esquina

Solução redonda

Para onde vão os turistas quando faltam hotéis no Rio

Claudius Ceccon
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL

Quando o psicólogo venezuelano Leonardo Yanez e o arquiteto turco Selim Iltus enfim chegaram ao hotel em que se hospedariam, haviam superado várias etapas da saga de quem quer que ouse baixar na mui leal e heroica cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Num salão imundo e abafado, mas repleto de propagandas, foram submetidos à espera de mais de uma hora pelas bagagens. O sentimento de insatisfação foi aos poucos se convertendo em desconforto e, depois, ódio do aeroporto, seus funcionários, da cidade, do Brasil. A ira coletiva foi prontamente substituída por imenso alívio quando as malas finalmente despontaram na esteira atulhada e mambembe.

Na saída, os viajantes tiveram que enfrentar a complexa negociação com as moças que, penduradas nos balcões multicoloridos das cooperativas de táxi, tentavam aos gritos aliciar clientes potenciais com promessas de descontos difíceis de aferir. Escolheram a menos escandalosa. Dentro do táxi, foram brindados com o tradicional engarrafamento na Linha Vermelha, parados ao lado dos tapumes com que, a pretexto de proteger os moradores do barulho da via, as autoridades tentam esconder as favelas adjacentes.

O que eles não sabiam é que sua aventura em terras cariocas estava apenas começando. Os dois viajantes estavam no Brasil a negócios. Representavam a Fundação Bernard van Leer, da Holanda, interessada em apoiar projetos que beneficiem crianças pequenas em meio urbano ou rural. No Diamond Hotel, no bairro da Glória, ainda meio sonolentos, ao apresentarem à mocinha da recepção o voucher de reserva pago antecipadamente pela internet, esperava-os mais uma surpresa, comunicada num inglês sofrível, mas que não deixava dúvidas quanto ao significado da palavra: overbúquim.

O choque da notícia os despertou e eles se puseram em ação: enquanto Yanez, mais articulado, usava seu portunhol para exigir explicações ao gerente, Iltus recorreu a seu celular de última geração para tentar entrar em contato com a Fundação ou com sua agência de viagens. Como àquela hora os Países Baixos estivessem imersos no mais profundo sono, o esforço se mostrou infrutífero.

Para infortúnio dos viajantes, os hotéis do Rio de Janeiro pareciam estar todos acima dos 82% de taxa média de ocupação – e ainda bem longe da meta de 27 800 leitos exigida pelo Comitê Olímpico Internacional para 2016. O número não assusta o prefeito Eduardo Paes: sempre tagarela, ele garante que o renomado dinamismo de nossos empreendedores permitirá ampliar a capacidade para precisos 31 722 leitos antes das Olimpíadas.

A razão pela qual nenhum deles estava disponível naquela noite era o afluxo de participantes do Congresso da Associação Brasileira de Agentes de Viagem. Estavam no Rio para, muito oportunamente, discutir as medidas necessárias para melhorar a qualidade de atendimento aos turistas, diante dos megaeventos que a cidade se apresta a receber nos próximos anos.

A dois anos e meio da Copa, a solução encontrada pelo gerente do Diamond, após alguns telefonemas, pareceu razoável: Yanez e Iltus seriam hospedados “em um hotel próximo, pertencente à mesma cadeia e de idêntica categoria”. Ato contínuo, os dois estrangeiros foram colocados num táxi e despachados para o Gallant Hotel.

O trajeto pareceu-lhes um pouco estranho. Embora tivessem vindo ao Rio antes, estavam acostumados a se hospedar em hotéis na orla de Copacabana ou de Ipanema, e não reconheceram o local em que foram deixados. O táxi não foi cortesia – um “presente adicional” do hotel pelo qual haviam pago.

Quando penetraram no saguão de entrada do Gallant Hotel, depararam-se com uma fauna variada e ruidosa. Como se a torre de Babel fosse ali, hindus, coreanos, árabes, africanos, americanos, russos, franceses, alemães e outros de nacionalidade indefinida praguejavam indignados contra os recepcionistas monoglotas e despreparados. Proficiente em portunhol, Leonardo Yanez se prontificou a servir de intérprete nas negociações com os funcionários – em parte por gentileza, em parte como artimanha para ser atendido logo. Ainda assim, mais de uma hora se passou até que os dois pudessem, enfim, ganhar cada um seu aposento.

De lá, Leonardo telefonou à pessoa com quem tinha uma reunião marcada no dia seguinte, para comunicar-lhe que já estava acomodado. Indagado sobre como era o hotel, disse ter achado um pouco distante. O interlocutor quis saber mais e o venezuelano relatou o périplo pelo qual haviam passado. Descreveu também a vista pouco auspiciosa que se descortinava da janela e alguns detalhes curiosos do quarto, que ele ainda não havia visto em outros hotéis nas suas jornadas pelo mundo.

Falou do teto coberto de espelhos, da imensa banheira Jacuzzi, dos quadros com reproduções de ninfas e sátiros que adornavam as paredes, dos brinquedos eróticos na gaveta do criado-mudo e dos preservativos sobre o frigobar. Ao interlocutor, não restou dúvida: os dois tinham ido parar num motel, na antiga zona de prostituição da cidade, na região central. Objeto de intervenções imobiliário-urbanísticas, a zona foi rebatizada de Cidade Nova e recebeu, entre outros, nada menos que o prédio da Prefeitura, que, et pour cause, ficou conhecido como “Piranhão”.

O interlocutor carioca se lançou então numa árdua busca por uma solução para o problema dos dois estrangeiros. O turco refugiou-se em seu quarto e pendurou a plaquinha Don’t Disturb na maçaneta. Enquanto isso, seu colega latino tratou de vestir bermuda e camiseta e calçar seus tênis de marca para explorar os arredores em busca de um caixa eletrônico. É digno de nota que tenha voltado ileso ao motel, com razoável quantia de moeda nacional estufando os bolsos.

Exausto, com o relógio biológico cinco horas adiantado em relação ao Rio, Yanez pôde enfim desabar na cama – redonda, bem entendido. Mas sua epopeia só se encerraria depois de um último lance eletrizante: a madrugada corria alta quando tocou o telefone. Do outro lado, uma voz feminina perguntou, insinuante, se ele não gostaria de receber uma massagista no quarto. Tresnoitado, o venezuelano nem se espantou que a moça se dirigisse a ele num português com sotaque carregado, e num tom vagamente familiar. Para o bem de seu matrimônio, nada disse de comprometedor. Aí reconheceu a voz disfarçada de sua mulher, que, depois de ler o SMS que ele enviara relatando a confusão, passava-lhe um trote ligando de Haia.

Claudius Ceccon

Claudius Ceccon, cartunista carioca, é diretor executivo do Cecip, Centro de Criação de Imagem Popular. Lançou o livro Claudius.

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