esquina

Soltando os cachorros

Uma raça criada para trucidar javalis

André Schröder
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2014

Enormes cabeças de javali fixadas na parede enfeitam a garagem de Cristiano Winck. Os animais, empalhados de boca aberta para realçar as presas, foram todos abatidos pelo veterinário, de 37 anos. Sob a mira dos olhos vitrificados, o gaúcho mostra uma das armas de fogo que usa para dar cabo da criatura que julga uma praga invasora responsável por danos sociais, econômicos e ambientais. “São torpedos encouraçados.”

O javali-europeu – de nome científico Sus scrofa– é um porco selvagem que figura entre as 100 piores espécies invasoras do mundo. Sem predadores, com alto poder reprodutivo e capacidade única de adaptação, é um devorador insaciável, sempre em busca de novos territórios após devastar os locais por onde passa. Em sua forma pura, pesa cerca de 100 quilos; miscigenado com o porco doméstico, quando costuma ser chamado de javaporco, pode superar os 250 quilos. Mas Winck não gosta de empregar o termo. “Não se faz mais essa distinção, é tudo javali.”

Os javalis se deslocam em varas de até 300 indivíduos, que ao cruzar as lavouras deixam um rastro de milhares de plantas derrubadas e esmagadas. Comem espigas, vagens, ramos, tubérculos, sementes e adubo; em busca de minhocas, fuçam taipas e comprometem cultivos irrigados. Relatos de produtores gaúchos apontam perdas de até 20% em plantações de soja, milho, sorgo, arroz, batata e feijão. Capazes de transmitir doenças para rebanhos de gado e porcos domésticos, eles ainda predam ovos de perdiz, perdigão e quero-quero, comem filhotes de tatu e veado, engolem pinhas da araucária ameaçada e contribuem para o assoreamento de rios ao cavoucarem barrancas.

Winck estima que haja 4 milhões de javalis no Brasil. O Ibama, órgão federal responsável pela gestão dos recursos naturais, não confirma o número, mas admite que o bicho é encontrado em mais de dez estados. Parte deles atravessou a fronteira via Uruguai e Argentina, onde foram introduzidos, no início do século passado, para satisfazer o capricho de caçadores da nobreza europeia radicados nos pampas. Outro tanto, desconfia-se proceder de criações clandestinas. Decepcionados com o fracasso comercial da carne e temendo as multas após restrições impostas pelo Ibama – que em 1996 autorizou a importação de javalis puros e dois anos depois voltou atrás na decisão –, muitos criadores teriam promovido a soltura em massa dos animais.

Diante dos prejuízos na agricultura, das ameaças ao meio ambiente e do risco sanitário, o Ibama declarou guerra ao javali-europeu e autorizou, no início de 2013, o controle populacional da espécie nociva, liberando a caça em todo o território. A medida contrariou ambientalistas. Para Vilmar Berna, fundador da Rede Brasileira de Informação Ambiental, a caça ao javali “é uma aberração ética com resultado inócuo e só satisfaz os desejos de caçadores com sangue na boca”.

Winck, por sua vez, teme que ela tenha sido liberada tarde demais. “Já não é mais possível fazer a erradicação”, disse. “Hoje falamos só de controle, de minimizar prejuízos.” O veterinário considera insignificante o número de animais que abateu, tamanho foi o aumento de sua população. “Quem caça está fazendo um trabalho social.”

 

O pessimismo não imobilizou Cristiano Winck. No quintal de sua casa, em Novo Hamburgo, ele desenvolveu uma raça de cães concebida para caçar javalis. Enquanto caminhava rumo ao canil, em meio à correria desengonçada de filhotes soltos no gramado, Winck explicou que o javalizeiro pampeano foi criado a partir de cruzamentos entre quatro raças. Do dogo argentino, herdou o porte, o faro e o instinto caçador; do rhodesian ridgeback, a visão de longo alcance e as mordidas que abatem leões africanos; o veadeiro pampeano contribuiu com a resistência a doenças e a obstinação dos perseguidores natos; o galgo rendeu-lhe a velocidade dos cães de corrida. O javalizeiro pampeano é um cão imponente de rabo fino e pelo curto, que destaca seus músculos bem definidos. “Após dez anos de experimentos, estamos no ápice do projeto”, contou o dr. Winck. “A cachorrada está como a gente quer.”

O veterinário é dono de mais de dez espécimes da nova raça. O animal já se espalhou pelo Rio Grande do Sul, onde atuam trinta matilhas que são responsáveis por oito de cada dez abates. Ao menos uma vez por mês o veterinário embarca de seis a oito cães na caçamba do seu carro e viaja até uma fazenda vítima dos depredadores. Lá, o dono e o capataz o informam de avistamentos e locais em que há plantações destruídas. Ele então solta as feras e lidera a matilha, percorrendo lavouras, banhados e matos. Em terras extensas e acidentadas, monitora a turma com sistema GPS instalado nas coleiras. Quase sempre o cão mais experiente, capaz de interpretar melhor os rastros, é que encontra os inimigos e os cerca para o ataque dos companheiros.

Com a chegada de reforços, começa o combate. São necessários pelo menos quatro cães para agarrar um javali. Enquanto mordem orelhas, focinho e paleta, os javalizeiros tentam se proteger das presas afiadas da vítima. Sem poder atirar, sob risco de acertar os cães, o matilheiro mantém a arma na cintura, avança até o entrevero e mata o javali a golpes de faca. Perseguidos, outros invasores são induzidos a fugir pelo corredor em que caçadores humanos previamente posicionados abatem, a tiros de fuzil, o maior número possível de animais.

Winck não esmorece diante das críticas dos defensores dos direitos dos animais – para Sheila Moura, da ONG Fala Bicho, criar cães para dilacerar os javalis é uma ideia “monstruosa”. Um filhote de boa cepa é vendido por até 1 mil reais; um animal adulto pode valer cinco vezes mais. Mas o criador disse que não tem interesse em tornar o javalizeiro pampeano uma raça oficial e que seu projeto não visa ao comércio. “Esses valores não pagam nem os custos da ração.” Winck tampouco crê que seu investimento possa fazer muita diferença no combate aos javalis. “Essa é uma causa perdida”, afirmou, resignado. “Trabalho por paixão.”

André Schröder

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