esquina

Todo mês ele faz tudo sempre igual

A extraordinária capacidade de amar papéis

João Moreira Salles
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2007

Segunda-feira. Pendura o paletó. Pega a pasta amarela em cima da mesa. Verifica se os porteiros, o vigia e o faxineiro assinaram o documento. Certifica-se de que o pagamento foi feito. Dá-se por satisfeito.

Terça-feira. Pendura o paletó. Abre a pasta vermelha. Perscruta o documento que comprova o pagamento dos serviços prestados pela empresa de manutenção do elevador. O carimbo está lá. Continua satisfeito.

Quarta-feira. Afrouxa a gravata. Abre a gaveta. Corre o dedo pelas pastas. Ao encontrar a divisória correta, arquiva o comprovante da última dedetização. Está satisfeitíssimo.

Maçante? Possível materialização da chatice propriamente infernal? Não para Jayme Duarte, 83 anos, síndico há quase 38 do edifício Conde dos Arcos, um prédio comercial de doze andares no centro do Rio de Janeiro.

“Põe aí, Patrícia” – Patrícia é a secretária dele: “Prezados condôminos, venho por meio desta solicitar-lhes que não joguem objetos, sobretudo pontas de cigarro, pela janela de suas senhorias. Essa atitude põe em risco quem passa na calçada e quem está no prédio, pois pode provocar queimaduras e iniciar incêndios. Atenciosamente, o Síndico”. Documento impresso, ele relê o texto, aprova, assina embaixo e pede que o comunicado seja afixado no quadro de avisos. Providência urgentíssima, tomada com a celeridade com que um mocinho saca o revólver tão logo percebe a aproximação do bandido. No caso, da bandida: uma guimba incandescente que entrou pela janela do inquilino do 402, ameaçando a integridade física não só do condômino, mas do próprio prédio. “Isso não pode acontecer”, admoesta o síndico, com ar de pouquíssimos amigos.

Tal presteza e capacidade de ação explicam a longevidade de Jayme Duarte à frente do prédio que administra há quase quatro décadas. Num edifício de cem salas, foi sucessivamente reeleito para o cargo sem jamais ter recebido um só voto contra. Nem os Rolling Stones são tão longevos. Nem os Beatles são tão unânimes.

 

Dono de sobrancelhas espessas, cabelos meticulosamente escovados para trás e um andar ligeiramente manco, o gaúcho Duarte ensina os segredos mais recônditos do seu sucesso avassalador. Honestidade certamente é importante. Dedicação, idem. Mas nada disso seria suficiente se ele não guardasse na alma uma extraordinária capacidade de encontrar brilho e luz onde o resto dos mortais só percebe a monotonia cinzenta da vida. Haveria, em todo síndico exitoso, um amor incondicional aos contratos celebrados com empresas de manutenção de elevadores, às conversas pormenorizadas com exterminadores de ratos, à leitura massacrante de atas de reunião e, acima de tudo, à selva de siglas e acrônimos que assola o país: dia após dia, renova-se no verdadeiro síndico o encanto pelos mistérios do FGTS, do INSS, do PIS, do PASEP, do IRRF sobre o décimo terceiro, das variadas taxas condominiais e das atas de reunião.

Essa resiliência, que Duarte possui em quantidade formidável, transformou-o – pelo menos segundo o próprio – no síndico de mais longa gestão ininterrupta da história mundial. Não duvida que conseguirá provar o feito perante os auditores do Guinness. Já começou a organizar os documentos comprobatórios, e está à cata de alguém que fale inglês para ajudá-lo na tramitação. É com orgulho que mostra a papelada: “Essa aqui é a ata da primeira reunião de condôminos do prédio. É de 2 de abril de 1967, dia em que fui eleito membro da comissão fiscal do edifício. Já essa outra é da assembléia de 30 de novembro de 1969, quando ganhei meu primeiro mandato, sob uma salva de palmas dos presentes. As outras 37 atas que comprovam a minha reeleição estão aqui dentro também. Um minutinho e já lhe mostro”, diz o síndico, a caminho do armário. Seu interlocutor luta para engolir os bocejos.

Arquivados em pastas empilhadas e etiquetadas, descansam comprovantes de toda a movimentação bancária do prédio nos últimos quarenta anos, balancetes apresentados em todas as assembléias realizadas até hoje, cópias das cobranças de pagamento emitidas a todas as unidades condominiais em débito, recibos de todas as tarefas executadas durante a construção do edifício e comprovantes de pagamento de salário e encargos de todos os funcionários do Conde dos Arcos. Tudo será demonstrado ao Guinness.

Às 2 da tarde da primeira sexta-feira de agosto, Jayme Duarte veste o paletó azul escuro – no inverno, prefere cores escuras; no verão, adota ternos de linho branco –, recolhe a pilha de boletos de cobrança, esforça-se por domar no centro da barriga a fivela rebelde do cinto (com seu nome gravado no metal) e bate a porta da sala 1205, de onde controla com olhos de lince os acontecimentos do seu prédio de doze andares. Pela segunda vez em dois dias, toma o caminho do banco. A agência 3032 do Itaú não passa de um apêndice do seu escritório. Duarte entra e diz olá aos seguranças e funcionários. Quanto aos gerentes, foram inúmeros os que passaram por ele desde 1970, quando abriu a conta do condomínio Conde dos Arcos no Banco do Estado do Paraná, mais tarde comprado pelo Itaú. De alguns, gostou. De outros, nem tanto.

 

Há exatos 455 meses, ou, para facilitar a conta, 37 anos e onze meses, a rotina de Duarte segue esses mesmíssimos passos. Na boca do caixa, ele se livra dos clipes e apresenta o maço de boletos. Espera pacientemente até a última autenticação mecânica ou o último carimbo que sacramentam o pagamento da mensalidade de manutenção dos extintores do Conde, da empresa de manutenção dos elevadores, da bomba de água, da conta do telefone que funciona na portaria, dos encargos sociais dos funcionários, da fatura da empresa que fornece material de limpeza e da solicitação de compra de vale-transporte. Finda a maçante saga, Duarte solicita que o caixa transfira para sua conta pessoal 1 900 reais. Desde 1969, quando de sua aclamação como síndico, ele ganha precisos cinco salários mínimos. Não reclama. Acha justo.

Igualmente justo, a seu ver, é o fato de jamais ter tirado férias. Nem um só dia. “O meu subsíndico, o Odilon Andrade, nunca precisou exercer a função no meu lugar”, proclama. Duarte também não se arrepende de haver recusado o convite de uma de suas amantes (ele tem duas) para ir à Europa em julho, com tudo pago.

João Moreira Salles

Documentarista, é editor fundador da piauí. Dirigiu Santiago, Entreatos e Nelson Freire, entre outros

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