aprendendo a falar uma língua nova, a dançar o jitterbug e a fazer amor”, bem, “todas essas mulheres sabem exatamente o que querem”. Alegar que estão se prostituindo por uma barra de chocolate ou alguns cigarros “é um insulto terrível”. A melhor solução para o problema da DST era fornecer mais camisinhas às mulheres e promover a educação sexual entre os jovens.

Mas os que pensavam como Storm eram uma minoria, e eles perderiam o debate, ao menos momentaneamente. As vozes que clamavam pela regeneração moral, pela reconstrução da sociedade em bases tradicionais, eram mais fortes naquela atmosfera de pânico moralista. Isso valia para os Países Baixos, onde até mesmo um jornal liberal como o Het Parool, fundado pela resistência antinazista, demitiu um editor por ter publicado um artigo em favor da distribuição de contraceptivos às mulheres. “Consideramos nosso dever educar o povo de nossa nação para normas morais mais elevadas e resistir a toda forma de dissipação.”

Isso também se estendia à França – o governo provisório do general De Gaulle estava extremamente preocupado com a possibilidade de que a ocupação e a libertação tivessem solapado a moral pública, constituindo uma ameaça fatal à “raça francesa”. Na França libertada, as leis contra o aborto e o adultério eram tão rigorosas quanto haviam sido sob o regime de Vichy, e em alguns casos ainda mais.

A reação puritana ao que se considerava uma dissolução moral não era, de modo algum, apanágio de religiosos conservadores ou da direita política. Na França, inúmeros homens e mulheres da Resistência tinham se juntado ao Partido Comunista, por motivos românticos ou idealistas. As condições em tempos de guerra haviam atenuado as regras convencionais de moralidade. Mas os comunistas na França do pós-guerra, sob a liderança de Maurice Thorez, impuseram um brusco fim a tudo isso. Incentivava-se a dedicação ao partido, além de uma vida familiar estável. A “devassidão” resultante da guerra e da confraternização com tropas estrangeiras foi alvo de denúncia.

Também na Alemanha, onde os comunistas, sob seus patronos soviéticos, tornaram mais rigoroso o controle das zonas do leste, a repressão política chegou acompanhada de uma nova ordem moral. Erich Honecker, líder da Federação da Juventude Comunista, fez o que pôde para afastar as moças de frivolidades como o suingue e o sexo, esperando conquistar apoio delas para a causa comunista, mas sentiu-se frustrado em seus esforços. O problema, ele disse, era claro: “Temos de superar o impulso das jovens de buscar o prazer na vida [Drang nach Lebensfreud].”

Erich “Honni” Honecker – ele mesmo não avesso aos prazeres, tendo tido vários casos com mulheres bem mais novas – na verdade nem precisava ficar tão preocupado. Um estado de euforia não pode durar muito tempo. Em fins de 1945, a febre da libertação já começava a amainar. As tropas estrangeiras voltavam para casa em contingentes cada vez maiores, embora grandes bases militares permanecessem na Alemanha e no Japão, e em menor escala na Grã-Bretanha e na Itália.

O pânico moralista fora a base para o surgimento de uma reação conservadora. O temor da licenciosidade sexual feminina, bem como o desejo comum da estabilidade burguesa após anos de perigo, caos e penúria, logo restabeleceria uma ordem mais tradicional na vida tanto dos países libertados como das nações derrotadas. Na década de 50, o verão de 1945 já seria visto como um retrato na parede. A liberação sexual precisaria esperar mais vinte anos, quando a pílula anticoncepcional acompanhou a chegada da segunda onda de hedonismo anglo-saxônico, quando os Beatles e os Rolling Stones desencadearam algo com que Glenn Miller e Benny Goodman só poderiam sonhar.

Mesmo assim, a desordem do pós-guerra, apesar de temporária, não deixou de ter algumas consequências positivas. O desejo de Benoîte Groult de reconstruir sua própria liberdade não se apoiava numa ilusão descabida. O direito ao voto foi concedido às francesas pelo governo provisório em março de 1944, antes mesmo da libertação – um direito que adveio da escassez de homens, com a suposição de que as mulheres representariam as opiniões dos maridos ausentes. O mesmo direito foi concedido às mulheres italianas em 1945, às japonesas um ano depois, às romenas e iugoslavas em 1946, e às belgas em 1948.

Por mais que certas pessoas possam tê-lo desejado, o mundo jamais voltaria a ser como havia sido.


[1] Mistress Army: em inglês, mistress pode significar “madame”, “senhora”, e também “amante”.

[2] Na gíria militar, GI é um soldado raso americano; Tommy, um soldado raso inglês.

[3] V-E para Victory in Europe, VD para venereal disease.

Ian Buruma

Ian Buruma é jornalista, escritor e documentarista holandês.

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