esquina

Tambacu, o galã

Navegando pela Fish TV

Audrey Furlaneto
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2016

“Vem, bichinho, vem! Sobe aqui, sobe! Vem comigo!” Com a voz mansa e uma vara de pescar em punho, o homem tagarela à beira do lago. A câmera vaga sobre a superfície da água em busca do interlocutor – e, na ausência de qualquer sinal de vida, volta a focar no pescador Denis Garbo, que continua seu falatório, agora mais animado: “Que forte, amigão! Você não se entrega, meu Deus do céu!” A imagem mostra um redemoinho discreto e o brilho da linha de pesca iluminada pelo sol. “Por que está brigando desse jeito? Minha adrenalina está a mil por hora, gente!”

Garbo apresenta o Pesque e Pague, programa de televisão dedicado aos viciados na adrenalina que provém da pesca esportiva em lagos e rios. A atração, que está na quinta temporada, é veiculada pelo canal Fish TV nas manhãs de segunda-feira e repetida à exaustão no resto da semana. “Olha esse lindo tambacu! Lindo tamba, lindo tamba!”, grita o apresentador, abreviando com intimidade o nome do peixe que acaba de fisgar. “Olha o meninão! Você me deu trabalho, cara”, prossegue, antes de abraçar o animal contra o peito, sacar-lhe o anzol e devolvê-lo ao lago. “Vai lá, meninão. Volta para a água que é seu lugar.” Ao fim do programa, Garbo terá pescado e soltado outros seis peixes.

 

A Fish TV surgiu em 2012 como um canal de internet com sede na cidade gaúcha de Novo Hamburgo. Levava ao ar programas sobre isca, linha de pescar e, claro, pescaria – de robalo, dourado, tucunaré, tambaqui, tambacu ou qualquer outra espécie que não a piranha, cruel mastigadora de isca e linha de pescar. O canal logo chamou a atenção de pequenas operadoras de tevê fechada, nas quais passou a ser veiculado, até se integrar, no início deste ano, aos pacotes oferecidos pela Net e pela Claro. Hoje exibe trinta programas de conteúdo e título algo monotemáticos (Raízes da Pesca, Pesca Dinâmica, Pescando e Cantando, Ases da Pesca, A Pescadora etc. etc. etc.). Quase todos seguem a mesma diretriz estética: um peixe é fisgado, elogiado, apresentado à câmera e, em seguida, devolvido ao anonimato do rio ou do lago.

O dono do canal é o empresário Luiz Motta, de 60 anos, que vem de uma dinastia de pescadores. “Meu avô pescava, meu pai pescava, meu tio pescava”, conta, orgulhoso. “Em 2005, resolvi pescar com um amigo na Flórida. O primeiro dia foi de mar tranquilo. No segundo, entrou um vento estranho.” Era o furacão Katrina. “Foi um tal de voltar para casa, pregar madeira na janela, lacrar porta”, relembra. Na falta do que fazer, recolheu-se por quatro dias diante de uma televisão a cabo – e acabou fisgado por um canal que se dedicava exclusivamente à pesca. “Olhei para o meu camarada e disse: ‘Podemos ficar um mês aqui, não precisa nem pescar.’” No ano seguinte, decidiu documentar uma pescaria internacional, planejando exibi-la em alguma emissora. “Mal passei da recepção.” Já que ninguém lhe comprava o peixe, criou seu próprio canal. “Escolhi cada apresentador a dedo. São mestres que conheci ao longo de minha vida de pescador.”

 

Um deles atende pelo apelido de Juninho. Homem de meia-idade, apresenta o Raízes da Pesca sempre uniformizado com boné e capa salmão (a cor, não o peixe). “É o que sempre digo: só pega peixe… quem pescaaa!”, ensina, enquanto, nos demais canais, especialistas de toda sorte tentam explicar a trágica eleição de Donald Trump. “Êêêra, chêro bãoooo! Esse cheiro é uma beleza!”, continua, encostando um peixe no próprio rosto.

Nos comerciais, alternam-se propagandas de atrações da casa e de produtos do nicho pesqueiro, como a Cutelaria Vargas (“A melhor em facas artesanais”) ou o DVD de uma pesca de tucunaré-açu (“Johnny Hoffmann, Lawrence Ikeda e Kid Ocelos vão te ajudar nessa jornada rumo ao grande troféu dos seus sonhos”, diz um narrador de voz grave).

Uma tarde na Fish TV pode terminar com um episódio de A Pescadora, no qual a única apresentadora do canal, Mariana Braga, lutará com “os bagres mais fortes da região amazônica”. Já no horário nobre, é possível ver Ases da Pesca ou Fish TV Teste, em que o apresentador Pezão avalia manuais de instrução e experimenta molinetes, varas e afins (o molinete Truly 500, da marca Saint Plus, por exemplo, vai muito bem com a linha multifilamento Titanium 8X, da Albatroz).

Antenado com as tendências da contemporaneidade, o canal também tem seu reality show. Em A Meta, um pescador solitário recebe tarefas da produção, guardadas num envelope que precisa ser aberto diante de um candelabro, na mata, aos moldes de No Limite. O protagonista atende apenas por Gaba – é também lutador de jiu-jítsu e especialista em sobrevivência na selva. Naquele dia, tinha como missão fisgar uma pirarara de, no mínimo, 1 metro de comprimento.

A câmera acompanha a descida de seu barco por um rio. “É peixe! E é peixe grande!”, grita Gaba em close. Então, qual num plano de Bergman, vê-se a expressão de seu rosto ser tomada pela tristeza: “Ahhhhh!”, berra ele, irritado, batendo a vara contra o piso do barco. Era uma piranha.

Audrey Furlaneto

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