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Terror emasculado

Uma visita ao museu-símbolo da ditadura militar na Argentina

Adriana Marcolini
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL

Passados seis meses desde a inauguração, poucos interessados no passado político da Argentina percorreram os 17 hectares daquele que foi o maior centro de detenção e tortura da América Latina. Na vizinhança do conjunto de 34 construções onde funcionava a Escola de Mecânica da Marinha, a Esma, há clubes, concessionárias e lojas de pisos cerâmicos. O aeroporto nacional e o estádio do River Plate não ficam longe. É urbano e banal o entorno do símbolo maior da ditadura militar que castigou a Argentina de 1976 a 1983.

Os visitantes chegam a conta-gotas – não mais de 100 nos três primeiros meses, a maior parte acadêmicos, jornalistas e parentes de ex-prisioneiros em busca do passado. Ao contrário do Museu do Genocídio de Phnom Penh, no Camboja, cujas entranhas foram mantidas intactas, a Esma é um retrato sem rosto. As autoridades optaram por emascular o terror. Não sobraram vestígios das correntes enferrujadas dos tempos de calabouço, apenas plantas arquitetônicas e textos identificando cada setor e placas com testemunhos de sobreviventes.

As visitas, gratuitas, são guiadas por uma equipe de cinco monitores jovens, sem vivência direta do período. Sabrina Osowski, por exemplo, graduada em ciências políticas, passou dois anos entrevistando sobreviventes, lendo depoimentos e estudando obras do período. A um jovem americano que se surpreende com o fato de a Fifa ter realizado a Copa de 1978 na Argentina, em plena ditadura, ela informa que, na partida final, o grito dos torcedores no estádio do River podia ser ouvido pelos presos.

De fato, amoreiras, abacateiros, araucárias, umbuzeiros e roseiras espalhados pelos jardins da Esma revelam o paradoxo entre o esplendor da vida e a celebração da morte. Equivalente a dois terços do conjunto esportivo do Maracanã, a área voltou à municipalidade quatro anos atrás, no governo Néstor Kirchner. Estima-se que entre 15 mil e 20 mil pessoas passaram por centros desse tipo espalhados pela Argentina, dos quais a Esma era o maior.

Pouco de original se preservou no prédio de três andares, com porão e sótão. Mas como a memória dos sobreviventes não se apaga, uma visita adquire dimensão histórica na companhia de um deles. Seqüestrado em novembro de 1978, em Buenos Aires, Enrique Mario Fukman, o prisioneiro 252, era um estudante de engenharia de 22 anos que militava no grupo Montoneros. “Fui seqüestrado num sábado de sol, ao meio-dia”, ele conta. “De repente, no meio da rua, três homens se lançaram em cima de mim, me jogaram no chão, me algemaram e me puseram num carro.” Fukman ficou preso quinze meses. Hoje, aos 52 anos, trabalha como técnico em eletrônica.

Todo recém-seqüestrado iniciava seu calvário no porão da Esma. Passava pelas primeiras torturas numa das chamadas “oveiras”, as salas com isolamento acústico de caixas de ovo, originalmente destinadas à produção de vídeos de propaganda da Marinha: “No sábado em que fui levado, o rádio estava transmitindo os jogos de futebol do campeonato argentino”, relembra Fukman. “Quando o volume aumentava, era sinal de que alguém estava sendo torturado. Quando a imagem da televisão começava a tremer, significava que estavam aplicando choques elétricos.”

No mesmo porão de tom amarelado funcionava um centro de falsificação de documentos. Ali, diz Fukman, foi microfilmada a documentação sobre os opositores do regime: “Só os militares sabem onde está esse material.” Era lá também que ficava a enfermaria onde tantos presos receberam injeções anestésicas antes de serem postos em caminhões com destino ao Aeroparque e, em seguida, embarcados em aviões militares. Uma vez a bordo, recebiam doses mais fortes de anestesia e partiam para os “vôos da morte”, que os despejavam no rio da Prata ou no mar. Assim se fez a lista dos desaparecidos do regime.

Fukman conta que a escada que ligava o porão ao Clube dos Oficiais, no térreo, não existe mais. Foi retirada pouco antes de uma visita de inspeção da Comissão Interamericana de Direitos Humanos, em 1979. Alertados, os militares alteraram o prédio e removeram os prisioneiros para uma ilha no delta do rio Tigre. “Trabalhamos ali na lavoura até o término da visita. Depois fomos levados de volta à Esma”, lembra o ex-preso 252. “Em nenhum dos locais visitados a Comissão encontrou provas ou indícios de detidos”, concluiu o relatório final.

Nos dois primeiros andares, dormiam os oficiais. No terceiro, os seqüestrados, que passavam meses inteiros deitados, encapuzados e com correntes nas pernas, observados por um guarda armado. “Aqui havia uma divisória de madeira, um colchonete de espuma; ali, outra divisória e outro colchonete, e assim por diante”, narra Fukman, enquanto aponta o lugar que ocupava. “Não podíamos levantar nem tirar o capuz. Com o tempo ele se tornava o seu companheiro. Você e o capuz, 24 horas por dia.” Banho, só durante três minutos, na madrugada. Era quando os presos descobriam o rosto.

 

Fukman se lembra da vez em que foi levado ao Clube dos Oficiais: “Recebi ordem para sentar e tirar o capuz e as correntes. Um oficial me disse: ‘Olha, Cachito, por aqui passou muita gente e, às vezes, pode ter acontecido de pegarmos a pessoa errada, mas por que fazemos isso? Porque sempre precisamos pegar alguém, seja quem for.”

No mesmo andar, mais ao fundo, havia um depósito para eletrodomésticos, móveis e obras de arte roubados dos seqüestrados. E também o “aquário”, para onde eram deslocados presos que faziam tarefas burocráticas. “Todo dia os militares compravam jornais e revistas nacionais e internacionais”, conta Fukman, que trabalhou ali vários meses, “e tínhamos a incumbência de redigir um relatório.” Na saleta do capitão-de-fragata Ricardo Miguel Cavallo, responsável pelo setor, havia um quadro com a seguinte frase: Se um exército quer vencer um povo, precisa estar disposto a meter as mãos até na merda. Cavallo, há pouco julgado na Espanha por crimes contra a humanidade, foi extraditado para a Argentina no início de abril.

A visita se encerra no sótão, onde não havia luz natural. Fukman permaneceu ali durante três meses, junto com seis outros presos. Foi liberado em 1980, depois de ser considerado “recuperado” pelos militares. “Eu não entendi o significado da palavra”, disse. “E um oficial me avisou para eu não me meter mais em política e pediu que eu telefonasse a cada quinze dias.” Ele nunca telefonou.

Adriana Marcolini

Adriana Marcolini é jornalista e tradutora.

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