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    ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2011

esquina

Tiros no Dona Marta

Mas agora é de brincadeira

Ricardo Cabral | Edição 57, Junho 2011

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Agachada atrás de uma estante de metal enferrujada, Luiza Coimbra ouviu um rápido farfalhar de folhas secas. Segurou firme a pistola e virou a cabeça num estalo, mas deu com o matagal que tinha às costas absolutamente imóvel. Caía a tarde no morro Dona Marta, em Botafogo, no Rio. Apreensiva, Luiza ergueu o corpo apenas o suficiente para enxergar do outro lado do esconderijo: não havia ninguém.

Sentiu, então, um cano cutucar-lhe o ombro. “Perdeu, perdeu!”, ouviu. Luiza levantou as mãos, bem alto, gritou “Neutro!” e saiu do campo de terra batida a passos apertados.

Luiza, de 21 anos, jogava pela primeira vez uma partida de paintball. Junto com quase vinte amigos, alugara duas horas no primeiro campo do jogo no Dona Marta. Com um colete vermelho e uma máscara que lhe cobria toda a parte superior da cabeça, não recebera um tiro do amigo porque, de muito perto, o projétil de tinta a machucaria demais.

A favela Dona Marta foi a primeira a receber, em 2008, uma Unidade de Polícia Pacificadora, a UPP, símbolo da volta do Estado a zonas dominadas por traficantes de drogas. A ideia de inaugurar um paintball no morro, depois de mais de meio século de troca de tiros reais entre bandidos e policiais, veio de um homem magro, baixo, de cabelos ralos e raspados que gesticula energicamente enquanto fala. André Luiz do Nascimento não aparenta os seus 42 anos. Mora há mais de duas décadas na favela e, durante todo esse tempo, trabalhou como motorista de van. Percebeu que muitos dos jovens de classe média que lhe contratavam o serviço nos finais de semana iam para campos de paintball, sempre na Zona Oeste ou na Baixada Fluminense.

No ano passado, Nascimento tirou suas economias do banco e chamou o amigo Gilson de Oliveira para a empreitada de criar o primeiro campo de paintball numa favela. Pizzaiolo, Oliveira vinha de ser demitido e recebera uma bolada do Fundo de Garantia. Juntas, as duas poupanças somavam mais de 15 mil reais.

Em outubro, Nascimento foi ao gabinete da major Priscilla Azevedo, à época comandante da UPP do morro. “O que a senhora acha de paintball, comandante?”, perguntou-lhe. A policial não sabia. Ele explicou o que era e no fim disse que, com a pacificação, tudo o que está na cidade tem que existir também no morro.

“Depois de anos de tiroteio, você quer colocar a comunidade para brincar de atirar?”, indagou, incrédula, a major. Priscilla Azevedo ficou de consultar o seu superior hierárquico, um coronel, e disse para Nascimento que voltasse outro dia. Durante três meses e meio, ele foi semanalmente ao gabinete da major, que nunca tinha uma resposta do coronel. Afinal, o oficial consentiu, mas com uma condição: o paintball teria de ser perfeitamente legalizado.

No paintball, duas equipes se combatem trocando tiros com balas de tinta. Há mais de 15 milhões de jogadores em todo o mundo. No Rio, o jogo é fiscalizado pela Federação de Paintball, que tem 432 membros nas seguintes modalidades: real action, com campos na mata e simulações de campanas; speed, com obstáculos infláveis e coloridos; e cenário, temático, como é o caso de Nascimento, que reproduz o que chama de “favelinha”.

 

Uma vez conseguida a autorização policial e o alvará de funcionamento, montar o campo não foi difícil. O ex-motorista e o ex-pizzaiolo partiram então à cata de materiais, principalmente entulho, para criar os obstáculos e esconderijos. O empreendimento funciona nos fins de semana, no alto do morro, numa pequena quadra de futebol e seu entorno. Quem quiser jogar tem de subir uma pequena ladeira e uma escadaria de 200 degraus. Entre janelas velhas, compensados de madeira, estrados de cama, pilhas de pneus, uma geladeira quebrada e a réplica de um pequeno barraco, os jogadores correm, saltam, derrapam e se atiram no terreno acidentado.

As pistolas de brinquedo, que são chamadas de marcadores, recebem um cilindro de ar comprimido e um carregador, o compartimento onde ficam as bolinhas de tinta colorida. Cada conjunto sai por quase 1 mil reais. Como eles mimetizam fuzis e pistolas, a Federação determina que devam andar sempre desmontados. No Dona Marta, André Nascimento é o único autorizado pela polícia a andar com os marcadores pela favela.

A partida em geral é travada entre dois times com quatro a seis jogadores em cada lado. Quando alguém leva um tiro, perde – levanta as mãos e grita “Neutro!” para sinalizar a saída, como fez Luiza depois de ser encurralada pelo amigo. No dia em que ela e os colegas jogaram, a maioria pisando numa favela pela primeira vez, o grupo deu um gritinho abafado quando ouviu o estrondo do primeiro tiro disparado por Nascimento, que lhes ensinava a manipular o marcador.

Começado o jogo, era frequente que alguém cruzasse o campo em disparada bradando “Olha o Bope!” e destilando bolinhas de tinta para todos os lados. Devido a um problema na fonte de ar comprimido, o jogo teve de ser interrompido aos quarenta minutos. Pego de surpresa, Nascimento pediu desculpas e ofereceu uma compensação para o grupo, em outro final de semana. Ninguém reclamou. Luiza, que tinha recarregado três vezes, pagou 39 reais – 15 pelo aluguel do marcador, com cinquenta bolinhas, e 8 reais por recarga. No mercado, o preço é considerado baixo. E, para quem mora na favela, as tarifas caem quase pela metade.

“Eu popularizei o paintball no Rio”, disse André Nascimento. Ele contou que, no começo, os donos dos outros campos ligavam frequentemente para reclamar que ele estava puxando o preço para baixo. Mas ele manteve os valores. E recuperou 80% do investimento em apenas quatro meses. “Imagina quem cobra o dobro”, alfinetou.