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    Os destroços do vandalismo: nos bastidores, mensagens de um general via WhatsApp retratam a cumplicidade do Exército com os arruaceiros bolsonaristas – um Exército que chegou a apontar seus blindados contra PMs na noite de 9 de janeiro Crédito: ANDRESSA ANHOLETE_GETTY IMAGES_2023

anais da intentona

A teia do golpe de 8 de janeiro

Como políticos, militares e policiais se juntaram para golpear a democracia no Brasil

Ana Clara Costa | Edição 201, Junho 2023

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Um telão fora instalado na biblioteca do Palácio da Alvorada no dia 29 de outubro do ano passado. No dia seguinte, a partir das 17 horas, começou a se projetar ali a apuração de votos do segundo turno pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Sentado numa poltrona de couro modelo Barcelona, do arquiteto alemão naturalizado norte-americano Mies van der Rohe, Jair Bolsonaro tomava nota das oscilações na contagem. A cada atualização do gráfico em que seu desempenho recuava e o de Lula avançava, Bolsonaro escrevia o número numa folha branca – e franzia a testa.

– Tá vendo! Tá vendo! Eu falei! Isso aí é golpe!

Desde a volta da democracia ao país, pela primeira vez um presidente acompanhava a apuração na companhia de dois generais: Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira, ministro da Defesa, e Marco Antônio Freire Gomes, comandante do Exército. Naquela noite, ambos assentiam a cada afirmação do presidente de que a apuração não era uma coisa séria. Às 18h44, quando Lula passou à liderança, um incômodo tomou conta do ambiente. Bolsonaro parecia intuir que o jogo havia acabado. Nos 72 minutos decorridos entre a virada do petista e o anúncio oficial do resultado, às 19h56, o ar se tornou irrespirável na biblioteca. E Bolsonaro estava incrédulo.

 

Com a derrota já decretada, chegaram seus filhos, Flávio e Eduardo, que assistiram à apuração em suas casas e vieram com suas mulheres. Carlos estava rompido com o pai. Michelle permanecia no Palácio com as duas filhas, mas não acompanhou a contagem ao lado do marido. O telefone não parava de tocar, com ligações de ex-ministros, aliados e do presidente do pl, Valdemar Costa Neto. A maior parte esbarrava no coronel Mauro Cid, o ajudante de ordens. Bolsonaro não queria falar com ninguém. Ficava irritado com o tom de lamento das conversas. Recolheu-se por volta de meia-noite.

A derrota não estava nos planos de Bolsonaro. Sempre esteve convicto de que seria reeleito mesmo com as “fraudes”. No último tracking do PL, feito na véspera da eleição, ele aparecia à frente de Lula, embora dentro da margem de erro. A pesquisa, feita pelo Instituto Paraná, era um unicórnio – todos os demais institutos apontavam vitória de Lula, por uma margem estreita. Bolsonaro ficara especialmente animado com um tracking do dia anterior, encomendado pelo PSD, de Gilberto Kassab. Mostrava que ele abrira 20 pontos sobre Lula no estado de São Paulo. Nas contas do partido, bastavam 15 pontos de dianteira no eleitorado paulista para que Bolsonaro fosse reeleito. No fim, teve 10 pontos.

Na campanha, Bolsonaro media a temperatura de acordo com sua recepção nos aeroportos. “Mesmo com fraude, vou ganhar. Em 2018, eu botava mil pessoas no aeroporto. Hoje, estou botando 20 mil”, dizia a aliados. Por um lado, imperava a autoconfiança. Por outro, a máquina pública se movia para garantir a vitória. No abuso da máquina, Bolsonaro atingiu um novo patamar, com uma gastança bilionária, que chegou perto dos 300 bilhões de reais. No abuso de poder, adotou uma estratégia jamais vista no regime democrático: cooptou grande parte das forças policiais, aparelhou as Forças Armadas e encilhou um partido político. Tudo às claras, incluindo até reunião com o corpo de diplomatas estrangeiros no Brasil, sempre com a intenção de tumultuar o processo eleitoral e insuflar apoiadores para uma virada de mesa – uma crônica cujos detalhes a piauí reconstituiu durante três meses de apuração.

 

 

No dia 4 de outubro, dois dias depois do primeiro turno em que Lula chegou na frente, o diretor geral da Polícia Federal, Márcio Nunes de Oliveira, fez uma reunião virtual com os superintendentes da corporação. Pediu foco total para coibir crimes eleitorais. A ordem produziu um certo estranhamento – afinal de contas, combater esse tipo de crime era a principal função da PF em qualquer eleição. Duas semanas depois, em 19 de outubro, o tema motivou outra reunião, desta vez com a Polícia Rodoviária Federal (PRF). Convocado com apenas dois dias de antecedência, o encontro tinha de ser presencial, em Brasília. Celulares e relógios, ou qualquer aparelho capaz de fazer registros, estavam proibidos.

Na reunião, reconstituída pela piauí a partir de entrevistas com duas testemunhas, o então diretor da PRF, Silvinei Vasques, foi direto: pediu fiscalização rigorosa no Nordeste e em eleitores do PT. Ponderou que Bolsonaro fora generoso com a PRF e deveria se reeleger. Os agentes precisariam ficar de olho em qualquer ilegalidade de trânsito, atentando para veículos com documentação irregular, falta de capacetes ou equipamentos de segurança vencidos. Numa indicação de que todos sabiam que a conversa era imprópria, nada disso foi colocado na ata do encontro, segundo apurou o jornal O Globo.

Enquanto a PF e a PRF eram acionadas, a então diretora de inteligência do Ministério da Justiça, Marília Ferreira de Alencar, fez dois boletins de inteligência a pedido do então ministro da Justiça, Anderson Torres. O primeiro listava os municípios em que Lula e Bolsonaro tiveram mais de 75% dos votos, divididos por estado. Para Lula, a maioria estava no Nordeste. Para Bolsonaro, no Sul. O segundo boletim mapeava a localização dos efetivos da PRF nos estados. Conjugadas, as duas planilhas continham dados úteis. Torres podia saber quantos agentes da PRF era possível deslocar para as regiões onde cada candidato era mais forte – e calcular o custo à pasta em viagens e horas extras. Depois de enviar as planilhas ao ministro, Alencar, ela também delegada da PF, excluiu os boletins do sistema.

 

(Poucos meses mais tarde, na apuração dos atos golpistas do 8 de janeiro, a servidora voltou a apagar rastros. Ela chefiava a equipe de inteligência de Torres no governo do Distrito Federal quando a Esplanada foi invadida. Chamada para depor na CPI dos Atos Antidemocráticos na Câmara Distrital de Brasília, a delegada, antes de ser ouvida, foi à sede da PF pedir aos colegas para eliminar os arquivos de seu celular. Sumiu ali um dos boletins eleitorais que havia enviado a Torres.)

Na segunda-feira, 24 de outubro, seis dias antes do segundo turno, o superintendente da PF da Bahia, Leandro Almada da Costa, foi avisado de que receberia as visitas de Torres e Nunes de Oliveira, o diretor-geral da PF. Não havia uma pauta, a visita era uma surpresa e nem constava na agenda do ministro. Na noite de terça, a dupla chegou a Salvador em avião da Força Aérea Brasileira, com assessores. O encontro se deu na manhã seguinte. Torres informou que havia suspeitas de compra de voto na Bahia, onde Lula cravara 69,7% no primeiro turno. O ministro citou um áudio em que um indivíduo denuncia ter sido coagido por um petista à saída de sua zona eleitoral em Salvador. O áudio fora amplamente divulgado e já tinha sido apurado pela PF, que concluíra: era fake news. No fim da conversa, Torres sugeriu que a PRF apoiasse as operações da PF. Os federais estranharam a sugestão porque tal apoio não era praxe e a corporação rodoviária se tornara abertamente um braço do bolsonarismo.

Na sexta-feira 28, todas as superintendências da PF receberam as listas dos municípios com mais “suspeitas” de compra de votos. Na Bahia, sentindo cheiro de armação, os policiais federais não deram bola nem para a lista, nem para o apoio da PRF. Mas os agentes rodoviários estavam a todo vapor, fazendo operações atípicas na Bahia, Piauí, Alagoas, Ceará, Paraíba e Sergipe. Ao montar uma blitz em locais onde nunca haviam aparecido, os patrulheiros espantavam o trânsito de quem estivesse com veículo irregular, coisa comum nas vans, ônibus e motos de circulação municipal. A medida logo suscitou suspeitas no PT. O deputado Paulo Teixeira (PT-SP) entrou no sábado com um pedido no TSE para que a fiscalização fosse interrompida. Na mesma noite, o ministro Alexandre de Moraes proibiu as operações que estavam atrapalhando o fluxo de eleitores.

Na madrugada do segundo turno, porém, Silvinei Vasques enviou ofício orientando seus superintendentes a ignorar a decisão do ministro, pois tudo que era recomendado ali, dizia ele, já estava sendo feito pela corporação. Os rodoviários em campo, alheios ao cunho político da empreitada, começaram a estranhar a quantidade incomum de efetivo nas estradas e o rigor exigido pelas chefias na abordagem, como pedir para que tirassem fotos de cada veículo parado e exigissem documentação até de passageiros – não só do condutor. A deputada Alice Portugal (PCdoB-BA), que fundou a Frente Parlamentar em Defesa da PRF, recebeu ligações de agentes nas estradas denunciando os abusos. Em contato com o chefe da PRF baiana, Virgílio Tourinho, ela questionou a operação. “Ele me disse: ‘Não, deputada, é apenas uma operação de trânsito.’ Eu disse que a polícia rodoviária estava deixando de ser uma polícia cidadã para se tornar uma polícia partidarizada. Ele foi completamente conivente com tudo”, diz a deputada.

No fim do dia, a despeito da alegação de que coibiriam crimes em todo o país, 49,5% das operações se concentraram no Nordeste, onde Lula liderava. No Sul, reduto de Bolsonaro, apenas 8,74%. Houve mais agentes deslocados para o Nordeste do que para o Sudeste, região mais populosa do país. No STF, Alexandre de Moraes convocou Vasques para dar explicações e chegou a consultar colegas sobre prorrogar o horário de votação. Decidiu manter tudo como estava, desconfiado de que os bolsonaristas usariam o adiamento para tumultuar o processo eleitoral. Na PF, havia expectativa de que o chefe da PRF fosse preso naquela mesma noite, o que nunca ocorreu.

Vasques foi exonerado ainda em 2022 e se aposentou com salário integral. É réu por improbidade administrativa, depois de ter pedido votos para Bolsonaro em suas redes sociais, enquanto coordenava o boicote a eleitores no Nordeste. “Vote 22”, postou ele, com uma bandeira do Brasil. Também é investigado por omissão quando caminhoneiros bloquearam as estradas do país, nos dias que se seguiram às eleições. A PRF não conseguia romper os bloqueios, mas até torcidas organizadas de futebol conseguiam. A atual gestão da PRF quer cassar a aposentadoria de Vasques.

 

O influenciador bolsonarista Oswaldo Eustáquio, preso em duas ocasiões por incitar atos antidemocráticos, vive no Paraguai, asilado. Ele ajudou a montar dois acampamentos de bolsonaristas em frente de quartéis, depois da derrota de Bolsonaro, em Curitiba e em Brasília. “Não havia uma organização, uma ordem. Quando Lula ganhou, todo mundo foi organicamente. Eu fui de imediato para o quartel-general do Exército de Pinheirinho, em Curitiba, e organizei tudo por lá. No começo de novembro, fui para Brasília e ajudei a montar. A primeira coisa que fiz foi criar um estúdio de podcast, para entrevistar quem passava por lá, como o [Frederick] Wassef, advogado do Bolsonaro”, conta.

O acampamento de Brasília cresceu no ritmo das doações. Banheiros químicos, tendas e restaurantes com cozinha industrial eram o centro da engrenagem que dava aos manifestantes a sensação de estar em casa. Havia café da manhã, lanches, almoço e jantar, além de churrascos ocasionais, com carne enviada por frigoríficos de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Havia ainda doação de bebidas alcoólicas, que também podiam ser adquiridas dos ambulantes que se instalaram no local. A fartura era tanta que atraiu gente pobre, em busca de comida. Uma imigrante venezuelana conta que arrecadava dinheiro para fornecer comida, roupas e ajuda médica aos acampados. Ela pediu para não ter seu nome revelado porque participou dos atos de 8 de janeiro e teme ser procurada pela polícia. Conta ter ficado 63 dias no acampamento para que o Brasil não “se torne a Venezuela”.

Sem líderes, à medida que se passavam as semanas, os grupos se desentendiam – por dinheiro. Eustáquio acusa a ex-bancária Ana Priscila Azevedo, o caminhoneiro Ramiro Alves da Rocha Cruz Junior e o empresário Rubem Abdalla Barroso Júnior de liderarem o que ele chama de “Máfia do Pix”, que pedia doações de dinheiro em escala maciça na internet para a cozinha principal do acampamento. Parte dos valores, acusa ele, era embolsada pelos donos da cozinha. Priscila Azevedo e Cruz Junior foram presos na esteira das investigações do 8 de janeiro. Abdalla está foragido. As denúncias de Eustáquio de que uma Máfia do Pix dominava o local foram confirmadas por policiais militares ouvidos pela CPI da Câmara Distrital, em Brasília.

As intenções golpistas dos acampamentos eram explícitas, assim como o plano de invadir o Congresso Nacional. A venezuelana que conversou com a piauí disse que, desde o início, almejava entrar no Congresso e ficar sentada no chão em vigília, mas sem quebrar nada. Já Eustáquio conta que a ideia de seu grupo era efetuar a invasão entre o final de novembro e o final de dezembro. Imaginava que, se o movimento ganhasse tração, Bolsonaro tomaria coragem de patrocinar uma quartelada. “A gente queria entrar e ocupar o Congresso. Não queríamos quebrar nada, porque é patrimônio da direita, da esquerda, do centro, do povo brasileiro. Se conseguíssemos fazer essa manifestação ainda em dezembro, entendíamos que o chefe supremo das Forças Armadas, o presidente Bolsonaro, poderia tomar uma decisão”, diz.

A decisão, no caso, era Bolsonaro evocar o artigo 142 da Constituição Federal que, na lógica peculiar do bolsonarismo, atribui às Forças Armadas a função de intervir entre poderes, como um “poder moderador” – nesse caso, intervir no TSE, anulando a vitória de Lula. “Não queríamos um golpe”, diz Eustáquio. “Queríamos algo dentro da Constituição.” Ele diz que, ao final de novembro, já estava claro que o Exército não lideraria sozinho a quartelada. “Para nós, o acampamento era um local para dormir e marcar a nossa presença. Não fazia mais sentido ficar pedindo nada aos generais. O Exército não tinha autonomia para fazer nada do que a gente queria.” Eustáquio passou então, por meio de suas redes, a convocar “patriotas” para a “Marcha da Família”, prevista para 30 de novembro. Eles iriam ao Congresso com o objetivo de invadir. “Tudo ali estava no auge, tinha muita gente, o quartel bombando. Aí eu e o pessoal do canal Hipócritas fizemos um vídeo. Convocamos o Brasil inteiro”, conta.

Seu movimento despertou a ira do pessoal das cozinhas do acampamento, não com a ideia de invadir o Congresso, mas com o esvaziamento do local, caso todos migrassem para a Esplanada. Sem “patriotas” nos quartéis, as doações minguariam. “Era um negócio lucrativo que o quartel continuasse funcionando”, diz o influenciador. Segundo Eustáquio, iniciou-se uma campanha difamatória contra ele a partir de então, o que acabou minando seu plano. “Diziam que éramos infiltrados de esquerda, apoiadores do Lula, que era uma cilada.” Em certo momento, a rixa escalou, ele foi agredido e decidiu deixar o local e liderar um grupo que passava o dia em frente ao Palácio da Alvorada, na expectativa de falar com Bolsonaro, voltando ao quartel apenas para dormir. Em uma dessas idas, chegou a entrar no Alvorada, mas diz que não falou com Bolsonaro. Em razão de pregar a invasão do Congresso, Eustáquio foi alvo de nova ordem de prisão e fugiu para o Paraguai.

Até aqui, a Máfia do Pix prestara um serviço involuntário à democracia brasileira. Mas seu apetite dinheirista voltaria mais tarde – e, dessa vez, na forma de golpe.

 

O vendedor de carros Armando Valentin Settin Lopes de Andrade frequentava o QG nesses dias agitados. Preso nas investigações do 8 de janeiro, acusado de levar artefatos explosivos em seu carro no dia dos ataques, ele contou em seu depoimento que testemunhou reuniões em que se discutiam atentados terroristas. Em pauta, se debatia colocar bombas para dinamitar o viaduto da rodoviária de Brasília, queimar carros e incendiar estações de energia na cidade.

O Exército, anfitrião atencioso, recebeu os manifestantes, inclusive os que maquinavam atentados terroristas, de braços abertos. Na primeira semana de novembro, quando o acampamento foi montado, o coronel Fabiano Augusto Cunha da Silva, do Comando Militar do Planalto (CMP), mandou ofício ao governo do DF para organizar as coisas. Informou que o carro de som dos manifestantes estava autorizado a ficar na frente do QG e os caminhões estacionariam em uma das vias do Setor Militar Urbano (SMU), uma área próxima. Também pediu que o governo do DF colaborasse com a limpeza do local, ambulância e policiamento. Mas fez um alerta: a Polícia Militar não podia, em hipótese alguma, entrar no acampamento. Tinha que ficar nas imediações da Catedral Militar Rainha da Paz, à entrada do SMU. Só a Polícia do Exército poderia acessar a área dos acampados.

Todos os pedidos do Exército foram atendidos pelo governo do DF. A limpeza das ruas do acampamento era feita três vezes ao dia. Naquele início de novembro, o general Gustavo Henrique Dutra de Menezes, comandante militar do Planalto, voltou a lembrar os limites: a Polícia Militar e o governo do DF poderiam retirar os vendedores ambulantes do local, mas não poderiam mexer com a estrutura montada pelos manifestantes que, segundo o general, tinham o direito de estar lá. Era uma novidade e tanto: nunca o Exército, desde a inauguração de Brasília, permitira que cidadãos comuns se concentrassem naquele espaço, considerado uma área de segurança.

Enquanto o acampamento crescia sob proteção fardada, Jair Bolsonaro, entrincheirado no Alvorada, oscilava entre a depressão pela derrota, o ódio de ver-se alvo da piedade alheia e a certeza de que as urnas haviam sido fraudadas. Ao seu redor, engalfinhavam-se três grupos divergentes que tentavam tutelar sua fúria e conduzi-la na direção que mais lhes convinha. O núcleo político, composto pelos ministros Ciro Nogueira, Fábio Faria, Rogério Marinho e Flávia Arruda, tentava convencêlo a reconhecer a derrota. O núcleo militar, liderado pelo candidato a vice, general Walter Braga Netto, dedicava-se a discutir “saídas constitucionais” para virar a mesa. O núcleo ideológico, composto pelo ajudante de ordens Mauro Cid, Eduardo Bolsonaro e assessores do gabinete do ódio, tramava outros subterfúgios – e às favas os escrúpulos constitucionais. No dia 1º de novembro, uma reunião no Planalto explicitou a divergência.

Convencido pelo núcleo político de que era preciso reconhecer o resultado eleitoral, num momento em que as estradas eram bloqueadas e surgia o receio de desabastecimento, Bolsonaro chamou seus ministros ao gabinete para que chegassem a uma nota de consenso. O texto, no trecho mais relevante, diria que “as instituições democráticas haviam declarado Lula o presidente eleito”. Era a forma indireta de admitir que perdeu a eleição e aceitava a vitória de Lula. O deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) não era ministro, mas apareceu acompanhado de assessores. Contrário à nota, disse ao pai que, com a população nas ruas, ele não poderia fazer aquilo. Alegou que, se mais tarde se provasse fraude nas urnas, ele teria o trunfo de não ter reconhecido o resultado. Eduardo disse também que era preciso “manter a esperança dos nossos”.

Bolsonaro ouviu o filho e avisou que, por haver posição divergente, colocaria a nota em votação. Todos os presentes, incluindo o vice Braga Netto e o ministro da Defesa, Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira, votaram a favor da nota. Só Eduardo foi contra. Mas foi o que bastou para que o texto fosse alterado. Bolsonaro, Eduardo e Braga Netto se dirigiram a uma sala próxima para reescrever a nova declaração, que foi lida pelo presidente diante das câmeras de tevê 45 horas depois da derrota. Lendo a nota, agradeceu os 58 milhões de votos que recebeu e disse que os “atuais movimentos populares são frutos de indignação e sentimento de injustiça de como se deu o processo eleitoral”. Não reconheceu o resultado, nem criticou os bloqueios de estrada.

Na mesma tarde, num gesto político a portas fechadas, sem imagens que pudessem estragar o teatro público, Bolsonaro agiu dentro da normalidade. Pediu que o coronel Mauro Cid ligasse para o ministro Gilmar Mendes e convidou os membros da Corte para uma conversa no Planalto. Depois de consultar seus pares, Mendes pediu que Bolsonaro fosse até o STF. O presidente atravessou a Praça dos Três Poderes, chegou amigavelmente ao Supremo, reconheceu o resultado e interagiu com os ministros de forma a distensionar o clima. Ouviu deles que não o animava nenhum espírito revanchista. Naqueles dias de incerteza, a burocracia estatal instalou rapidamente um governo de transição para reduzir o espaço para aventuras inconstitucionais.

A recusa de Bolsonaro em reconhecer a derrota publicamente encheu os radicais de esperança de que ele tinha um plano para permanecer na cadeira. E tinha mesmo. Doze meses antes, começara a ser gestada a estratégia de jogar dúvidas sobre o processo eleitoral, em caso de derrota nas urnas. Faziam parte do projeto os militares (mais por convicção do que por oportunismo) e o presidente do PL, Valdemar Costa Neto (mais por oportunismo do que por convicção).

 

Ao entrar no PL em novembro de 2021, Bolsonaro exigiu que o partido contratasse o engenheiro Carlos Rocha, formado pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica, para fazer estudos sobre a confiabilidade das urnas. Rocha era dono da empresa que foi subcontratada para construir a primeira série de urnas eletrônicas, em 1995. No ano seguinte, tentou registrar a patente da urna, mas seu pedido foi negado porque a máquina fora construída mediante especificações estabelecidas pelo TSE – ou seja, não era uma invenção dele. Rocha entrou num litígio. Queria receber royalties sobre cada urna fabricada. Perdeu a parada e desde então passou a integrar um diminuto, mas ruidoso, grupo de acadêmicos e leigos que questionam as urnas. Nos primórdios da internet, eles se reuniam em fóruns e listas de discussão. No bolsonarismo, encontraram abrigo e guarida – e ganharam as redes sociais e os grupos de WhatsApp e Telegram.

Para viabilizar sua contratação, Rocha criou o Instituto Voto Legal (IVL), registrado na Junta Comercial do Estado de São Paulo em 30 de novembro de 2021, no mesmo dia em que Bolsonaro se filiou ao PL. Desde o início de 2022, o IVL levou quase meio milhão de reais do partido produzindo relatórios que passaram a incendiar a imaginação conspiratória da extrema direita. Mas, como Bolsonaro acreditava que ganharia nas urnas, “mesmo com fraude”, os trabalhos do IVL ficaram de estepe.

Na teia do golpe, o papel dos militares era político e técnico. Assim que assumiu o Ministério da Defesa, em abril de 2022, o general Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira recebeu a missão de tutelar a confiabilidade do sistema eleitoral. Em público, as Forças Armadas jamais apontaram problema nas urnas, mas, em privado, o novo ministro vivia reclamando para Bolsonaro que sua equipe não conseguia confirmar com o TSE que havia “segurança do código-fonte”. Um ex-ministro do núcleo político, que pediu para não ter seu nome citado por razões partidárias, conta que o general Braga Netto, que deixou o Ministério da Defesa para ser vice na chapa de Bolsonaro, era a figura-chave da estratégia de colocar as urnas sob suspeita, ao lado do coronel Mauro Cid.

“O presidente sempre desacreditou das urnas, e os militares estavam junto com ele nessa ideia”, diz o ex-ministro. “Nós tentávamos tirar isso da cabeça dele, mas logo voltava. Até que, uma hora, todas as reuniões em que se falava de urnas já não contavam mais com a presença do núcleo político. Era só o Braga Netto e o Cid, que assistia a tudo na condição de ajudante de ordens, mas era muito mais do que isso. O Ramos [refere-se ao general Luiz Eduardo Ramos] depois se inseriu nesse tema para bajular o presidente e estar presente nessas reuniões”, diz o ex-ministro.

Braga Netto, além de chancelar a interpretação golpista do artigo 142, vendia a impressão de que tinha controle sobre a maioria dos dezesseis integrantes do Alto Comando do Exército – razão decisiva para que obtivesse a vaga de candidato a vice. Bolsonaro acreditava, mas até os próprios militares do Planalto achavam o cálculo excessivamente otimista. Na verdade, nessa fase de conversas golpistas ao pé do ouvido, o Alto Comando estava longe de um consenso, mas a tese de que as urnas eram uma fraude nunca perdeu força entre os militares.

Em pleno dia do primeiro turno, em 2 de outubro, o coronel Marcelo Nogueira de Sousa, que acompanhava a eleição no TSE em nome do Ministério da Defesa, fez o seguinte comentário durante uma visita à sala de apuração do tribunal: “O código-fonte é fraco.” Aos mais chegados, com discrição, disse que, embora a composição do tribunal mudasse com frequência, a “burocracia do TSE” continuava a mesma e era a responsável por manter o sistema com as fraudes. “Vocês entendem por que estamos aqui? Porque o Alexandre de Moraes pintou o quadro e nós somos a moldura que diz que o sistema está O.K. Agora, ele pode vender o quadro.” Quem ouviu os comentários ficou com a expectativa de que o relatório sobre as urnas que ele produziria para o Ministério da Defesa, depois do pleito, seria escandaloso.

Nos dias seguintes à derrota, Bolsonaro, mesmo em seus acessos de irritação, nunca pediu claramente que o relatório dos militares detonasse as urnas, mas suas críticas intermináveis pressionavam a caserna, que, embora também duvidasse do resultado, não queria assumir a dianteira do assunto. “O sentimento geral dos três comandantes era de indignação com a maneira como foi tratada a eleição, a falta de transparência. O povo pedindo e você não tendo resposta para dar”, queixou-se um aliado militar de primeira ordem do presidente, em conversa com a piauí. A indignação, porém, não bastava para patrocinar uma aventura. As cogitações de Bolsonaro de melar a eleição eram respondidas com evasivas pelo ministro da Defesa, pelo general Freire Gomes, comandante do Exército, e pelo brigadeiro Carlos de Almeida Baptista Júnior, que comandava a Aeronáutica. Somente o almirante Almir Garnier Santos, da Marinha, colocou-se à disposição do chefe para o que ele desejasse. Estava de plantão para o golpe.

O equivalente civil do almirante era Costa Neto, o presidente do PL. As urnas haviam dado ao seu partido uma fabulosa bancada de 99 deputados – e 1,2 bilhão de reais de fundo partidário –, mas o político sentou-se na primeira fila dos contestadores das urnas. No dia 8 de novembro, ao anunciar o convite para Bolsonaro ser presidente de honra do PL, Costa Neto não reconheceu a vitória de Lula e expressou a certeza de que o relatório do Ministério de Defesa, ainda em elaboração, apontaria as fraudes. “Eles [os militares] vão trazer alguma coisa. Não tenho dúvida disso, porque senão já tinham apresentado, já tinham liquidado o assunto. E, dependendo do que eles encontrarem, nós vamos brigar no TSE com esses questionamentos que eles possam trazer.”

No dia seguinte, na primeira reunião da nova bancada do PL na sede do partido, em Brasília, Costa Neto foi categórico ao dizer que havia algo errado com as urnas. E foi apoiado pela franja radical do partido, composta, entre outros, pelo deputado Filipe Barros (PL-PR), o mais estridente da turma, a deputada Carla Zambelli (PL-SP) e o recém-chegado Eduardo Pazuello (PL-RJ), o general que fez a vexaminosa gestão da pandemia no Ministério da Saúde. Todos haviam acabado de ser eleitos – nas urnas eletrônicas. Naquele mesmo dia, a Defesa finalmente divulgou seu relatório. Trazia uma conclusão covarde de tão ambígua: não era possível comprovar vulnerabilidades nas urnas, mas tampouco era possível negá-las. Estava claro que não encontraram nada de errado. Bolsonaro não gostou. Esperava um relatório denunciando fraude, sobretudo porque sabia que essa era a opinião dos militares. Para não entregar o jogo, acionou-se então a estepe: um relatório do IVL.

E Costa Neto entrou no seu labirinto. Como nem os militares acharam fraude, ele também queria pular fora do barco, mas sua bancada bolsonarista pressionava para que o partido usasse o relatório para contestar o resultado. A máquina de difamação do entorno presidencial entrou em campo, dizendo que Costa Neto já estava aderindo ao governo petista e andava se encontrando com Lula. Entre perder sua bancada ou perder a democracia, Costa Neto, ex-mensaleiro, ex-preso, ex-lulista e atual bolsonarista no coração e no bolso, decidiu atacar a democracia: apresentou o relatório do IVL ao TSE. Sabia que o tribunal rejeitaria a contestação, mas queria se livrar da pressão dos radicais.

Mal calibrado, o relatório dizia ter encontrado “indícios de mau funcionamento” em 59% das urnas eletrônicas do segundo turno – apenas do segundo turno. Em conversa com a piauí, o engenheiro Carlos Rocha defendeu seu trabalho, dizendo que não contestou os votos, apenas informou que havia “indícios de erros”. “Se há um erro, nada mais natural do que pedir para esse erro ser verificado”, diz.

Na prática, o conteúdo do relatório encaixou-se como uma luva nas intenções de Costa Neto de contestar a vitória de Lula, sem contestar a vitória dos seus 99 deputados, eleitos no primeiro turno. Mas o ministro Alexandre de Moraes não caiu no truque. Deu 24 horas para que o PL anexasse um relatório completo, incluindo as urnas do primeiro turno, com base no fato elementar que as urnas dos dois turnos eram as mesmas. O relatório não foi anexado, e Moraes multou o PL em 22,9 milhões de reais por litigância de má-fé. A ala bolsonarista indignou-se com os números (não o valor) da multa: 2 + 2 + 9 = 13, o número do PT. Entenderam que só podia ser um deboche de Moraes.

A recusa da ação do PL inflamou a ira de Bolsonaro contra Moraes. Segundo um assessor, que acompanhava o então presidente no momento em que saiu a decisão, a irritação era visível, mas justificável. “O presidente não queria nada demais, só queria um papelzinho [refere-se ao voto impresso] que provasse que o voto eletrônico tinha sido computado”, diz o assessor, que trabalhava no Palácio do Planalto. “Quando você entra com um recurso e o recurso é ignorado, tratado com chacota, você cria mais revolta. O normal seria receber a denúncia, apurar e depois responder que não havia nada.”

Os caminhos estavam se estreitando. As Forças Armadas não agiam e a chicana jurídica resultara num vexame. Um dos principais auxiliares de Bolsonaro contou à piauí que o então presidente só teria “força para fazer alguma coisa para checar as eleições” se, além dos militares, tivesse também “o apoio do Congresso e da mídia”. Diz ele: “Mas a mídia não comprou a ideia de que precisávamos ter uma eleição auditável.” Na conversa, esse auxiliar reconheceu que mesmo a alternativa vista como “constitucional” – o artigo 142 –, era, no fim das contas, uma saída autoritária. “Qualquer coisa que o presidente fizesse seria ação de força. No momento em que as Forças Armadas saíssem, a Justiça iria em cima, mandar prender general. É um ciclo que não para. Ia ter mais vinte anos de regime de força”, disse o assessor, que pertence à ala militar.

 

Nas ruas, a realidade dos palácios e dos tribunais ainda não havia chegado – e o ânimo dos militantes do bolsonarismo não arrefecia. No dia 9 de dezembro, saiu um mandado de prisão contra o indígena José Acácio Serere Xavante. Ele invadira o aeroporto de Brasília, causara tumulto num shopping center e tentara invadir o hotel onde Lula estava hospedado durante a transição de governo. Era fácil cumprir a ordem de prisão. O indígena não estava escondido. Fazia até lives de suas estrepolias pela cidade e, todas as noites, recolhia-se para dormir em segurança no acampamento em frente ao QG do Exército.

A polícia, no entanto, não o prendeu no dia 9. Era uma sexta-feira. Deixou passar o fim de semana e, na segunda, decidiu cumprir a ordem – exatamente na data em que Lula seria diplomado como presidente pelo TSE. A polícia sabia que seria um dia de manifestações, tanto que montara um esquema de segurança no tribunal. Impedidos de protestar diante do TSE, os ônibus lotados de bolsonaristas dirigiram-se ao Palácio da Alvorada, para pedir a Bolsonaro que fizesse alguma coisa. Os agentes da PF entenderam que era um bom momento para prender Serere, em meio a uma turba indignada. Os policiais subiram no ônibus, renderam o indígena e o levaram, algemado, para a viatura.

Numa decisão inédita na história da PF em Brasília, o preso deixou de ser levado para a sede regional da corporação, localizada a mais de 8 km do acampamento no QG. Pela primeira vez, recolheram um civil na sede nacional da PF, bem no coração de Brasília e não muito longe do acampamento. Os ônibus, lotados de bolsonaristas, seguiram a viatura policial, os acampados do QG foram avisados – e assim montou-se um fenomenal quebra-quebra na capital.

Os agentes do Comando de Operações Táticas da PF, treinados para ações de alto risco, como assaltos a bancos e operações contra o tráfico, não estavam na sede nacional da corporação naquele dia. Os manifestantes atearam fogo em carros e ônibus, quebraram o que viram pela frente, roubaram botijões de gás em um posto de gasolina e os espalharam pelo setor hoteleiro de Brasília, onde ficava o hotel de Lula. Para completar, atacaram a 5ª Delegacia de Polícia Civil, ali nas redondezas. O pandemônio terminou sem uma única prisão. Nem pela polícia da ordem pública, que é a militar. Nem pela federal, que tinha atribuição para tanto. Nem pela civil, atacada em sua própria casa.

O comandante do choque da PM naquela noite, coronel Jorge Eduardo Naime Barreto, ouvido na CPI dos Atos Antidemocráticos, na Câmara Distrital, disse que não tinha como efetuar as prisões e, ao mesmo tempo, dispersar vândalos – ainda mais com seus homens portando coletes de 7 kg e armas não letais. Disse que tentou fazer as prisões depois do fim dos ataques, mas, “por incrível que pareça, os caras sumiram”. No dia seguinte, membros da associação dos hotéis em Brasília pediram segurança à PM ao constatar que alguns dos vândalos estavam hospedados em seus hotéis, inclusive no de Lula. O coronel respondeu que a PM de Brasília não era instruída a matar manifestante, e sim “preservar vidas” dentro da “doutrina de direitos humanos” – declaração curiosa, já que ninguém pedira para matar ninguém. Da massa que infernizou a capital, quarenta arruaceiros foram identificados, mas só quatro foram presos posteriormente.

O senador eleito Flávio Dino (PSB-MA), que já havia sido escalado para comandar o Ministério da Justiça de Lula, soube dos ataques por volta das 19 horas, quando chegava à casa do advogado Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, para um jantar em comemoração à diplomação do presidente. Dino ligou para o governador Ibaneis Rocha (MDB) e ouviu que “estava tudo caminhando bem” e “tudo controlado”. Como as horas avançavam e a cidade estava um caos, Dino voltou a ligar para Ibaneis, que então reconheceu que as polícias ainda não haviam controlado os vândalos, mas disse que a segurança do hotel de Lula fora reforçada porque o grupo tentara invadir o prédio. Corria o boato de que Lula tivera de ser retirado do hotel num helicóptero. Mas ele ainda estava no jantar na casa de Kakay e lá permaneceu até que a situação se normalizou.

Para tranquilizar a opinião pública, Dino marcou uma coletiva de imprensa e convidou Ibaneis, que não quis participar, mas enviou seu secretário de Segurança Pública, Júlio Danilo Souza Ferreira. Enquanto a entrevista transcorria, o ministro da Justiça de Bolsonaro, Anderson Torres, jantava no restaurante Dom Francisco, alheio ao que se passava. Ao relembrar aquele dia em conversa com a piauí, Dino diz que foi um momento-chave. “Acendeu-se ali um grande sinal amarelo de que eles não desistiriam desses atos terroristas. Como organizar a segurança da posse? Já era difícil com as forças federais. E a gente passou a ter insegurança também em relação às forças locais.”

Para complicar, o Exército protegia a turba nos quartéis. “A partir da diplomação, os acampamentos deixam de ser pontos estáticos e viram hubs”, diz Flávio Dino, sobre o caráter de incubadora de criminosos que o local adquiriu. O governo do DF e o governo eleito pressionavam pelo desmonte dos acampamentos, mas o Exército nunca achava que era o momento adequado. Em novembro, uma nota conjunta dos comandantes das três forças apoiara os manifestantes, que faziam “demandas legais e legítimas da população”, e cobrava que lhes fosse garantido a “livre manifestação do pensamento”. O comunicado fora elaborado como antídoto a uma eventual ordem de Alexandre de Moraes para dissolver os acampamentos.

Também em meados de novembro, nas conversas sobre a primeira tentativa para retirar os acampados, a Secretaria de Segurança Pública fez um plano de ação cujo título era “Operação para a Retirada do Acampamento”. O Exército pediu que o texto fosse alterado para “Operação para Reprimir o Comércio Ambulante”. Os militares temiam que o documento chegasse aos ouvidos de Bolsonaro ou dos manifestantes, mostrando que a caserna era a patrocinadora da dissolução do local. “Havia proteção aos manifestantes, e essa proteção vinha do comando do Exército”, disse um dos PMs que participou das várias tentativas de desfazer o local, sempre abortadas pela caserna. Conforme apuração da piauí, associada aos depoimentos de policiais militares e federais prestados nas investigações, a crônica do apoio do Exército aos vândalos pode ser ilustrada com duas datas. São elas:

12 DE NOVEMBRO, DOMINGO_É o dia da primeira tentativa de desmontar o acampamento em Brasília. A estrutura de barracas, cozinhas e banheiros químicos era recente, mas já havia ambulantes irregulares, vendendo bebidas alcoólicas, comida e roupas. Como a Polícia Militar estava proibida pelo Exército de entrar no acampamento, só os fiscais de comércio ilegal acessavam o local. Quando começaram a retirar os ambulantes, os fiscais foram hostilizados pelos acampados. Deixaram  o local sob o risco de linchamento. A PM, que se posicionava em frente à Catedral Rainha da Paz, ao lado do acampamento, nada podia fazer para proteger os fiscais. E a Polícia do Exército permitiu que fossem hostilizados e expulsos. Mais tarde, os servidores deixaram registrada em documento a inação dos militares.

7 DE DEZEMBRO, QUINTA-FEIRA_O acampamento já contava com quase 50 mil pessoas e, como proliferavam as denúncias de roubos, prostituição e violência, organizou-se nova tentativa de desmobilização. Outra vez, a ordem do Exército era para que apenas os ambulantes saíssem. Houve uma reunião na véspera, no auditório do Comando Militar do Planalto, em que foram apresentados croquis e transparências pelos militares sobre como seria a retirada. Novamente, na hora H, os fiscais foram expulsos pelos acampados, sem que a Polícia do Exército agisse. Em vídeos na internet, pode-se ver a polícia protegendo acampados que atacam fiscais. De novo, o Exército abortou a operação porque não havia “condições de segurança das equipes de fiscalização”.

 

Sem nenhuma interlocução com o Exército, instituição historicamente avessa ao PT e à esquerda, ao governo eleito restava pressionar o governo do DF. O governo distrital, por sua vez, embora quisesse se livrar dos vândalos, estava abraçado ao bolsonarismo e não tinha força política para negociar a retirada com os generais. Reeleito em primeiro turno, Ibaneis Rocha saldou sua dívida de campanha com Bolsonaro escalando Anderson Torres para secretário de Segurança Pública. Mesmo alertado por ministros do STF de que Torres era peça central das maquinações de golpe, Ibaneis foi em frente – decisão que, quando a intentona golpista chegasse ao seu auge, o levaria a ficar judicialmente afastado do governo por 66 dias.

A tensão entre o PT e o Exército – em outras palavras, entre um governo em formação e uma força armada hostil – levou à escolha de José Múcio Monteiro Filho para de ministro da Defesa. Ex-conselheiro do Tribunal de Contas da União (TCU) e ex-ministro da Secretaria de Relações Institucionais do governo Lula, Múcio fora convidado pelo petista para colaborar com o núcleo político logo no início da campanha. Declinou. Quando venceu, Lula voltou a sondá-lo. “Vou precisar de você na transição”, disse o presidente eleito. Em tom de brincadeira, Múcio respondeu que gostaria de ter o cargo do advogado Sigmaringa Seixas, morto em 2018, que “não tinha função, mas era ouvido em tudo”.

Ao final do cortejo, Múcio topou integrar a equipe de civis e militares que discutia temas da defesa na transição. Deu-se conta de que seria ministro quando percebeu que, na equipe, era o único civil. Aceitou o convite, superando vários concorrentes – entre eles, Ricardo Lewandowski, a aposta do ministro Alexandre de Moraes para fazer “a intervenção final no quartel” – e fez uma exigência: queria autonomia para escolher os comandantes das três forças. Como precisava de um pacificador, e Múcio era jeitoso e tinha trânsito com a direita, Lula concordou.

A escolha emitia dois sinais: o presidente eleito estava ansioso para pactuar, não para brigar, e temia uma rebelião nos quartéis, diante do avanço dos apelos golpistas nas franjas radicais do bolsonarismo. Em conversa com amigos próximos, o ex-presidente José Sarney, ao saber da indicação de Múcio, fez a leitura otimista de uma raposa: “Os militares estão gostando da escolha do Múcio porque vão mandar nele.”

Ainda durante a transição, Múcio tentou contato com os comandantes militares. Suas ligações não eram atendidas, seus recados não recebiam retornos e seus pedidos de visita eram repelidos. O ministro então procurou Bolsonaro, a quem conhecia desde os tempos em que ambos foram deputados. Tinham relações cordiais. Pediu que o então presidente dissesse aos comandantes que, no governo petista, tudo ocorreria dentro da institucionalidade. Funcionou, em parte. O general Freire Gomes e o brigadeiro Baptista Júnior receberam Múcio. O almirante Garnier, o plantonista do golpe, não. No decorrer de dezembro, quando todo o entorno de Bolsonaro maquinava contra a democracia, Múcio excedeu-se a ponto de dizer em uma entrevista que Bolsonaro era um “democrata”. Nem assim reuniu capital político para pedir aos militares o fim dos acampamentos em frente ao QG.

E os militares, sobretudo o Exército, estavam encantados com a tarefa de cevar o ninho da extrema direta. Os acampados continuavam bloqueando vias e fazendo arruaça em shoppings de Brasília. Na véspera do Natal, descobriu-se uma caixa de explosivos acoplada a um caminhão-tanque, carregado de combustível, perto do aeroporto. O motorista Jeferson Henrique Ribeiro Silveira percebeu a caixa com dinamite presa em uma das rodas, abriu o artefato, viu que havia explosivos, uma antena e detonadores piscando. Tirou a caixa do caminhão, afastou o veículo cerca de 500 metros e avisou seu chefe, que chamou a polícia. Silveira, ele próprio bolsonarista, disse aos policiais que jamais participara de bloqueios ou tivera qualquer envolvimento com a bomba. Em menos de 24 horas, a Polícia Civil prendeu dois dos suspeitos. O terceiro, o jornalista Wellington Macedo de Souza, está foragido até hoje.

Embora fracassado, o atentado terrorista era um emblema do radicalismo que explodiria no 8 de janeiro. Um dos suspeitos presos, George Washington de Oliveira Sousa, era herdeiro de uma rede de postos de combustíveis, atirador e gastara 160 mil reais em armas em um ano. Viajara a Brasília numa picape zero-quilômetro para viver entre o QG e um apartamento alugado no bairro Sudoeste. Do Pará, trouxera cinco emulsões explosivas à base de nitrato de amônio, substância comum em áreas de garimpo. No dia 23 de dezembro, um dia antes do atentado, recebeu no acampamento do QG um controle remoto e quatro acionadores. O outro preso, o eletricista Alan Diego dos Santos Rodrigues, um evangélico que deixara mulher e dois filhos em Mato Grosso, chegou em Brasília para se “manifestar contra as eleições e tentar receber o código-fonte das urnas”. Em seu depoimento, contou que o assunto “explosões” era comum no acampamento e todos acreditavam que “a explosão atrairia a atenção de Bolsonaro para invocar o artigo 142 e fazer a intervenção”. Rodrigues ajudou Sousa a colocar a bomba no caminhão.

Em seu depoimento, Sousa disse que mantinha contato com um “importante general do Exército” e que, no ataque à sede da PF em Brasília, do qual ele participou, havia conversado com bombeiros e policiais militares no local. Contou que ouviu deles que “não iam coibir a destruição e o vandalismo desde que os envolvidos não agredissem os policiais”. Sousa disse que acreditava que a “PM e o Bombeiro estavam ao lado do presidente” e que “em breve seria decretada a intervenção das Forças Armadas”. Como nada aconteceu, resolveu agir “para provocar a intervenção” e a “decretação de estado de sítio para impedir a instauração do comunismo no Brasil”.

Apesar da aparência de criminoso mambembe, Sousa tinha conexões. Assim que a polícia lhe perguntou se queria ligar para alguém, ele acionou dois conhecidos. Um é o pecuarista Bento Carlos Liebl, cuja família é dona de mais de 30 mil hectares no entorno de São Félix do Xingu, no Pará. Outro é o empresário e político Ricardo Pereira da Cunha, que, segundo reportagem do Repórter Brasil, pedia Pix entre fazendeiros da região amazônica para financiar os acampamentos.

Neste caso, a Polícia Civil agiu rápido. Prendeu os suspeitos e logo investigou. Não encontrou conexão real com o Exército ou com “um general importante”. Os contatos de Sousa no Pará posteriormente foram alvo de busca e apreensão. Em maio, os dois terroristas fracassados foram condenados às penas de 9 anos e quatro meses (Sousa) e 5 anos e quatro meses (Rodrigues), em regime fechado, pelos crimes de incêndio com dolo, porte ilegal de artefato explosivo e dano contra a vida e o patrimônio. Apesar da confissão dos dois e da tragédia que a bomba poderia provocar ao explodir um caminhão de combustível, a polícia disse que não achou indícios de terrorismo, nem de atentado contra a democracia.

 

O desafio era óbvio: como organizar uma posse presidencial, com a presença de milhares de pessoas, num ambiente em que militares protegiam criminosos? De cara, as incertezas levaram ao alijamento do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), um ninho de militares que, tradicionalmente, coordena a segurança das posses presidenciais e fora inteiramente capturado por bolsonaristas. Mas, a essa altura, também se desconfiava que grupos da PT e da PM pudessem estar na conspiração.

Em razão de tantos temores, ficara acordado durante a transição que a Esplanada dos Ministérios seria fechada para a cerimônia de posse. Na última reunião da transição, porém, na qual todo o planejamento de segurança foi apresentado à primeira-dama, Rosângela da Silva, a Janja, as coisas mudaram. Janja queria que Lula fosse aclamado pelo povo no trajeto da Catedral até o Congresso, a bordo do Rolls-Royce presidencial. E Janja abriu a conversa em termos exaltados. “Não foi isso que eu determinei!”, reagiu, ao saber da ideia de fechar a Esplanada. Argumentou-se que o esquema fora definido em razão da segurança. “Mas eu que mando. Ou vocês não entenderam ainda? Vocês estão descumprindo o que eu determinei! E quem não entendeu, pode sair”, disse.

Depois da confusão, chegou-se a um consenso: a Esplanada ficaria fechada para a população em geral, mas teria um público composto por militantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), previamente credenciados pela Secretaria de Segurança, portando pulseiras de identificação. Assim, cerca de 5 mil sem-terra vindos de dezessete estados distribuíram-se em diversos pontos entre a catedral e o Congresso.

Restava o antigo caroço: era preciso finalmente desmontar o acampamento no QG antes da posse. No dia 27 de dezembro, Flávio Dino se reuniu com Ibaneis Rocha, José Múcio e o delegado Andrei Rodrigues, da PF. “Nós tivemos uma conversa clara, direta e muito efetiva”, conta Dino. Na reunião, Ibaneis acenou com a possibilidade de pedir ao STF uma ordem judicial para desmontar o ajuntamento sem depender do Exército. A petição já estava até pronta. Mas Múcio rechaçou qualquer ação à revelia dos militares. Temia que, dada a proteção que o Exército oferecia aos acampados, o risco de golpe aumentaria caso o acampamento fosse desfeito a mando da Justiça.

No mesmo dia, o ainda secretário de Segurança Pública, Júlio Danilo Ferreira, conseguiu acertar com o general Gustavo Dutra uma nova data para a retirada: 29 de dezembro. A Secretaria fez um planejamento envolvendo quinze órgãos, entre os distritais e os federais. A PM designou quinhentos homens para acompanhar a remoção. Às 6h30 da manhã do dia 29, quando toda a equipe do governo distrital estava diante da Catedral Rainha da Paz, os fiscais de comércio ilegal começaram expulsando os ambulantes – e foram atacados pelos acampados. O general Dutra, que acompanhava a ação, não se indignou com os ataques aos servidores, mas com a quantidade excessiva de policiais. Ali mesmo, mandou uma mensagem de WhatsApp a um funcionário da Secretaria reclamando: “Estou preocupado com a quantidade de meios [policiais] que vieram. Conforme pleiteado, deve ser sem violência”. E voltou a lembrar os limites da ação: “Retirada das estruturas [barracas] vazias. A tropa hipo [cavalaria], só em último caso. Não podemos subir a temperatura hoje.”

 

A Polícia do Exército continuou onde sempre esteve: não deu proteção aos fiscais. Houve atrito com os militares quando a PM tentou intervir para garantir a segurança dos servidores do governo do DF. Nesse momento, Dutra mais uma vez abortou a retirada dos acampados, exasperando o governador e toda a equipe que faria a posse presidencial. “Claro que a gente ficou mais inquieto”, relembra Dino. “Faltavam dois dias para a posse e o entendimento acertado no dia 27 era de que o acampamento iria acabar.”

A continuidade do ninho do QG era repleta de significados. Agradava a Bolsonaro, pois era a materialização do seu apoio popular. Agradava a caserna, insatisfeita com o resultado das urnas. E testava a autoridade de Lula. Os acampados que concordaram em falar com a piauí dizem que se sentiam protegidos pelos militares, que às vezes até ajudavam a montar barracas, como mostram vídeos divulgados nas redes sociais. O comando do Exército não queria assumir o “desgaste” de informar aos “patriotas” que a intervenção havia micado. Segundo membros da caserna ouvidos pela revista, o “desgaste” devia ser bancado pelo general Júlio César de Arruda, que comandaria o Exército no governo Lula, e não pelo general Freire Gomes, que estava no cargo sob Bolsonaro.

O pesquisador Guilherme Lemos da Silva Moreira, da Universidade Federal de São Carlos, ficou à paisana no acampamento entre 26 e 30 de dezembro, colhendo material para um trabalho do curso de antropologia social. Testemunhou o corpo mole da Polícia do Exército. “Eles quase pediam desculpas por terem de chamar a atenção dos acampados por algum motivo”, conta Moreira. Segundo ele, os militares ajudavam com o trânsito quando os manifestantes partiam para fazer buzinaços e apartavam eventuais brigas. O estacionamento da Poupex, a previdência privada do Exército, fora liberado para uso dos acampados motorizados. A única vez que o pesquisador presenciou uma ação mais contundente dos militares foi quando dois repórteres eram espancados. Usaram gás de pimenta para parar a violência.

Além do apoio explícito aos acampados, os chefes das Forças Armadas encontraram outro meio de tumultuar. Queriam deixar seus cargos antes da posse para não bater continência a Lula. Como Bolsonaro anunciara que não passaria a faixa presidencial e se refugiaria nos Estados Unidos, os comandantes acharam que deviam fazer algo parecido. Múcio tentava demovê-los. O general Freire Gomes estava irredutível. Avisou que sairia antes de Lula, mas aceitou postergar sua saída até 28 de dezembro, num gesto de “cooperação”. Para que o Exército não ficasse nenhum dia sem comando, coube a Bolsonaro exonerar um comandante e nomear seu sucessor, o general Júlio Cesar de Arruda. Era uma aberração, própria de republiquetas de quarteladas, que expunha o grau de animosidade do Exército com um governo que, sob todos os ângulos, fora legitimamente eleito.

O general Arruda, embora fosse um dos mais bolsonaristas do Alto Comando,  foi escolhido por Múcio com base no critério de idade, em respeito à tradição da corporação. Os seguintes da lista eram os generais Tomás Paiva e Valério Stumpf Trindade, ambos considerados legalistas. Paiva tinha mais apoio no novo governo e certa proximidade com o PSDB. Fora ajudante de ordens de Fernando Henrique Cardoso nos anos 1990 e seu nome agradava o vice Geraldo Alckmin e o futuro ministro Flávio Dino. Além disso, Paiva comandava a maior tropa do país, o Comando Militar do Sudeste, um antídoto contra as velhas vivandeiras que até hoje vão aos bivaques bulir com os granadeiros e provocar extravagâncias do poder militar. Já Stumpf estava dentro do quartel, como chefe do Estado-Maior do Exército, um cargo mais burocrático e sem tropa. Mas a decisão era de Múcio, que afinal recebera a promessa de autonomia. E Múcio queria Arruda. Lula concordou.

O almirante Garnier, o plantonista do golpe, recusou-se a conversar com Múcio e agendou sua exoneração para a noite do 31 de dezembro. Não queria ficar um minuto sob o comando de Lula. O almirante é o pai daquele constrangedor desfile da Marinha, em que tanques sucateados se exibiram na Esplanada soltando fumaça de óleo diesel. Era agosto de 2021, a exibição deveria ser um show de força para intimidar parlamentares que analisavam a PEC do Voto Impresso. A PEC foi derrubada e o desfile virou chacota nacional, deixando um rastro de memes impiedosos. (Depois de ingressar na reserva e passar a frequentar o Clube Naval de Brasília, nas tardes de ócio, Garnier achou que era boa ideia ter contatos no novo governo. E só então conversou com Múcio, com quem mantém hoje uma relação cordial – e longe das vistas dos acampados.) A Aeronáutica teve a transição mais republicana. O brigadeiro Marcelo Kanitz Damasceno, o novo comandante na gestão petista, ajudou a convencer o então ocupante do cargo, Baptista Júnior, a esperar a posse presidencial. Ele concordou, recebeu Múcio e participou da passagem de comando para Damasceno.

Diante desses movimentos, os acampados entenderam que os militares não atenderiam seus apelos golpistas. Começaram a bombardear a caserna nas redes sociais, chamando os militares de “frouxas armadas”, “traidores” e “covardes”. Na noite de Ano-Novo, indignados com a iminente posse de Lula, um grupo de acampados do QG foi à frente da casa dos generais, ali perto, para xingar o Alto Comando. Alguns tentaram invadir as residências, a tropa de choque do Exército foi acionada e mostrou que, afinal, sabia conter gente exaltada. E Bolsonaro embarcara para os Estados Unidos. A democracia e a normalidade institucional pareciam ter vencido.

Na verdade, a senha para desmobilizar circulava havia alguns dias. Dois acampados ouvidos pela piauí dizem que, desde o dia 20 de dezembro, recebiam “mensagens” do núcleo duro de Bolsonaro, avisando que não haveria intervenção. Nenhum quis identificar os interlocutores, mas era comum que os acampados tentassem se valorizar dizendo que tinham contato com Bolsonaro, ou pessoas próximas. O fato é que o entorno do presidente estimulava essa troca para manter sua base engajada. Em muitas ocasiões, o coronel Mauro Cid, o ajudante de ordens, interagiu com esses grupos. Com frequência, recebia mensagens de cunho golpista de apoiadores, como as que vieram a público depois da apreensão de seu celular no caso da falsificação da carteira de vacinação de Bolsonaro.

Em uma dessas mensagens, reveladas pela CNN Brasil, o ex-major Ailton Gonçalves Moraes Barros fala para Cid que tinham de pressionar o então comandante do Exército, Freire Gomes, “para que ele faça o que tem que fazer” e que “se for preciso, vai ser fora das quatro linhas”. O ex-major diz que, se Freire Gomes não “aderisse”, Bolsonaro teria de fazer um pronunciamento “para levantar a moral da tropa” e mandar prender o ministro Alexandre de Moraes. As respostas de Cid não foram divulgadas. Em outra mensagem, o coronel da reserva Antônio Elcio Franco Filho, secretário do Ministério da Saúde na pandemia e assessor de Braga Netto, sugere que Freire Gomes só agiria se recebesse “ordem por escrito”. Em maio, Barros e Cid foram presos na operação sobre a fraude na vacina de Bolsonaro. Elcio Franco continua em liberdade.

Embora Bolsonaro fosse considerado teimoso e irredutível, Cid era o que chegava mais perto de manipular suas ações. Antes da viagem para os Estados Unidos, em 30 de dezembro, os ministros do núcleo político tentaram convencer Bolsonaro a gravar um vídeo desmobilizando os acampados. Cid convenceu-o do contrário. “Cid estava por trás da cloroquina, da associação da vacina da Covid à Aids, da ideia de não reconhecer a vitória do Joe Biden”, diz um ex-ministro de Bolsonaro, que pediu o anonimato porque ainda integra a base de apoio do ex-presidente. Ele conta que, em parte, o general Fernando Azevedo e Silva foi demitido do Ministério da Defesa em março de 2021 porque queria tirar Cid da ajudância de ordens de Bolsonaro. O general estava farto de ouvir outros ministros reclamando da interferência onipresente de Cid no governo.

No início de 2022, seis ministros – entre eles, Flávia Arruda, Ciro Nogueira, Fábio Faria e Tarcísio de Freitas –, se reuniram para encontrar uma forma de derrubar o ajudante de ordens. Não chegaram a um plano eficaz por falta de apoio do núcleo militar. Outro ex-ministro, que também pediu à piauí que sua identidade fosse preservada, disse que participou de reuniões em que Cid contestava falas de ministros e interferia quando se reuniam com Bolsonaro. Ele até evitava tirar folga, trabalhando no turno dos seus subordinados, para ficar mais tempo ao lado do presidente. No dia 30, partiu com ele para os Estados Unidos e lá permaneceu, voltando apenas em meados de janeiro, quando sua situação com a Justiça começou a se agravar.

“A posse ocorreu com tranquilidade”, diz Flávio Dino, ao relembrar que o plano de segurança do governo distrital foi cumprido, à exceção do desmonte do acampamento. “Em mobilização de policiais militares, civis, bombeiros, agentes de trânsito e barreiras, eu diria até que o GDF [sigla usada para designar o governo do DF] cumpriu mais do que pedimos”, diz o ministro. “Nos dias 1º, 2 e 3 basicamente foram eventos de posse e os acampamentos começaram a fenecer”, conta. No dia 4, as tendas dos acampamentos pelo país estavam se esvaziando. Enfim, parecia que o país voltaria ao normal. Mas então o apetite dinheirista da Máfia do Pix, aquele grupo que comandava as cozinhas do acampamento de Brasília, entrou de novo em ação.

 

Ana Priscila Azevedo era bancária, deixou a profissão em 2013 e tornou-se uma militante da intervenção militar. Criou um canal de cunho golpista no YouTube e, segundo ela mesma, ganhava cerca de 5 mil reais mensais até 2020. A partir daí, seus canais começaram a ser derrubados pelo YouTube em função das investigações do STF sobre atos antidemocráticos e milícias digitais. Quando os bolsonaristas se instalaram no QG em Brasília, ela abriu a principal cozinha do acampamento, mantida por doações via internet. A CPI dos Atos Antidemocráticos na Câmara do DF descobriu que os depósitos eram feitos sem prestação de contas. Os deputados distritais concluíram que parte das doações era embolsada pelos donos das cozinhas – a própria Ana Azevedo e seus dois sócios, Ramiro Cruz Junior e Rubem Abdalla.

Às vésperas da posse presidencial, o trio começou a se desesperar com a queda nas doações, diante da desmobilização no QG. Os três então tiveram a ideia de forjar um novo acampamento, dessa vez dentro da Esplanada, resgatando a antiga proposta do influenciador Oswaldo Eustáquio. Iniciou-se então a convocação nas redes para a “tomada de poder” nos dias 7 e 8 de janeiro. O plano não era quebrar tudo, mas retomar a mobilização. Eles acharam que, se antes falhara o “golpe militar”, a opção agora era o “golpe popular”.

As convocações começaram para valer no dia 4 de janeiro. Azevedo fez chamamentos; o cantor gospel Salomão Vieira gravou vídeo conclamando fiéis evangélicos a irem a Brasília. Como inspiração, alguém postou um vídeo em que populares invadem a residência presidencial do Sri Lanka, em 9 de julho de 2022. Em grupos bolsonaristas do Telegram acompanhados pela piauí, usuários compartilhavam links de compra de artefatos de proteção militar, como máscaras de gás. Ana Azevedo começou a transferir a estrutura no dia 7. De início, como não tinha autorização legal para se instalar no gramado da Esplanada, montou seu aparato no estacionamento do Ministério da Saúde. Depois, quando a coisa já estivesse funcionando, retiraria as tendas do QG.

As convocações chamaram a atenção em alguns setores do governo, em especial do ministro Dino e o delegado Andrei Rodrigues. “Alguns cards de protestos falavam em fechar refinarias. Eu então ligo para os governadores Tarcísio de Freitas [de São Paulo] e Cláudio Castro [do Rio de Janeiro], além do Ibaneis, e eles são muito receptivos. Dizem que vão mobilizar as PMs. E tudo funcionou, mesmo eles não sendo do nosso campo político”, conta o ministro. O GDF de Ibaneis marcou uma reunião para o dia 6 para que todos os órgãos se alinhassem sobre o que fazer diante da chegada iminente de caravanas de ônibus a Brasília. Contudo, naqueles dias, os principais dirigentes da Secretaria de Segurança Pública tinham outras preocupações – entre elas, manter-se no cargo.

Anderson Torres, o novo secretário de Segurança do DF, indicara servidores da Polícia Federal para ocupar os principais postos. Ele próprio fora delegado da PF antes de entrar na política. Mas o ministro Dino acabara de assinar uma portaria que lhe dava poder de veto sobre a cessão de qualquer servidor da PF para órgãos públicos. Então, naquele momento, todos os cargos da pasta de Torres, incluindo o dele próprio, estavam sob o crivo de Dino. “Eles passavam os dias trancados em reunião, sem ter qualquer contato com os assuntos da Secretaria”, conta um funcionário da pasta, que falou com a piauí sob a condição de não ter seu nome revelado.

A turma de Torres estava tão alheia a tudo que, no dia 5, quando o general Gustavo Dutra procurou a Secretaria e pediu uma reunião para, enfim, desmanchar o acampamento do QG, Torres fez pouco caso, mas marcou o encontro para a manhã do dia 6. Na ocasião, aparentemente alheio a qualquer maquinação golpista, o general Dutra pediu a Torres verba para ajudar os 150 remanescentes do acampamento que não tinham dinheiro para voltar para casa. Torres disse que não tinha recursos, mas outra secretaria trataria do caso.

No mesmo dia 6, na primeira reunião ministerial do governo Lula, José Múcio foi criticado abertamente pelo presidente por ter dito que os acampamentos estavam se desfazendo por si só. Diante da bronca pública, Múcio chamou Arruda, o comandante do Exército, e lhe deu um ultimato: desfazer os acampamentos já. Arruda disse que as coisas não poderiam ser feitas de forma atabalhoada. E, pela primeira vez, admitiu um dos fatos que explicaria, em parte, a proteção irrestrita dada pelo Exército aos acampados: ali havia militares da reserva e familiares de militares da ativa. Arruda insistiu que o desmonte ocorresse de forma gradual, com o apoio do GDF aos vulneráveis.

Enquanto isso, o pessoal da Secretaria de Segurança se reuniu para planejar a atuação nos protestos do fim de semana. Torres não participou, o pessoal do GSI também se ausentou, mas havia representantes da PM, dos bombeiros, do Detran, das polícias da Câmara, do Senado e do Supremo. O coronel Marcelo Casimiro Vasconcelos Rodrigues, do 1º Comando de Policiamento Regional, que cuida da área da Esplanada, chegou bem informado. Havia recebido por WhatsApp um folder que convocava para a “Tomada do Poder pelo Povo”. A ata da reunião, à qual a piauí teve acesso, mostra que o coronel Casimiro falou da circulação de “áudios em redes sociais” alertando para a possibilidade de “ invasão de prédios públicos”, afirmou que “não se pode descartar, que é preciso ficar bem atento aos eventos”, informou “que haverá reforços de viaturas”, propôs reforçar também “as portarias e a segurança dos prédios federais” e alertou que seria “necessário providenciar um outro esquema de segurança se confirmados os atos”.

Os alertas eram apenas para constar, tanto que, na hora H, a Polícia Militar escalou um major para cuidar da tropa na Esplanada, e não um tenente-coronel ou coronel. Em vez de oficiais, mobilizou alunos da Academia de Polícia Militar de Brasília sem equipamento apropriado. Não providenciou água nem comida para os policiais escalados. Não fez o planejamento operacional, em que se informa a quantidade de efetivo e a posição dos batalhões. Para piorar, na noite do dia 7, o subcomandante-geral da corporação, o coronel Klepter Rosa Gonçalves, determinou que todo o efetivo ficasse de sobreaviso em casa, e não de prontidão no quartel. Com isso, entre o acionamento de um oficial e sua chegada a campo, gastam-se pelo menos duas horas – tempo suficiente para que a Praça dos Três Poderes fosse destruída.

A Polícia Militar fez o que fez – e não estava no escuro. Depois de tudo, a Polícia Federal realizou uma operação na casa do coronel Paulo José Bezerra, responsável interino pelo Departamento Operacional  da PM, e encontrou mensagens comprometedoras. Mostram que, quando cumpriu a ordem de deixar a tropa de sobreaviso para o dia 8 de janeiro, o coronel Paulo José estava a par da gravidade dos atos. Ele tinha um informante dentro do QG que lhe dissera, no dia 7, que os manifestantes estavam “preparados para a guerra” e “não vão ceder de forma alguma”. Alertava que havia risco de “morte” e que as coisas estavam “mais sérias do que muitos brasileiros estão imaginando”. O coronel Paulo Jose repassou esse relato a colegas da PM, inclusive ao próprio coronel Casimiro. Mesmo assim, não se tomou nenhuma prevenção.

 

Enquanto o GDF agia como se tudo estivesse dentro da normalidade, no governo federal crescia a preocupação. No dia 7, o delegado Andrei Rodrigues, a par da agitação nas redes sociais, pediu à Secretaria de Segurança Pública que não autorizasse a descida dos manifestantes do QG para a Esplanada. Fernando de Souza Oliveira, que estava no comando da secretaria em razão da viagem de Anderson Torres de férias para os Estados Unidos, alertou-o sobre um obstáculo legal: só podia barrar os manifestantes mediante ofício do ministro da Justiça. Dino, no entanto, só encontrou previsão legal para impedir a circulação de ônibus e caminhões na Esplanada, não de manifestantes. Assim foi feito, mas o delegado Andrei Rodrigues continuou aflito. A um auxiliar, ele confidenciou que “não identificava nenhum elemento de segurança” e que não havia “nem o mínimo razoável”.

Já os militares seguiam tranquilos. Mesmo alertado pela Secretaria de Segurança sobre a chegada das caravanas e montagem de barracas no QG, o general Dutra continuou impassível. Por WhatsApp, recebeu imagens dos ônibus chegando, enviadas por um servidor da Secretaria. Respondeu:

– Bom dia, estamos coibindo.

Uma hora depois, o general recebeu em seu WhatsApp mais fotos e vídeos de barracas sendo montadas. Voltou a minimizar o problema:

– Acredito que tenham chegado cerca de dez ônibus, confere?

Não conferia. Seu interlocutor respondeu que havia “muito mais” e, outra vez, disse que o Exército não estava coibindo nada. Quando começaram a desembarcar fardos de água, um funcionário do GDF voltou a chamar a atenção do general, que se esquivou do assunto:

– Não posso coibir levar água.

Quando os manifestantes começaram a fazer arruaça nas ruas do entorno, o general Dutra foi informado que havia pouco efetivo e apenas duas viaturas do Exército bloqueando a turba de duzentas pessoas. O general não respondeu nada. Minutos depois, seu WhatsApp recebeu outro aviso de que os manifestantes estavam tentando romper o bloqueio. Novamente, o general não disse nada. Por fim, recebeu a informação de que o bloqueio havia sido rompido – e a Secretaria de Segurança iria fechar o acesso ao SMU. Só então, o general deu sinal de vida. Agradeceu a medida, em tom de reclamação:

– Vai tumultuar bastante, vai dificultar bastante o acesso ao SMU e prejudicar os moradores – disse, e concluiu: – Mas é melhor.

Na véspera do dia 8 de janeiro, o governador Ibaneis Rocha ficou inacessível. Às 20h11, Dino enviou dois ofícios ao governador informando que mobilizara a Força Nacional para proteger os prédios da PF e do Ministério da Justiça, e oferecendo ajuda ao GDF. Não obteve resposta. Então, ligou, mas não foi atendido. Às 23h28, Dino leu uma reportagem do site Metrópoles informando que Ibaneis liberara as manifestações na Esplanada. Mandou o link da matéria ao governador e pediu explicações. Enfim, obteve retorno. “Situação tranquila, no momento.”

O governador parecia encontrar-se num estado impróprio para conversas longas e respostas elaboradas. Na mesma noite de 7 de janeiro, o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, enviou suas preocupações. “Estimado governador, boa noite! Polícia do Senado está um tanto apreensiva pelas notícias de mobilização e invasão ao Congresso. Pode nos ajudar nisso? Abraço fraterno. Rodrigo.” O governador respondeu em três mensagens curtas:

– Já estamos mobilizados.

– Não teremos problemas.

– Coloquei todas as forças nas ruas.

 

Na manhã de domingo, dia 8, a Polícia Militar estava tranquila. Seus relatos informavam que os ânimos se mantinham pacíficos e nem havia certeza de que os bolsonaristas desceriam à Esplanada. Em depoimento, depois de ser presa no dia 11 de janeiro, Ana Priscila Azevedo disse que não havia acordo sobre a descida porque a estrutura do acampamento na Esplanada ainda não estava pronta. Mas contou que seu sócio na cozinha, Rubem Abdalla, decidira comandar a descida. Durante o trajeto, de início pacífico, os espíritos foram se exaltando na medida em que se ouviam gritos de “tomar o poder” e “invadir tudo”. Já então era tarde demais para a PM abortar a caminhada. Às 14h30, a massa rompeu a primeira barreira de revista – e Dino correu para o Ministério da Justiça, aonde chegou a tempo de ver a multidão invadindo o Congresso sem qualquer resistência da PM.

Dino acionou o governador do DF. Mais uma vez, sem sucesso. Ligou então para Gustavo do Vale Rocha, chefe da Casa Civil do governador, que se deslocou de imediato até o Ministério da Justiça, acompanhado da vice-governadora, Celina Leão. Ali, no Ministério da Justiça, começou a se formar o bunker do legalismo. Chegou Ricardo Garcia Cappelli, secretário executivo de Dino, chegou Alexandre Padilha, ministro da Secretaria de Relações Institucionais. Logo chegaram José Múcio, da Defesa, Miriam Belchior, secretária executiva da Casa Civil, e o ministro-chefe do gsi, general Marco Edson Gonçalves Dias, que respondeu pela segurança de Lula durante duas décadas.

Quando Dino telefonou para Lula, que cumpria agenda em Araraquara, no interior de São Paulo, a decretação de uma GLO, que entrega a segurança pública para as Forças Armadas, já estava descartada. Discutiu-se a alternativa de uma intervenção federal. Nesse caso, toda a cúpula do GDF é afastada. Lula descartou a ideia. Preferiu a intervenção apenas na área da segurança pública. Num primeiro momento, o interventor seria Dino. Quando o decreto que o nomeava para a função já estava pronto para ser assinado por Lula – tudo por meio de WhatsApp –, o ministro deu-se conta de que, pela Constituição, ele, como senador diplomado, só poderia assumir a função de ministro no Executivo, não a de interventor.

Nesse momento, Ricardo Cappelli estava exasperado. Da janela do ministério, ele observava a tropa da Força Nacional permitindo que os manifestantes passassem pela lateral do prédio. Desceu até o térreo para falar com eles. “Eles não faziam nada. Eu achei aquilo um absurdo. Aí eu desci e me apresentei como secretário do ministério e botei voz de comando neles. Falei: ‘Olha, daqui não passa mais ninguém. Não entra manifestante’”, relembrou à piauí. Pela janela, os ministros Dino e Padilha testemunhavam a reação de Cappelli. Quando ele subiu de volta ao gabinete, já era chamado de interventor.

Quando Cappelli assumiu a nova função, a PM finalmente havia convocado toda a tropa para a Esplanada. O batalhão de choque varria o gramado com ajuda da cavalaria e das bombas de efeito moral disparadas por helicópteros. Mas Cappelli achou que a movimentação da linha de choque era lenta demais e cobrou rapidez. Os policiais militares não concordavam com a avaliação do interventor, que, segundo eles, não entendia como funcionava uma linha de choque. Cappelli também pediu que o batalhão de choque prendesse os manifestantes, mas recebia a resposta de que, primeiro, era preciso paralisar os ataques para então efetuar as prisões.

O general Gonçalves Dias, chefe do GSI, deixou o Ministério da Justiça e deslocou-se para o Planalto, já parcialmente invadido. Chegou mandando prender todos os manifestantes. O resultado foi uma cena brancaleônica, protagonizada por incompetentes e por conspiradores. Para operacionalizar as prisões, o general G. Dias, como é conhecido, ligou para o coronel Wanderli Baptista da Silva Júnior, diretor-adjunto do Departamento de Segurança Presidencial. Como recebera ordem de apenas evacuar os invasores, sem prender ninguém, Silva Júnior resolveu confirmar a determinação de fazer as prisões. Ligou para seu superior, o general Carlos Feitosa Rodrigues. Nesse meio tempo, a Polícia Militar e o Batalhão da Guarda Presidencial (BGP) se desentendiam. A PM querendo prender e o BGP, ligado ao Exército, impedindo as prisões. O ministro Dino queria prisões imediatas. “Meu medo era o efeito dominó, caso isso se consolidasse pelo país. Seria um problema nacional. A minha visão era de pânico. Para mim, aquilo era a coluna do general Mourão”, relembra o ministro, referindo-se ao dia 31 de março de 1964, quando o general Olympio Mourão Filho – depois de tirar o pijama e o roupão de seda vermelho, como fez questão de registrar em suas memórias – desceu com seus tanques de Juiz de Fora em direção ao Rio de Janeiro, colocando em marcha o golpe que levaria os militares ao poder por 21 anos. “Esse pessoal tem gente em torno, tem base social, não é um amontoado de desvairados. E, no vai que cola, vai que cola? Imagine a gente lidando com uma crise como essa em dez estados?”

O governador Ibaneis Rocha continuava hibernando. Dino não conseguia achá-lo. Nem a presidente do STF, Rosa Weber, nem o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, nem o presidente da Câmara, Arthur Lira. Quando finalmente alcançou o governador, ainda antes da invasão do STF, Rosa Weber recebeu uma resposta telegráfica: “Estamos cuidando.” Depois de horas de sumiço e mensagens lacônicas, o governador terminou o dia 8 de janeiro destituído do cargo pelo STF. Mas Dino não acredita que o governador fizesse parte da teia do golpe. “Minha hipótese não era de que o Ibaneis sabia do golpe, e sim que ele ouvia isso [de que tudo estava sob controle] da equipe dele. Ele ouvia e transmitia para mim, para o Lira, para o Pacheco e para a Rosa. Mas que a equipe estava conivente, eu não tenho dúvidas. O que estamos tentando identificar é quem estava conivente.” Procurado pela piauí, o governador não quis falar.

O comandante-geral da PM no dia 8 de janeiro, coronel Fábio Augusto Vieira, foi preso nas investigações, suspeito de ter colaborado com golpistas. Na véspera do ato, no entanto, ele agira conforme o figurino. Pediu que a tropa da PM fosse reforçada – e foi ignorado por seus subordinados. Ele entrou em ação, atuando nos confrontos e saiu ferido. Mesmo assim, ficou 24 dias preso até os investigadores descobrirem que não era um colaboracionista. Já seus subordinados, que desobedeceram suas orientações, nunca foram incomodados. Em maio, o Ministério Público Federal concluiu que a atuação dos policiais militares não teve “dolo”. A PF apontou que o coronel Paulo José, cujo informante alertou que os atos seriam violentos, incorreu apenas em “omissão”. O coronel Klepter Rosa, que cometeu o erro de deixar a tropa apenas de sobreaviso, foi promovido a comandante-geral da PM quando o coronel Fabio Augusto estava injustamente preso. E segue no cargo até hoje.

 

O Supremo, o Planalto e o Congresso foram desocupados perto das 18 horas, mais de três horas depois do rompimento da primeira barreira de revista. A partir de então, os 2 mil policiais militares que estavam em campo começaram a cumprir as ordens de prisão. A orientação era marchar da Esplanada em direção ao QG e prender todos que estivessem no caminho. A operação era chefiada pelo coronel Jorge Eduardo Naime Barreto. Considerado o policial mais experiente da PM, Naime estava em férias no início de janeiro, mas se juntara à tropa naquele domingo para ajudar a combater os vândalos. Porém, como sua folga coincidira com a cadeia de erros cometidos pela corporação nas vésperas do dia 8, os investigadores desconfiaram de seu envolvimento na conspirata golpista. Naime está preso desde fevereiro.

Em depoimento à CPI do Distrito Federal, Naime contou que começou a sentir a animosidade do Exército assim que se aproximou do acampamento no QG para efetuar as prisões, na noite do dia 8. Ele estava comandando a tropa de choque em frente à Catedral Rainha da Paz, uma área pública. Mas logo foi abordado por um tenente do Exército. Exaltado, o militar dizia que o coronel não podia estar ali fazendo prisões porque era “área do Exército”. O coronel prosseguiu com as prisões, levando cerca de cinquenta pessoas. Minutos mais tarde, viu uma cena insólita. “Quando eu olhei para trás, tinha uma linha de choque do Exército, montada com blindados”, disse. “Eles não estavam voltados para o acampamento. Eles estavam voltados para a PM, protegendo o acampamento.”

O interventor Ricardo Cappelli não demorou a chegar ao local. Quando avistou a tropa do choque do Exército voltada contra os policiais, disse ao comandante-geral da PM, coronel Fábio Augusto: “Comandante, prepare a tropa porque a gente vai prender todo mundo lá dentro.” O coronel ficou nervoso e ligou para o general Gustavo Dutra, do Comando Militar do Planalto, para avisar que faria as prisões. Dutra mandou pedir para encontrar Cappelli dentro de alguns minutos em frente à Torre de TV, um ponto não muito distante dali. Ao ouvir o recado, Cappelli se recusou: “Manda dizer que eu não saio daqui. Se ele quiser falar comigo, que venha para cá.” O general foi. O diálogo, segundo Cappelli e outras duas testemunhas, começou com o general Dutra colocando panos quentes:

– General, como assim, calma? Eu vou entrar – reagiu Cappelli.

– Se o senhor entrar, haverá um banho de sangue – disse Dutra.

– Banho de sangue por quê, general? Por acaso tem manifestante armado dentro do acampamento, sendo protegido pelo Exército?

– Não – disse o general. – É porque está de noite, os ânimos estão exaltados, vai ter gente que vai correr, vai ter enfrentamento, as pessoas podem se machucar.

O banho de sangue, bem entendido, seria a tropa do Exército investindo contra os policiais, e não contra os manifestantes. Nesse momento, Cappelli resolveu ligar para Dino para explicar o impasse. Enquanto isso, o general Dutra apressou-se em ligar para G. Dias e expor a avaliação do Exército para Lula, segundo a qual as prisões naquele momento eram uma “operação de alto risco”. Como estava ao lado de Lula no Palácio do Planalto, G. Dias desligou o telefone e consultou o presidente sobre o assunto. Dois minutos depois, retornou a ligação:

– O presidente está muito irritado e diz que é para a polícia entrar [no acampamento] – disse G. Dias.

– General, vai dar problema – ponderou Dutra.

– Então, fala com ele – respondeu G. Dias, passando o telefone para Lula.

Dutra ficou surpreso. Pelo rito hierárquico, não cabe a um general de três estrelas conversar com o presidente sem a presença do comandante do Exército. Mas, naquela situação de emergência, Dutra foi em frente e expôs seu pleito. Lula reagiu:

– Eles são criminosos, têm que ser todos presos – disse.

– Presidente, ninguém duvida disso. Serão todos presos. Mas, até agora, nós só estamos lamentando dano ao patrimônio. Nós podemos terminar essa noite com sangue.

– Seria uma tragédia – disse Lula, que acabou concordando que as prisões fossem feitas apenas ao amanhecer.

O aval do presidente, porém, não chegou a todos – e nem todos acreditaram que, de fato, o general Dutra falara com Lula. Neste clima de desconfiança e incerteza, Dutra disse a Cappelli que o comandante do Exército, Júlio Cesar Arruda, queria vê-lo no prédio do Comando Militar do Planalto, a poucos metros dali. Cappelli e auxiliares encontraram o general à porta do quartel, cercado por vinte militares. Na sala de reuniões, com a presença de Cappelli e do coronel Fábio Augusto, o comandante da PM, o general abriu sua artilharia verbal.

– O senhor ia entrar aqui com tropas sem a minha autorização? – indagou Arruda, dirigindo-se a Cappelli.

– Não, general. Eu ia consultá-lo – respondeu Cappelli, constrangido com a abordagem à queima-roupa.

– Eu acho que tenho uma tropa um pouco maior que a sua, não é, coronel Fábio Augusto? – provocou Arruda, virando-se para o comandante da PM.

Cappelli, duvidando de que o general Dutra tivesse falado com Lula, insistiu nas prisões imediatas e argumentou que a situação daquela noite era absurda, que o acampamento tinha de ser desfeito e as prisões precisavam ser efetuadas o quanto antes.

– O senhor não concorda, general? – perguntou Cappelli.

– Não – cortou Arruda. – O senhor tem que entender que o Brasil está dividido.

Era a histórica cantilena militar de que eleição boa é eleição a favor. A afirmação de Arruda deixou o clima uma tonelada mais pesado. O general prosseguiu dizendo que precisava que os ônibus fossem devolvidos para que os acampados pudessem ir embora e o acampamento, enfim, ser desmontado. Tudo indicava que o general não tinha intenção de colaborar nas prisões acertadas nem para o amanhecer do dia. Chamados para desfazer o impasse, três ministros apareceram no quartel: Dino, Múcio e Rui Costa, chefe da Casa Civil. Cappelli e o coronel Fábio Augusto foram para a antessala, e o trio de ministros assumiu a negociação com o general Arruda. Quando deixaram o Comando Militar do Planalto, o plano estava definido: ao raiar do dia, os acampados seriam retirados, colocados em ônibus e levados para a sede da PF. Já passava de duas da madrugada.

Às seis da manhã, cerca de 500 policiais militares, mais uma vez, estavam posicionados na Catedral Rainha da Paz. Para convencer os acampados a saírem do local, um capitão do Exército pegou um megafone e os orientou a deixarem as barracas e se dirigirem, levando seus pertences, aos ônibus estacionados ali perto. Eles obedeceram, seguindo em fila. Muitos nem se deram conta de que estavam sendo presos. Confiavam tanto no Exército que pensaram que embarcariam nos ônibus para voltar para casa.

Entre os presos, há uma enorme diversidade. O vendedor de picolé de Salvador que aproveitou a viagem de graça para Brasília e a ajuda de custo de 400 reais. O jovem que chegou à capital com despesas pagas por fazendeiros do Pará. O pernambucano que fugia da perseguição do PCC e achou boa ideia morar no acampamento. O mineiro de 20 anos que foi passar seu aniversário em Brasília, escondido da mãe. O evangélico do Piauí que se deslocou para a capital federal em busca de emprego e acabou atraído pela comida de graça. No quebra-quebra, ele quis entrar no STF e terminou preso, mas acredita que “se fizer algo contra Lula” ainda vai “parar no Céu”. E há os convictos.

“Eu me deslumbrava. Achava que o Exército era uma entidade fortíssima”, diz o consultor de seguros Antônio Augusto Menezes Costa, de 57 anos, que chegou ao QG na manhã do dia 8 de janeiro, oriundo de Vitória, no Espírito Santo. “Eu não culpo o baixo escalão. Eu culpo o alto escalão. Eles que são maus. Não acataram a ordem verdadeira que o Exército poderia tomar sobre si.” A “ordem”, claro, era a intervenção militar. Costa votou em Lula duas vezes, mas decepcionou-se com a corrupção. Não conhecia Brasília. Ao chegar na capital, alugou uma barraca no acampamento mas, cansado da viagem, pegou no sono e perdeu a descida para a Esplanada. Terminou preso. Como tem pressão alta, acabou liberado. Passou a noite na rodoviária de Brasília e, na manhã do dia 10 de janeiro, tomou o ônibus para Vitória. Acredita que a quebradeira foi obra de “infiltrados” e continua fã de Bolsonaro – “fala a verdade”, “é honesto” e “luta pela liberdade”. E, agora, odeia generais, almirantes e brigadeiros.

 

 

Na tarde do dia 21 de janeiro, o site Metrópoles informou que o ex-ajudante de ordens de Bolsonaro, o coronel Mauro Cid, comandaria o Batalhão de Operações Especiais de Goiânia, o de maior prestígio no Exército. O batalhão é responsável pelo BGP, que faz a guarda presidencial. A notícia surpreendeu metade da República – do ministro Gilmar Mendes, do STF, ao presidente do TCU, Bruno Dantas. Naquela noite, Lula interpelou seu ministro da Defesa sobre o assunto. José Múcio desconversou. Na manhã seguinte, às 6h40, antes de embarcar para Roraima, Lula voltou a ligar, impaciente. Não pediu a demissão do general Arruda, que nomeara Cid, mas cobrou resultado. “Quero ver como você vai resolver isso”, disse. Múcio prometeu que quando Lula voltasse de Roraima, onde se descobrira o surto de doença e fome que vinha matando os yanomamis, “o problema estará resolvido”.

Àquela altura, Cid já estava sob investigação do Supremo por participação das maquinações do golpe, mas Múcio queria reverter sua indicação de modo diplomático. Fez chegar ao ministro Alexandre de Moraes um pedido para que fizesse constar nos autos do inquérito, explicitamente, que Cid era investigado. Assim, Múcio poderia contestar a promoção com argumentos jurídicos. Moraes topou. Mas, antes disso, Múcio chamou o general Arruda para uma conversa. Ouviu uma desculpa de ordem administrativa para manter a indicação de Cid. Múcio resistiu. A conversa azedou e, sem outra saída, Múcio demitiu o general do comando do Exército ali mesmo. À noite, Lula disse a Múcio que naquele dia, ao cortar a cabeça de Arruda, ele havia, de fato, assumido como ministro da Defesa.

O telefonema de Múcio convidando o general Tomás Paiva para substituir o general Arruda pegou-o desprevenido, de bermuda, fazendo compras no supermercado, em São Paulo. Paiva pediu uns minutos para pensar e consultou Arruda, de quem é amicíssimo. Os dois se formaram na Academia Militar das Agulhas Negras, em Resende, no mesmo ano. Na conversa com Arruda, tomou pé da situação e, em seguida, ligou para Múcio aceitando o cargo. Paiva tinha as mesmas credenciais militares que o antecessor, mas havia uma diferença crucial: era um legalista, já defendera publicamente a democracia e a soberania do voto popular. Naquela tarde, tomou um avião para Brasília, conversou com Lula e saiu comandante do Exército. A mudança, comunicada ao Alto Comando em uma reunião virtual, chegou sem sobressalto. Até para os militares, era uma demissão óbvia.

Os personagens mencionados nesta reportagem tiveram destinos diversos. O general Dutra permaneceu como comandante militar do Planalto até o dia 12 de abril. Depois de deixar o cargo, foi convocado pela CPI da Câmara Distrital para explicar a relação entre o Exército e o acampamento. A caserna fez gestões para mudar a “convocação” para “convite” – uma diferença sutil, que demonstra a dificuldade dos militares em assumir qualquer responsabilidade sobre o ocorrido naqueles dias. Em seu depoimento, Dutra mentiu à vontade. Disse que a Polícia Militar “nunca combinou conosco de desmobilizar o acampamento” e que o Exército não deu “vida fácil aos manifestantes”. Negou, inclusive, que o Exército tenha apontado seus tanques para a PM na dramática noite de 8 de janeiro. Alegou que a tropa estava ali para proteger o quartel dos vândalos.

Anderson Torres passou 117 dias preso depois que a polícia encontrou em sua casa uma minuta para decretar “estado de defesa” e intervir no TSE – era a “minuta do golpe”, como ficou conhecida. O general G. Dias acabou pedindo demissão do GSI, depois que um vídeo revelado pela CNN Brasil o mostrou caminhando tranquilamente no Planalto no auge das depredações. O coronel Cid, cujo nome aparece envolvido em todos os escândalos desenterrados do governo Bolsonaro, está preso desde o início de maio.

O general Júlio Cesar Arruda, o ex-comandante do Exército, está na reserva e continua impávido. Durante a apuração desta reportagem, a piauí perguntou a todos os entrevistados sobre o seu caso. Afinal, o general protegeu um ninho de manifestantes – que incluía criminosos, como promotores de atentados –, resistiu à ordem do interventor de prender os golpistas, chegou ao extremo de usar o batalhão de choque do Exército para arreganhar os dentes para uma tropa da Polícia Militar – e, mesmo assim, atravessou a tempestade sentado na cadeira de comandante do Exército. Dentre todas as respostas, a de Cappelli dá uma ideia de como é tênue a teia da democracia:

– Você tira a tampa da panela de pressão com ela fervendo? – ele pergunta, e ele mesmo responde: – Não, você espera a temperatura baixar.

Esse conteúdo foi publicado originalmente na piauí_201 com o título “A teia do golpe”.

Ana Clara Costa
Ana Clara Costa

Repórter da piauí. Foi editora de política na Veja, editora do Globo em Brasília e editora-chefe na Época

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