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    CRÉDITO: ANDRÉS SANDOVAL_2023

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Terra prometida

Líder do MST acolhe o segmento evangélico do movimento

Carolina Unzelte | Edição 202, Julho 2023

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Sob o Sol forte de março, Polliane Barbosa Soares, de 38 anos, despede-se das amigas em um acampamento do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), em Marabá, sudeste do Pará: “Tchau, minhas irmãs, fiquem com Deus.” De cabelos escuros longos e vestindo uma saia comprida roçando o chão de cascalho, Soares passou as últimas horas conversando com mulheres na ocupação.

O acampamento, batizado de Helenira Resende – em homenagem à militante do Partido Comunista do Brasil desaparecida na Guerrilha do Araguaia –, começou em 2009 e hoje abriga cerca de setecentas famílias. Tem duas igrejas evangélicas. Soares, além de líder do MST, é diaconisa em uma unidade da Assembleia de Deus.

“É bom ouvir a Polli, a gente aprende tanta coisa”, diz uma mulher baixinha que também veste saia comprida. Soares falou sobre a luta por terra – e pelo Céu. Há quase dez anos, três acontecimentos definiram seu futuro: o marido adoeceu, ela voltou a frequentar uma igreja evangélica e se tornou dirigente estadual do MST.

“Ser de esquerda não é pecado”, diz ela. “A leitura bíblica fundamentalista desconsidera a gente, mas os evangélicos estão nos nossos territórios e precisam de acolhimento.” Soares estima que metade dos participantes de acampamentos e assentamentos do MST no Pará são evangélicos. Em dezembro de 2022, ela organizou o primeiro seminário evangélico do movimento, intitulado Resistir com Fé. Durante o evento, com trinta lideranças do estado, foi criado o coletivo Articulação de Evangélicos e Evangélicas Pastor Martin Luther King.

 

As origens do MST, que completa quarenta anos em 2024, bebem da Teologia da Libertação, da Igreja Católica. Padres e freiras dessa corrente progressista foram perseguidos na região amazônica, durante a ditadura. A partir dos anos 1990, as igrejas neopentecostais começaram a crescer na região. No Brasil, os evangélicos, que eram 9% da população em 1990, hoje são por volta de 30%. “A maioria dos evangélicos são mulheres pobres da periferia, as mesmas pessoas que vão para as ocupações”, diz Polliane Soares.

Ela se vinculou ao MST aos 13 anos, quando sua mãe – que era espírita – deixou a periferia de Eldorado dos Carajás, também no sudeste do Pará, para se instalar em um assentamento da região, o 17 de Abril. Os pais de Soares, naturais do Maranhão e da Bahia, haviam se mudado para o Pará no final da década de 1970, em busca de trabalho na Transamazônica. Nas terras desmatadas no entorno da rodovia, o pai dela empregou-se na coleta de castanha-do-pará e depois como pistoleiro em uma fazenda de gado.

Quando a fazenda faliu, a família foi para Eldorado dos Carajás, onde dezenove militantes do MST foram assassinados pela polícia em 17 de abril de 1996. Soares conheceu sobreviventes do massacre – foi seu primeiro contato com o movimento. Também em Eldorado, começou a frequentar a Igreja Adventista do Sétimo Dia. Quando o pai morreu, um ano depois da mudança de cidade, mãe e filha foram acolhidas pelo MST.

No Assentamento 17 de Abril, Soares deixou de frequentar templos. Cursou magistério e se tornou educadora em escolas do MST. Pelo Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária, fez graduação em história na Universidade Federal da Paraíba, quando já estava casada e tivera dois de seus cinco filhos. Formada, voltou para Marabá e, em 2014, passou a organizar ocupações como dirigente estadual. Foi então que a igreja voltou à sua vida, em meio à tristeza pela doença do marido, que morreu em 2018.

No mesmo ano, ela participou da construção do acampamento Hugo Chávez, em Marabá, que chegou a ter 1,2 mil pessoas. A ocupação foi conturbada por disputas judiciais e despejos. Soares relata que, em uma madrugada, um grupo armado não identificado entrou no acampamento procurando seus líderes. Um pistoleiro chegou a apontar uma arma para a sua filha de 2 anos, que estava no berço – Soares estava fora do barraco da família naquele momento. O grupo incendiou uma caminhonete, e um homem ameaçou jogar a criança no fogo se a mãe não aparecesse. Um acampado aproveitou-se de um descuido e recuperou a menina.

 

Uma ocupação é como qualquer povoado humano, com estabelecimentos diversos para atender as necessidades dos moradores: casas de comércio, restaurantes e igrejas. Há regras específicas, como a que determina que a escola é a primeira coisa a ser instalada, e “bares e prostíbulos são proibidos”, diz Soares. Mas o resto chega livremente. “O acampamento Hugo Chávez foi o primeiro que eu soube que não teve nenhuma igreja católica. Vieram só evangélicas”, ela recorda. Uma delas acolheu o coração da professora. “Quando me perguntam ‘Por que você é evangélica?’, eu respondo que é porque a fé me salvou. Foi na fé, na igreja, em Deus, que encontrei paz, conforto para a dor.”

Na avaliação de Soares, o MST e as igrejas evangélicas têm muito em comum: “São lugares que abrem as portas para acolher quem está necessitado. O que os distancia é o fundamentalismo.” Quando alguém precisa de comida ou conserto para o seu barraco, diz Soares, há um mutirão para ajudar – composto por companheiros do MST, por irmãos da igreja ou por ambos. Alguns pastores de igrejas em ocupações, porém, nem sempre apoiam a participação dos fiéis nas atividades do movimento. Alegam que o MST ensina as mulheres a desrespeitar os maridos e incita a rebeldia dos jovens.

A distância entre as igrejas evangélicas e o MST aprofundou-se no governo de Jair Bolsonaro, que cooptou segmentos desses credos, inclusive dentro do próprio movimento. Desde 2020, Soares está estudando esse fenômeno para a dissertação de mestrado em história que pretende defender na Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará. O título será “Do Reino dos Céus ao Reino da Terra: o Evangelho segundo o MST”. Nas entrevistas que tem feito com evangélicos, ela vem encontrando experiências diversas: há igrejas que apoiavam o PT, mas hoje são bolsonaristas; fiéis que votaram em Bolsonaro em 2018, mas não em 2022; e evangélicos que votaram no PT, mas não contam isso em suas igrejas.

O coletivo Articulação de Evangélicos e Evangélicas Pastor Martin Luther King tem promovido eventos e rodas de conversa – com foco “naqueles que não foram completamente capturados pelo bolsonarismo”, diz Soares. “Se queremos sobreviver mais quarenta anos, não podemos negar a espiritualidade do povo.”