questões cinematográficas

Síndrome do colonizado

O Profeta é uma manifestação da subserviência de certo cinema francês ao modelo americano dominante. Triste fim para uma cinematografia de passado glorioso

Eduardo Escorel
Condenado a seis anos de cárcere, Malik amadurece na prisão. Aprende a ler, escrever e matar
Condenado a seis anos de cárcere, Malik amadurece na prisão. Aprende a ler, escrever e matar ILUSTRAÇÃO: CAIO BORGES_ESTÚDIO ONZE

No Festival de Cannes do ano passado, Jacques Audiard, diretor de O Profeta, foi aplaudido de pé ao receber o Grande Prêmio, correspondendo ao segundo lugar. A Fita Branca, do austríaco Michael Haneke, ganhou a Palma de Ouro, mas os aplausos reafirmaram a preferência da plateia pelo filme francês, que uma crítica americana considerou ter tom e estilo perfeitos.

Depois dessa primeira consagração, O Profeta recebeu ainda nove César, inclusive de melhor filme, prêmio da Academia de Cinema francesa; foi escolhido melhor filme estrangeiro pela Academia de Cinema britânica; e concorreu ao Oscar de melhor filme não falado em inglês.

Distribuído pela Sony Pictures Classics, rendeu até o momento cerca de 16,5 milhões de dólares no mercado mundial, em salas de cinema, tendo sido produzido por 13 milhões. Sem ser nenhum campeão de bilheteria, esse resultado é considerado bom para um filme produzido na França, onde um complexo sistema de incentivos estatais, além da participação da televisão, minimiza o risco dos investimentos.

Nos Estados Unidos, O Profeta foi lançado em nove salas, chegou a ser exibido em 83, e rendeu 1,8 milhão de dólares. Resultado modesto, mas satisfatório para um filme falado em francês, árabe e corso – barreira difícil de transpor no mercado americano.

Caso exemplar de síndrome do colonizado – estado psicológico em que a vítima da colonização se identifica com o colonizador –, O Profeta é uma manifestação clara de subserviência ao modelo americano dominante, frequente em certo cinema francês. A grande aspiração dos realizadores desses filmes consiste em reproduzir padrões institucionalizados, e Jacques Audiard é um deles.

Ambientado em uma prisão, ele trata da rivalidade entre gangues, com variações narrativas que não chegam a alterar os fundamentos do gênero. Há quem veja semelhança entre o personagem principal do filme e Michael Corleone, de O Poderoso Chefão, que de início resiste à vida de gângster. Nesse aspecto, portanto, também não há novidade.

O ideal de filmes como O Profeta é não se diferenciar, na expectativa de ter os direitos comprados, permitindo a feitura de remakes, falados em inglês, nos Estados Unidos. Triste fim para qualquer cinematografia, ainda mais a francesa, de passado glorioso.

 

A entrega dos César aos melhores do cinema francês, este ano, ilustrou essa situação colonial. Além de cumular O Profeta de prêmios, a contrafação da cerimônia do Oscar oscilou entre humor grosseiro e melancólica homenagem a um perplexo Harrison Ford, imobilizado na cadeira, parecendo não entender nada do que ocorria à sua volta. Para coroar a noite, Gran Torino, de Clint Eastwood, foi escolhido melhor filme estrangeiro, preterindo A Fita Branca.

Vítimas da síndrome do colonizado não têm consciência da doença, como Jacques Audiard atesta ao contestar que O Profeta pareça filme americano. Decepcionado com “a violência gratuita do cinema feito em Hollywood”, declarou que a diferença estaria no fato de “filmes como Gomorra, a trilogia Pusher [dirigida pelo dinamarquês Nicolas Winding Refn, entre 1996 e 2005] e O Profeta” estarem “pegando o gênero e situando-o aqui e agora”. O corroteirista do filme, Thomas Bidegain, por sua vez, considera impossível refazer O Profeta nos Estados Unidos “por ter elenco de produção independente, grande orçamento e ser distribuído por uma empresa como a Sony Pictures Classics”.

Um ano depois de premiado em Cannes, O Profeta está sendo lançado no Brasil. A demora confirma a participação residual do mercado cinematográfico brasileiro, responsável por percentual reduzido da renda. Sendo assim, especialmente no caso de produções europeias e asiáticas, estamos sujeitos a esperar até que internegativos fiquem disponíveis para feitura de cópias, ou que sejam importadas, de segunda mão, e legendadas. Distantes da repercussão crítica quando do lançamento na Europa e nos Estados Unidos, os filmes muitas vezes parecem requentados quando são finalmente vistos aqui.

 

O crítico de arte Michael Kimmelman, em artigo no New York Times, escreve que as péssimas condições das prisões na França, superpovoadas e imundas, são uma desgraça nacional e foram condenadas várias vezes pela Corte Europeia de Direitos Humanos. Ao contrário do Brasil, onde a gravidade da situação é conhecida, sendo divulgada constantemente pela mídia, o assunto é tratado com menor frequência em filmes de ficção e documentários franceses. Esse relativo ineditismo estaria na origem da repercussão de O Profeta, que teve mais de 1 milhão de espectadores nas três primeiras semanas de lançamento. O que foi chamado de “o efeito Profeta” teria ajudado um projeto de reformas em discussão no Parlamento francês – fatores extracinematográficos responsáveis pelo impacto do filme.

No mesmo artigo citado, um professor de cinema declara que O Profeta rompe o tabu existente na França em lidar com diferenças étnicas e religiosas: “O filme mergulha o espectador diretamente numa situação em que nacionalistas corsos estão em guerra com italianos, e há árabes que falam árabe e são chamados de árabes, e há menção a pessoas se tornando radicais islâmicos na prisão.” Substrato realista, pontuado por elementos fantásticos, que teria levado muitos a acreditar “terem visto como é a verdadeira vida na prisão”.

Outros entrevistados de Michael Kimmelman relativizam o realismo de O Profeta. Um guarda com 20 anos de carreira diz haver no filme coisas que lembram Fleury-Mérogis, a maior prisão da Europa: “Não a violência. Não há nada parecido com isso nas prisões francesas. Isso vem dos programas e filmes de televisão americanos. Mas, como no filme, temos de fato muitas pessoas de diferentes nacionalidades. Prisioneiros contrabandeiam coisas todo o tempo. Não podemos impedir isso.”

Um ex-detento, que trabalha numa organização em defesa dos direitos dos presos, declara: “O filme é ficção de boa qualidade. E se ajudar o debate é bom, mas não vi nada parecido com a corrupção e violência do filme. O que me chocou ao ser preso foi ir ao pátio e ver doentes mentais, prisioneiros esfregando o chão à procura de pontas de cigarro, a miséria humana, sem nenhum programa para preparar os internos para o trabalho depois da prisão.”

Filmado seguindo prescrições que se tornaram lugar comum, em O Profeta a câmera balança para dar autenticidade à encenação; legendas dão título às sequências, outro recurso banalizado; na imagem, predomina tom azul acinzentado, sem cores quentes, seguindo a opção usual dos filmes de prisão.

Jovem árabe analfabeto, preso e condenado a seis anos de cárcere, Malik El Djebena, personagem principal do filme, seria um profeta, declarou Thomas Bidegain, no sentido que “projeta um novo tipo de gângster”. Malik amadurece na prisão. Aprende a ler, escrever e matar. Esse é o resultado do processo pedagógico vivido no sistema carcerário. Solto, volta ao convívio social, preparado para o exercício da criminalidade.

A versão da balada do prólogo de A Ópera dos Três Vinténs, apresentando o popular Mac Navalha, soa redundante quando ouvida no final de O Profeta. Depois de duas horas e trinta e cinco minutos de filme, não seria dispensável reiterar que a história trata da formação de um criminoso?

* Correção da versão impressa

Eduardo Escorel

Eduardo Escorel, cineasta, diretor de Imagens do Estado Novo 1937-45

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