esquina

Sinuca soçaite

Tradição e finesse pautam evento cultural na Daslu

Chico Mattoso
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2008

Demorou, mas aconteceu. Depois de décadas chafurdando em pés-sujos, botequins de beira de estrada e salões de condomínio, a sinuca ascendeu socialmente. Diriam outros que a arte do snooker finalmente se reconciliou com suas origens aristocráticas e voltou para o lugar de onde nunca deveria ter saído. No caso, o palco inebriante do grand monde paulistano — a Villa Daslu —, que em junho realizou o seu primeiro torneio de sinuca.

Fiel ao idioma de Rui Barbosa e Gabriel Chalita, o palacete da Marginal Pinheiros optou pela versão mais brasileira do termo, em detrimento de “bilhar inglês”, snooker ou pool. As regras do jogo foram as mais democráticas possíveis: o famigerado quinze-bolas, também conhecido como pares-contra-ímpares. Oswald de Andrade se orgulharia: o que se viu na Daslu foi nada menos que um bonito espetáculo de antropofagia.

Se mudanças houve em relação à sinuquinha que conhecemos, elas se restringiram ao elenco e ao décor. Saíram de cena o cheiro de cachaça, os bêbados inconvenientes, os tacos sinuosos e as mesas bambas; entraram os rapagões perfumados, as donzelas rutilantes, o tilintar das taças de vinho, as bolas belgas e os tacos oficiais. Os três palcos do certame foram dispostos no Espaço Cristallo — uma confeitaria fina de São Paulo —, criando uma pequena clareira em meio ao labirinto de lojas, vitrines, araras e espelhos da Villa Daslu.

Para comandar o evento, foi convocada uma especialista: Silvia Taioli, campeã brasileira de sinuca e comentarista do canal ESPN. Sua participação no torneio, porém, foi tímida, visto que o regulamento a impedia de interferir nas partidas ou de dar dicas aos jogadores. A ela cabia apenas organizar os embates — eram dezesseis participantes enfrentando-se em esquema de mata-mata — e, discretamente, acompanhar as escaramuças dos tacos. Se surgissem asperezas, caberia a ela dirimi-las. Não foi necessário. Tudo correu com grande elegância.



Emoções não faltaram. Já na primeira fase, assistiu-se à peleja entre uma misteriosa moça de Ray-Ban — ela se recusou a tirar os óculos escuros mesmo dentro da loja — e um rapaz de jeans espertíssimos, camiseta e cabelos ao gel. A poucos metros dali, no balcão de uma importadora de bebidas, amigos do competidor bebericavam vinhos argentinos e acompanhavam sua estréia no feltro verde. Também usavam jeans espertíssimos e gel no cabelo. Igualmente inscritos no torneio, formavam um grupo coeso, doravante chamado Diesel Boys.

De estilo concentrado, a Dama do Ray-Ban estraçalhou as melhores intenções do primeiro Diesel Boy, que enfiou a viola no saco e voltou ao balcão, onde afogou a melancolia num Finca Sophenia, safra 2006. Em outra mesa, um rapaz de bermudão e camiseta — representante de um segundo grupo, o dos Surfistas Imberbes — até conseguiu resistir um pouco, mas acabou por sucumbir a um quarentão de calvície pronunciada, camisa pólo e tênis sambado.

O calvo pronunciado não pertencia a grupo nenhum. Era um guerreiro discreto e silencioso, talvez o único desportista não integrante da carteira de clientes Daslu. Estava ali apenas para lutar, olimpicamente, pela vitória. Ao derrotar adversários, cumprimentava-os com cortesia e se afastava. Sentava-se num banco à espera de ser chamado para dar prosseguimento à sua cruzada. Para ele, nada de Finca Sophenia.

 

Entre drama e apoteose, entre ohs! e ahs!, o gládio avançou rumo às semifinais. O cobiçado prêmio começava a coriscar diante dos contendores sobreviventes: 500 reais em daslus, moeda de circulação restrita aos domínios da loja. Outro Diesel Boy alcançou uma vitória redentora contra a Dama do Ray-Ban e vingou o já empilecado companheiro, num triunfo comemorado com moderação.

A suave sofisticação que caracterizou toda a jornada só foi ameaçada no momento em que o Cavaleiro Solitário se classificou para a grande final. “Ele joga demais”, sussurrou, desconfiado, o derradeiro Diesel Boy, que em instantes disputaria com um Surfista Imberbe a passagem para a decisão. Aborrecido, o adversário esboçou uma queixa: “É… Não devia poder profissional.” Silvia Taioli levantou a sobrancelha. Foi o que bastou para que todos retomassem o fair play.

Ademais, como alegações extraordinárias exigem provas extraordinárias, ninguém se aventurou a tentar provar que o Cavaleiro Solitário era um dissimulado sinuqueiro profissional. Com elegância fatal, o herói venceu a última batalha e conquistou o I Torneio de Sinuca da Villa Daslu. De posse das suas 500 moedas, declarou a nobre intenção de comprar um presente para a mulher. O que se revelaria mais difícil do que vencer o torneio: na Maria Bonita, a poucos passos dali, um vestidinho com 40% de desconto sai por 600 reais.

Chico Mattoso

Chico Mattoso é escritor, co-autor de Parati Para mim (Ática) e editor da revista Ácaro.

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