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Touchdown em Belém

A arrancada improvável do Titans Futebol Americano

Vladimir Cunha
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL

A Associação de Desportos Recreativa Bancrévea, conceituado clube da Belém antiga, já conheceu dias melhores. Fundado em 1891, serviu de sede para os primeiros campeonatos de futsal da cidade e abrilhantou os garbosos concursos de miss realizados no Pará. Hoje o clube sobrevive do aluguel de seu salão de festas, de pequenos eventos e das mensalidades de seus associados, que o frequentam cada vez menos.

Num domingão recente do chamado “verão paraense”, que todo mês de junho embrulha a cidade num bafo de calor e umidade, 32 aspirantes a jogador de futebol americano se esfolavam no campo do Bancrévea, cedido pela diretoria para a ocasião. Eram participantes do primeiro try out (recrutamento) da história do heroico time Titans Futebol Americano, único espécime desse esporte a vingar no Pará.

Quem comandava a triagem de novos atletas era o ex-fuzileiro naval americano Cliff Parker, que fixou residência em Belém na década de 90, após dar baixa do serviço militar. Professor de inglês de ascendência brasileira, Parker descobriu a existência do Titans no ano passado, voltou a praticar o esporte da adolescência e não tardou a tornar-se técnico do time.

Com os aspirantes a atleta enfileirados à sua frente, Parker submeteu-os a várias preleções antes de aplicar testes de força, agilidade e velocidade. A maioria tinha dificuldade em executar corretamente os movimentos do teste, que exigem um porte físico mais avantajado do que o paraense médio, que tem 1,66 metro de altura. Ainda assim, trinta foram aprovados: os mais rápidos e ágeis, para as posições de wide receiver e full-back; os mais fortes e altos, para o cobiçado posto de quarterback, estrela maior deste esporte jogado com uma bola ovalada de couro, no qual tão importante quanto marcar pontos é tentar ganhar território.



O auxiliar de administração Hugo Magalhães, um dos organizadores do try out, a tudo assistia de perto. Ninguém ali o chamava pelo nome, apenas de “presidente”, cargo que ocupa desde a fundação do time, três anos atrás. Estava otimista. Embora boa parte dos candidatos fosse de estatura baixa e não apresentasse forma propriamente olímpica, estava conseguindo completar o plantel para formar três times – embora apenas onze jogadores entrem em campo, o futebol americano exige ter duas vezes mais no banco, já que a troca de jogadores em cada partida costuma ser grande.

“O futebol americano é um esporte democrático, pois cada posição pode ser ocupada por um tipo físico diferente. Não é preciso ser alto nem grandalhão”, acredita o presidente.

Sentado num banco e suando bastante, o ex-capoeirista Carlos Gomes tentava se recuperar do ritmo pesado do teste. Quarentão de 1,70 metro e 135 quilos, Gomes é figura conhecida em Belém desde seus tempos de motorista de ônibus, quando costumava comemorar a caráter certas datas festivas. No Dia do Índio dirigia de índio, no Dia da Mulher circulava de vestido e peruca, no Natal fazia manobras fantasiado de Papai Noel. Na manhã do try out, estava de atleta: short, tênis e camiseta.

Sua afeição pelo football nasceu de uma temporada pós-cirúrgica. Da cama, assistiu a um filme que garante ter mudado sua vida: Desafiando Gigantes, uma produção gospel que narra a história de um treinador de futebol americano que vence um campeonato escolar com a ajuda do Senhor. Decidiu que, tão logo recebesse alta, se dedicaria ao esporte. Aprendeu rudimentos e regras acompanhando as rodadas do campeonato americano (NFL) pelo YouTube e através dos canais esportivos a cabo. Aplaudiu touchdowns épicos, habituou-se a contar em jardas, pés e polegadas, e decidiu que tentaria uma vaga no único time do seu estado.

Sonho por enquanto adiado, pois foi um dos dois reprovados no teste. Também ainda não concretizada é a meta do Titans de um dia ter sede própria. Por enquanto, boa parte das reuniões do time acontece num restaurante mexicano de Belém. Mas a realização deste primeiro try out oficial, com regras definidas, pode ser considerada altamente animadora. Seus rivais mais próximos são o Amazon Black Hawks, o Manaus Cavaliers ou o Ajuricaba Warriors. Uma partida contra o Cangaceiros, de Fortaleza, só não se realizou ainda por falta de verba para o deslocamento do Titans.

“Rapaz, esse pessoal é doido, né?”, comentou ao término do teste um dos garçons do bar do Bancrévea, encostado no alambrado da piscina. “Não sei se esse negócio pega aqui em Belém, não.” Por enquanto, o que mais pega em Belém ainda é o futebol de chuteira. Mais especificamente, a luta para fazer com que os dois principais times da cidade, o Remo e o Paysandu, se mantenham na série C do Brasileirão.

Vladimir Cunha

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