diário

Tanta beleza, e quanta coisa destruída

Um mês de viagem, de bicicleta, da Baixada Fluminense a Porto Seguro  

Ronaldo Pena
Não sei pra quê buzinar. O cara buzina, a gente pula fora da estrada e se ferra no acostamento
Não sei pra quê buzinar. O cara buzina, a gente pula fora da estrada e se ferra no acostamento FOTO: ROGÉRIO REIS_2007

Na carteira de trabalho, Ronaldo Pena é pedreiro. Quer dizer, faz mais ou menos de tudo, inclusive uma bicicleta de 21 marchas, “estilo Harley-Davidson”, como diz, que pesa 40 quilos, mede 2m40 de uma ponta a outra e, só de corrente, tem duas vezes e meia a medida de uma transmissão comum.”Ela é ferro puro”, diz o seu construtor. A máquina acaba de levá-lo de São Gonçalo, no Rio de Janeiro, a Porto Seguro, na Bahia, de onde o trouxe de volta à Baixada Fluminense. Foram 26 dias de pedalada, levando a bordo barraca, colchonete, mudas de roupa, colcha, cobertor, panela, prato, talheres, fogareiro a álcool, mantimentos, máquina fotográfica e o gravador que usou para registrar o dia-a-dia da viagem. Tratava-se de buscar em Santa Cruz de Cabrália, com atraso, o diploma que seu vizinho Carlos Luiz Leite se esquecera de trazer, quando foi de bicicleta à festa Brasil 500 Anos. Ronaldo Pena e Carlos Leite viajaram juntos. Eles são os fundadores do grupo Ciclistas Malukos de São Gonçalo que, nos fins de semana, percorre as estradas do Rio. E mantêm em casa a primeira biblioteca pública do bairro Jardim Catarina, que está agora com mais de 50 metros quadrados e “mais ou menos” 20 mil livros.

Segunda-feira, 8 de janeiro
Estamos na BR-101, fazendo uma média de 25, 30 quilômetros por hora na estrada para Rio Bonito, com vento contra. É dose, mas lá vamos nós! Saímos de casa com um dia e meio de atraso. Paramos na prefeitura de Tanguá, para pegar a declaração de que estivemos na cidade. E fomos bem recebidos por lá. Tudo beleza! O passeio anda maneiro. Não chove, o tempo está bom e até aqui foi tudo bem. Mas o Carlos fica lembrando que tem o negócio da ponte. É aquela ponte que caiu em Campos e fechou a BR-101. Seja o que Deus quiser. São 1.200 quilômetros para pedalar. Já faltam menos do que faltavam.

Seis da tarde Pertinho de Silva Jardim, mas com muito morro para subir. Estamos ralando demais. E a noite vai descendo. Vamos embora, armar o acampamento para dormir em Casimiro de Abreu. Está fresquinho, e a estrada é boa. Mas o Carlos acha que o tempo lá para a frente vai ficar ruim. Vamos ver se a gente atravessa a ponte em Campos, que é o caminho mais curto. Senão, dá mais uma hora de viagem. A gente chega atrasado, mas chega.



Dez da noite Acabamos de acampar em Silva Jardim, com uma tremenda chuvarada. É água que não acaba mais. Ninguém está andando mais de carro. Parou tudo. Amanhã às cinco vamos estar de pé, para pegar a estrada outra vez. O remédio é dormir.

Terça-feira, 9
Saímos de Silva Jardim. Passamos num lugar bonito, com muito verde. Que viagem gostosa! Paramos em Casimiro de Abreu, na lanchonete Patropi, para fazer um lanche. Lanche, não. Café. Um café reforçado, antes de partir para Campos. Evandro, o dono da lanchonete, deu informações sobre o caminho. Estamos gravando tudo. Vamos ouvir o José Lucas, que está servindo o nosso cafezinho:

– Não sei o que dizer. Qualquer coisa? Estou aqui recebendo a rapaziada das bikes, gente finíssima, num belo passeio. Somos do Patropi, prestigiando com um cafezinho da manhã a rapaziada, para ela seguir a viagem tranqüila.

Duas e meia da tarde O dinheiro acabou. Sobraram uns trocados. Estamos numa estrada braba, no sol quente, quase na altura de Macaé, até agora sem comer nada. Pedalando com fome, e há duas horas sem beber água. Temos que contar daqui para a frente com doações. Vamos ver se arranjamos um almoço de graça no posto do Russo.

Três horas Frango assado, feijão, arroz, torresmo, água gelada, tudo por R$ 5,00. Foi a promoção que conseguimos no posto do Russo. Vamos dormir em outro posto, a 18 quilômetros. Daqui para frente vai ser só no “me dá”. Faltam mil e poucos quilômetros. Estamos com oitenta e cinco já rodados. Eram 1.200. Temos 1.115 para pedalar. Vamos ouvir agora meu amigo Carlos:

– O que você está sentindo, Carlos?

– Por enquanto, não estou sentindo nada, só vontade de chegar ao posto, para tomar um banho e relaxar o corpo. Está pertinho. Tem umas casinhas bonitas por aqui, essas belezas a gente não vê na cidade, só na estrada ou no campo. Os caminhoneiros buzinam para nós. Isso fortalece a gente. Para primeira viagem, estamos indo bem.

Quarta-feira, 10
Estamos saindo do trevo de Conceição de Macabu, pela estrada de Quissamã. Nossa próxima parada vai ser em Campos. Pegamos um buraco. A gente quase mergulha nele. Graças a Deus, conseguimos passar. Isso é normal. O interessante é que, ontem, quando fomos pagar a janta no posto do Russo, o cara não cobrou nada. Janta de primeira, entendeu? Fomos pagar e ele: “Não, podem guardar o dinheiro de vocês”. E íamos “pagar” assim, entre aspas, porque dinheiro mesmo a gente não tem mais. Queríamos dar três reais pelas duas jantas, e ele mandou deixar por conta do posto. Hoje, quando fomos tomar o café da manhã, pagamos um real. Se a gente não comesse pão, não pagava nada. Só pagamos o pão. A chuva, durante a noite, é que está castigando. Durante o dia, é sol. De noite, chuva. Até agora, arranjamos lugares com cobertura para armar a barraca. É uma jornada. Nem todo mundo faz uma loucura dessas. As mulheres em casa estavam quase nos batendo. Mas falamos que era por uma boa causa, para divulgar nossa biblioteca, divulgar nosso grupo de ciclistas, evangelizar o povo. Nem todo mundo pôde vir conosco. Uns porque não agüentam, outros porque têm trabalho. O primeiro tombo do Carlos foi depois do posto, na Serrinha. Ele derrapou no barro vermelho, que correu para a pista, caiu no acostamento, mas não se machucou. Essas coisas servem para ficar mais esperto. A gente só está registrando os acontecimentos para a viagem ter graça. Se viagem não tiver tombo, não tiver pneu furado, vamos contar o quê?

Quinta-feira, 11
São seis e quinze. Estamos nos preparando para sair do posto do Índio, dentro da cidade de Campos, perto da ponte quebrada. Nossa próxima parada é Cachoeiro de Itapemirim.

Dez para as dez Meu pneu furou. Estou empurrando a bicicleta há um quilômetro. Temos que parar num posto, para consertar o pneu. Andamos bastante ontem. Mas ficamos a 35 quilômetros da divisa. Continuamos na saída de Campos, quase na divisa com o Espírito Santo. Começa a ser difícil chegar a Porto Seguro na data certa. Tudo bem. É um pneuzinho só. Faz parte da brincadeira. Um quilômetrozinho empurrando não é nada. As pistas estão vazias. Não têm carro nenhum, devido ao acidente da ponte. Volta e meia, passa um carrinho, passa um caminhãozinho. Fora isso, só passa bicho aqui na rua. Formiga, muita formiga, principalmente. Estamos vendo um postinho da fiscalização. É a fronteira. A única coisa grave é que estamos duros, tocando para frente a poder de doação. Mas indo devagar, tranqüilos. Não adianta vir apavorado para pedalar na estrada. Vai ter aperto, vai acontecer de tudo. É assim que a gente aprende a aproveitar a vida, no dia-a-dia.

Dez e vinte e cinco Estamos aqui, consertando o pneu da bicicleta, no posto Arles, e bebendo muita água. Minha água está no sol, e vai ficando quente.
Sete da noite Não sei para quê essa mania de buzinar! O acostamento aqui é cheio de buraco. O cara buzina por trás, a gente pula fora da estrada e se ferra no acostamento. Estamos num posto da divisa, entre o Rio de Janeiro e o Espírito Santo. Chegamos às dez para as cinco, almoçamos e vamos armar a barraca, para descansar.

Sexta-feira, 12
São seis e quarenta da manhã e, agora sim, vamos entrar no Espírito Santo. Temos que atravessar o estado inteiro para chegar na Bahia. Daqui para lá só tem subida. E é tudo deserto. Não se vê ninguém, só mato dos lados e estrada na frente. E vamos nós! Jantamos no posto Divisa, que nos acolheu muito bem. Acampamos com mais três companheiros, que dormem lá. Rapaziada boa. O resto é só alegria daqui para frente. Estamos quase atingindo o que a gente quer. Faltam só 600 quilômetros.

Onze e trinta Chegamos à entrada de Cachoeiro de Itapemirim, paramos na Polícia Rodoviária, pegamos uma declaração. A gente passa em todos os postos e pega um documento, para provar que estivemos ali. Tomamos um cafezinho com eles. O policial tomou nossos dados, tudo direitinho. É gente boa, que nos deu muita atenção. E ofereceu um café com pão, para a gente agüentar.

Vinte para as cinco Chegamos ao posto, em Iconha. Qual o nome do posto? Esso? Não, União. Vamos ficar aqui, porque nos postos para frente não tem lugar para dormir. Vencemos 85 quilômetros.

Sábado, 13
Passamos uma noite maravilhosa, no posto União. Na entrada de Piúma, encontramos um pessoal, que parou para tirar fotos conosco. Todo mundo, inclusive a mulher, muito doida. Tiramos as fotos na boa. E vimos um acidente com um caminhão da Brahma, quase chegando a Vitória, no litoral. Nada de grave, a não ser para o caminhão, que se arrebentou todo. O motorista está beleza.

Onze e trinta O Carlos reclama que, quando os caminhões passam, o vento chega a jogar as bicicletas para o lado. Agora encostamos, porque ele cismou de subir num pé de manga. O Carlos parece macaco. Não pode ver árvore que sobe. Encontramos um casal que vinha vindo de viagem. Aqui tem gente indo para a Bahia, tem gente vindo. Ainda agora cruzamos com duas motoqueiras. De vez em quando, encontramos um ou dois doidos como nós, de bicicleta. E o cara do posto? Não pensei que ele ia dar aquele café para a gente. Um café caprichado. Por aquilo eu não esperava. Se pedíssemos a janta, ele dava.

Oito da noite Chegamos ao posto Serra. Fizemos 130 quilômetros, diretos. Faltam 150 para a Bahia. O Carlos diz que estamos nos aproximando da divisa do Espírito Santo com a Bahia. Passamos por Vitória. Fomos ao aeroporto, procurar a casa de um amigo para entregar uma carta, no bairro Ferrosa. Viramos carteiros também. Mas não encontramos a casa e acabamos trazendo a carta embora. Estava escurecendo e avisaram que o lugar era perigoso.

Domingo, 14
São seis e meia da manhã e lá vamos nós para a Bahia! Está chovendo. Choveu muito a noite toda, com muito estrondo de trovoada. O tempo fechou. Vamos pegar chuva na certa. Só vendo no que isso vai dar.

Meio dia e meia Paramos numa cachoeira num lugar chamado Serra, para jogar uma água no corpo. Acho bonito ver uma cachoeira dessas, saindo da pedra na beira da estrada. Mas tem gente que ainda joga lixo. Tem um bocado de lixo por aqui.

Seis da tarde Chegamos praticamente na divisa. Mas tivemos que encarar em Linhares uma subida de 4 quilômetros que foi fogo. Pensei que não ia dar. Conhecemos um sujeito que está vindo de Goiás, sem dinheiro nenhum. O engraçado é onde ele se hospeda: nas árvores. Pendura a rede nos galhos. Bota um plástico por cima. E dorme lá no alto. É até perigoso, deve ter cobra. Alguém pode fazer uma maldade com ele, levar a bicicleta. Cada um com sua aventura. Nós com a nossa, ele com a dele. Daqui a 50 quilômetros vamos entrar na Bahia. Dá para atravessar a fronteira ainda hoje. Pensei que era a divisa de Linhares com São Mateus, mas o Carlos explicou que era a divisa do estado. Dormimos num posto Texaco, comemos miojo, que é leve, bom para viajar, e o frentista arranjou um lugar para a gente. É um cara de respeito, que nos deu uns biscoitinhos, um copinho de café-com-leite. Aquilo fortaleceu a gente. Café é a melhor coisa para tomar na viagem. Melhor, só Nescau. Com um Nescau dá para pedalar a serra todinha. Fizemos 95 quilômetros até aqui. E viemos dormir em Linhares, com todo aquele temporal de ontem. Hoje, parece que o tempo vai ser bom. Tem até estrela no céu. Queremos dormir em São Mateus. Será que vai dar?

Cinco da tarde Chegamos em São Mateus, para dormir no posto Água Mineral. Comemos uns mamões, que ganhamos, na estrada, da transportadora Apex. Será que ainda vem por aí muita subida? O Carlos diz que, no começo, a Bahia é cheia de morro. Depois, só planície. Vamos ver que bicho vai dar.

Segunda-feira, 15
Saímos do posto às seis da manhã. Caramba, que morro! Tivemos que vir empurrando as bicicletas. E o sol maltratou muito. Estamos perto de Pedro Canário. Tem muito animal morto na estrada. Pássaros, gambás, cobra, gatos selvagens. E aquilo lá, é cotia? Parece que é. Como passa carreta! Elas chegam a tirar cada fino. A estrada até balança, a bicicleta sai da reta. Subimos muito morro. Descemos muito morro. Uma churrascaria de Pedro Canário nos cedeu o almoço. Chegamos a 31 de Março. Paramos no posto Carreteiro. Aqui não tem horário de verão. Beleza. São seis horas da tarde, e não sete. Estamos acampados na divisa. Não é Bahia ainda. Mas o pessoal daqui é gente boa. O pneu da bicicleta do Carlos furou e todo mundo deu uma força para consertar. Ainda arrumamos a bicicleta de um garotinho. Estamos evangelizando, trazendo um pouco da Palavra. Encontramos um sujeito aqui que pediu para fazer um rabo de pipa para ele com cerol. Falei que não. Não é nossa praia. Nossa praia é paz! Amanhã, a gente vai sair daqui às seis horas e entrar na Bahia.

Segunda-feira, 22
A gente chegou anteontem em Porto Seguro, à uma e meia da tarde. Na moral. E já rodamos muito por aqui. Ficamos agarrados com os índios. Batemos fotos. Comemos jaca juntos. São pataxós, até gente boa. Daí, fomos conhecer as praias. Andamos por todas elas, inclusive pelo recife que entra no mar um quilômetro e tanto. Hoje, visitamos a Câmara Municipal para pegar a declaração e o pessoal nos levou para almoçar em restaurante. Conhecemos pessoas legais em Santa Cruz, como o capitão Simão Vieira Pinheiro, o Borrão, de Belo Horizonte. Cara bom. É só perguntar pelo Borrão no Corpo de Bombeiros de Belo Horizonte, que todo mundo sabe quem é. O Borrão nos contou a história de um cara lá em Minas, que levou onze anos puxando uma carroça, com uma caixa de geladeira velha e, dentro da caixa, uma arma, para se vingar de um colega que tinha feito um roubo com ele e fugiu com o dinheiro. Ele até pediu, uma vez, hospedagem na casa da mãe do Borrão. Dormiu na cocheira da fazenda. Um dia, ele se vingou. Que história, hein? Parece o Giuliano Gemma. Encontramos também o Negão do Milho, referência nacional em Coroa Vermelha, Porto Seguro e Santa Cruz de Cabrália. E teve aquele sujeito que encontrou com a gente lá em Vitória, chegou aqui e deu de cara com a gente de novo. Fora isso, não tem ninguém mais que faz uma aventura dessas, cara. É o primeiro grupo de Ciclistas Malukos de São Gonçalo. Vai ficar na história. A estrada aqui está péssima. Não tem acostamento. Nossa volta vai ser dolorida. Mas valeu a pena vir, por tudo o que Deus fez na nossa vista, tanta coisa bonita. Agora, a gente fica imaginando: o homem vem, destrói, porque deixa muita coisa pelo caminho. Tanta beleza, e quanta coisa destruída.

Quarta-feira, 24
Saímos às sete e meia de Santa Cruz de Cabrália para o Rio de Janeiro. Mas entramos em Porto Seguro e demoramos. Passamos pela porta da cidade. Tiramos fotos. Fomos até o aeroporto, porque um amigo do Carlos faz vôos turísticos e nos levou para dar uma voltinha de ultraleve sobre a praia. Só aí pegamos a estrada. Passamos a noite no posto Oi, em Eunápolis.

Quinta-feira, 25
Logo na saída de Eunápolis, depois de passar dois morrões, no terceiro a bicicleta do Carlos quebrou. Tinha que quebrar logo o espigão, que prende o guidão. São oito e meia da manhã, e nós aqui, quebrados na estrada. Não tem nada por perto, nem casa. Só mato e estrada, no deserto. Só podemos contar com a sorte. O bicho pegou! O Carlos teve que arrumar uns pedaços de madeira, uns pedaços de arame, fazer um transplante no guidão e ir empurrando, até aparecer uma carona. Ralamos de Eunápolis a Itabela, empurrando para ver se aparecia uma carona. Não apareceu. Estamos pagando o preço da viagem. Nem carona a gente conseguiu. Pensamos chegar em casa no dia 2. Quem sabe agora quando é que vamos chegar?

Sexta-feira, 26
Chegamos no posto Sítio Novo, às quatro da tarde. O dia rendeu uns 90 quilômetros, mais ou menos. As pernas estavam doídas, depois de 32 quilômetros a pé, de Eunápolis a Itabela.

Sábado, 27
Fizemos 120 quilômetros do posto Sítio Novo até o Nova Era.

Segunda-feira, 29
Estamos saindo do Nova Era, em Guaraná. Hoje, vamos dormir na divisa, daqui a 90 quilômetros. Tem muita serra, e é muito ruim o acostamento. Já perdemos um bocado de coisa no acostamento, de tanto que a bicicleta sacoleja. Preciso contar que estávamos tomando água de coco, num posto, quando encontramos um parceiro de estrada, vindo da Suíça. Gravamos a conversa com ele:

– Qual o seu nome, bicho?
– David.
– Está indo para onde, amigo?
– Para o México.
– Que beleza! Estivemos em Porto Seguro, vamos para o Rio.
– Para o Rio? Beleza!
– Você está indo para o México?
– Para o México. Depois, vou voltar para o Rio Grande do Sul. Linda bicicleta!
– É fabricação nossa mesmo. É boa! Há quanto tempo você está na estrada?
– Há um ano.
– Maneiro!
– Vou ficar mais dois.
– Foi a maior alegria te ver!
– Por quê?
– Porque a gente pedala há um bocado de tempo também, com essa bike que nós mesmos fizemos.
– Está linda, linda!
– E a família?
– A família? Na Suíça.
– Ela não fica preocupada? Você entra em contato com ela?
– A mãe fica preocupada, muito preocupada.
– Quantos anos você tem?
– 26.
– Eu tenho 52, e o Carlos, 50.
– E pedalando, hein? Posso bater uma foto?

Terça-feira, 30
São seis horas e saímos do posto Carreteiro, rumo a São Mateus. A gente encontra muitos andarilhos a pé pela estrada, muitos ciclistas, como o David. O pessoal pensa que só a gente é maluco. Acabamos de encontrar um senhor que está viajando a pé. Gravando:
– Para onde o senhor vai?
– João Pessoa.
– João Pessoa? Leva quantos dias?
– Eu não sei, não.
– Leva mais de um mês, dois?
– Não faço cálculo, não.
– Vai sem pressa?
– Sem pressa nenhuma.
– Assim, quantos quilômetros o senhor anda por dia?
– Quinze, vinte quilômetros. Achando um lugarzinho, vai parando, né?
– Os outros ajudam o senhor na estrada?
– Pouco demais. Às vezes, dão um prato de comida. Só. Se a gente não carregar uns mantimentozinhos, passa necessidade.
– Acha que vai ficar uns seis meses na estrada?
– Ah, é nessa faixa, viu? Tem que trotar devagar.

Quarta-feira, 31
Estamos com uma média de 60 quilômetros já rodados, indo para João Neiva. Passamos pela Apex de novo. É uma transportadora que só trabalha com carga de mamão. Fomos bem recebidos. Deram café e seis mamões, para a gente comer pela estrada. Ontem, em Linhares, a Secretaria de Esportes e Lazer nos presenteou com camisas, bonés, livros e almoço. Nos levaram para almoçar num restaurante de comida muito boa. Podíamos escolher o que quiséssemos comer. Estamos nos alimentando bem na estrada, mesmo sem dinheiro. Nos postos, os caminhoneiros nos ajudam. Um dá R$ 5,00, outro dá R$ 2,00. Com isso, vamos levando. No Café Brasil, nos presentearam com um boné, um pacote de café. Nossa meta é chegar quinta ou sexta-feira em casa.

Quinta-feira, 1 de fevereiro
Fizemos 150 quilômetros. Também, pudera, acordamos à uma da manhã, saímos às duas e vinte e às quatro e meia da tarde chegamos ao posto Texaco, o Primeiro de Maio, perto de Campos. Conhecemos um cara ali que fazia artesanato para vender. Ele tinha vendido quase R$ 400,00 num dia. Ganhar dinheiro assim é mole. Encontramos por lá um vizinho. Bem, ele é de Teresópolis, mas ele tem uma casa no nosso bairro e nos deu uns chinelos. Queria pagar nosso almoço, mas não pudemos aceitar, porque tínhamos que pegar na prefeitura o comprovante de que passamos na cidade. Na Secretaria de Esportes, pagaram almoço para a gente, deram alguns brindes, camisas. Quer dizer: perdemos um almoço, mas ganhamos outro. A Secretaria de Serrinha é que nada fez pela gente. Mal deu o atestado, quando passamos por lá. Amanhã, pretendemos sair às cinco da manhã para Iconha. Se possível, ir além de Iconha.

Sexta-feira, 2
Viemos batidos, do posto Andorinha, na entrada de Conceição de Macabu, até em casa, sem parar para dormir. Só paramos para almoçar naquela churrascaria da ida, a Patropi. Em Silva Jardim, tomamos um café. Também comemos alguma coisa em Itaboraí. No mais, emendamos a viagem, sem dormir em lugar nenhum. Estamos em casa, às oito e meia da noite. Pertinho daqui, no viaduto de Santa Luzia, furou um pneu da bicicleta do Carlos. Enchemos o pneu no borracheiro e viemos embora. Até nisso demos muita sorte. Foi tudo tranqüilo nesses 2.400 quilômetros. O pior é que, de tanto sacolejar no acostamento, Carlos perdeu o diploma dos 500 anos, que fomos buscar em Cabrália. Um dia vamos ter que voltar lá. Chegamos no dia previsto, debaixo de chuva, só um pouco abatidos. Tinha mesmo que abater. Foi muita caloria que se gastou, muito sol na cabeça. Mas valeu. Corajoso foi o suíço que encontramos. Três anos na estrada, sozinho, sem conhecer nada. E a bicicleta dele é comum. Não é qualquer um que faz isso, não. É preciso ter determinação. E o cara só come arroz. Arroz branco. É mole?

Ronaldo Pena

Ronaldo Pena é pedreiro em São Gonçalo, no Rio de Janeiro.

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