esquina

Socorro lúbrico

Alencar conserta brinquedos que ele prefere não saber como funcionam

Paula Scarpin
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL

Bartolomeu de Alencar estacionou o carro e deitou a mão na buzina em frente a uma loja onde se lê “Pronto-Socorro das Bonecas”, numa movimentada rua de Osasco, município da Grande São Paulo. Na calçada, três motocicletas infantis estavam estacionadas em frente à vitrine, decorada com uma onça de pelúcia, teclados coloridos, tratorzinhos e uma enorme cabeça de Chewbacca, o piloto peludo de Guerra nas Estrelas. Ao ouvir o barulho, dois funcionários correram para o porta-malas e começaram a descarregar as caixas. Alencar atravessou a loja e seguiu direto para a oficina nos fundos, onde os empregados organizavam o carregamento.

Na oficina, ele conferiu seus e-mails: 152 mensagens não lidas. A primeira era um pedido de orçamento para o conserto de uma Butterfly que não estava mais vibrando. “Butterfly é uma borboleta de silicone que a mulher põe dentro da calcinha e comanda por controle remoto”, explicou Alencar, com elegância e propriedade. “Está com cara de que estragou com água. O pessoal acha que pode usar tudo na banheira, e é aí que eu ganho dinheiro”, riu. Respondeu à moça que enviasse o brinquedo para um orçamento. “Normalmente é coisa simples. Só sai por mais de 100 reais quando tem que trocar alguma peça cara.”

Alencar é um cinquentão alto e moreno. Estava estabelecido havia vinte anos no ramo do conserto de brinquedos quando, no começo de 2003, recebeu a visita de um homem desconfiado e tímido. Trazia debaixo do braço um embrulho de papel pardo e disse que era um equipamento com defeito. O técnico apalpou o pacote e reconheceu o volume de um vibrador. Examinou-o no fundo da oficina para não constranger o cliente. O brinquedo estava com um fio solto – um problema trivial. Consertou-o por 5 reais.

A experiência deu-lhe uma ideia. Visto de fora, o consolo não teria lugar num quarto de criança. Por dentro, porém, era igual a qualquer brinquedo que ele estava acostumado a consertar. “Aquele era um produto importado e sem assistência técnica”, disse Alencar. Procurou no Google se havia alguma oficina para manutenção de brinquedos eróticos. Nada encontrou. Era uma oportunidade imperdível. Pediu a um amigo que desenhasse um site anunciando o “Pronto-Socorro dos Vibradores e Asexórios” e ligou para várias sex shops anunciando a novidade. “Eles tinham muito encalhe de produtos que vinham com defeito, e não compensava mandar para o exterior para consertar. Foi um sucesso.”

As lojas começaram a recomendar aos clientes os serviços de Alencar. Um dia, recebeu um convite da dona da importadora Pleasure Dreams para visitar o escritório dela. Chegando lá, ela mostrou uma sala inteira só de produtos com defeito. “De cada 100 brinquedos, consegui salvar pelo menos uns 80, só repondo peças de um para o outro. Foi muito vantajoso para os dois lados.” O site também começou a atrair clientes e, nos fundos da loja, bonecas falantes e trenzinhos elétricos passaram a dividir espaço com aparelhos impudicos dos mais diversos formatos, tamanhos e funções.

A esposa ficou meio reticente quando as geringonças começaram a aparecer. Mas a resistência cedeu quando veio o dinheiro. O dono da oficina não revela quanto lucra com o negócio, mas diz que a receita com o conserto dos acessórios lascivos não chega a superar a dos brinquedos convencionais, que têm mercado maior e mais diversificado. Há oito anos no novo ramo, Alencar ainda se espanta com a inventividade dos fabricantes: “Aparecem umas coisas aqui que precisamos procurar na internet para descobrir para que servem.”

Um desses brinquedos intrigantes chegou recentemente às suas mãos. Consistia em três ventosas conectadas por fios que, quando acionadas, deveriam produzir uma sucção. Mas o mecanismo estava enguiçado. O técnico ficou em dúvida sobre como seria usado. “Acho que duas ventosas eram para os mamilos, e a terceira, não sei”, admitiu. Isso não foi empecilho para que ele consertasse o acessório. Para testar o sucesso da intervenção, conectou uma ventosa na testa e as outras duas nas bochechas. “Funcionou bem, limpei e mandei de volta pelo correio”, contou. Quando voltou à oficina, um funcionário disse que havia na sua cara três pontos vermelhos, que no dia seguinte ficaram roxos. Alencar preferiu não imaginar onde aquelas ventosas seriam aplicadas.

Os clientes da oficina podem ser meio arredios no primeiro contato. Dias antes, Alencar recebera o e-mail de uma moça que queria saber se ele não tinha nojo de manipular os acessórios que conserta. Respondeu com ironia: “E por acaso a senhora usa luva cirúrgica para fazer sexo? Claro que a gente higieniza o produto assim que ele chega, mas essas coisas são naturais.”

A resposta parece ter satisfeito a cliente, que enviou por Sedex um brinquedo que Alencar ainda não conhecia: uma espécie de disco de plástico preto que, quando aberto, mostrava um carrossel de línguas de silicone flexíveis que giravam ao comando do cliente, de forma a simular uma lambida ininterrupta. Um botão deveria comandar a velocidade das línguas, mas o motor estava com defeito. “Muito simples”, desdenhou Alencar. “Vou consertar com um pé nas costas.”

A maior parte dos clientes faz contato por e-mail, envia o brinquedo pelo correio e deposita o pagamento na conta de Alencar. Ele recebe muitas encomendas de outros estados, mas mesmo quem mora em São Paulo prefere evitar o encontro cara a cara. “Esse tipo de cliente tem vergonha de vir até a loja, se sente exposto”, explicou. Para oferecer mais conforto e discrição, ele chegou a fazer atendimento em domicílio, mas abortou a ideia quando começou a levar cantadas de clientes.

O brinquedo predileto de Alencar ultimamente é uma vaca malhada inflável, do tamanho de um poodle toy. Veio furada da fábrica e foi enviada à oficina por uma sex shop. “Foi como consertar um pneu furado”, comparou o técnico, que fez questão de demonstrar o funcionamento: depois de assoprar o brinquedo para enchê-lo (“Está limpinha, ela é virgem”), encaixou um motor no lombo do bicho e estimulou com os dedos as partes íntimas da vaca, que respondeu com um mugido eletrônico. Seus funcionários riram às lágrimas com a demonstração, mas o patrão manteve o ar de seriedade. “Eu não faço julgamentos. Sou um cara mente aberta.”

Paula Scarpin

Paula Scarpin é repórter da revista desde 2007 e diretora da rádio piauí

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